João Francisco dos Santos (Glória do Goitá, 25 de fevereiro de 1900 — Rio de Janeiro, 12 de abril de 1976), conhecido como Madame Satã, foi um transformista brasileiro, uma figura emblemática e uma das personagens mais representativas da vida noturna e marginal da Lapa carioca na primeira metade do século XX.
Nascido em Glória do Goitá, um município na Zona da Mata pernambucana, João Francisco mudou-se para o bairro da Lapa, no Rio de Janeiro – que na época passava por um processo de transformação e gentrificação – aos treze anos, onde viveu como criança de rua até conseguir um emprego como vendedor ambulante de pratos e panelas de alumínio.
Foi em sua juventude na Lapa que João aprendeu a ser segurança, garçom, cozinheiro, capoeirista, vindo a ser posteriormente um criminoso. Porém, desde que conseguiu entrar para o teatro, João afastou-se da vida boêmia do bairro que tanto conhecia. Em uma noite de 1928, quando voltava do trabalho, João resolveu jantar em um boteco – local onde encontrou Alberto, um vigilante noturno. O transformista, após ser provocado pelo vigia, pegou uma pistola e atirou no guarda. João foi condenado e passou dois anos e três meses na prisão de Ilha Grande. Depois de ser preso, João deixou a carreira de artista e passou a viver na marginalidade.
Cerca de dois anos depois, João Francisco foi absolvido de sua pena ao alegar legítima defesa. Apesar da absolvição, a vida do transformista foi marcada por outros 29 processos – 3 homicídios, 13 agressões, 2 furtos, 3 desacatos, 4 resistências a prisão, 1 ultraje ao pudor e 1 porte de arma, entre outros. Nos processos em que foi indiciado, João foi condenado em dez, passando um total de 27 anos e 8 meses de sua vida, intercalados, na prisão. Com sua larga ficha criminal, João Francisco era um alvo fácil para os policiais.
A famosa alcunha, Madame Satã, foi atribuída a João Francisco apenas no carnaval de 1938. Neste ano, o transformista desfilou pela primeira vez, trajando uma fantasia dourada – inspirada num morcego típico de sua cidade natal. João garantiu o primeiro lugar do concurso e, após a festa terminar, ele e seus amigos foram levados para a delegacia. Porém, antes de serem soltos, o delegado exigiu saber o nome de cada suspeito. João recusou-se a falar e foi apelidado pelo delegado de Madame Satã, que o reconheceu como o vencedor do concurso.
Assumidamente homossexual, João Francisco casou-se com uma mulher aos 34 anos e, com Maria Faissal, criou e educou os seus seis filhos de criação. Em fevereiro de 1976, João foi encontrado internado em um hospital em Angra dos Reis, no sul fluminense. Dois meses depois, o transformista morreu, aos 76 anos, devido a um câncer pulmonar.
Início de vida Nascido em 1900, no interior de Pernambuco, João Francisco dos Santos é filho de Manuel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição, ambos descendentes de africanos escravizados. O ano do nascimento de João Francisco é um mistério. De acordo com o registro civil, o nascimento do menino foi datado no ano de 1903, porém, naquela época, o registro não era garantia de exatidão. Devido a esse problema, Madame Satã adotou a data 25 de fevereiro de 1900 como a data efetiva de seu nascimento. Apesar das condições de vida adversas, a família – formada por mãe, pai e dezoito filhos – viveu bem durante alguns anos. Em 1907, o pai de João Francisco morreu, deixando a família em uma situação precária. Frente a esse cenário, Firmina Teresa, mãe do menino, decidiu trocar João por uma égua.
A troca foi feita e Laureano, o negociante de cavalos que havia conversado com Firmina Teresa, prometeu à mãe que daria casa e estudo para o menino. Apesar da promessa feita à senhora, Laureano colocou o menino para trabalhar em semiescravidão em sua fazenda. Um ano depois, em uma viagem até Itabaiana, na Paraíba, João conheceu Dona Felicidade, que convidou o menino a fugir da fazenda de Laureano. Em 1908, o menino e a senhora chegaram ao Rio de Janeiro, onde Dona Felicidade montou uma pensão, chamada Hotel Itabaiano. Após a abertura da pensão, o garoto começou a trabalhar para Dona Felicidade, quase como escravo. Cansado da vida que levava, João decidiu fugir do local e foi viver na Lapa, em 1913.
