Deus está morto () é uma frase muito citada do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Aparece pela primeira vez em A Gaia CiênciaNIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Lebooks: 2019. , na seção 108 (Novas lutas), na seção 125 (O louco) e uma terceira vez na secção 343 (Sentido da nossa alegria). Uma outra instância da frase, e a principal responsável pela sua popularidade, aparece na principal obra de Nietzsche, Assim falou Zaratustra.NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Martin Claret, 2005

A expressão também é conhecida como a morte de Deus, uma declaração amplamente citada feita pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche e originalmente Hegel. Nietzsche usou a frase para expressar sua ideia de que o Iluminismo havia eliminado a possibilidade da existência de Deus. No entanto, os proponentes da forma mais forte da teologia da Morte de Deus usaram a frase em um sentido literal, significando que o Deus cristão, que existiu em um ponto, deixou de existir.

A frase apareceu pela primeira vez na coleção de Nietzsche, de 1882, na obra do filósofo A Gaia Ciência (Die fröhliche Wissenschaft). No entanto, é mais conhecida por sua associação com Assim falou Zaratustra de Nietzsche (em alemão, Also Sprach Zaratustra), que é o principal responsável por tornar a frase popular. Outros filósofos já haviam discutido o conceito, incluindo Philipp Mainländer e Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

Citações pretéritas Antes de Nietzsche, a frase 'Dieu est mort!' pode ser encontrado no poema de Gérard de Nerval de 1854 "Le Christ aux oliviers" ("Cristo nas oliveiras"). O poema é uma adaptação em um verso de uma visão onírica que aparece no romance Siebenkäs de Jean Paul de 1797, sob o título do capítulo "O Cristo Morto proclama que não existe Deus". Em um discurso que ele fez em 1987 para a Academia Americana de Artes e Ciências, o estudioso literário George Steiner afirma que a formulação de Nietzsche 'Deus está morto' deve à já mencionada visão onírica de 'Cristo morto' de Jean Paul, mas ele não oferece nenhuma evidência concreta de que Nietzsche alguma vez leu Jean Paul.Richter, Jean Paul Friedrich (1897). The Dead Christ Proclaims That There Is No God. Translated by Ewing, Alexander. London: George Bell and Sons.Steiner, George (Nov 1987). "Some Black Holes". Bulletin of the American Academy of Arts and Sciences. 41, 2: 17 – via JSTOR.

A frase também é encontrada em uma passagem expressa por um narrador no romance de Victor Hugo Os miseráveis:Hugo, Victor. Hapgood, Elizabeth (translator). Les Miserables. Volume V - Book First. "The War Between Four Walls", Chapter 20. ISBN 978-1420953268 "Deus está morto, talvez", disse um dia Gérard de Nerval ao escritor dessas linhas, confundindo o progresso com Deus, e tomando a interrupção do movimento pela morte do Ser.

Filosofia alemã

Hegel Discursos de uma "morte de Deus" na cultura alemã aparecem já no século XVII e originalmente se referiam às teorias luteranas de expiação. A frase "Deus está morto" aparece no hino "Ein Trauriger Grabgesang" ("Uma canção triste") de Johann von Rist. Historiadores contemporâneos acreditam que os filósofos idealistas alemães do século XIX, especialmente aqueles associados a Georg Wilhelm Friedrich Hegel, são responsáveis por remover a ressonância especificamente cristã da frase relativa à morte de Jesus Cristo e por associá-la a teorias filosóficas e sociológicas seculares.

Embora a declaração e seu significado sejam atribuídos a Nietzsche, Hegel havia discutido o conceito da morte de Deus em sua Fenomenologia do Espírito, onde ele considera a morte de Deus como "Não deve ser vista como nada, mas uma parte facilmente reconhecida do cristão usual ciclo de redenção". Posteriormente, Hegel escreve sobre a grande dor de saber que Deus está morto "O conceito puro, porém, ou infinito, como o abismo do nada em que afunda todo o ser, deve caracterizar a dor infinita, que antes só existia na cultura historicamente e como o sentimento sobre o qual repousa a religião moderna, o sentimento de que o próprio Deus está morto, (o sentimento que foi proferido por Pascal, embora apenas empiricamente, ao dizer: A natureza é tal que marca em toda parte, dentro e fora do homem, um perdido Deus), puramente como uma fase, mas também não mais do que apenas uma fase, da ideia mais elevada".

O aluno de Hegel, Richard Rothe, em seu texto teológico de 1837 Die Anfänge der christlichen Kirche und ihrer Verfassung (Os primórdios da igreja cristã e sua constituição), parece ser um dos primeiros filósofos a associar a ideia da morte de Deus à teoria sociológica da secularização.

O filósofo alemão Max Stirner escreve em 1844 sobre a morte de Deus e sobre a morte de Deus por humanos durante o Iluminismo em seu livro The Ego and its Own (O Ego e a si Mesmo). Na literatura filosófica, há uma discussão sobre a possível influência de Max Stirner em Nietzsche.Von der Luft, Eric (Apr–Jun 1984). "Sources of Nietzsche's "God is Dead!" and its Meaning for Heidegger". Journal of the History of Ideas (2): 263–276Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1845). Philosophische Abhandlungen. p. 153.Josephson-Storm (2017), pp. 75–6.

