Chandrasekhara Venkata Raman (pronúncia em inglês: /ˈrɑːmən/; IAST: Candraśēkhara Veṅkaṭarāmaṉ; 7 de novembro de 1888 – 21 de novembro de 1970) foi um físico indiano que trabalhou com o espalhamento da luz. Com um espectrógrafo que desenvolveu, Raman e seu aluno K. S. Krishnan descobriram que, quando a luz atravessa um material transparente, a luz desviada muda de comprimento de onda. O fenômeno, um tipo até então desconhecido de espalhamento da luz que eles chamaram de "espalhamento modificado", recebeu depois os nomes de efeito Raman e espalhamento Raman. Em 1930, Raman recebeu o Nobel de Física "por seu trabalho sobre o espalhamento da luz e pela descoberta do efeito que leva seu nome" e tornou-se o primeiro asiático e a primeira pessoa não branca a receber um Nobel de Física.
Nascido no atual estado indiano de Tamil Nadu, Raman foi uma criança precoce. Concluiu os ensinos secundário e secundário superior na St Aloysius' Anglo-Indian High School aos 11 e 13 anos, respectivamente. Aos 16 anos, ficou em primeiro lugar no exame de bacharelado da Universidade de Madras, com honras em física pelo Presidency College. Seu primeiro artigo científico, sobre difração da luz, foi publicado em 1906, quando ainda era estudante de pós-graduação. No ano seguinte, obteve o mestrado. Aos 19 anos, ingressou no Indian Finance Service em Calcutá como assistente do contador-geral. Na cidade, conheceu a Indian Association for the Cultivation of Science (IACS), o primeiro instituto de pesquisa da Índia, onde pôde fazer pesquisas independentes e desenvolveu parte de seus trabalhos em acústica e óptica.
Em 1917, Raman foi nomeado o primeiro professor Palit de Física por Ashutosh Mukherjee no Rajabazar Science College, da Universidade de Calcutá. Em sua primeira viagem à Europa, a visão do mar Mediterrâneo levou-o a questionar a explicação então aceita para a cor azul do mar, atribuída à luz do céu refletida após o espalhamento de Rayleigh. Em 1926, fundou o Indian Journal of Physics. Mudou-se para Bangalore em 1933 e tornou-se o primeiro diretor indiano do Instituto Indiano de Ciências. No mesmo ano, fundou a Indian Academy of Sciences. Em 1948, criou o Raman Research Institute, onde trabalhou até os últimos dias de vida. Era tio do também laureado com o Nobel Subrahmanyan Chandrasekhar.
O efeito Raman foi descoberto em 28 de fevereiro de 1928. A data é comemorada anualmente pelo governo da Índia como o Dia Nacional da Ciência.
Primeiros anos e formação Chandrasekhara Venkata Raman nasceu em 7 de novembro de 1888 em Tiruchirappalli, na Índia. Seus pais eram R. Chandrasekhar Iyer e Parvathi Ammal. Era o segundo dos oito filhos do casal. O pai lecionava em uma escola secundária local e recebia um salário modesto. Raman recordou: "Nasci com uma colher de cobre na boca. Quando nasci, meu pai recebia o magnífico salário de dez rúpias por mês!" Em 1892, a família mudou-se para Visakhapatnam, em Andhra Pradesh, porque seu pai foi nomeado professor de física no Mrs A. V. Narasimha Rao College.
Raman estudou na St Aloysius' Anglo-Indian High School, em Visakhapatnam. Passou no exame de matrícula aos 11 anos e, aos 13, no First Examination in Arts, equivalente a um curso pré-universitário, recebendo uma bolsa de estudos. Ficou em primeiro lugar nos dois exames do conselho escolar de Andhra Pradesh.
