A Batalha do Buçaco (ou Bussaco, de acordo com a grafia antiga), foi uma batalha travada durante a Terceira Invasão Francesa, no decorrer da Guerra Peninsular, na Serra do Buçaco, a 27 de Setembro de 1810. De um lado, em atitude defensiva, encontravam-se as forças anglo-lusas sob o comando do Tenente-general Arthur Wellesley, visconde Wellington. Do outro lado, em atitude ofensiva, as forças francesas lideradas pelo Marechal André Massena. No fim da batalha, a vitória mostrava-se nitidamente do lado anglo-luso.

Antecedentes Wellesley tinha saído vitorioso da Batalha de Talavera (27 e 28 de Julho de 1809) mas, não podendo contar com o apoio das forças espanholas e perante a ameaça que o exército francês comandado por Nicolas Jean de Dieu Soult representava para as suas linhas de comunicações, decidiu retirar em direcção a Portugal. O objectivo para os franceses era agora a Andaluzia e não Lisboa e este facto deu-lhe tempo que foi bem aproveitado na preparação das Linhas de Torres Vedras.GLOVER, pag. 116-117

No Inverno de 1809-1810, mais de 100 mil homens das forças francesas atravessaram os Pirenéus. Por fim chegaram as notícias de que o Marechal Massena tinha recebido a missão de ocupar Portugal e expulsar as forças britânicas da Península Ibérica. Massena chegou a Salamanca a 28 de Maio e escolheu entrar em Portugal pelo eixo Ciudad Rodrigo – Almeida - Coimbra. O cerco de Ciudad Rodrigo começou a 30 de Maio e a praça capitulou a 10 de Julho. O cerco foi então transferido para Almeida e, em Portugal, registam-se os primeiros confrontos desta invasão no Combate do Côa.WELLER, pag. 118-120

Depois da captura de Ciudad Rodrigo e Almeida, o “Exército de Portugal” de Massena avançou no território português em direcção a Coimbra. À sua frente, Wellington reuniu o exército na Serra do Buçaco, uma serra com cerca de 15 km de comprimento e de encostas íngremes, numa tentativa de, pelo menos, retardar o avanço francês oferecendo batalha e assim ganhar tempo para em seguida retirar para as Linhas de Torres Vedras.

As forças em presença Massena comandava um exército com três Corpos de Exército (CE), totalizando 65.050 homens e 114 bocas de fogo de artilharia. Estava organizado da seguinte forma:OMAN, pag. 540 - 543

II CE – General Jean-Louis-Ébenezel Reynier – 17 718 1ª DivisãoVer Divisão (militar) de Infantaria – General Pierre Hugues Victoire Merle – 6 589 - Constituída por 12 batalhõesVer Batalhão agrupados em duas brigadas.Ver Brigada 2ª Divisão de Infantaria - General Étienne Heudelet de Bierre – 8 087 - Constituída por 15 batalhões agrupados em duas brigadas. Brigada de Cavalaria - General Pierre Soult – 1 397 Artilharia, trens, engenhariaVer Engenharia Militar e estado-maior – 1 645 VI CE – Marechal Michel Ney – 24 306 1ª Divisão de Infantaria – General Jean Gabriel Marchand – 6 671 - Constituída por 11 batalhões agrupados em duas brigadas. 2ª Divisão de Infantaria – General Julien Auguste Joseph Mermet – 7 616 - Constituída por 11 batalhões agrupados em duas brigadas. 3ª Divisão de Infantaria – General Louis Henri Loison – 6 826 - Constituída por 12 batalhões agrupados em duas brigadas. Brigada de Cavalaria – General Auguste Étienne Marie Lamotte - 1 680 Artilharia, trens, engenharia e estado-maior – 1 513 VIII CE – General Jean-Andoche Junot – 16 939 1ª Divisão de Infantaria – General Bertrand, conde de Clauzel – 6 794 - Constituída por 11 batalhões agrupados em três brigadas. 2ª Divisão de Infantaria – General Jean-Baptiste Solignac – 7 226 - Constituída por 11 batalhões agrupados em duas brigadas. Divisão de Cavalaria – Sainte Croix – 1 863 Artilharia, trens, engenharia e estado-maior – 1 056 Reserva de Cavalaria – General Louis Pierre Montbrun – 3 479 – Cinco regimentos de Dragões e uma bateria de artilharia a cavalo. Reserva de Artilharia, Trens e Engenharia não atribuída a nenhum CE – 2.365 Gendarmerie – 177 Estado-maior do Exército e oficiais não atribuídos a nenhum dos CE – 66. thumb|esquerda|200px|Marechal André Masséna, comandante de "L'Armée du Portugal".

