Tute (também chamado tuti ou, em italiano, tutti) é um jogo de cartas de vazas da família ace-ten, originário da Itália, jogado com o baralho espanhol. Ao longo do século XIX o jogo difundiu-se pela Espanha, tornando-se um dos jogos de cartas mais populares do paísHervey, George F.; Parlett, David Sidney. Teach Yourself Card Games. NTC Publishing Group, 1994, p. 53.Arts, Niké. Enciclopedia de los Juegos de Cartas. American Bar Association, 1999, p. 93.. Pode jogar-se a dois, três, quatro ou cinco jogadores, consoante a variante, sendo a modalidade a quatro, em duplas, a mais difundida.
O objetivo do tute é reunir mais pontos («tentos») do que os adversários, quer através das cartas recolhidas nas vazas ganhas, quer através de determinadas combinações de cartas anunciadas (os «cantes»).
História A origem mais direta do tute está nos jogos de vazas surgidos no século XVIII em França e na Alemanha, caracterizados por atribuírem grande valor ao ás e ao 10 (as chamadas brisques) e por conceder um bónus a quem detivesse as duas figuras mais altas (rei e dama). Dessa família fazem parte jogos como o mariage, a brisque, o bésigue, o schnapsen e a belote.
O tute terá nascido em Itália, no final do século XVIII, de onde passou para os centros urbanos espanhóis, vindo a suplantar a manilha como o passatempo de cartas mais popular. O seu nome deriva do italiano tutti («todos»), numa alusão à posse dos quatro reis ou dos quatro cavalosRojo, Guillermo. Verba. Universidade de Santiago de Compostela, vol. 3-4, 1977, pp. 355-357.. Diz-se que o nome terá sido trazido para Espanha por tropas que regressavam de missões em Itália.
A partir de Espanha, o jogo espalhou-se por Cuba, México (onde ficou conhecido por tuti), Colômbia, Peru, Argentina, Marrocos e Argélia, dando origem a variantes regionais, como o tute cabrero e o tute codillo, populares na zona do Rio da Prata, ou o tute cabrón, o tute arrastado e o tute subastado, surgidos em Espanha. Atualmente há campeonatos e jogadores profissionais de tute, sobretudo em Espanha e em Marrocos, onde o jogo convive com outros jogos de vazas tradicionais, como o truco, a bisca e o julepe.
Baralho e valor das cartas O tute joga-se com um baralho espanhol de 40 cartas, divididas em quatro naipes — oros (ouros), espadas (espadas), copas (copas) e bastos (paus) —, dos quais são retirados o 8 e o 9. Nas variantes tute subastado e tute pierde en medio (também chamado tute bastardo ou tute matón) os reis são igualmente retirados do baralho.
A ordem das cartas, da mais alta para a mais baixa, é: ás, 3, rei, cavalo, valete, 7, 6, 5, 4 e 2.
thumb|150px|Os quatro áses, a carta de maior valor
Carta Nome Valor em pontos Ás As 11 3 Tres 10 Rei Rey 4 Cavalo Caballo 3 Valete Sota 2 7, 6, 5, 4, 2 Cartas blancas 0
O somatório do valor de todas as cartas do baralho é de 120 pontos. As cartas sem valor (7, 6, 5, 4 e 2) chamam-se «cartas brancas».
Regras
Tute a dois (tute habanero) thumb|left|150px|Posição da carta de trunfo no baralho, numa partida a dois jogadores Nesta variante, também chamada tute habanero, cada jogador recebe oito cartas e a carta seguinte do monte é virada para determinar o naipe de trunfo, ficando colocada por baixo do monte, na perpendicularMarco, Luis; de Ochoa y Ronna, Eugenio. Repertorio Completo de Todos los Juegos. Bailly-Bailliere e hijos, 1897, p. 10..
