miniaturadaimagem|O revolucionário HMS Dreadnought da Marinha Real Britânica, lançado em 1906, deu nome a esse tipo de navio miniaturadaimagem|O USS Texas, o único dreadnought ainda existente, foi lançado em 1912 e hoje é um navio-museu O dreadnought foi o tipo predominante de couraçado no início do século XX. O primeiro de seu gênero, o HMS Dreadnought da Marinha Real Britânica, causou tamanho impacto quando foi lançado em 1906 que os navios de guerra semelhantes construídos depois dele passaram a ser chamados de dreadnoughts, enquanto os couraçados anteriores ficaram conhecidos como pré-dreadnoughts. Seu projeto apresentava duas características revolucionárias: um esquema de armamento monocalibre (do inglês all-big-gun) com um número sem precedentes de peças pesadas, e a propulsão por turbinas a vapor. À medida que os dreadnoughts se tornaram um símbolo crucial do poder nacional, a chegada desses novos navios de guerra renovou a corrida armamentista naval entre o Reino Unido e a Alemanha. Corridas armamentistas navais envolvendo embarcações do tipo dreadnought surgiram em várias partes do mundo, inclusive na América do Sul, e duraram até o início da Primeira Guerra Mundial. Os projetos sucessivos cresceram rapidamente em tamanho e incorporaram melhorias no armamento, na blindagem e na propulsão ao longo da era dos dreadnoughts. Em apenas cinco anos, novos couraçados já superavam o próprio Dreadnought. Esses navios mais poderosos ficaram conhecidos como superdreadnoughts. A maioria dos dreadnoughts originais foi desmontada após o fim da Primeira Guerra Mundial, conforme os termos do Tratado Naval de Washington, mas muitos dos superdreadnoughts mais novos continuaram em serviço durante toda a Segunda Guerra Mundial.
A construção de dreadnoughts consumiu recursos imensos no início do século XX, mas houve apenas uma grande batalha entre frotas compostas por esses navios. Na Batalha da Jutlândia, em 1916, as marinhas britânica e alemã se enfrentaram sem um resultado decisivo. O termo dreadnought caiu gradualmente em desuso após a Primeira Guerra Mundial, especialmente depois do Tratado Naval de Washington, já que praticamente todos os couraçados remanescentes compartilhavam as características desse tipo; o termo também pode ser usado para descrever os cruzadores de batalha, o outro tipo de navio surgido da revolução dreadnought.
Origem O característico armamento monocalibre dos dreadnoughts foi desenvolvido nos primeiros anos do século XX, à medida que as marinhas buscavam aumentar o alcance e o poder de fogo dos courados. O couraçado típico da década de 1890, hoje conhecido como “pré-dreadnought”, possuía como armamento principal quatro canhões pesados de 12 polegadas (300 mm), um armamento secundário de seis a dezoito canhões de tiro rápido entre 4,7 e 7,5 polegadas (119 a 191 mm), além de outras armas menores. Isso estava de acordo com a teoria predominante do combate naval, segundo a qual as batalhas começariam a certa distância, mas os navios se aproximariam para o confronto decisivo a curta distância (como ocorreu na Batalha da Baía de Manila), quando os canhões de menor alcance e maior cadência de tiro se mostrariam mais úteis. Alguns projetos incluíam ainda uma bateria intermediária de canhões de 8 polegadas (203 mm). Propostas sérias para um armamento composto apenas por canhões pesados circularam em vários países já em 1903.
Os projetos de armamentos monocalibres começaram quase simultaneamente em três marinhas. Em 1904, a Marinha Imperial Japonesa autorizou a construção do Satsuma, originalmente projetado com doze canhões de 12 polegadas (305 mm). Os trabalhos de construção tiveram início em maio de 1905. A Marinha Real Britânica iniciou o projeto do HMS Dreadnought em janeiro de 1905, e ele teve sua quilha batida em outubro do mesmo ano. Por fim, a Marinha dos Estados Unidos obteve autorização para o USS Michigan, armado com oito canhões de 12 polegadas, em março de 1905, com a construção começando em dezembro de 1906.
