Houmt Souk ou Houmet Souk (; literalmente: "vizinhança do mercado") é a maior localidade e capital de facto da ilha de Djerba, no sudeste da Tunísia. É igualmente a capital da delegação (espécie de distrito ou grande município) homónima, a qual faz parte, como toda a ilha, da província (gouvernorat) de Médenine. Em 2004 a delegação tinha habitantes, dos quais viviam na cidade. Os seus habitantes são chamados localmente Souaga (plural de Sougui).
Situa-se junto à costa norte da ilha, a cerca de 20 km dos dois pontos de ligação com o continente, Ajim a sudoeste (ligação por ferryboat), e El Kantara a sudeste (ligação pelo pontão conhecido como calçada romana devido à sua antiguidade).
Geografia Localização Houmt Souk situa-se numa planície da costa norte da ilha desprovida de cursos de água. O lençol freático é de água salobra, o que é patente nos poços artesianos escavados durante o protetorado francês. Entre estes destaca-se o de Bir Erroumi, com 767 metros de profundidade, cuja água é quente e ferruginosa.
A cidade está dividida em quatro setores (municípios menores): Taourit, Essouani, Boumellel e Ejjouamaâ, sendo os restantes setores da delegação Mellita, Hachène, Fatou, Mezraya, Cedghiane, Erriadh e Oualegh. Taourit e Essouani constituem a parte norte da cidade, sendo a parte sul constituída por Boumellel e Ejjouamaâ. A parte mais comercial da cidade encontra-se no ponto comum entre os quatro setores.
O mar Mediterrâneo banha a cidade a norte. A profundidade marinha ao largo de Houm Souk é muito pequena, só atingindo os cinco metros a nove quilómetros da costa. A amplitude das marés é de .
Clima O clima é do tipo mediterrânico, temperado, com tendência para semiárido, beneficiando duma brisa marítima que atenua as latas temperaturas no verão. A precipitação média anual é de cerca de . Durante a primavera pode ser ventosa.
Demografia Houmt Souk é a localidade com mais população de Djerba, onde habitam mais de um terço da população da ilha. Ao contrário do que acontece no resto da ilha (de forma ainda mais acentuada no passado), onde o povoamento é disperso, a densidade populacional na capital é muito elevada: em 1956 era já , quando a média da ilha era de e a do resto da Tunísia ; em 1995 ascendia a , contra da média de Djerba e a média nacional.
thumb|left|Rua de Houmt Souk
Durante muito tempo viveram lado a lado em Houmt Souk malteses, italianos, gregos, judeus, árabes, berberes. À miscelânea étnica juntava-se a miscelânea religiosa — cristãos católicos e ortodoxos gregos, judeus e muçulmanos (os árabes e berberes, maioritariamente sunitas maliquitas, mas também ibaditas). Apesar da proximidade física, não havia muito contacto social entre as diferentes comunidades; até à independência da Tunísia nos anos 1950, o Grande Hotel, já desaparecido atualmente, era um dos únicos locais onde os quadros da cidade se encontravam.
Os malteses tinham o seu bairro de funduques no centro da cidade, enquanto que os gregos tinham o seu café, o Fatala, onde até 1950 se encontrava um retrato do rei . A partir dos anos 1950 e 1960, um movimento migratório dirigido essencialmente para França reduziu significativamente o número de habitantes judeus e europeus de Houmt Souk. Por outro lado, ao contrário do que se passa noutras localidades da ilha, o número de habitantes berberofones ibaditas é muito reduzido na cidade. Em Hara Kbira, um bairro periférico de densidade muito elevada, outrora exclusivamente judeu, viviam milhares de judeus. Este bairro assistiu à instalação de muitas famílias muçulmanas provenientes do sul tunisino após a partida das famílias judias, sobretudo depois da década de 1960.
Todavia, a população da cidade aumentou consideravelmente no final dos anos 1970 e no início dos anos 1980, na sequência do desenvolvimento turístico e da chegada de gente vinda do continente à procura de emprego.
