Abílio Gomes Correia ( Padim da Graça, 9 de Fevereiro de 1882 — São Mamede de Este, 29 de Junho de 1967) foi um padre português

Perfil humano

O P. Abílio foi uma pessoa privilegiada pela natureza: homem de saúde de ferro, alto, fisicamente bem constituído, apreciador das coisas boas e belas, capaz de suportar grandes cargas de trabalho e de aguentar, impávido e sereno, as maiores contrariedades. Perante as adversidades nunca cruzava os braços e lutava, teimosamente, até resolver os problemas.

A paróquia de S. Mamede de Este

Quando chegou a S. Mamede de Este em 1907, certificou-se do ambiente onde fora parar. A casa que lhe era destinada estava em ruínas: chovia lá dentro, só tinha um quarto razoável e um espaço bastante amplo que servia de cozinha, sala de jantar e local de atendimento; para a empregada - primeiro a própria mãe e depois a sua irmã de leite - apenas um cubículo sem ar nem luz onde só cabia a cama; o quarto de banho, nem prático nem cómodo; o soalho esburacado e a janela sem vidros. Não era famoso nem vistoso o palácio que herdou…

A igreja paroquial, situada ao lado da residência, fazia um conjunto harmonioso com ela: telhas partidas, janelas sem vidros, altares sem toalhas e o próprio Sacrário estava “adornado” por dentro, com teias de aranha. O inventário de bens não lhe levou muito tempo a fazer: não havia valores nem sequer as coisas mais usadas no dia-a-dia duma Paróquia.

As pessoas

As pessoas da freguesia eram poucas e muito pobres; raramente frequentavam os actos religiosos e a vida moral, de cristã, tinha muito pouco. Quando chegou, com 25 anos de idade, foi recebido com indiferença pela Junta da Paróquia e mais algumas pessoas curiosas.

Ainda jovem e ficou só

Depois da tomada de posse, o pai e o irmão P. Firmino, Pároco da Pousa, foram embora, e ele ali ficou com a mãe, a olhar pelos buracos da janela para a Serra do Carvalho. Como teria sido duro para aquele jovem sacerdote, que durante os estudos se distinguiu pela inteligência, educação e devoção. As suas classificações foram sempre ao nível das do seu colega e amigo, António Bento Martins Júnior, que viria a ser Arcebispo Primaz de Braga.

… mas arranjou companhia

Surpreendentemente, apaixonou-se por aquela terra inóspita, pelas suas pobres e desorientadas gentes e, sobretudo, pelo “habitante” do miserável Sacrário. Era com o Senhor Sacramentado que o P. Abílio passava o seu tempo, desabafava e trabalhava.

…Fez-se amigo d’ Ele e por Ele ficou fascinado!!!

Decorrido algum tempo, as horas do dia já não chegavam para estarem juntos e começou a prolongar o convívio pela noite de dentro: das 24 horas do dia, só tirava três para dormir, dedicando as outras às pessoas, às tarefas que lhe competiam e à Adoração do Santíssimo Sacramento.http://missatridentinaemportugal.blogspot.pt/2010/10/rev-padre-abilio-gomes-correia-o.html

Homem pragmático

Para suportar o frio rigoroso e húmido da noite que se faz sentir na Igreja, localizada junto do rio, usava uma capa grossa e levava um cão do vizinho que se deitava em cima dos pés. E assim estava desde a uma hora da noite até celebrar missa às oito. Também era seu utensílio habitual uma candeia de azeite (lampião) e o Breviário.

Com a República não se entendeu

Em 1911, a Carbonária procurou prendê-lo, mas ele protegido por quatro caçadores armados fugiu para o Gerês, vindo celebrar, às ocultas, aos fins-de-semana.

Inovou com ousadia

Quando isto aconteceu, tinha o P. Abílio acabado de fundar a Agregação da Adoração ao Santíssimo Sacramento na Paróquia de S. Mamede de Este (29.12.1910), donde irradiou para todo o país, atingindo as comunidades de Língua Portuguesa espalhadas pelo mundo. Daqui, desta pobre terra, desta pobre igreja, deste pobre Sacrário nasceu a grande devoção ao Santíssimo Sacramento, que mudou as mentalidades e a vida dos Portugueses.

