A invasão gaulesa de Roma foi uma invasão dos sênones, uma das tribos gaulesas, ao território da Itália central e ao território da República Romana. Foi marcada pela derrota romana na Batalha do Ália, que se desenrolou na confluência dos rios Tibre e Ália, a onze milhas romanas ao norte de Roma (cerca de 15,5 quilômetros). As forças romanas foram parcialmente destruídas, o que levou ao subsequente saque de Roma. A data tradicional para esta batalha é "quinze dias antes das calendas de agosto de , ou seja, o dia 18 de julho.Tácito, Anais 2.91
Contexto Os sênones eram uma das várias tribos gaulesas que haviam invadido o norte da Itália e que se assentou na costa do Adriático perto de onde está atualmente a cidade de Arímino (atual Rimini). Segundo Lívio, eles foram chamados até a cidade etrusca de Clúsio por Aruns, um influente jovem da cidade que queria se vingar de Lucumo, que havia "zombado de sua esposa".Lívio, Ab Urbe Condita V 33 Quando eles apareceram, os clúsios se sentiram ameaçados (Cerco de Clúsio) e pediram ajuda aos romanos. Foram enviados os três filhos de Marco Fábio Ambusto, um dos mais poderosos aristocratas da cidade, como embaixadores: Cesão, Numério e Quinto Fábio Ambusto. Os três exigiram que os gauleses não atacassem Clúsio e avisaram que os romanos defenderiam a cidade se eles o fizessem. Em seguida, pediram para negociar uma paz. Os sênones aceitaram a paz se os clúsios lhes dessem terras. Houve uma discussão e uma briga começou, da qual os embaixadores participaram. Um deles matou um chefe sênones, uma violação da proteção aos embaixadores, que deveriam ser neutros. Os gauleses então se retiraram para discutir os próximos passos.Lívio, Ab Urbe Condita V 36
Os sênones então enviaram seus próprios embaixadores a Roma e exigiram que os três irmãos lhes fossem entregues. Os senado foi pressionado a não opinar contra a poderosa gente Fábia. Para evitar serem depois responsabilizados por um eventual ataque gaulês, os senadores então deferiram a decisão para a assembleia do povo. Segundo Lívio, "justamente aqueles cuja punição estava sob consulta acabaram eleitos tribunos consulares para o ano seguinte". Os gauleses ficaram furiosos com a afronta depois que justamente os três que haviam violado a "lei das nações" estavam sendo homenageados em Roma, a apenas 130 quilômetros de Clúsio, voltaram para o acampamento gaulês. Lívio conta que "em resposta ao tumulto causado por seu avanço, cidades aterrorizadas se armavam rapidamente e a população rural fugia, mas os gauleses gritavam por onde passavam que estavam indo para Roma".Lívio, Ab Urbe Condita V 37
Tamanho dos dois exércitos thumb|esquerda|upright=.7|Breno, o líder dos gauleses sênones Não se sabe ao certo a quantidade de soldados envolvidos na batalha. Plutarco afirma que os romanos não estavam em minoria e tinham homens, mas a maioria não tinha treino suficiente e não estava acostumada a empunhar armas.Plutarco, Vidas Paralelas Camilo, 18 Dionísio de Halicarnasso afirma que os romanos tinham quatro legiões bem treinadas e uma quantidade de cidadãos alistados em número maior,Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas, 13-19 o que também levaria a uma quantidade próxima de . Diodoro Sículo afirma que os romanos tinham homens.Diodoro Sículo Bibliotheca historica, 4, XIV, 114-115 Lívio não apresenta números. Os historiadores modernos Cary & Scullard estimam que os romanos tinham e os gauleses, 30- homens.Cary, M. & Scullard, H.H., A History of Rome: Down to the Reign of Constantine Berresford Ellis apresenta uma estimativa de um mínimo de com base na assunção de que "os romanos tinha...quatro legiões – pois cada cônsul tinha duas legiões sob seu comando — e dado que cada legião tinha homens". Ele também acreditava que poderia haver um contingente de tropas aliadas. Por outro lado, Ellis afirma que o exército tribal sênone dificilmente poderia contar com mais do que .Berresford Ellis, P., Celt and Roman, p. 10
