Literatura neerlandesa ou literatura holandesa compreende todos os escritos de mérito literário através dos tempos na língua neerlandesa, um idioma que tem cerca de 23 milhões de falantes atualmente. A literatura neerlandesa não se restringe aos Países Baixos, Flandres (Bélgica), Suriname e Antilhas Neerlandesas, mas também tem sido produzida em outras regiões de língua holandesa (outrora sob domínio dos Países Baixos), como o Flandres francês, a África do Sul e as extintas Índias Orientais Neerlandesas (atual Indonésia). Uma sub-seção é a 'literatura indo-holandesa', inspirada na Insulíndia colonial e pós-colonial, que abrange a Idade do Ouro até os dias atuais.Nieuwenhuys, Rob Mirror of the Indies: A History of Dutch Colonial Literature - translated from Dutch by E. M. Beekman (Publisher: Periplus, 1999) Beekman E.M. Fugitive dreams: an anthology of Dutch colonial literature (Publisher: University of Massachusetts Press, Amherst, 1988) ISBN 00870235753 Alternativamente, a literatura neerlandesa foi e é produzida por pessoas originalmente estrangeiras que vieram habitar as regiões de idioma neerlandês, como Anne Frank e Kader Abdolah.
Em seus estágios iniciais, a literatura neerlandesa é definida por fragmentos de obras literárias escritas em um dos dialetos da região dos Países Baixos. Antes do século XVII, não havia um idioma padrão unificado; os dialetos considerados neerlandeses evoluíram do frâncico. A língua africâner pode reivindicar as mesmas raízes literárias do neerlandês contemporâneo, pois ambos os idiomas derivam do neerlandês do século XVII.
Textos em neerlandês antigo (500-1150) Por volta de 500, o frâncico evoluiu para o francônio ou neerlandês antigo, uma língua germânica ocidental que era falada pelos francos e, em menor medida, por pessoas que viviam nas regiões conquistadas pelos francos. Até o fim do século XI, a literatura neerlandesa – como a literatura no resto da Europa – era quase totalmente oral e em forma de poesia, o que facilitava aos trovadores lembrar e recitar seus textos. Textos científicos e religiosos eram escritos em latim e consequentemente muitos textos escritos nos Países Baixos estão em latim ao invés de em neerlandês antigo. Textos em neerlandês deste período são raros.
Nos estágios iniciais do idioma, um considerável grau de mutual inteligibilidade com a maioria dos outros dialetos germânicos ocidentais estava presente, e alguns fragmentos e autores podem ser reivindicados tanto pela literatura neerlandesa quanto pela alemã. Exemplos incluem os Salmos de Wachtendonk (neerlandês: "Wachtendonkse Psalmen") do século IX, uma tradução para o baixo francônio ocidental de alguns dos Salmos no limiar do que é considerado o idioma neerlandês, e o poeta do século XII Henric van Veldeke (1150 – depois de 1184).
Descobertas mais antigas Em 1996 uma frase foi descoberta na bainha da espada de Bergakker de cerca de 425-450, embora esta sentença possa ser muito bem em frâncico e não em neerlandês antigo. Dada a escassez de obras em ambas línguas, a demarcação entre as duas é difícil de fazer. Outra frase pode ser encontrada na Lei Sálica do início do século VI, que foi elaborada durante o reinado do rei Clóvis I, ele mesmo um franco sálico. A frase diz: "Maltho thi afrio lito" ('Eu digo, I o liberto, semi-livre'). Esta frase era usada para libertar um servo. Além desta sentença, a Lex Salica também contém um número de palavras soltas. Um texto de batismo encontrado na Utrecht do século VIII diz: "Gelobistu in got alamehtigan fadaer" (neerlandês moderno: Geloof je in God, de almachtige vader?, português: você acredita em Deus-Pai Todo Poderoso?).
