thumb|300px|right|Manuscrito original do quarteto A Morte e a Donzela, de The Mary Flagler Cary Music Collection, Morgan Library, Nova Iorque O quarteto de cordas nº 14 em ré menor, conhecido popularmente como A Morte e a Donzela (), de Franz Schubert, é uma importante obra de música de câmara. Composta em 1824, dois anos depois de ter descoberto que contraíra sífilis, Schubert sentia que estava morrendo, por isso, é considerada uma mensagem do compositor.
O quarteto é nomeado pelo tema do seu segundo movimento, andante con moto, o qual Schubert retomou de uma canção, um lied, escrito em 1817 com o mesmo título. É uma das obras-primas do período mais maduro de Schubert, em que a doença, sífilis, já estava em estado avançado, e o compositor estava consciente de sua morte iminente.
A primeira execução foi em 1826 em uma casa privada, e não foi publicado até 1831, três anos após a morte de Schubert. Mesmo assim, o quarteto tornou-se uma obra-prima do repertório de quartetos. Este é o D. 810 no catálogo temático das obras de Franz Schubert de Otto Erich Deutsch.
Composição 1823 e 1824 foram anos difíceis para Schubert. Durante grande parte de 1823 ele esteve doente, a sífilis evoluíra para a infecção terciária, e em maio teve de ser hospitalizado.Brown (1982), p. 38. Em crise, entrou num desastroso acordo com Anton Diabelli para publicar alguns de seus trabalhos, e praticamente não recebeu pagamento. Sua última tentativa em ópera, Fierrabras, foi um fracasso. em uma carta para um amigo, ele escreveu,
No entanto, apesar de sua má saúde, pobreza e depressão, Schubert continuou a revelar a melodiosa, leve e tranquila música que o fez célebre na sociedade vienense: o ciclo de canções Die schöne Müllerin; o octeto para quarteto de cordas, contrabaixo, clarinete, trompa e fagote; mais de 20 músicas, e numerosas peças para pianoBrown (1982). pp.106-158.
Depois de 1820, Schubert voltou a compor quartetos de cordas, que, desde a adolescência, deixara de compor. Ele escreveu o primeiro movimento Quartettsatz em 1820, e o Rosamunde quarteto em 1824 usando um tema da música incidental escrita para uma peça que falhou. Esses quartetos são mais desenvolvidos que as suas primeiras obras. O próprio Schubert reconheceu o fato; em julho de 1824, ele escreveu para seu irmão Ferdinand, "Seria melhor que você se prendesse a outros quartetos que aos meus, pois não há nada neles..."quoted in Griffiths (1983), p. 96. Há várias qualidades que colocam estes quartetos maduros além das tentativas anteriores de Schubert. Nos quartetos iniciais, é o primeiro violino, principalmente, que carrega a melodia, com os outros instrumentos desempenhando papéis de apoio; nos últimos quartetos, a parte escrita é muito mais avançada, e cada instrumento tem sua característica e presença, para uma textura mais complexa e integrada. Além disso, os últimos quartetos são estruturalmente muito mais integrados, com motivos, harmonias, e texturas de uma forma recorrente que colocam a obra inteira num conjunto.Para uma discussão sobre as diferenças entre os primeiros e últimos quartetos, veja Griffiths (1983), p. 95-96, e Cobbett (1929), V II, p. 354.
