Este artigo está focado na Quarta Internacional, no período anterior a 1963. Para os desenvolvimentos posteriores, veja Quarta Internacional (Pós-reunificação) e Quarta Internacional (1993).

A Quarta Internacional (QI) é uma organização comunista internacional composta por seguidores de Leon Trótski (trotskistas), com o objetivo declarado de ajudar a classe trabalhadora a alcançar o socialismo. Historicamente, a Quarta Internacional foi fundada na França em 1938, onde os seguidores de Trotsky, após terem sido expulsos da União Soviética, consideraram a Comintern ou Terceira Internacional como "perdida para o stalinismo" e incapaz de levar a classe trabalhadora internacional ao poder político. Assim sendo, os trotskistas fundaram sua própria Internacional Comunista.

A Quarta Internacional sofreu várias cisões ao longo de sua história, das quais de destacam:

1940 (Estados Unidos): Com a cisão entre James P. Cannon e Max Shachtman no seio do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) estadunidense, em torno da caracterização da URSS e da sua defesa militar, quase metade dos membros do SWP saíram para fundar o Workers Party. Trotsky interveio diretamente no debate, produzindo os textos reunidos no livro Em Defesa do Marxismo. 1940–1944 (França): Durante a ocupação nazi, a secção francesa fragmentou-se em vários grupos rivais que disputavam a representação da QI no país, num contexto de clandestinidade e isolamento que dificultava a comunicação com o Secretariado Internacional, então exilado em Nova Iorque. 1953 (internacional): A cisão mais profunda, provocada pelas divergências sobre a tática do entrismo sui generis proposta por Michel Pablo. O comité nacional do SWP emitiu uma Carta Aberta aos Trotskistas em Todo o Mundo e organizou a formação do Comité Internacional da Quarta Internacional (CIQI). O SWP de Cannon, juntamente com secções britânicas (Gerry Healy), francesas (Pierre Lambert) e argentinas (Nahuel Moreno), ao formar o Comité, romperam com o Secretariado Internacional liderado por Pablo e Ernest Mandel. 1963 (reunificação parcial): A maioria das secções do CIQI e do Secretariado Internacional voltaram a unir-se, formando o Secretariado Unificado da Quarta Internacional (SU-QI), vindo mais tarde a designar-se Quarta Internacional (pós-reunificação). As secções britânica (de Healy) e francesa (de Pierre Lambert) do CIQI recusaram a reunificação, mantendo-o como estrutura separada. 1993: Reorganização promovida por Pierre Lambert (e pela sua corrente, o "lambertismo"), reclamando a herança do Comité Internacional que não aderiu à reunificação de 1963.

Durante parte importante de sua existência, a Quarta Internacional foi perseguida por agentes da polícia secreta soviética, reprimida por países capitalistas, como a França e os Estados Unidos, e rejeitada como ilegítima pelos seguidores da União Soviética e, posteriormente, do maoismo – uma posição ainda mantida por estes comunistas nos dias de hoje. Durante a Segunda Guerra Mundial, sob estas condições de ilegalidade e hostilidade em grande parte do mundo, ela encontrou dificuldade para manter contato entre seus membros. Quando revoltas dos trabalhadores ocorreram, eram geralmente sob a influência de grupos de inspiração soviética, de maoistas, social-democratas, anarquistas, ou de grupos de militantes nacionalistas, levando a novas derrotas para a QI e os trotskistas, que nunca conseguiram apoio semelhante. Mesmo após o repúdio do Estado soviético a Stalin e o processo de desestalinização do país, o trotskismo, apesar de sua crítica à burocratização, não viveu um processo de ampliação de sua influência. Ideologicamente, maoistas, comunistas e anarquistas consideram tanto o trotskismo como a Quarta Internacional ideologicamente falido e impotente. Apesar dessa perspectiva, continuam ativos partidos e grandes grupos trotskistas, atraídos pelo anti-stalinismo e pelo movimento operário internacional.

Trotskismos

150px|miniatura|esquerda|Leon Trotsky em 1929, pouco antes de ser expulso da União Soviética.

Os trotskistas se consideram opositores tanto do capitalismo quanto do stalinismo. Trotsky defendia a revolução proletária tal como estabelecida em sua teoria da revolução permanente, acreditando que um Estado operário não seria capaz de sucumbir às pressões do mundo capitalista hostil caso revoluções socialistas rapidamente tomassem conta de outros países também. Esta teoria floresceu em oposição à tese defendida pelos stalinistas de que o socialismo poderia ser atingido na União Soviética sozinha. Mais adiante, Trotsky e seus partidários criticariam duramente a natureza cada vez mais totalitária do regime de Josef Stalin. na opinião deles, é impossível de se atingir o socialismo sem democracia. Confrontados com a crescente falta de democracia na União Soviética, eles concluíram que esta não era mais um Estado operário e socialista, mas sim um Estado operário degenerado pela burocracia.

Trotsky e seus partidários se organizaram desde 1923 como a Oposição de Esquerda. Eles eram contra a burocratização da União Soviética, que analisaram como sendo em parte causada pelo atraso econômico e cultural e pela pobreza do país predominante agrário herdado do czarismo. A teoria de Stalin do socialismo em um só país surgiu em 1924 em oposição à teoria da revolução permanente de Trotsky, que argumentava que o capitalismo era um sistema global e que apenas uma revolução mundial seria capaz de substituí-lo pelo socialismo. Até 1924 a perspectiva internacional dos bolcheviques havia sido guiada pela posição de Trotsky. De acordo com ele, a teoria de Stalin representava os interesses burocráticos em detrimento à classe trabalhadora.

