O Partido Obrero Revolucionario (POR) é um partido político boliviano fundado em junho de 1935, no Congresso de Córdoba (Argentina), por José Aguirre Gainsborg como seção da Oposição de Esquerda, liderada por Leon Trotsky em sua luta contra o estalinismo.
Antecedentes Ao nascer, o POR esteve ligado à história político-social da Guerra do Chaco (1932-1935) e procurou vincular-se ao marxismo internacional, ou seja, à IV Internacional. Aquela guerra foi o grande teste para a classe dominante e seus governos. O escasso desenvolvimento econômico, o peso do pré-capitalismo – o trabalho servil – e a subordinação da feudal-burguesia ao imperialismo determinaram a derrota do país considerado uma potência perante o diminuto Paraguai. Os que foram arrastados até as trincheiras se levantaram contra uma classe dominante que havia fracassado estrepitosamente. A guerra provocou a rebelião social. Foi também o grande teste para a esquerda que começou a se manifestar confusamente desde o início do século XX .
As ideias socialistas – principalmente o marxismo – chegaram importadas do exterior. A particularidade boliviana foi a ausência no seio do proletariado de ideias socialdemocratas, ou seja, reformistas. As ideias anarquistas conquistaram os artesãos. Posteriormente, circularam no país, particularmente nos meios juvenis da universidade, as publicações do Secretariado Latino-americano da Internacional Comunista estalinista. Não se pode esquecer que alguns pequenos grupos marxistas se negaram a integrar o organismo criado pela Internacional Comunista. Mais tarde, estes apareceram no PIR – Partido da Esquerda Revolucionária.
Depois da guerra do Chaco, esta fraca influência ideológica estrangeira terá um grande papel na conformação do pensamento marxista boliviano. O marxismo é uma corrente ideológica mundial, mas não deixa de expressar as marcas dos países em que se desenvolve. A esquerda – parte dela influenciada pelo estalinismo e a outra pelo anarquismo - ocupou as ruas para se opor à guerra, mas foi derrotada pelo chauvinismo desfechado do alto do poder político. Há que reconhecer que a Internacional Comunista divulgou abundante propaganda denunciando o perigo da guerra entre Bolívia e Paraguai desde 1928.
À perseguição e desterro da nata da esquerda boliviana, devemos a descoberta da luta da Oposição de Esquerda – o trotskismo – contra a burocracia estalinista e pró-imperialista. Um militante, hoje muito reconhecido, José Aguirre Gainsborg (1909-1938) – cujo pseudônimo era Fernandez –, foi exilado ao Chile por ter se incorporado às mobilizações populares contra a guerra. Tendo chegado ao país do seu exílio, foi imediatamente incorporado ao Partido Comunista do Chile, o que comprova sua vinculação com o PC organizado na Bolívia pelos agentes da Internacional Comunista. Mas foi rapidamente expulso do PC chileno sob acusação de manifestar desvios trotskistas.
No Chile, Aguirre trabalhou imediatamente com o núcleo trotskista e com a Oposição de Esquerda Internacional, conseguindo dessa forma colocar em pé a esquerda boliviana, eixo fundamental para a organização do Partido Operário Revolucionário. Aguirre defendeu a urgência e necessidade histórica de organizar o partido político bolchevique boliviano por considerar que a finalização do conflito bélico com o Paraguai coincidiria com a agudização da luta de classes, com a convulsão social. Os fatos lhe deram a razão.
Tristán Marof e alguns dos seus seguidores organizaram na Argentina o grupo Tupac Amaru que divulgou suas ideias através de América e Claridad. Esse agrupamento concordava em organizar o Partido Operário Revolucionário ainda que não se identificasse completa e publicamente com a Oposição de Esquerda que em 1938 se transformaria na Quarta Internacional. Nesses debates públicos, não se assinalou com precisão o significado da internacional trotskista na luta contra o estalinismo e pela revolução e ditadura proletárias na Bolívia, país capitalista atrasado de economia combinada.
A fundação Entre os participantes do Congresso de Córdoba, que se supunha deveriam ser exclusivamente trotskistas, estava o paraguaio Oscar Creydt, dirigente do Partido Comunista Paraguaio. Isso se deveu ao vinculo deste personagem com os marofistas da Argentina. Evidenciou-se, assim, que o Partido Operário Revolucionário nasceu levando em suas entranhas um espinho: o não esclarecimento pelos marofistas de suas relações com o estalinismo e, portanto, do caráter da revolução social na Bolívia.
O fato positivo foi que o Partido Operário Revolucionário nasceu com um esquema programático elaborado por Aguirre Gainsborg, posteriormente aprofundado e melhorado inúmeras vezes. A força e o imponente desenvolvimento do trotskismo boliviano deveu-se a este fato principista, além das particularidades do movimento operário boliviano. Há que assinalar, entretanto, o enorme erro de permitir que o marofismo reformista e anti-operário participasse do congresso de fundação do POR.
Cisão com o marofismo. Conferência de 1938
Devido ao fato do Partido Operário Revolucionário nascer no exílio, passou pelas dificuldades da sua adaptação a um país que se distinguia pela sua incipiência ideológica. Isto se traduziu na explosão de diferenças e contradições entre o caudilho Marof – oriundo do liberalismo saavedrista Juan Albarracín Millán La sociedad opresora: la transición del positivismo al materialismo histórico La Paz, Empresa Editora "Universo", 1979 p. 297– e o trotskista José Aguirre, disposto a estruturar um partido bolchevique.