A adoção de projetos com apenas canhões de grande calibre ocorreu porque um armamento uniforme e pesado oferecia vantagens tanto em poder de fogo quanto em controle de tiro, e a Guerra Russo-Japonesa de 1904–1905 demonstrou que as futuras batalhas navais poderiam, e provavelmente seriam, travadas a longas distâncias. Os mais novos canhões de 12 polegadas (305 mm) tinham maior alcance e disparavam projéteis mais pesados do que os de 10 ou 9,2 polegadas (254 ou 234 mm). Outra possível vantagem era o controle de tiro: a grandes distâncias, os canhões eram ajustados observando-se os respingos causados pelos disparos em salva, e era difícil interpretar impactos produzidos por calibres diferentes. Ainda há debate sobre o quanto esse fator foi realmente importante.
Artilharia a longa distância Nas batalhas navais da década de 1890, a arma decisiva era o canhão de calibre médio, tipicamente de 6 polegadas (152 mm), de tiro rápido e empregado em distâncias relativamente curtas; na Batalha do Rio Yalu em 1894, os japoneses vitoriosos não abriram fogo até que a distância tivesse diminuído para 4 300 jardas (3 900 m), e a maior parte do combate ocorreu a 2 200 jardas (2 mil m). Nessas distâncias, os canhões mais leves apresentavam boa precisão, e sua alta cadência de tiro proporcionava grande volume de projéteis sobre o alvo, fenômeno conhecido como “chuva de fogo”. A artilharia naval ainda era imprecisa demais para atingir alvos a distâncias maiores.
No início do século XX, almirantes britânicos e norte-americanos passaram a esperar que os futuros couraçados se engajassem em combate a distâncias mais longas. Novos modelos de torpedos possuíam alcances superiores; por exemplo, em 1903 a Marinha dos Estados Unidos encomendou o projeto de um torpedo eficaz até 4 mil jardas (3 700 m). Tanto os almirantes britânicos quanto os norte-americanos concluíram que precisavam enfrentar o inimigo a maiores distâncias. Em 1900, o almirante John Fisher, no comando da Esquadra do Mediterrâneo da Marinha Real, ordenou exercícios de tiro com canhões de 6 polegadas a 6 mil jardas (5 500 m). Em 1904, o Naval War College dos Estados Unidos já considerava os efeitos, nas táticas de couraçados, dos torpedos com alcance variando de 7 mil a 8 mil jardas (6 400 a 7 300 m).
O alcance dos canhões leves e de calibre médio era limitado, e a precisão deteriorava significativamente a longas distâncias. Nessas condições, a vantagem de uma cadência de tiro elevada diminuía: a pontaria dependia da observação dos esguichos provocados pelos impactos das salvas anteriores, o que impunha um limite à cadência ideal de disparo.
Em 10 de agosto de 1904, a Marinha Imperial Russa e a Marinha Imperial Japonesa travaram um dos duelos de artilharia de maior alcance até então, mais de 14 mil jardas (13 mil m), durante a Batalha do Mar Amarelo. Os couraçados russos estavam equipados com telêmetros Lugeol, com alcance efetivo de 4 400 jardas (4 mil m), enquanto os navios japoneses dispunham de telêmetros Barr & Stroud, com alcance de até 6 600 jardas (6 mil m). Ainda assim, ambas as frotas conseguiram atingir-se mutuamente com disparos de canhões de 12 polegadas (305 mm) a uma distância de 14 mil jardas. O feito chamou a atenção de engenheiros navais e estrategistas em todo o mundo.