História thumb|Gravura de 1841 do Borje Alquibir
A localidade de Houmt Souk terá surgido no final no , depois da construção pelos Haféssidas o forte Borje Alquibir, depois da expulsão das tropas de . No entanto, é provável que se tenha desenvolvido no mesmo local duma antiga cidade romana chamada Gerba ou Girba, que também era um porto e que no era a maior povoação de Djerba a par de Meninx, no sudeste da ilha.
Segundo Kamel Tmarzizet, a Tabula Peutingeriana, o mapa viário do Império Romano, situa Girba no norte da ilha, e o historiador latino Sexto Aurélio Vítor relata que «a cidade de Girba teve a honra de dar à luz dois imperadores romanos, Galo e Volusiano; os quais tiveram um reinado bastante efémero em 251 e » Tmarzizet acrescenta que textos das atas dos concílios de Cartago, redigidos por autores latinos, revelam que Girba era a sede de uma diocese e que o seu bispo participou no concílio de Cartago de 256 e que o bispo Vincêncio representou todo o sul tunisino no concílio de 525.
Na Idade Média, viajantes árabes relataram que «a cidade de Girba era uma localidade morta, completamente deserta de população mas num estado de conservação relativamente bom. Atrás das suas muralhas, ainda se podem ver casas, monumentos e templos de aspeto magnífico e resplandecente.» Esta descrição é confirmada pelo historiador e testemunha ocular Et-Tijani, no início do , que relata que a localização de Girba corresponde à atual Houmt Souk. Ele diz que se «trata duma antiga cidade cujos monumentos, muralhas e obras de arte são construídas em pedra de bela construção». Durante as escavações levadas a cabo no Borje Alquibir em 1975 foi desenterrada uma estela em mármore branco com uma dedicatória a um imperador. Trata-se duma prova da localização da cidade e da existência dum república nessa época. Girba terá sido testemunha duma série de civilizações: númida, cartaginesa, romana, vândala, etc.
esquerda|thumb|Mapa da batalha de Djerba, travada ao largo de Houmt Souk
Os corsários e piratas fizeram do Borje Alquibir o seu reduto durante vários séculos; é por isso que a famosa batalha de Djerba foi travada em 1560 a norte desse local. No , o viajante Anselme Adorne fala da sua população e das suas casas quadradas rodeadas pomares férteis. Cerca de 1550, Leão, o Africano descreve Houmt Souk nos seguintes termos:
Houmt Souk é então já um centro de comércio dinâmico antes de se tornar um centro urbano importante.
thumb|Um funduque (versão magrebina dos caravançarais) de Houmt Souk em 1960
As tropas francesas que tomaram a ilha de Djerba no início do protetorado francês instalaram-se no Borje Alquibir de Houmt Souk a 28 de julho de 1881. A administração colonial francesa dividiu administrativamente Djerba em doze xecados; Houmt Souk foi então a sede do xecado de Taurite e em dezembro de 1887 torna-se a capital administrativa de Djerba. As tropas francesas só abandonaram o Borje Alquibir em 1903, quando a posse do forte passou para as autoridades tunisinas, depois de em 1890 a administração deixar de ser dos militares para passar a ser civil.
Em 1956, quando a Tunísia se torna independente, Houmt Souk passa a ser a sede da única delegação (distrito ou grande município) de Djerba. A circunscrição de Houmt Souk foi criada a 4 de março de 1977 e o município de Djerba-Houmt Souk a 8 de abril de 1985, quando foram criadas duas delegações adicionais na ilha: Midoun e Ajim. A 8 de fevereiro desse mesmo ano foram também criados dois municípios. Até 14 de janeiro de 2011, o prefeito de Houmt Souk foi Hichem Bessi.