Mais tarde, Trotsky seria perseguido pelo regime stalinista – se exilando em Almaty – enquanto seus partidários seriam presos. A Oposição de Esquerda, no entanto, continuaria a atuar secretamente no seio da União Soviética.Serge, Victor. From Lenin to Stalin, p. 70 ff, Pathfinder, (1973). Trotsky seria expulso para a Turquia, se mudando de lá para a França, para a Noruega, e para o México, onde seria assassinado por Ramón Mercader, agente da polícia de Stalin.Operações especiais: memórias de uma testemunha indesejada/ Pavel Sudoplatov, Anatoli Sudoplatov, Mem Martins : Europa-América, D.L. 1994 ISBN 972-1-03771-0Deutscher, Isaac. Stalin, p. 381, Pelican (1966).

As Internacionais

Uma Internacional é uma organização internacional formada por partidos políticos ou ativistas com o objetivo de ter uma ação coordenada para atingir a um propósito comum. Há uma longa tradição entre os socialistas de se organizarem a nível internacional, tendo Karl Marx liderado a Associação Internacional dos Trabalhadores, que mais tarde ficaria conhecida como a "Primeira Internacional".

Após a Associação Internacional dos Trabalhadores se dissolver em 1876, várias tentativas foram feitas no sentido de fazê-la surgir novamente, o que culminaria na formação da Segunda Internacional em 1889. Esta, por sua vez, foi dissolvida em 1916 após desentendimentos sobre a Primeira Guerra Mundial. Embora a Segunda Internacional tenha se reorganizado em 1923 como a Internacional Socialista e Operária, os partidários da Revolução de Outubro e os bolcheviques já haviam formado a Internacional Comunista (Comintern), considerada a Terceira Internacional por eles. Esta foi organizada com base no centralismo democrático, com seus partidos-membros sendo obrigados a defender as políticas adotadas pela organização como um todo.

Ao se declararem pertencentes à Quarta Internacional, os trotskistas se afirmaram publicamente como continuadores do legado da Comintern, e das Internacionais anteriores. O reconhecimento deles da importância dessas Internacionais anteriores se associava à crença de que todas elas haviam se degenerado. Embora a Internacional Socialista, e a Comintern ainda estivessem ativas, os trotskistas não acreditavam que tais organizações eram capazes de sustentar o socialismo revolucionário e o internacionalismo.

A fundação da Quarta Internacional foi, portanto, estimulada em parte pelo desejo dos trotskistas em formar uma corrente política forte, ao invés de serem vistos apenas como a oposição comunista à Comintern e à União Soviética. Trotsky acreditava que sua formação era o mais urgente de tudo para o papel que ele queria exercer na iminente Segunda Guerra Mundial.

Decisão de formar a Internacional No início dos anos 1930, Trotsky e seus partidários acreditavam que a influência de Stalin sobre a Terceira Internacional ainda podia ser combatida de dentro da organização. Em 1930, se organizaram na Oposição de Esquerda Internacional, que tinha o objetivo de ser um grupo de dissidentes anti-stalinistas dentro da Terceira Internacional. Os partidários de Stalin, que dominavam a Comintern, entretanto, não toleravam mais a dissidência. Todos os trotskistas, assim como os suspeitos de serem simpatizantes do trotskismo, foram expulsos da Internacional.Stalin, Josef. "Industrialisation of the country and the right deviation in the C.P.S.U.(B.)". Works, Vol.11, pp. 255-302.

De acordo com Trotsky, as políticas do Terceiro Período da Comintern – que proibia alianças dos comunistas com partidos de esquerda vistos como "burgueses" – contribuíram para a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha. De maneira semelhante, ele criticou a política de incentivo à formação de frentes populares – que tinha como objetivo unir as forças antifascistas –, sendo esta em sua opinião semeadora de ilusões reformistas e pacifistas que "limpou o caminho para uma reviravolta fascista". Em 1935, ele alegou que a Comintern havia caído irremediavelmente nas mãos da burocracia stalinista. Ele e seus partidários, expulsos da Terceira Internacional, participaram de uma conferência em Londres dos partidos socialistas que não integravam a Internacional Socialista e a Comintern. Três desses partidos se juntaram à Oposição de Esquerda na assinatura de um documento escrito por Trotsky conclamando para a criação de uma Quarta Internacional, que ficaria conhecido como a "Declaração dos Quatro". Destes, dois logo se distanciaram do acordo, mas o Partido Revolucionário Socialista da Holanda trabalhou com a Oposição de Esquerda Internacional para criar a Liga Comunista Internacional.

Andreu Nin e alguns outros membros da Liga não apoiaram a convocação de uma nova Internacional. Este grupo priorizou o reagrupamento com outras oposições comunistas, principalmente a Oposição à Internacional Comunista (OIC), ligada à Oposição de Direita no Partido Comunista Soviético, um reagrupamento que eventualmente levou à formação do Bureau Internacional de Unidade Socialista Revolucionária. Trotsky considerou essas organizações como sendo centristas. Apesar da crítica de Trotsky, a seção espanhola da Liga se fundiu com a seção espanhola da OIC, formando o POUM. De acordo com Trotsky, a fusão era uma rendição ao centrismo. O Partido Socialista Operário da Alemanha, uma cisão de esquerda do Partido Social-Democrata da Alemanha, fundada em 1931, colaborou com a Oposição de Esquerda Internacional brevemente em 1933, mas logo abandonou a ideia de convocar uma nova Internacional.