Quem não deu as cartas joga a primeira, podendo escolher qualquer carta. O segundo jogador deve, sempre que possível, «acompanhar» o naipe jogado e superá-lo; se não tiver cartas desse naipe mas tiver trunfos, é obrigado a «falhar», isto é, a jogar um trunfo. Só na ausência de cartas do naipe jogado e de trunfos pode jogar livremente qualquer outra carta. A vaza é ganha pelo trunfo mais alto ou, não havendo trunfos em jogo, pela carta mais alta do naipe jogado.
thumb|left|150px|Disposição das cartas numa partida a dois jogadores
O vencedor da vaza recolhe as duas cartas e coloca-as, viradas para baixo, numa pilha própria (a «baza»), que fica fora de jogo até à contagem final. De seguida, o vencedor da vaza compra a primeira carta do monte e o perdedor compra a segunda, mantendo-se assim ambos os jogadores com oito cartas na mão até o monte se esgotar. É depois de ganhar a sua primeira vaza que um jogador passa a poder efetuar «cantes».
Enquanto restarem cartas no monte, quem possuir o 7 de trunfos pode trocá-lo pela carta de trunfo à vista, caso esta seja superior a um 7 (ás, 3, rei, cavalo ou valete); o 7 e as cartas de valor inferior (6, 5 e 4) podem, por sua vez, ser trocados por um 2. Estas trocas são permitidas até restarem apenas duas cartas no monte.
Depois de retiradas as duas últimas cartas do monte (a última carta virada para baixo e a carta de trunfo à vista por baixo desta), deixa de ser possível cantar e os jogadores devem jogar todas as cartas que ainda tiverem na mão até ao final da mão. Terminada a distribuição, contam-se os pontos e as cartas das «bazas» voltam a ser reunidas e baralhadas para a mão seguinte.
Tute em duplas thumb|225px|Disposição dos jogadores numa partida em duplas No tute a quatro, jogado habitualmente em duplas, cada jogador recebe dez cartas, distribuindo-se assim a totalidade do baralho. A última carta distribuída é mostrada aos restantes jogadores e determina o naipe de trunfo, ficando na posse de quem a recebeu. Os quatro jogadores sentam-se em círculo, com os adversários à sua direita e à sua esquerda e o parceiro de equipa à sua frente.
Um jogador abre a vaza com uma carta à sua escolha. Cada jogador seguinte deve, por ordem de prioridade: «acompanhar» o naipe jogado com uma carta superior, se a tiver; não a tendo, acompanhar o naipe com uma carta inferior; não tendo cartas do naipe jogado, jogar um trunfo; e, na falta de trunfos, jogar livremente qualquer carta. Ganha a vaza a carta de trunfo mais alta ou, não havendo trunfos, a carta mais alta do naipe de saída; as cartas dos outros naipes perdem sempre. A dupla vencedora recolhe as quatro cartas para a sua «baza».
Os cantes seguem regras semelhantes às do tute a dois, mas só a dupla que ganhou a vaza os pode anunciar, sendo obrigatório fazê-lo logo após ganhar a primeira vaza; para que a dupla adversária possa cantar, terá de ser ela a abrir uma vaza. Terminada a distribuição de todas as cartas, procede-se à contagem de pontos e as cartas das «bazas» voltam a ser reunidas para a mão seguinte, cabendo a distribuição, em rotação anti-horária, ao jogador seguinte.
Tute a três Na modalidade a três jogadores, distribuem-se todas as cartas exceto uma, que fica de trunfo sobre a mesa sem entrar em jogo (salvo exceções previstas em certas variantes). Cada jogador fica com treze cartas, sendo obrigatório, ao longo de toda a partida, «acompanhar» o naipe, superá-lo, «falhar» ou «pisar» um trunfo já jogado, consoante o caso. Neste modo é comum contabilizar-se antes as partidas perdidas do que as ganhas, vencendo quem primeiro acumular menos derrotas.
Cantes (declarações) thumb|Combinação que dá, consoante o naipe de trunfo, 20 ou 40 pontos adicionais Um jogador ou uma dupla que tenha ganho pelo menos uma vaza adquire o direito de anunciar, ou «cantar», certas combinações de cartas que valem pontos extra:
Cante Cartas necessárias Pontos Las cuarenta («as quarenta») Rei e cavalo do naipe de trunfo 40 Veinte («as vinte») Rei e cavalo de outro naipe 20 Tute Os quatro reis ou os quatro cavalos Vitória imediata da mão
thumb|left|Tute de reis: os quatro reis reunidos
Quem reunir os quatro reis, ou os quatro cavalos, pode cantar «tute», terminando de imediato a mão a seu favor. Havendo mais de um cante possível, deve anunciar-se primeiro o de maior valor — as quarenta antes das vinte —, embora seja possível anunciar mais do que um cante de naipes diferentes ao longo da partida, um por cada vaza ganha. No tute em duplas ou a três, o cante deve ser feito logo na primeira vaza ganha em que as cartas estejam reunidas, sob pena de se perder o direito de o anunciar; no tute a dois, pode cantar-se enquanto houver cartas por comprar no monte.