Arquitetura e urbanismo thumb|left|Rua com arcadas
left|thumb|Varandas de madeira em Houmt Souk
A arquitetura da cidade apresenta por vezes algumas diferenças em relação à do resto da ilha, em grande medida devido à maior densidade populacional (650 habitantes por km² contra no resto da ilha e a nível nacional). O típico menzel nem sempre é a norma em Houmt Souk e as construções encontram-se por vezes coladas umas às outras. Porém, o conceito do houch (unidades habitacionais) abrindo-se para um pátio interior é geralmente respeitado nas casas e funduques (versão magrebina dos caravançarais, pousadas ou unidades de tipo hoteleiro para mercadores). A partir dos anos 1950 começou a ser adotada um novo estilo arquitetónico, sem pátio interior, que desde então não parou de se expandir. O mesmo se passa com as típicas cúpulas e semi-abóbadas, antigamente sistemáticas, mas que têm vindo a ser substituídas nas novas construções por coberturas planas. No entanto, as cores dominantes continuam a ser o branco para a alvenaria e o azul celeste para as portas e janelas. As construções são em geral harmoniosas e conservam um certo encanto.
A zona comercial da cidade tem duas artérias principais e diversos pequenos espaços ligados entre eles por passagens com abóbadas e arcadas (bortais), bem como soco (souks) igualmente cobertos por arcadas em abóbada, como por exemplo o mercado central, construído nos anos 1960, e o Soco de Errbaâ, muito mais antigo. Este último tem duas ruas perpendiculares cobertas onde antigamente cada grupo de artesãos (sapateiros, costureiros, fabricantes de chéchias [chapéus], etc.) tinha o seu lugar próprio. Atualmente é sobretudo um conjunto de pequenas lojas que vendem principalmente artesanato. Ao lado do Soco de Errbaâ encontra-se o soco dos ourives.
A cidade ainda tem alguns funduques, a maior parte deles construídos entre os séculos XVI e XIX, quando se desenvolveu o comércio, e que foram mencionados por Leão, o Africano em meados do :
Os funduques seguem o mesmo esquema arquitetónico das restantes casas: um pátio interior, geralmente quadrado, e uma sucessão de lojas no rés de chão com uma porta com uma fechadura sólida, por vezes iluminadas por uma lucarna em cima, onde os comerciantes armazenam os seus bens. O pátio acolhia as bestas de carga, as carroças e outros equipamentos. O primeiro andar, acessível por uma única escadaria, é constituído por uma galeria suportada por colunas e arcos, que dá acesso às portas dos quartos ou de armazéns. Na sua maioria situados no centro da cidade, alguns dos antigos funduques foram transformados em hotéis, pousadas de juventude, pequenos centros comerciais para turistas, centros de tecelagem e outras atividades artesanais.
O amã Sidi Braim, também chamado hamame El Baruni, é um banho turco que remonta ao , que foi renovado por diversas vezes e que ainda é usado atualmente. Em Houmt Souk, os amãs estão abertos para os homens de manhã e para as mulheres à tarde.
thumb|Esplanada no centro da cidade
As antigas padarias e sobretudo as oficinas de tecelagem (cuja arquitetura é característica em Djerba), com as suas semi-abóbadas e o frontão triangular de estilo grego, bem como os antigos poços, com as suas grandes alas, que serviam para irrigar os campos de cevada, sorgo e lentilhas têm também uma arquitetura típica.
A cidade conserva ainda alguns monumentos de estilo colonial, como o centro cultural Feride Gazi e o posto de correios.
Como a cidade nasceu antes de tudo como um centro de comércio, de onde lhe vem o nome, que significa literalmente "localidade do mercado", este último encontra-se no centro e está rodeado dos quarteirões residenciais. Com a urbanização devida ao aumento do número de habitantes, impulsionada principalmente pelo desenvolvimento do turismo, os bairros residenciais aproximaram-se cada vez mais do centro comercial e em algumas partes da cidades já se confundem com ele. A zona costeira, outrora deserta, é cada vez mais urbanizada e as ruelas "poeirentas" são cada vez mais substituídas por vias asfaltadas.
Edifícios religiosos Mesquitas e zauias esquerda|thumb|Jemaâ Ettrouk (mesquita dos Turcos)