Mainländer Antes de Nietzsche, o conceito foi popularizado na filosofia pelo filósofo alemão Philipp Mainländer. Foi durante a leitura de Mainländer que Nietzsche escreveu explicitamente para se separar de Schopenhauer. Na crítica de mais de 200 páginas de Mainländer à metafísica de Schopenhauer, ele argumenta contra uma unidade cósmica por trás do mundo e defende uma multiplicidade real de vontades lutando entre si pela existência. No entanto, a interconexão e o movimento unitário do mundo, que são os motivos que levam os filósofos ao panteísmo, são inegáveis. Eles realmente levam a uma unidade, mas isso pode não ser às custas de uma unidade no mundo que mina a realidade empírica do mundo.Beiser, Frederick C. (2008). Weltschmerz, Pessimism in German Philosophy, 1860-1900. Oxford: Oxford University Press. p. 202. ISBN 0198768710. Batz introduces a very modern and redolent theme: the death of God. He popularized the theme before Nietzsche.Brobjer, Thomas H. (2008). Nietzsche's Philosophical Context: An Intellectual Biography. University Of Illinois Press. p. 149. ISBN 9780252032455. Mainländer, Philipp (1886). Philosophie der Erlösung. Zweiter Band. Zwölf philosophische Essays. pp. 533, 534 Portanto, é declarado morto.Agora temos o direito de dar a este ser o nome bem conhecido que sempre designa o que nenhum poder de imaginação, nenhum voo da fantasia mais ousada, nenhum coração intensamente devoto, nenhum pensamento abstrato por mais profundo que seja, nenhum espírito arrebatado e transportado jamais alcançou: Deus. Mas essa unidade básica pertence ao passado; não é mais. Ao mudar seu ser, ele se despedaçou total e completamente. Deus morreu e sua morte foi a vida do mundo.

Nietzsche A ideia é expressa em Nietzsche da seguinte forma:NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Lebooks: 2019. Deus está morto. Deus permanece morto. E nós o matamos. Como devemos nos consolar, os assassinos de todos os assassinos? O que foi mais sagrado e mais poderoso de tudo o que o mundo já possuiu sangrou até a morte sob nossas facas: quem vai limpar esse sangue de nós? Que água existe para nos limparmos? Que festivais de expiação, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é a grandeza deste feito grande demais para nós? Não devemos nos tornar deuses simplesmente para parecer dignos disso?Mas a passagem mais conhecida encontra-se no final da parte 2 do Prólogo de Zaratustra, onde, após iniciar sua jornada alegórica, Zaratustra encontra um asceta idoso que expressa misantropia e amor a Deus:Ao ouvir essas palavras, Zaratustra saudou o santo e disse: "O que devo ter para lhe dar! Mas deixe-me ir logo, que não recebo nada de você!" E assim se separaram, o velho e Zaratustra, rindo como dois meninos riem. Mas quando Zaratustra estava só, falava assim ao seu coração: "Será possível! Este velho santo não ouviu em sua floresta que Deus está morto!"

Explicação do Conceito Nietzsche usou a frase para resumir o efeito e a consequência que a Idade do Iluminismo teve sobre a centralidade do conceito de Deus na civilização da Europa Ocidental, que tinha um caráter essencialmente cristão desde o Império Romano posterior. O Iluminismo trouxe o triunfo da racionalidade científica sobre a revelação sagrada; o surgimento do materialismo filosófico e do naturalismo que, para todos os efeitos e propósitos, dispensou a crença ou o papel de Deus nos assuntos humanos e no destino do mundo. Nietzsche reconheceu a crise que essa "Morte de Deus" representava para os pressupostos morais existentes na Europa, tal como existiam dentro do contexto da crença cristã tradicional. "Quando alguém desiste da fé cristã, arranca o direito à moralidade cristã de debaixo de seus pés. Esta moralidade não é de forma alguma evidente… Ao quebrar um conceito principal do Cristianismo, a fé em Deus, quebra-se o todo: nada do necessário fica nas mãos”. A certa altura, o filósofo se dirige principalmente a não teístas (especialmente ateus), e declara que o problema é reter qualquer sistema de valores na ausência de uma ordem divina.trans. Walter Kaufmann and R.J. Hollingdale; Twilight of the Idols, Expeditions of an Untimely Man, sect. 5

A conclusão iluminista da "morte de Deus" deu origem à proposição de que os humanos — e a civilização ocidental como um todo — não podiam mais acreditar em uma ordem moral divinamente ordenada. Esta morte de Deus levará, disse Nietzsche, não apenas à rejeição de uma crença de ordem cósmica ou física, mas também à rejeição dos próprios valores absolutos — à rejeição da crença em uma lei moral objetiva e universal, obrigatória para todos os indivíduos. Desse modo, a perda de uma base absoluta para a moralidade leva ao niilismo. Esse niilismo é aquele pelo qual Nietzsche trabalhou para encontrar uma solução reavaliando os fundamentos dos valores humanos.Kaufmann, Walter. Nietzsche: Philosopher, Psychologist, Antichrist. Princeton: Princeton University Press, 1974. ISBN 9780691019833Vahanian, Gabriel. The Death of God; The Culture of Our Post-Christian Era. Franklin Classics, 2018. ISBN 978-0343176594

Nietzsche acreditava que a maioria das pessoas não reconhecia essa morte por medo ou angústia mais arraigados. Portanto, quando a morte começasse a ser amplamente reconhecida, as pessoas se desesperariam e o niilismo se tornaria galopante.