Os Salmos de Wachtendonck Os Salmos de Wachtendonck são um número de salmos escritos em Latim e em uma variação oriental do baixo francônio. Não é claro se o dialeto é antigo linburguês ou uma variação do francônio do Reno. Muito poucos restaram deles. Os salmos foram nomeados em referência a um manuscrito que não chegou até nós, mas FORA DO QUE estudiosos acreditam os fragmentos que sobreviveram devem ter sido copiados. Este manuscrito esteve uma vez em posse do cônego Arnold Wachtendonck. Os fragmentos remanescentes são cópias manuscritas feitas pelo estudioso renascentista Justus Lipsius no século XVI. Lipsius fez uma série de cópias separadas, aparentemente do mesmo material, mas estes versões nem sempre concordam entre si. Além disso, estudiosos concluíram que os inúmeros erros e inconsistências nos fragmentos apontam não apenas para algum descuido ou falta de atenção pelos estudiosos da Renascença, mas também a erros no manuscrito perdido de onde o material foi copiado. A linguagem dos salmos sugere que eles foram originalmente escrito no século X. Há uma série de edições: entre outras, a do filologista neerlandês do século XIX Willem Lodewijk van Helten e, mais recentemente, as edições do historiador e linguista americano Robert L. Kyes (1969) e do filologista neerlandês Arend Quak (1981). Como se poderia esperar de uma tradução interlinear, a ordem das palavras do texto em baixo francônio segue de muito perto a do original latino.
Leiden Willeram Leiden Willeram é o nome dado a um manuscrito que contém uma versão em baixo francônio em alto-alemão antigo sobre o Cântico dos Cânticos pelo abade alemão Williram von Ebersberg (em última análise por Isidoro de Sevilha). Até recentemente, baseado em sua ortografia e fonologia, muitos estudiosos acreditavam que o texto deste manuscrito era médio-francônio, que é alto-alemão antigo, com algo limbúrgico ou misturas francônias. Mas em 1974, o filologista alemão Willy Sanders provou em seu estudo Der Leidener Willeram que na verdade o texto representa uma tentativa imperfeita feita por um escriba da área costal noroeste dos Países Baixos de traduzir o original em East Franconian em seu vernáculo local. O texto contém muitas palavras em neerlandês antigo não conhecidas em alto-alemão antigo, assim como palavras mal traduzidas em razão da falta de familiaridade do escriba com palavras em alto-alemão antigo no original que ele traduziu, e uma ortografia confusa por influência do idioma original. Sanders também comprovou que o manuscrito, atualmente na Biblioteca da Universidade de Leiden, foi escrito no fim do século XI na abadia de Egmond na atual Holanda do Norte, de onde vem o outro nome do texto: Egmond Willeram.
Hebban olla vogala O poema mais antigo que se tem conhecimento foi escrito por um monge flamengo occidental em um convento em Rochester, Inglaterra por volta de 1100: hebban olla vogala nestas bagunnan hinase hic enda thu wat unbidan we nu ("Todos pássaros começaram a fazer ninhos, exceção eu e você, o que nós estamos esperando?"). De acordo com o professor Luc de Grauwe, o texto poderia muito bem ser inglês antigo, mais especificamente kentiano antigo, no entanto não há consenso sobre esta hipótese. Naquela época, o neerlandês (ocidental) antigo e o ingles antigo eram muito parecidos.
A Bíblia Rimada da Renânia Outra fonte importante do neerlandês antigo é a assim chamada Bíblia Rimada da Renânia (neerlandês: Rijnlandse Rijmbijbel e alemão: Rheinische Reimbibel). Esta é uma tradução em verso de histórias bíblicas, certificado apenas emu ma série de fragmentos, que foi composta em uma mistura de dialetos contendo elementos de baixo-alemão, neerlandês antigo e alto-alemão (francônio-renano).David A. Wells, The "Central Franconian Rhyming Bible" ("Mittelfränkische Reimbibel"): An early-twelfth-century German verse homiliary. Amsterdam: Rodopi, 2004. Foi provavelmente composta no noroeste da Alemanha no início do século XII, possivelmente na abadia de Werden, perto de Essen.