A propaganda revolucionaria inicial dos poristas chocou-se com inumeráveis obstáculos para penetrar no seio das massas. O Partido Obrero Revolucionario não tinha um jornal próprio e José Aguirre Gainsborg publicou uma série de artigos políticos nas páginas de um jornal tradicional da burguesia El Diario, de La Paz, completamente estranho ao movimento revolucionário.
Desesperado para abrir espaços no cenário político-social, Aguirre ingressou ao grupo Beta Gama, expressão típica dos intelectuais pequeno-burgueses esquerdizantes. A experiência resultou negativa. Aguirre, enquanto tal, usava publicamente o jornal do grupo “Beta Gama”, mas, como Fernandez (seu pseudônimo), continuava atuando no Partido Operário Revolucionário, divulgando entre alguns operários teses e outros documentos copiados em máquinas de escrever.
Quando se reuniu a conferência do POR de 1938, Tristan Marof colocou abertamente que a sua perspectiva era tornar-se caudilho inconteste da esquerda boliviana – consideravelmente inchada à consequência da agitação que se seguiu à guerra do Chaco – e chegar ao poder político, à Presidência da República, pelo caminho das eleições. Já José Aguirre não se cansava de propagandear obsessivamente sua ideia de estruturar no país um Partido Bolchevique, tanto no aspecto ideológico quanto organizativo, baseado do ponto de vista social, particularmente no setor mineiro do proletariado.
Aguirre confundiu o artesão com o proletariado, particularmente com o mineiro, o que se traduziu em frustrações e erros consideráveis. Pagou-se um preço muito alto por não precipitar e superar, na etapa preparatória do Congresso de fundação do POR, o debate até as últimas consequências entre o marofismo e o trotskismo (Aguirre). Novamente as diferenças ideológico-programáticas surgiram e se desenvolveram sob a capa de divergências organizativas. Para Marof, o ponto central, de vida ou morte, era colocar em pé um partido de massas poderoso. Aguirre respondia que o Partido Obrero Revolucionario devia ser teórica e organizativamente um partido bolchevique rigoroso. Aguirre apresentou uma tese política e também se discutiram outros documentos de caráter programático. Os resultados da Conferência de 1938 foram a cisão com os marofistas e o famoso e quase completamente desaparecido “Boletim Informativo” número 1.
O desenvolvimento posterior dos acontecimentos evidenciou o verdadeiro significado do que aconteceu na Conferência do Partido Obrero Revolucionario de 1938. Toda cisão para preservar a essência programática marxista-leninista-trotskista do Partido Obrero Revolucionario é proveitosa – mesmo que enfraqueça numericamente o partido no momento – ,pois assim se afirma a base ideológica que permitirá seu desenvolvimento vigoroso posterior. O atual Partido Obrero Revolucionario surgiu daquela cisão, que resultou necessária e imprescindível. O marofismo evoluiu livremente como organização trotskista envergonhada. Encaminhou-se para a colaboração com a oligarquia e acabou desaparecendo fisicamente. Para Marof, o caudilho político de maior volume e feitos na Bolívia foi Juan Bautista Saavedra Mallea, provavelmente, por isso, concluiu seus dias cooperando com os caudilhos anões da reação.
A penetração no seio das massas Durante o primeiro período de sua vida, em que a direção do partido se entrincheirou na cidade de Cochabamba, o Partido Obrero Revolucionario não passava de um pequeno círculo de amigos: semi-intelectuais que se dedicavam a divagar interminavelmente sobre qualquer problema e contecimentos do país. Não haviam aprendido, ainda, que o programa do Partido não era mais do que um prognóstico feito com o método do materialismo histórico acerca do desenvolvimento do país. Como todo prognóstico, devia ainda passar pela prova dos acontecimentos político-sociais. Para que isto ocorresse, era necessário que aquele grupo de ociosos, pretensamente “intelectuais”, abandonasse seu esconderijo, fosse às ruas e utilizasse todas suas energias para aproximar-se das massas. Era necessário prosseguir e superar a herança de José Aguirre.
Quando isto ocorreu (a organização de grupos em La Paz, Oruro e em centros mineiros), pôde finalmente se comprovar que não se haviam assimilado as formulações programáticas, que não havia células e nem se sabia o que eram. À quase inexistente organização, correspondia uma baixa assimilação programática. Os poristas, que saíram às ruas começaram agrupar simpatizantes e a fixarem cartazes combativos nas paredes, se chocaram com a repressão policial e o cárcere. O trabalho junto às massas exigiu o lançamento das primeiras publicações. Devido à precariedade, recorreu-se a cobrir as paredes com grafites e pichações atrevidas.
Essa atividade titubeante - cheia de novidade - e algumas conquistas colocaram a urgência de penetrar nos centros operários, concentrações vitais das massas. Ficou evidente nesse momento que o marxismo deve ser assimilado pelos explorados dando respostas aos seus problemas. A politização da militância avançou a passos largos e constatou-se que suas “descobertas” estavam já formuladas nos escritos dos clássicos do marxismo Neste caldeirão, se forjaram valiosos dirigentes poristas, muitos dos quais pagaram com suas vidas no caminho.
A vanguarda porista, configurada em torno do eixo La Paz-Oruro, capacitou-se política e organizativamente vencendo a repressão policial e superando as exigências dos explorados, foi penetrando no seio das massas, principalmente no setor mineiro. Em certo momento, inesperadamente, o choque entre o crescimento do jovem POR e a realidade esquecida de sua velha direção estourou como uma bomba. Todo o país se surpreendeu ao encontrar-se diante de um novo e atrevido farol político que mostrava o caminho da revolução social, da revolução proletária.