Quem ganha a última vaza da mão recebe ainda um bónus de dez pontos, chamado «as dez de últimas» ou «as dez do monte».
Pontuação A pontuação de cada mão resulta da soma do valor das cartas recolhidas nas «bazas», dos pontos dos cantes anunciados e do bónus de dez pontos pela última vaza. Como o total de pontos em jogo nas cartas é de 120, o valor máximo teórico de uma mão (incluindo cantes e o bónus final) pode ultrapassar largamente esse número.
Para vencer uma mão é geralmente necessário ultrapassar os 65 pontos; em caso de empate a 65, vence quem tiver feito a última vaza ou, segundo outras regras, o jogador seguinte a quem distribuiu as cartas. Uma partida joga-se por «jogos», vencendo o jogador ou dupla que primeiro atingir um determinado número de jogos ganhos — geralmente três ou seis, embora também se jogue até oito, dez ou doze, consoante a região ou o costume dos jogadores. Quando uma dupla ultrapassa os 101 ou os 121 pontos numa só mão, é comum considerar-se que ganhou dois jogos de uma só vez.
Outras convenções do jogo Arrastar: jogar sistematicamente cartas do naipe de trunfo para esgotar esse naipe nas mãos dos adversários e forçá-los a «falhar» (a jogar cartas de outros naipes) mais tarde. Carregar: em jogo de duplas, descartar deliberadamente uma carta de valor (por exemplo, um 3) numa vaza que já se sabe ganha pelo parceiro, assegurando assim os respetivos pontos. Renúncio: falta cometida por um jogador que não cumpre a obrigação de «acompanhar», superar, «falhar» ou «pisar» quando lhe era possível fazê-lo; comprovado o renúncio, a dupla ofendida ganha dois jogos. Deitar fora as cartas («tirar las cartas»): em algumas variantes, um jogador com uma mão muito fraca pode desistir da distribuição em curso, cabendo nova distribuição ao mesmo jogador que já tinha dado as cartas.
Variantes Além das formas clássicas a dois, a três e a quatro jogadores, existem diversas variantes regionais do tute, entre as quais: Tute corrente (ou original) Tute habanero (a dois jogadores) Tute arrastado (ou indómito) Tute subastado (ou de remate) Tute gana-pierde Tute pierde en medio (também chamado tute bastardo, tute matón ou tute cabrón) Tute cabrero (ou «más y menos») Tute codillo Tute americano
Ver também Brisca Guinhote Mus (jogo de cartas)
Referências
Bibliografia Álvarez Fernández-Novo, Fernando. Vocabulariu de Riosa. Academia Llingua Asturiana, 1998. ISBN 978-84-8168-114-7. Arts, Niké. Enciclopedia de los Juegos de Cartas. American Bar Association, 1999. ISBN 978-84-7927-351-4. Cambas, Manuel Rivera. México Pintoresco, Artístico y Monumental. Vol. 3. México: Reforma, 1883. Editorial Paidotribo (coord.). Enciclopedia de los Juegos: Las Reglas de 500 Juegos. Editorial Paidotribo, 2003. ISBN 978-84-8019-717-5. Farina, Giampiero; Lamberto, Alessandro. Enciclopedia Delle Carte. La Teoria e la Pratica di Oltre 1000 Giochi. Hoepli Editore, 2006. ISBN 978-88-203-3672-1. Hervey, George F.; Parlett, David Sidney. Teach Yourself Card Games. NTC Publishing Group, 1994. ISBN 978-0-8442-3685-8. Kany, Charles Emil. Fiestas y Costumbres Españolas. George Harrap, 1929. Marco, Luis; de Ochoa y Ronna, Eugenio. Repertorio Completo de Todos los Juegos. Bailly-Bailliere e hijos, 1897. Rojo, Guillermo. Verba. Universidade de Santiago de Compostela, vol. 3-4, 1977. Román y Salamero, Constantino; Kron, Richard. El Castellano Actual. Bielefeld, 1911.
Ligações externas
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