Torna-se escritor

Em Janeiro de 1915 publicou o primeiro número da única revista eucarística que houve em Portugal, intitulada “Mensageiro Eucarístico”. A revista era mensal e o P. Abílio era o director, o redactor, o propriétário e também o empregado para tudo o que fosse preciso.

Amante de caminhar

Em S. Mamede de Este não havia luz eléctrica, nem telefone, nem correio, nem meios de comunicação. Era a pé que ele ia a Braga, pela estrada construída pelos romanos no ano 7 da era cristã, tratar de quanto era necessário para imprimir e enviar a revista.

Para a guerra… não

Nesse tempo Portugal encontrava-se a participar na primeira Grande Guerra. Em 1917 o P. Abílio foi apurado para a tropa. Através do Mensageiro pediu aos 3.000 assinantes que implorassem ao Céu a graça de ele não ter de pegar em armas para matar gente. A sua guerra era promover a paz e o bem. E o Senhor permitiu que ele continuasse na sua pobre terra adoptiva, junto do pobre Sacrário, agora já acompanhado pelas gentes da paróquia a fazerem a sementeira de Amor a Deus, em todos os lugares onde se falava a língua portuguesa.

Peregrino e atrevido

Em 1922 acompanhou o Arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, a Roma onde se celebrou um Congresso Eucarístico Internacional. A viagem foi feita de barco. De regresso, inflamado pela participação no extraordinário acontecimento eucarístico, disparou uma pergunta - sugestão - ao seu Prelado: - “E depois de tudo o que vimos, Braga, a Roma Portuguesa, não erguerá também a voz a cantar os louvores do Santíssimo Sacramento?”. A resposta do Arcebispo não se fez esperar: - Faria, se tivesse meios materiais. Mas como não tem, não pode fazer”. E surge novo ataque do Padre Abílio:

- “Eu encarrego-me de arranjar o dinheiro e tudo o mais que for necessário para que se faça um Congresso Eucarístico Diocesano”. O problema ficou imediatamente resolvido:

- “Faz-se mesmo e já no próximo ano”. E realmente assim aconteceu. Em 1923, Braga engalanou-se e cantou desassombradamente a sua fé eucarística, acordando o país amedrontado. Foi um despertar geral na Primavera desse ano difícil para as gentes portuguesas.

Bom administrador e refilão

Arrumadas as contas, o Padre Abílio apresentou ao Prelado um saldo positivo de doze contos; muito dinheiro na época. D. Manuel Vieira de Matos fica admirado com tanto dinheiro e agradeceu a Deus por lhe ter colocado nas mãos os meios de que necessitava para pôr em dia as contas da Diocese e continuar com as obras da construção do Seminário da Rua de Santa Margarida. De tão satisfeito que estava, rezou acções de graças em voz alta, sem se importar com a presença do P. Abílio. Este não gostou do que ouviu e foi frontal na manifestação do seu desacordo:

- “Desculpe o Sr. Arcebispo, mas não é justo pegar nas migalhas do pão que os pobres não comeram para louvar pública e solenemente a Deus e aplicá-las a pagar dívidas e a construir edifícios de pedra, por mais necessários que sejam. A Deus o que lhe pertence. Estes doze contos são uma dádiva de gente muito pobre ao Santíssimo Sacramento e não ao Arcebispo de Braga”.

Foi como se tivesse rebentado uma bomba de grande potência…

Reacção imediata do Arcebispo surpreendido:

- “Então que pensa fazer? Vai devolvê-lo a quem lho deu?”

- “Não penso assim, Sr. Arcebispo. Julgo que a boa aplicação deste dinheiro seria na organização de outro Congresso Eucarístico, mas a nível nacional”.

- “Só pensas no Santíssimo Sacramento. Não és capaz de ver as coisas com realismo e sensatez. Valha-me Deus!”...

