A República de Salé, também conhecida como República do Bu Regregue, foi uma cidade-estado marítima independente entre 1627 e 1668 situada na foz do rio Bu Regregue, no que são atualmente as cidades de Rabate e Salé, no noroeste de Marrocos. O estado era governado por piratas e corsários, pelo que outro nome pelo qual é conhecida é República dos Piratas do Bu Regregue.
Na origem da república esteve a chegada a Salé de um grande número de mouriscos expulsos de Espanha por ordem de , que estabeleceram na margem sul do rio uma comunidade de piratas, aproveitando as defesas naturais oferecidas pelo estuário do Bu Regregue, nomeadamente os baixios à entrada do porto. A comunidade prosperou fruto sobretudo de ataques navais e de raides, em muitas ocasiões levados a cabo nas costas de Portugal e Espanha, mas que muitas vezes se estenderam a outras regiões, chegando em alguns casos a locais tão distantes como a Cornualha ou até mesmo a Islândia e a América do Norte. No Reino Unido, os piratas de Salé ficaram conhecidos como Sale Rovers, Sallee Rovers ou ainda Sally Rovers, o que é testemunhado, por exemplo, nas aventuras de Robinson Crusoe, que foi cativo de piratas de Salé.
A república era constituída por três núcleos urbanos, cada um dominado por uma comunidade diferente: Salé, na margem norte do rio e dominada pela comunidade muçulmana autóctone, Rabate, e na margem sul, dominada pelos mouriscos andalusinos, e a fortaleza da Casbá dominada pelos hornacheros e onde se situava o divã. Ao longo da sua curta existência, o pequeno estado foi alvo de inúmeros conflitos e lutas de poder internas, motivados sobretudo pelo atrito e desconfiança mútua entre as três comunidades. Embora existisse um domínio claro dos hornacheros na gestão política da república, as comunidades mantinham um relativo grau de autonomia entre si, assinalado pelo facto de por vezes o pequeno estado ser referido como as Três Repúblicas do Bu Regregue. A área das pequenas repúblicas era e estima-se que a população fosse de aproximadamente 20 mil pessoas (13 mil na margem esquerda, a sul, e sete mil na margem direita, a norte).
História
thumb|Território onde se viria a implantar a República de Salé, conforme levantamento de 1572 publicado no atlas Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun. No lado esquerdo da gravura e que corresponde à margem norte do rio, encontra-se a cidade de Salé. Na margem sul vê-se em primeiro plano a Casbá, cercada pelas muralhas de Rabate, também chamada Nova Salé, mandadas edificar no por Iacube Almançor
O termo genérico "República do Bu Regregue" designa usualmente um conjunto de territórios que incluem não apenas Salé ("Salé a Velha") na margem norte do Bu Regregue, mas também a Casbá e Rabate ("Salé a Nova") na margem sul. Estas duas últimas cidadelas só se desenvolveram significativamente durante o início do com a chegada de refugiados mouriscos provenientes de Hornachos (hornacheros), na Estremadura espanhola e, depois de 1610, com a chegada de mouriscos expulsos da Andaluzia. O termo "Salé" servia então para designar o conjunto formado pelas três cidadelas e era reconhecido pelas nações europeias como entidade política autónoma. Na almedina da atual Rabate ainda se encontra hoje a "Rua dos Cônsules", onde residiam os representantes diplomáticos ocidentais.
O território até à Idade Moderna
Na margem sul do Bu Regregue existiu uma colónia fenícia. Séculos mais tarde, os romanos fundaram a cidade de Sala Colonia, mencionada por Ptolemeu como Sala, no local onde atualmente se encontra a estação arqueológica de Chellah, nos subúrbios de Rabate. Depois da queda do Império Romano do Ocidente, a cidade foi tomada por tribos nativas berberes.