O exército de Wellington no Buçaco compreendia sete divisões de infantaria, três brigadas independentes, apenas quatro esquadrõesVer Esquadrão de cavalaria e 60 bocas de fogo de artilharia – homens ao todo, incluindo portugueses. Embora tivesse um número de divisões de infantaria igual aos franceses, as divisões não estavam agrupadas em Corpos de Exército. A infantaria tinha um efectivo idêntico à dos franceses: anglo-lusos contra franceses. A artilharia era quase metade e a cavalaria disponível no Buçaco era francamente inferior da parte dos Aliados: 210 britânicos para franceses.

thumb|direita|200px|Tenente General Sir Arthur Wellesley, Duque de Wellington. Além das forças presentes no Buçaco, Wellington dispunha de várias unidades de cavalaria – 4.369 homens – perto da Mealhada e mais para sul do Rio Alva. Para lá deste rio estavam também estacionadas unidades de infantaria – a divisão portuguesa do Coronel Carlos Frederico Lecor – com um efectivo de homens, além dos efectivos deixados na guarnição de Lisboa e outros pontos do País.

As forças de Wellington tinham a seguinte organização:OMAN, pag. 544 - 548 1ª Divisão – Maj-Gen (local Ten-Gen) Brent Spencer – 7 053 – Constituída por 11 batalhões agrupados em quatro brigadas (Stopford, Blantyre, Löw e Packenham). 2ª Divisão – Maj-Gen Rowland Hill – 10 777 – Constituída por 10 batalhões agrupados em três brigadas (Stewart, Inglis e Catlin Craufurd). Divisão Portuguesa – Maj-Gen John Hamilton – 4 940 - Encontrava-se enquadrada na 2ª Divisão – Constituída por 8 batalhões agrupados em duas brigadas (Archibald Campbell e Fonseca). 3ª Divisão – Maj-Gen Thomas Picton – 4 143 – Constituída por 8 batalhões, dos quais 3 eram portugueses, agrupados e três brigadas (Mackinnon, Lightburn e Champlemond). 4ª Divisão – Maj-Gen Lowry Cole – 7 400 – Constituída por 10 batalhões, dos quais 4 eram portugueses, agrupados em três brigadas (Alexander Campbell, Kemmis e Collins). 5ª Divisão – Maj-Gen James Leith – 7 322 – Constituída por 13 batalhões, dos quais 10 eram portugueses (6 de regimentos de infantaria, 3 da Leal Legião Lusitana e 1 do Regimento de MilíciasVer Tropas Auxiliares e Milícias de Portugal de Tomar), agrupados em duas brigadas (Barnes e Spry). Divisão Ligeira – Brig-Gen Robert Craufurd – 3 787 – Constituída por 6 batalhões, dos quais 2 de Caçadores,Ver Caçador (militar) agrupados em duas brigadas (Beckwith e Barclay). 1ª Brigada Independente Portuguesa – Brig-Gen Denis Pack – 2 769 – Constituída por 5 batalhões sendo 1 de Caçadores. 5ª Brigada Independente Portuguesa – A. Campbell – 3 249 - Constituída por 5 batalhões sendo 1 de Caçadores. 6ª Brigada Independente Portuguesa – Brig-Gen Francis John Coleman – 2 345 - Constituída por 5 batalhões sendo 1 de Caçadores. Cavalaria – 210 sabres de 2 esquadrões do 4th DragoonsDeve ler-se 4º Regimento de Dragões; ver Dragão (militar). Artilharia – Brig Gen Edward Howorth – 2 230 - 60 bocas de fogo de artilharia britânica e portuguesa.