- “Não é verdade que esteja cego… nem sequer preciso de óculos. E neste caso vejo claramente para onde deve ir esta elevada quantia. Quanto às obras materiais, elas não ficarão por fazer por falta de dinheiro. Para elas Deus também providenciará”.

- “Vamos a isso, respondeu o Prelado. Comece já a tratar do Congresso Nacional”.

E assim se deram início aos trabalhos de organização do primeiro Congresso Eucarístico Nacional, celebrado em Braga no ano de 1924. Nele participou todo o Episcopado Português e, nas comunicações doutrinais sobressaíram dois professores da Universidade de Coimbra: António de Oliveira Salazar e Manuel Gonçalves Cerejeira, bem como o estudante - poeta, Bernardo de Vasconcelos. Este Congresso teve o seu encerramento no Sameiro onde se encontravam mais de 380 mil pessoas. O acontecimento repercutiu-se por todo o país e fez estremecer as estruturas políticas e as ideologias de então.

Resguardado no seu canto

À margem das grandiosas e apoteóticas manifestações de rua na cidade, na pobre freguesia de S. Mamede de Este, refugiava-se a alma deste incêndio de devoção que queimava os corações atribulados do povo português. Na pequena igreja passava as noites o P. Abílio; durante o dia trabalhava no Mensageiro Eucarístico, atendia os paroquianos, ensinava a catequese às crianças e, ao cair do sol, tocava o sino chamando os fiéis para com ele rezar o terço do Rosário, fazer-lhes uma breve prática doutrinal, terminando com a Bênção do Santíssimo.

Mudou tudo

Em 17 anos a vida religiosa na Paróquia tinha-se transformado radicalmente: o pároco era amado e respeitado, a igreja estava limpa e impecavelmente cuidada; as crianças todas inscritas nos Pagens da Eucaristia; as famílias tinham consagrado a sua casa ao Sagrado Coração de Jesus; os homens passavam a noite do primeiro Sábado para o Domingo em Adoração ao Santíssimo Sacramento; as mulheres faziam a Adoração durante o dia; os costumes e os modos de viver da gente eram agora orientados pelos valores do Evangelho.

Lugar incomparável

Pode dizer-se que S. Mamede de Este era um oásis florido, onde Deus era adorado e as pessoas viviam em paz, partilhando os seus pobres haveres. O Congresso Eucarístico de Braga foi uma semente que floriu e deu frutos não só no Norte de Portugal mas em todo o país. Seguiu-se uma década de Congressos Eucarísticos nos quais o Director Nacional de Agregação ao Santíssimo Sacramento (P. Abílio) estava sempre presente, onde dirigia algumas palavras de exortação e presidia a algum acto solene.http://alexandrina.balasar.free.fr/abilio_correia_pt.htm Apesar das frequentes e prolongadas ausências da Paróquia a sua organizada pastoral mantinha em plena actividade as Associações que tinha criado e a revista saía com regularidade. O número de assinantes aumentou significativamente e os Párocos introduziram a Adoração ao Santíssimo Sacramento nos Domingos de tarde; o “Devocionário” de que se serviam era a “Adoração” publicada no Mensageiro, sempre elaborada pelo P. Abílio.

Revolucionário

Estas ideias religiosas, semeadas em clima de oração, modificaram as mentalidades e o modo de viver dos portugueses, que se afastaram totalmente das profecias e promessas da classe política de então. Não foi mero acaso a mudança do regime político ter nascido em Braga em 1926. A nascente desta mudança encontrava-se em S. Mamede de Este e o distribuidor desta “água viva” era o pobre Vigário que trabalhava noite e dia destruindo mansamente o erro e o mal.

Afastado da Paróquia

Em 1931, o hospital de São Marcos, ainda governado por republicanos laicos, era uma grande preocupação para o Arcebispo de Braga. Além dos bens da Igreja andarem por mãos alheias, muitos doentes morriam sem os auxílios da religião e os Párocos da cidade andavam de candeias às avessas por causa do hospital.