Literatura em neerlandês médio (1150-1500)
Nos séculos XII e XIII, escritores começaram a escrever romances de cavalaria e hagiografias (ou seja, histórias sobre a vida dos santos) por pagamento de membros da nobreza. A partir do século XIII, a literatura tornou-se mais didática e desenvolveu um caráter proto-nacional. O público principal não era mais a nobreza, mas a burguesia. A crescente importância dos Países Baixos do Sul resultou na maioria dos trabalhos que foram sendo escritos em Brabante, Flandres e Limburgo.
Nos primeiros estágios da literatura neerlandesa, poesia era a forma predominante de expressão literária. Tanto nos Países Baixos quanto no resto da Europa, o romance de cavalaria e a poesia eram os gêneros literários existentes durante a Idade Média. Um Minnesanger foi o acima mencionado Van Veldeke. O romance de cavalaria medieval também foi um gênero popular, apresentando o Rei Artur ou Carlos Magno como protagonistas.
Como a ênfase política e cultural naquela época nas províncias do sul, a maioria das obras herdadas pela Idade Média foi escritas em dialetos baixo-francônios como limburguês, flamengo e brabantino. O primeiro escritor em língua neerlandesa conhecido é van Veldeke, que compôs poesia de amor cortês, hagiografias e épicos.http://users.telenet.be/gaston.d.haese/heinric_van_veldeken.html
Beatriz de Nazaré (1200–1268) foi a primeira escritora em prosa em neerlandês que se tem conhecimento, autora da notável dissertação conhecida como os Sete Caminhos do Amor Divino.
Um número de obras épicas remanescentes em neerlandês, especialmente romances de cavalaria, foram cópias ou expansões de composições em alemão ou francês antigos, mas existem exemplos de obras verdadeiramente originais (como o anônimo Karel ende Elegast) e até composições em língua neerlandesa que serviram de base para versões em outros idiomas (como a peça de moralidade Elckerlijc que serviu de inspiração para a peça Everyman). Outro gênero popular na Idade Média era a fábula, e a fábula mais elaborada produzida pela literatura neerlandesa foi uma adaptação expandida do conto Renart, a Raposa, Vanden vos Reynaerde , escrita por volta de 1250 por uma pessoa apenas conhecida por nós como Willem.
Até o século XIII, o neerlandês médio produziu principalmente atendendo às ordens aristocráticas e monásticas, registrando as tradições de cavalaria e de religião, mas dificilmente dirigiu-se à maior parte da população. Com o fim do século XIII, ocorreu uma mudança na literatura neerlandesa. As cidades flamencas e holandesas começaram a prosperar e a fazer valer sua supremacia comercial sobre o Mar do Norte, e estas cidades obtiveram privilégios no valor de uma quase independência política. Com esta liberdade, surgiu um novo tipo de expressão literária.
thumb|left|Jacob van Maerlant.O mais importante expoente deste novo desenvolvimento foi Jacob van Maerlant (~1235–~1300), um estudioso flamenco que trabalhou na Holanda durante parte de sua carreira. Suas obras principais são Der Naturen Bloeme ("A Flor da Natureza", c. 1263), uma coleção de discursos morais e satíricos endereçados para todas as classes da sociedade, e De Spieghel Historiael ("O Espelho da História", c. 1284). Van Maerlant straddles a divisão entre as províncias do norte e do sul. Até então, as províncias do norte tinham produzido poucas obras de valor, e permaneceram assim até a queda da Antuérpia durante a Guerra dos Oitenta Anos, mudando o foco para Amesterdão. A ele é muitas vezes atribuído o título de "pai da poesia neerlandesa", "um título merecido por produtividade, senão por outra razão."
O frade bruxelense Jan van Ruusbroec (1293/4–1381), é considerado o pai da prosa neelandesa, que, junto com Beatrice, levou a prosa para além dos domínios econômicos e políticos e a usou para fins literários. Ele escreveu sermãos cheios de pensamentos místicos.