A batalha No dia 21 de Setembro, quando já não havia dúvidas sobre o itinerário das forças invasoras, Wellington escolheu a serra do Buçaco para enfrentar as tropas francesas. A Serra do Buçaco é formada por uma linha de alturas contínua, com quase 15 km de comprimento, com encostas de difícil acesso que, naquela época, estavam cobertas por vegetação baixa (urze e tojo). Na metade Noroeste da serra existe uma área cercada por um muro com 3 metros de altura que inclui o Convento de Santa Cruz do Buçaco. Existiam quatro itinerários para atravessar a Serra do Buçaco: entre Carvalhal (a Este) e Casal (a Oeste) - o itinerário mais próximo do rio Mondego (ver mapa) - entre S. Paulo (a Este) e Palamases (a Oeste), entre Santo António do Cântaro (a Este) e Palheiros (a Oeste) e, mais perto do extremo Noroeste, passando junto à área murada do Convento do Buçaco, o itinerário principal, que liga Mortágua a Coimbra, passando por Moura (a Este). As encostas são íngremes e o terreno muito irregular, cortado por inúmeras ravinas.

thumb|esquerda|400px|Mapa com as posições das unidades no início da Batalha do Buçaco. As posições foram ocupadas na manhã do dia 26. A maior concentração de forças estava na metade esquerda (Norte) do dispositivo. Wellington analisou o terreno e os itinerários e concluiu que este era o sector da posição defensiva que apresentava maior probabilidade de realização do ataque francês. Desta forma, três quintos da posição, a sul, estavam atribuídos a um terço das forças, as divisões de Leith e Hil tendo em atenção que esta última englobava a Divisão Portuguesa de Hamilton. Na zona norte da posição defensiva, com perto de 6,5 km de extensão, concentravam-se dois terços da forças e a zona de principal preocupação era aquela onde passava a estrada de Mortágua para Coimbra. Como termo de comparação poderemos ver que na zona Sul, a mais extensa, estavam posicionados cerca de 2,2 mil homens em cada quilómetro e que, na zona Norte, esse número elevava-se a aproximadamente 5,1 mil homens por quilómetro. A artilharia estava distribuída por toda a frente mas com maior concentração nas zonas consideradas mais prováveis de serem atacadas.

A maior parte das tropas encontravam-se em posições desenfiadas da vista dos franceses e foi esta uma das causas, para além das deficientes acções de reconhecimento, que levaram Massena a considerar estar apenas perante uma guarda de retaguarda, uma força muito inferior ao que era na realidade. Se Wellington necessitasse deslocar tropas de um lado para outro da posição, existia uma estrada, do Convento do Buçaco para Sul, na encosta Leste da Serra, que permitia os movimentos de tropas em segurança.

thumb|direita|300px|Vista atual da região da Serra do Buçaco, vendo-se em primeiro plano o Hotel Palace e o Convento de Santa Cruz no meio da Mata Nacional do Buçaco. Deve ser notado que (com exceção dessa Mata protegida), a flora da região (e consequentemente a paisagem) sofreu profundas alterações durante o século XX e é hoje muito diferente da de 1810. Assim, a vegetação rasteira de urze e tojo que cobria grande parte da Serra foi gradualmente substituída, primeiro por florestas de pinheiro-bravo e, mais tarde, por plantações de eucalipto.

De acordo com o plano francês,OMAN, pag 549. o II CE de Reynier avançava a partir de Santo António para se apoderar do terreno mais elevado antes de se voltar para a direita e atacar as posições sobre a estrada para Coimbra. Enquanto se realizava este envolvimento, o IV CE de Ney atacava a partir de Moura. O VIII CE de Junot era mantido em reserva. Massena, tendo subestimado a força anglo-lusa, avançou com alguma falta de cuidado. Às 5h45 do dia 27, as divisões dos generais Heudelet e Merle (do II CE) apareceram a sair de um denso nevoeiro para atacarem parte da 3ª Divisão de Picton – Brigadas (13) Lightburn, (14) Mackinnon e (15) Champlemond - a partir de Santo António. Merle atingiu o topo da serra mas foi obrigado a recuar devido a uma carga do 88th FootDeve ler-se 88º Regimento de Infantaria de Linha (britânico) da Brigada de Mackinnon. Entretanto Hill e Leith moveram parte das suas divisões para apoiarem Picton e, pelas 6h30, mais dois assaltos franceses tinham sido repelidos com pesadas baixas. Assim, 22 batalhões franceses foram derrotados e o envolvimento planeado por Massena não teve resultado.