Além destas melhorias técnicas, nestes trabalhos posteriores Schubert fez do quarteto seu meio próprio. "Ele já tinha deixado de escrever quartetos para o estudo experimental, ou para o círculo familiar", escreve Walter Willson Cobbett. "Para o artista independente... Os quartetos de cordas tinham agora também se tornado um veículo para transportar para o mundo suas lutas internas." Cobbett (1929), Volume II, p. 357 Para Schubert, que viveu uma vida suspensa entre o lírico, romântico, encantador e dramático, caótico e deprimido, o quarteto de cordas ofereceu um meio "de conciliar seus temas essencialmente líricos com seu sentimento de expressão dramática, dentro uma forma que possibilitasse um extremo contraste de cores.", escreve o historiador musical Homer Ulrich.Ulrich (1966), p. 270
Schubert escreveu o Quarteto em Ré Menor em março de 1824,O compositor e editor Franz Lachner erroneamente datou o quarteto em 1826, quando este foi tocado pela primeira vez em público. Brown (1982), p. 41. semanas depois de completar o quarteto em Lá Menor Rosamunde. Ele aparentemente planejava publicar um volume de três quartetos, mas o Rosamunde foi publicado dentro de um ano, enquanto o quarteto em ré menor só foi publicado em 1831, três anos após a morte de Schubert, por DiabelliBrown (1984), p. 72. A versão urtext é publicada por Baerenreiter Verlag. Foi executado pela primeira vez em janeiro de 1826, na casa de Karl e Franz Hacker em Viena, violinistas amadores, aparentemente com Schubert na viola.Berger (2001), p. 183.
Inspiração
A Morte e a Donzela é um motivo comum da arte da Renascença muito utilizado na pintura, se desenvolveu da Dança Macabra, o motivo medieval, assim como outros motivos representando a Morte personificada e impotência humana.
O quarteto leva o nome do lied Der Tod und das Mädchen (A Morte e a Donzela, D.531), que Schubert escreveu em 1817 O tema da canção - uma adaptação de um poema homônimo de Matthias Claudius. O tema do lied é usado no segundo movimento do quarteto. O tema é uma sentença de morte que acompanha a canção sobre o terror e o conforto da morte:
Original em Alemão Tradução para o PortuguêsDas Mädchen: Vorüber! Ach, vorüber! Geh, wilder Knochenmann! Ich bin noch jung! Geh, lieber, Und rühre mich nicht an. Und rühre mich nicht an.
Der Tod:
Gib deine Hand, du schön und zart Gebild! Bin Freund, und komme nicht, zu strafen. Sei gutes Muts! ich bin nicht wild, Sollst sanft in meinen Armen schlafen!A Donzela:
Vá embora! Ah, vá embora! Vá, feroz homem de ossos! Eu ainda sou jovem! Vá, de preferência, E não me toque. E não me toque.
A Morte:
Dê-me sua mão, bela e delicada forma! Sou amigo, e não venho para punir. Tenha bom ânimo! Eu não sou feroz, Tranquilamente você dormirá em meus braços! thumb|130px|right|Der Tod und das Mädchen, Hans Baldung Grien, 1517 Mas não é só este tema do quarteto que evoca a morte. A citação da música "torna explícito o tema dominante do trabalho, sua visão sombria e agourenta quase incessante", escreve Andrew Clements.(2001) Desde a violenta abertura em uníssono. O primeiro movimento executa uma corrida implacável através da dor, terror e resignação, que termina com uma acorde "morrendo" em ré menor. "A luta com a Morte é o tema do primeiro movimento, e o andante consequentemente reside nas palavras da Morte", escreve Cobbett.Cobbett (1929), V II, p. 359 Depois de um movimento scherzo, com um trio que fornece a única pausa lírica do clima deprimente da peça, o quarteto termina com uma tarantella - a dança tradicional para afastar a loucura e a morte. "O finale está mais definitivamente nas características de uma dança da morte; Medonhas visões vertiginosas passadas no ritmo uniformemente inexorável da tarantella", escreve CobbettCobbett (1929), V II, p. 359.