Inicialmente, João morou na rua e cometeu pequenos furtos, o que acarretou algumas prisões e surras da polícia. Anos depois, o menino começou a trabalhar como vendedor ambulante de pratos e panelas de alumínio a serviço de “Seu Bernardo”. Em 1916, quando o garoto tinha dezesseis anos, ocorreu a primeira gravação de um samba, chamado Pelo Telefone, e em 1918, João começou a trabalhar como garçom na Pensão da Lapa, uma casa de tolerância da época onde aprendeu também a cozinhar.
Em 1922, o sonho de ser artista começou a nascer dentro de Madame Satã – tudo por causa da companhia francesa Ba-ta-clan que passava uma temporada na cidade apresentando seu teatro de revista. Anos depois, o jovem começou a trabalhar como cozinheiro na Pensão do Cacete, local onde conheceu a atriz Sara Nobre, artista que o apresentou ao mundo do teatro.
Durante sua juventude, além de realizar trabalhos temporários, Madame Satã também conviveu com muitos malandros. Em 1923, o transformista já era conhecido como um malandro respeitado pelo seu soco de esquerda, cujo apelido era Caranguejo da Praia das Virtudes. Madame Satã havia sido treinado por Sete Coroas, um malandro e cafetão muito conhecido na Lapa, que foi o responsável por introduzi-lo ao mundo da malandragem e ensinar-lhe truques com a navalha. Satã conheceu Sete Coroas na Lapa, aos nove anos de idade. O malandro Sete Coroas, que foi considerado por Madame Satã como o maior dentre todos os malandros que ele conheceu, morreu em 1923, deixando Satã como seu substituto na Lapa e na Saúde.
No mesmo ano, Madame Satã começou a trabalhar como travesti-artista no espetáculo Loucos em Copacabana, assumindo a identidade de Mulata do Balacochê. Na época, o transformista se sentia muito realizado com a profissão, e desde que havia conseguido entrar para o teatro, Satã havia se afastado da vida boêmia da Lapa. Porém, em 1928, se meteu em uma briga, que acabou resultando na morte do vigilante noturno Alberto. Após o crime, Madame Satã foi condenado a 16 anos – essa prisão, especificamente, marca o fim da carreira artística do transformista.
Prisões e vida no crime Entre 1928 e 1965, Madame Satã passou 27 anos e 8 meses intercalados preso. O primeiro crime, que também marcou o fim da sua vida artística e o início da vida marginal do transformista, ocorreu em 1928. Na época, Satã trabalhava no espetáculo Loucos em Copacabana, interpretando a Mulata do Balacochê, e ao voltar do trabalho, decidiu jantar no boteco localizado no térreo do sobrado onde morava. No local, encontrou Alberto, um vigilante noturno, que provocou o artista por diversas vezes o chamando de "viado".
Na versão de Madame Satã, mesmo com o supercílio aberto por um golpe de cassetete desferido pelo vigia, o transformista decidiu ir para casa descansar. Porém, ao pensar na humilhação e na sua fama de malandro, voltou ao bar para resolver o conflito. Ao ser provocado novamente pelo vigia, sacou sua pistola e atirou no guarda, que caiu e bateu a cabeça na calçada, morrendo na esquina da Rua do Lavradio com a Avenida Mém de Sá, na Lapa. Como pena, foi condenado a 16 anos de prisão.
Cerca de dois anos e três meses depois, Satã foi absolvido ao alegar legítima defesa. De acordo com testemunhas, quem havia dado o primeiro golpe durante a briga havia sido Alberto. Além do assassinato do guarda, Madame Satã foi citado em outros 29 processos – 3 homicídios, 13 agressões, 2 furtos, 3 desacatos, 4 resistências a prisão, 1 ultraje ao pudor e 1 porte de arma, entre outros. Nos processos pelos quais foi indiciado, foi condenado em dez. Além disso, atribui-se a Madame Satã cerca de cem assassinatos e mais de três mil brigas.