Califado Almóada O povoado encontrava-se já em grande decadência quando o líder almóada Abde Almumine mandou construir na mesma margem, mais perto da foz, uma arrábita (ribat; fortaleza) — a Casbá dos Udaias, então chamado Rabate de Salé e posteriormente Rabat el-Fatá ("Campo ou Cidadela da Vitória"). O neto de Almumine, Iacube Almançor quis fazer do local em volta da cidadela uma grande cidade como "prova do seu poder e da sua fé". Para tal mandou erguer extensas muralhas que rodeavam uma grande área, cujo canto noroeste era ocupado pela antiga casbá. No interior das muralhas mandou construir a grande Mesquita Haçane, que pretendia que fosse a maior do mundo. O futuro não correspondeu às expetativas de Almançor — da grande mesquita só foi terminado o imponente minarete, a atual Torre Haçane — e o local pouco se desenvolveu para além de um acampamento militar onde ocasionalmente se concentravam tropas reunidas à guerra santa (jiade), ficando o interior das muralhas praticamente vazio.
Merínidas esquerda|thumb|A Bab el Mrisa (Porta do Portinho), atualmente também chamada Porta da Mellah (Porta da Judiaria), em Salé a Velha
Ao contrário de Rabate na margem sul, Salé prosperou sob os merínidas, a dinastia reinante em Marrocos entre os séculos XIII e XV. Segundo o militar e historiador espanhol do Luis del Mármol Carvajal , desde o que era o porto mais opulento do Reino de Fez, onde acorriam mercadores das repúblicas marítimas italianas para vender tecidos e bens manufaturados e a comprar lã, peles, tecidos, tapetes, marfim, além de mel e cera de Mequinez. A grande prosperidade de Salé provocou a cobiça e levou a que a posse da cidade fosse disputada entre cristãos e muçulmanos. Em 1260, após um cerco de 14 dias, a cidade foi tomada e saqueada por forças castelhanas, que raptaram as mulheres. Após a retirada dos castelhanos, o sultão merínida Abu Iúçufe dirigiu pessoalmente os trabalhos de reconstrução da muralha para fechar a brecha por onde os espanhóis entraram na cidade. Mandou também construir um arsenal ao qual se acedia pela porta monumental da parte oriental da muralha, a Bab el Mrisa (Porta do Portinho), que atualmente também é conhecida como Porta da Mellah (Porta da Judiaria). A Babel Mrisa foi um símbolo da guerra santa merínida. Da cidade profanada partiram vários navios que lançaram ataques às costas espanholas como represália do saque de 1260. Ibne Caldune relata que em 1279, Abu Iacube Iúçufe Anácer, filho de Abu Iúçufe, reuniu uma frota para atacar Algeciras, para a qual Salé, juntamente com Anfa, contribuiu com 15 navios. Em 1285, navios de Rabate e Salé integraram outra expedição com 36 navios.
As relações comerciais com a Europa estavam limitadas pela situação do porto, muito afastado a sul das principais rotas comerciais da época, só se vindo a intensificar a partir do . O comércio legal não impedia, contudo, que a atividade do corso continuasse — segundo Mármol Carvajal: «Salé continua a equipar fustas para assaltar as costas cristãs […] mas essas fustas voltam para passarem o inverno no porto cuja entrada é bastante difícil.» Em todo o caso, até ao início do Salé não era considerada excepcionalmente perigosa. O padre trinitário Pierre Dan relata que a cidade tinha «alguns barcos pequenos» envolvidos no corso, que eram «tão insignificantes que nem valia a pena falar disso». No entanto, as costas marroquinas eram já frequentadas por piratas de diversas nacionalidades. El-Mamora (atualmente Mehdia), na foz do Cebu, 20 milhas a norte de Salé, era um reduto de piratas particularmente ativo onde havia mais cristãos que muçulmanos.
Segundo as tradições locais, antigamente o mar chegava ao interior de Salé. Embora não haja dúvidas de que na Idade Média a topografia do porto de Salé era consideravelmente diferente do que é hoje e que as características da Bab el Mrisa apontem para que fosse uma "porta marítima" e não uma porta terrestre, dificilmente o mar ou o rio chegavam às muralhas. Em vez disso, supõe-se que teria existido um canal até ao arsenal construído no . O assoreamento natural da foz afastou o leito do rio da cidade, a ponto de permitir que no tivesse sido instalada a mellah no local do antigo arsenal.