A evolução da sífilis, levou o compositor a um estado de desilusão da vida, esperando pela morte, que viria quatro anos mais tarde. Os anos que se seguiram ao de 1821 foram angustiantes, como o próprio compositor expressou numa carta para seu irmão Ferdinand, em 17 de julho de 1824: "Um período decisivo de reconhecimento de uma realidade miserável, que eu me esforço para embelezar, tanto quanto possível, pela minha imaginação."Hayden, Deborah. "Pox: Genius, Madness, and the Mysteries of Syphilis", Basic Books, NY, 2004
A associação com a morte é tão forte que alguns analistas consideram ser programática, em vez de música absoluta. "O primeiro movimento do Quarteto A Morte e a Donzela de Schubert pode ser interpretado em um estilo quase programático, mesmo que este seja usualmente visto como um trabalho abstrato" escreve Deborah Kessler.Kessler (1997) O teólogo Frank Ruppert vê o quarteto como uma expressão musical dos mitos religiosos Judaico-Cristãos. "Este quarteto, como muitos dos trabalhos de Schubert, é um tipo de para-liturgia" ele escreve, cada movimento é sobre um diferente episódio no processo mítico de morte e ressurreição.Ruppert (2009), p. 213.
Análise O quarteto todo é caracterizado por bruscas mudanças dramáticas de fortissimo para pianissimo, do lírico para o dramático e atraente. tercinas servem de motivos em todos os quatro movimentos.Para mais análises, veja Loft (1992), pp 161–183, Heuss (1919), p. 120 et seq.
O quarteto é formado por quatro movimentos:
Allegro, em Ré Menor e compasso quaternário simples Andante con moto, em Sol Menor em compasso 2/2 Scherzo: Allegro molto, em Ré Menor e compasso 3/4 Presto, em Ré Menor e compasso 6/8
Primeiro movimento: Allegro
Nos 14 compassos de introdução, Schubert estabelece os elementos que estarão presentes por todo o movimento. O qquarteto começa com um uníssono em Ré, tocado em fortissimo, e um tripleto, que estabelece o motivo das tercinas. Três compassos e meios de fortissimo acabam num repentino pianissimo coral, o primeiro das muitas violentas mudanças de dinâmica recorrentes na obra.thumb|right|noicon|90px|Introdução do quarteto.Musical examples are taken from the performance of the Yorkside quartet (Kensho and Kisho Watanabe, Violins, Jonathan Bregman, Viola, Scott McCreary, Cello) at Yale University, 2008.Após a introdução, Schubert apresenta o primeiro tema: uma continuação do motivo coral, mas com os motivos em tripletos nas vozes baixas, num incessável e inquieto fluxo.thumb|noicon|90px|Tema principal do movimentoO motivo de tercinas se transmuta em um tema condutor de si mesmo, levando ao segundo tema em Fá maior.thumb|noicon|90px|Segundo temaA passagem em semicolcheias modula através de uma variedade de tons, até finalmente se decidir em Lá maior, onde continua como um acompanhamento para uma reafirmação do segundo tema no segundo violino. A exposição termina com uma transformação do segundo tema, desta vez transformando-se em uma violenta explosão em Lá menor.thumb|noicon|90px|Segundo tema, com passagem em semicolcheias thumb|noicon|90px|Fim da exposiçãoO desenvolvimento concentra-se nas duas formas do segundo tema: a versão em ritmo tranquilo, e a violenta forma invertida. A seção oscila entre um relaxamento progressivo e fortissimo. Perto do fim do desenvolvimento, Schubert reintroduz o motivo tercina do primeiro tema, levando à recapitulação.thumb|noicon|90px|DesenvolvimentoAqui os temas da abertura retornam, com variantes. A música move-se para Ré maior, para uma recapitulação do segundo tema, em seguida, retorna para Ré menor. Um coral que lembra o da introdução leva à coda. Mas mesmo no coral, a tensão não se desfaz, com um súbito fortepiano interrompendo os trechos de calma. O tema de abertura retorna, tocado num tempo acelerado, como um súbito ressurgimento de vida, crescendo para o clímax que subitamente se rompe e o motivo tercina, tocado no tempo original mais lento, gradualmente desaparece até o fim do movimento .thumb|noicon|90px|Fim do primeiro movimento Segundo movimento: Andante con moto thumb|center|Início do segundo movimento, Andante con moto, famoso tema que dá título à obra