Década de 1930 Após sair da prisão, Madame Satã começou a trabalhar como uma espécie de vigia em bares e botequins. Em troca, o malandro recebia dinheiro, refeições e cafés. Além de proteger estabelecimentos, impedia que outros malandros e moleques de rua fossem perseguidos, e zelava para que meretrizes não fossem vítimas de agressão ou estupro. Mesmo trabalhando como vigia, sua rixa com a polícia não havia acabado. Depois do assassinato do guarda Alberto, muitas autoridades prometeram se vingar dele. O primeiro conflito depois de sua absolvição, em 1930, foi causado por uma emboscada preparada pelo irmão de Alberto. Porém, ao contrário do planejado pelo policial, Satã estava armado – o que resultou em um grande tiroteio, com Satã ferido no ombro e o outro na perna. No final, a briga não chamou atenção das autoridades e o transformista seguiu com sua vida na malandragem. Pouco tempo depois, um outro irmão de Alberto decidiu provocar Madame Satã e o proibir de entrar no Cabaré Pigalle, na Lapa. O transformista surrou o policial, foi preso em flagrante e condenado a dois anos de prisão por agredir um agente público.
Década de 1940 No começo de 1940, pouco tempo depois de Madame Satã sair da prisão de Ilha Grande, foi preso novamente. Ele estava no Bar Canaã, quando um sargento do Exército disparou-lhe seis tiros, fugindo em seguida. Satã, que não foi atingido por nenhum dos tiros, foi atrás do sargento e feriu o agente com um corte nas nádegas. No entanto, negou ter ferido o sargento, e contou que este havia se cortado sozinho, ao se embrenhar em uma cerca de arame farpado. Pelo crime, o malandro passou quatro anos no presídio de Ilha Grande.
Quando saiu da prisão, Madame Satã decidiu mudar de vida, adotando a primeira de seus seis filhos adotivos, Ivonete, e abriu seu primeiro negócio próprio: uma lavanderia. Apesar das mudanças, continuou a receber ameaças. Pouco tempo depois, um senhor homossexual foi morto em uma rua perto do antigo Teatro República, no Rio de Janeiro, e a culpa recaiu sobre o malandro. Satã era inocente, mas acabou sendo torturado por três dias para que confessasse o crime e o paradeiro de seu cúmplice e passou mais dois dias preso na delegacia da Esplanada do Castelo.
Após o fechamento da lavanderia, Madame Satã abriu um novo negócio – uma pensão. No local, iria conseguir oferecer abrigo para as meretrizes e ainda conseguiria lucrar com isso. Porém, com o sucesso do pequeno hotel, a atenção da polícia se voltou novamente para ele. As autoridades acreditavam que a pensão, na verdade, seria um prostíbulo. Pouco tempo depois, o malandro foi chamado para depor, uma vez que estava sendo acusado de lenocínio, uma prática criminosa que consiste em explorar, estimular ou facilitar a prostituição. No interrogatório, o delegado deu um tapa em Satã, que revidou e apanhou ainda mais dos policiais presentes na delegacia. Apesar de absolvido da acusação de lenocínio, foi condenado a cumprir um ano e seis meses por agressão.
Ao sair da prisão, Satã arrumou mais uma confusão com a polícia, desta vez com o delegado Frota Aguiar. Na versão do malandro, o delegado Frota Aguiar o perseguia constantemente, e que, certa vez, ligou para o delegado a fim de negar as acusações que lhe eram feitas. Frota Aguiar respondeu que iria dar-lhe uma surra e joga-lo na cadeia. Enfurecido, Satã teria dito ao delegado: "Bem, eu vou falar com o senhor, já sabe que eu vou quebrar a sua cara". Foi então até a delegacia de polícia e nocauteou o delgado Frota Aguiar lá mesmo. Em seguida, apanhou quase até a morte e foi mais uma vez preso.
Com boa relação que mantinha com os outros presos e com a administração do presídio, Satã trabalhava como cozinheiro da prisão de Ilha Grande desde a sua primeira passagem. Em 1943 o malandro decidiu realizar sua primeira fuga. Ele e outros dois presos, Pepe e Americano, se atiraram no mar e nadaram até a praia do Leblon. Exausto pela travessia, Madame Satã acabou sendo capturado e voltou para a cadeia, de onde saiu em 1946 sem cumprir toda a sentença.