Em 1902, Raman ingressou no Presidency College, em Madras, atual Chennai, para onde seu pai havia sido transferido para ensinar matemática e física."This Month in Physics History February 1928: Raman scattering discovered". APS News, fevereiro de 2009, vol. 18, n.º 2. Arquivado em 23 de maio de 2013. Em 1904, obteve um B.A. pela Universidade de Madras, ficando em primeiro lugar e recebendo medalhas de ouro em física e inglês. Aos 18 anos, ainda estudante, publicou seu primeiro artigo científico, "Unsymmetrical diffraction bands due to a rectangular aperture", na revista britânica Philosophical Magazine, em 1906. Em 1907, concluiu um M.A. pela mesma universidade com a distinção máxima."The Nobel Prize in Physics 1930 Sir Venkata Raman". Nobelprize.org. Arquivado em 27 de fevereiro de 2019. Seu segundo artigo na mesma revista naquele ano tratava da tensão superficial dos líquidos. Foi publicado junto de um artigo de Lord Rayleigh sobre a sensibilidade do ouvido ao som. A partir daí, Rayleigh passou a se corresponder com Raman, tratando-o, por cortesia, como "Professor".
Ciente da capacidade de Raman, seu professor de física Rhishard Llewellyn Jones insistiu para que continuasse a pesquisa na Inglaterra. Jones providenciou um exame médico com o coronel Sir Gerald Giffard. Raman costumava ter saúde frágil e era considerado fisicamente "fraco". O exame concluiu que ele não suportaria o clima rigoroso da Inglaterra. Raman recordaria mais tarde: "[Giffard] examinou-me e certificou que eu morreria de tuberculose (...) se fosse para a Inglaterra".
Carreira O irmão mais velho de Raman, C. Subrahmanya Ayyar, havia ingressado no Indian Finance Service, serviço público do governo indiano que corresponde ao atual Indian Audit and Accounts Service. Raman seguiu o mesmo caminho e ficou em primeiro lugar no exame de admissão do serviço em fevereiro de 1907. Em junho daquele ano, foi designado assistente do contador-geral em Calcutá.
Raman ficou profundamente interessado na Indian Association for the Cultivation of Science (IACS), fundada em Calcutá em 1876 e primeiro instituto de pesquisa da Índia. Logo fez amizade com Asutosh Dey, que se tornaria seu colaborador por toda a vida, Amrita Lal Sircar, filho do fundador Mahendralal Sarkar e então secretário da IACS, e Ashutosh Mukherjee, membro da direção da associação e vice-chanceler da Universidade de Calcutá. Com o apoio deles, recebeu permissão para fazer pesquisas na IACS em seu tempo livre, até mesmo em "horários muito incomuns", como recordaria depois. O instituto ainda não possuía pesquisadores regulares nem havia publicado artigos científicos. O artigo de Raman "Newton's rings in polarised light", publicado na Nature em 1907, foi o primeiro trabalho proveniente da instituição. O trabalho levou a IACS a criar, em 1909, o Bulletin of Indian Association for the Cultivation of Science, do qual Raman foi o principal colaborador.
Em 1909, Raman foi transferido para Rangum, na Birmânia Britânica, atual Mianmar, onde assumiu o cargo de funcionário da moeda. Poucos meses depois, precisou voltar a Madras devido à doença e morte de seu pai. O falecimento e os rituais funerários fizeram com que permanecesse ali pelo resto do ano. Pouco depois de retomar o cargo em Rangum, foi transferido para Nagpur, em Maharashtra, em 1910. Antes de completar um ano em Nagpur, foi promovido a contador-geral em 1911 e novamente enviado para Calcutá.
A partir de 1915, a Universidade de Calcutá passou a encaminhar pesquisadores para trabalhar sob a orientação de Raman na IACS. Sudhangsu Kumar Banerji, mais tarde diretor-geral de observatórios do Departamento Meteorológico da Índia, foi seu primeiro aluno de doutorado. No ano seguinte, outras universidades passaram a fazer o mesmo, entre elas as universidades de Allahabad, Rangum e Madras, o Queen's College de Indore, o Institute of Science de Nagpur e o Krishnath College. Em 1919, Raman já havia orientado mais de uma dezena de estudantes. Após a morte de Sircar em 1919, Raman recebeu dois cargos honorários na IACS, professor honorário e secretário honorário. Ele chamaria esse período de "era de ouro" de sua vida.
Raman foi escolhido pela Universidade de Calcutá para ocupar a cátedra Palit de Física, criada em homenagem ao benfeitor Sir Taraknath Palit em 1913. O senado da universidade fez a nomeação em 30 de janeiro de 1914, como consta na ata da reunião:
"As seguintes nomeações para as cátedras Palit foram feitas na reunião do Senado de 30 de janeiro de 1914: Dr. P. C. Ray e Sr. C. V. Raman, MA... A nomeação de cada professor será permanente. O professor deixará o cargo ao completar sessenta anos de idade."