Navios monocalibre de armamento misto miniaturadaimagem|HMS Agamemnon, um navio de conceito monocalibre com armamento de calibres mistos da classe Lord Nelson. Ele transportava quatro canhões de 12 polegadas (305 mm) e dez de 9,2 polegadas (234 mm) Um passo evolutivo consistiu em reduzir a bateria secundária de tiro rápido e substituí-la por canhões pesados adicionais, geralmente de 9,2 a 10 polegadas (234 a 254 mm). Navios concebidos dessa forma passaram a ser descritos como de conceito monocalibre com armamento de calibres mistos ou, posteriormente, como semidreadnoughts. Os semidreadnoughts possuíam várias peças secundárias pesadas montadas em torres laterais (wing turrets) próximas ao centro do navio, em vez dos canhões menores instalados em barbetas nos pré-dreadnoughts anteriores.
Entre as classes de semidreadnoughts estavam as britânicas King Edward VII e Lord Nelson; as japonesas Katori, Satsuma e Kawachi; a francesa Danton; e a austro-húngara classe Radetzky.
O processo de projeto desses navios frequentemente incluía a discussão de uma alternativa monocalibre de calibre único. A edição de junho de 1902 da revista Proceedings do US Naval Institute trouxe comentários do principal especialista em artilharia da Marinha dos Estados Unidos, P. R. Alger, propondo uma bateria principal composta por oito canhões de 12 polegadas (305 mm) em torres duplas. Em maio de 1902, o Bureau of Construction and Repair apresentou um projeto de couraçado equipado com doze canhões de 10 polegadas (254 mm) em torres duplas, duas nas extremidades e quatro nas laterais. Em dezembro do mesmo ano, o tenente-comandante Homer C. Poundstone submeteu ao presidente Theodore Roosevelt um relatório defendendo a adoção de couraçados de maiores dimensões. Em um apêndice a esse relatório, Poundstone argumentou que um número maior de canhões de 11 e 9 polegadas (279 e 229 mm) seria preferível a uma quantidade menor de canhões de 12 e 9 polegadas (305 e 229 mm). O Naval War College e o Bureau of Construction and Repair desenvolveram essas ideias em estudos realizados entre 1903 e 1905. Simulações de guerra iniciadas em julho de 1903 “mostraram que um couraçado armado com doze canhões de 11 ou 12 polegadas (279 ou 305 mm), dispostos em configuração hexagonal, seria equivalente a três ou mais navios do tipo convencional”.
A Marinha Real Britânica pensava em termos semelhantes. Entre 1902 e 1903, foi elaborado um projeto para “um poderoso armamento de grande calibre em dois calibres distintos, a saber: quatro canhões de 12 polegadas (305 mm) e doze de 9,2 polegadas (234 mm)”. O Almirantado, no entanto, decidiu construir mais três unidades da classe King Edward VII (combinando canhões de 12, 9,2 e 6 polegadas) no programa naval de 1903–1904. O conceito de “todo armamento pesado” foi retomado no programa de 1904–1905, que originou a classe Lord Nelson. Restrições de comprimento e boca (largura máxima do casco) obrigaram a converter as torres médias de 9,2 polegadas em simples, resultando assim em um armamento de quatro canhões de 12 polegadas, dez de 9,2 polegadas e nenhum de 6 polegadas. O projetista responsável, J. H. Narbeth, apresentou um desenho alternativo mostrando um armamento composto por doze canhões de 12 polegadas, mas o Almirantado não aceitou a proposta. Parte da justificativa para a decisão de manter armas de calibres mistos foi a necessidade de iniciar rapidamente a construção das unidades, em razão da situação tensa gerada pela Guerra Russo-Japonesa.
Transição para projetos monocalibre A substituição dos canhões de 6 ou 8 polegadas (152 ou 203 mm) por armas de 9,2 ou 10 polegadas (234 ou 254 mm) melhorou o poder de impacto de um couraçado, especialmente a longas distâncias. Um armamento uniforme de peças pesadas oferecia muitas outras vantagens. Uma delas era a simplicidade logística. Quando os Estados Unidos consideravam, por exemplo, se deveriam adotar um armamento principal de calibres mistos para a classe South Carolina, William Sims e Poundstone enfatizaram as vantagens da homogeneidade em termos de suprimento de munição e da transferência de guarnições de peças fora de ação para substituir artilheiros feridos em combate.