Todas estas estimativas para o tamanho do exército romano participando desta batalha são improváveis, especialmente as dos historiadores antigos, que tinham a tendência de exagerar. Em contraste à afirmativa de Berresford Ellis, na época os romanos dispunham de apenas duas legiões e não quatro, um número que só seria alcançado mais tarde, durante a Segunda Guerra Samnita (326–), e o primeiro registro de quatro legiões é de Lívio, Ab Urbe Condita IX 30. Naquela época, os romanos não contavam com comandantes militares adicionais aos cônsules: o pretor (instituído em ) e procônsul (prática passou a ser comum em ), que era um cônsul cujo mandato, para fins militares, era estendido até o final da campanha. A primeira menção explícita de um cônsul comandando duas legiões é de . No ano seguinte, os romanos colocaram em campanha seis legiões, quatro, lideradas pelos dois cônsules, lutaram contra uma coalizão de quatro povos (samnitas, etruscos, úmbrios e gauleses sênones) na gigantesca Batalha de Sentino e as outras duas seguiram para outro front comandadas por um pretor.Lívio, Ab Urbe Condita X 11, 14, 18, 26-27 A Batalha do Ália, por outro lado, aconteceu nos primeiros dias de Roma, uma época na qual o exército romano era muito menor e sua estrutura de comando, muito mais simples: os dois cônsules eram os únicos comandantes militares e cada um deles comandava sua legião. Além disso, esta foi também a época na qual o consulado foi substituído por tribunos militares com poderes consulares (geralmente chamados de tribunos consulares). Por causa disto, não havia cônsules para o ano da batalha do Ália, o que torna a afirmação de Ellis, de que cada cônsul teria duas legiões, duplamente anacrônica. Finalmente, o tamanho da legião romana jamais foi . Nos primeiros dias, tinha provavelmente e, depois, em capacidade plena (as legiões raramente lutavam nesta condição).
O tamanho da cidade de Roma na época também precisa ser considerado. Na época, Roma ainda era uma cidade-estado de importância regional e cujo território não ia muito além de cinquenta quilômetros da cidade. Cornell nota que as estimativas da população de Roma no final do baseadas no tamanho de seu território variam entre e e acredita que a estimativa mais provável seja 25-. A obra de Fraccaro sugere que existia uma mão-de-obra disponível em idade militar (entre 17 e 47 anos) de ,Fraccaro P, in Atti II del Congresso nazionale. di studi Romani 3,, 1931, pp. 91-7 o que já requeria uma população de .Cornell T.J., The Beginnings of Rome, p. 207 Evidências arqueológicas revelam que, no , foi de depressão econômica, o que impediu um crescimento populacional importante. O território romano, por outro lado, havia crescido em 75% no final do ,Beloch, Romische Geschichte bis zum Beginn der punischen kriege, 1926, p. 320 mas o grosso deste aumento era consequência da recente conquista de Veios e da anexação de seu território; seus habitantes, porém, não receberam a cidadania romana, que era um pré-requisito para o serviço militar. Estas considerações tornam extremamente improvável a tese de que Roma teria conseguido colocar em campanha um exército de homens na época da Batalha do Ália.
Além disto, é preciso notar que os romanos não tiveram tempo suficiente para se preparar adequadamente para a batalha, pois, depois que os embaixadores gauleses foram expulsos pelos romanos, os gauleses imediatamente marcharam para Roma, que ficava a apenas alguns dias de marcha de distância. O exército romano da época era pouco mais do que uma milícia em tempo parcial de fazendeiros camponeses que eram alistados para o período de campanhas anual e retornavam depois para suas terras. Nem todos os homens em idade militar eram alistados todos os anos e, além disto, alguns destes soldados certamente viviam a alguma distância de Roma e precisariam de tempo para se mobilizar.