Antes de 1914, Ashutosh Mukherjee havia convidado Jagadish Chandra Bose para o cargo, mas Bose recusou. Raman, segunda opção, tornou-se o primeiro professor Palit de Física, embora sua posse tenha sido adiada pela Primeira Guerra Mundial. Só em 1917, ao ingressar no Rajabazar Science College, campus criado pela Universidade de Calcutá em 1914, passou a exercer plenamente a função de professor. Deixou com relutância o serviço público depois de uma década. A decisão foi chamada de "sacrifício supremo", pois o salário de professor era aproximadamente metade do que recebia. As condições do cargo, porém, favoreciam suas pesquisas. O relatório de sua entrada na universidade dizia:
"O Sr. C. V. Raman aceita a cátedra Sir T. N. Palit sob a condição de não ser obrigado a sair da Índia... Registra-se que o Sr. C. V. Raman assumiu o cargo de professor Palit de Física em 2.7.17... O Sr. Raman informou que não deverá ser obrigado a exercer atividades de ensino nas turmas de MA e MSc em prejuízo de suas próprias pesquisas ou da assistência a estudantes avançados em suas pesquisas."
A nomeação de Raman encontrou forte oposição de alguns membros do senado da Universidade de Calcutá, em especial estrangeiros, porque ele não possuía doutorado e nunca havia estudado no exterior. Em resposta, Ashutosh Mukherjee providenciou um doutorado honorário em ciências, conferido pela universidade em 1921. No mesmo ano, Raman visitou Oxford para dar uma palestra no Congresso das Universidades do Império Britânico. Seus anfitriões incluíam os laureados com o Nobel J. J. Thomson e Ernest Rutherford. Quando Raman foi eleito membro da Royal Society em 1924, Mukherjee perguntou-lhe sobre seus planos para o futuro. Raman respondeu: "O Prêmio Nobel, é claro". Em 1926, fundou o Indian Journal of Physics e tornou-se seu primeiro editor. O segundo volume publicou seu artigo "A new radiation", no qual apresentou a descoberta do efeito Raman.
Raman foi sucedido por Debendra Mohan Bose na cátedra Palit em 1932. Após ser nomeado diretor do Instituto Indiano de Ciências em Bangalore, deixou Calcutá em 1933. O marajá Krishnaraja Wadiyar IV, Jamsetji Tata e o nizam de Hyderabad, Sir Mir Osman Ali Khan, haviam doado terras e recursos para o instituto. O vice-rei da Índia, Lord Minto, aprovou sua criação em 1909, e o governo britânico nomeou Morris Travers como primeiro diretor. Raman tornou-se o quarto diretor e o primeiro indiano a ocupar o cargo. Durante sua gestão, recrutou G. N. Ramachandran, que mais tarde se dedicou à cristalografia de raios X. Em 1934, fundou a Indian Academy of Sciences e iniciou a publicação de seu periódico, Proceedings of the Indian Academy of Sciences, mais tarde dividido em Proceedings - Mathematical Sciences, Journal of Chemical Sciences e Journal of Earth System Science. Por volta da mesma época foi criada a Calcutta Physical Society, cuja ideia Raman havia apresentado já em 1917.
Com seu antigo aluno Panchapakesa Krishnamurti, Raman criou em 1943 a Travancore Chemical and Manufacturing Co. Ltd. Rebatizada TCM Limited em 1996, a empresa esteve entre as primeiras fabricantes indianas de produtos químicos orgânicos e inorgânicos. Em 1947, o novo governo da Índia independente nomeou Raman o primeiro Professor Nacional.
Raman aposentou-se do Instituto Indiano de Ciências em 1948 e criou o Raman Research Institute em Bangalore no ano seguinte. Foi seu diretor e permaneceu ativo no instituto até morrer, em 1970.
Trabalhos científicos
miniatura|300px|Diagrama de níveis de energia que mostra os estados envolvidos no sinal Raman
miniatura|300px|Raman na cerimônia do Prêmio Nobel de 1930 com outros laureados. Da esquerda para a direita: C. V. Raman, física, Hans Fischer, química, Karl Landsteiner, medicina, e Sinclair Lewis, literatura
Som musical