Final do -1627: A imigração mourisca thumb|Expulsão dos mouriscos no porto de Dénia, após a publicação em Abril de 1609 do decreto de , que forçou o êxodo da população mourisca da Península Ibérica para o norte de África
No início do , Salé, na margem norte, era habitada sobretudo por muçulmanos muito devotos, dum fanatismo intransigente e hostis perante os cristãos. Embora vivesse num estado de independência relativa em relação ao sultão e o comércio fosse próspero, a cidade estava submetida à influência de marabutos (místicos e/ou líderes religiosos). Germain Moüette relata que «é nesse lugar que estão os mais ricos mercadores judeus e mouros».
Por sua vez, a cidade fundada por Iacube Almançor na margem esquerda estava, segundo o padre Dan, «em estado lastimoso, muito pouco povoada por árabes e mouros». No interior das muralhas pouco mais havia do que hortas, pomares e campos de trigo «onde se podia semear cereal para alimentar quinze centenas de pessoas». O grande ribat de Abde Almumine, «tão grande como uma pequena cidade», albergava uma pequena guarnição xerifiana e um "governador" sem autoridade nem prestígio, pois era o marabuto saletino Cide Maomé Alaiaxi, que «fazia brilhar a sua feliz estrela no céu saletino» e exercia uma influência preponderante em toda a região, geralmente oposta ao poder do sultão.
Após a morte de Mulei Almançor em 1603, o Sultanato Sádida caiu num estado de anarquia e guerra civil, principalmente entre os os dois filhos de Almançor, Abu Faris Abedalá e Mei Zidane, mas em que também intervieram grandes senhores da guerra e líderes religiosos, entre eles, Alaiaxi e Ibne Abi Maali.
Hornacheros e Andaluzes
Os primeiros mouriscos a instalarem-se na região, os hornacheros, chegaram ainda no , durante o reinado de Abedal Maleque . Este sultão sádida, que nas palavras do padre Pierre Dan acolhia os cristãos nas suas terras «com uma maravilhosa benignidade», «tendo-se apiedado desses miseráveis, fosse por causa da religião maometana fosse porque acreditava que eram úteis no seu reino, para com eles aprender as artes e ofícios, autorizou-os a que se acostumassem em Salé com as mesmas graças e privilégios que costumavam desfrutar os naturais do país.»
esquerda|thumb|A almedina de Rabate e a Casbá dos Udaias (à direita), vista desde Salé a Nova; em primeiro plano: foz do Bu Regregue; o minarete à esquerda é a Torre Haçane, construída pelo Califado Almóada no
Os recém-chegados instalaram-se na margem esquerda do Bu Regregue, no antigo ribat de Abde Almumine, em redor da casbá que ainda existia. Esperavam encontrar-se aí mais seguros, no interior das muralhas do antigo campo militar, do que entre os eruditos religiosos e os burgueses pacíficos de Salé. Repararam as casas menos arruinadas onde se instalaram com as suas famílias. Empreenderam também o restauro das muralhas, reparando-as e dotando-as de frestas para canhões. Segundo outras fontes, as obras nas muralhas só foram levadas a cabo em 1608, por ordem do sultão Mulei Zidane, que organizou os hornacheros em milícias, e formou com eles uma guarnição na casbá, sob a autoridade simbólica dum caide (governador) xerifiano. Para o historiador marroquino Alcadiri , a organização de milícias não passou dum plano dos sultões, que pensaram usá-las contra os dissidentes que se opunham.
Tendo em vista reforçar a sua presença e poder, e de «ter gentes nas quais eles pudessem confiar», em 1610 os hornacheros fazem vir para junto de si milhares de outros mouriscos andaluzes vítimas dos decretos de expulsão, que se instalam nas vizinhanças da casbá e do bairro então escassamente habitado na margem sul do rio, onde se encontra atualmente a almedina de Rabate.