O tamanho da força dos sênones também não deve ser superdimensionada. A estimativa dada por Cary & Scullard de 30- é bastante improvável. Berresford Ellis nota corretamente que esta estimativa de já era bastante alta para uma única tribo.
Batalha do Ália
thumb|"Gauleses chegando em Roma".Séc. XIX. Por Vital Luminais, no Musée des Beaux-Arts de Nancy, França
Há apenas dois relatos antigos com detalhes sobre a batalha, o de Lívio e o Diodoro Sículo.
Segundo Lívio, nenhuma medida especial foi tomada em Roma e o alistamento "não foi maior do que o usual em campanhas ordinárias". Os gauleses marcharam para lá tão rápido que "Roma ficou estupefata pela rapidez com que eles se moveram, o que é revelado tanto pela pressa em acertar o exército, como se ele estivesse se organizando por uma emergência inesperada, e pela dificuldade em se distanciar mais do que a décima-primeira pedra miliária". Segundo ele, os romanos estavam em grande desvantagem numérica, não tiveram tempo de construir uma paliçada defensiva e não realizaram os rituais religiosos costumeiros. As duas alas foram rapidamente perfiladas e foram estendidas para que o exército todo não fosse flanqueado, mas este movimento fez com que a linha de combate ficasse estreita demais no centro, que quase não conseguia mais se manter. As reservas estavam numa colina à direita. Breno, o chefe senone, suspeitou de que este movimento era uma armadilha e que os reservistas tinham ordens de atacá-lo pela retaguarda enquanto suas forças lutavam na planície e, por isso, resolveu atacar a colina.Lívio, Ab Urbe Condita V 38
Os romanos entraram em pânico. A ala esquerda largou suas armas e correu para o Tibre. Os gauleses mataram os soldados, que estavam tropeçando uns nos outros na fuga desordenada. Os que não conseguiam nadar ou estavam pesados demais por causa de armaduras se afogaram. Ainda assim, a maior parte destes homens conseguiu chegar em Veios, a cidade etrusca recém-conquistada por Roma que ficava na outra margem, mas não enviaram mensageiros para alertar a cidade de Roma. A ala direita, que estava longe do rio e perto da colina, tentou fugir para Roma. Os gauleses ficaram muito surpresos pela facilidade com que haviam vencido os romanos.Lívio, Ab Urbe Condita V 38-39
O historiador grego Diodoro Sículo conta que os romanos, homens, marcharam e atravessaram o Tibre, ou seja, ele localiza a batalha na margem etrusca (direita) do rio. Os romanos perfilaram seus melhores soldados na planície e as piores numa colina próxima. Os gauleses também se perfilaram e colocaram seus melhores homens na colina, vencendo rapidamente a batalha ali. O grosso dos soldados romanos na planície então começou a fugir para o rio de forma desordenada e acabaram tropeçando entre, permitindo que os gauleses massacrassem os que ficavam para trás. Alguns romanos tentaram cruzar de volta o rio vestindo suas armaduras, que, segundo Diodoro, eles valorizavam mais que suas próprias vidas. Alguns se afogaram e outros conseguiram chegar na outra margem rio abaixo com grande dificuldade. Conforme os gauleses continuavam a se aproximar para matar os romanos, os soldados jogaram fora suas armas e nadaram sob uma chuva de dardos. A maior parte dos sobreviventes fugiu para Veios e alguns conseguiram chegar em Roma levando consigo a notícia da destruição do exército.Diodoro Sículo XIV.114-115
Plutarco afirma que os romanos chegaram a acampar e que os gauleses os atacaram ali. Teria ocorrido uma "desordenada e vergonhosa batalha" na qual a ala esquerda teria sido empurrada até o rio e destruída, a direita se retirou diante do ataque gaulês e o centro escapou para Veios.Plutarco, Vidas Paralelas Camilo, 14.114-115</ref>
Saque de Roma Relato de Lívio thumb|upright=1|Segundo Lívio, os patrícios idosos vestiram suas melhores roupas e esperaram os invasores gauleses na porta de suas casas, sendo confundidos, a princípio, com deuses