A filosofia perene, também chamada de sabedoria perene, é uma perspectiva que foi adotada por filósofos, teólogos e historiadores, em que se enxerga todas as tradições religiosas do mundo como compartilhadoras de uma verdade única, sendo ela metafísica ou a origem da qual todo o conhecimento esotérico, exotérico e doutrinal se desdobraram.Schmitt, Charles (1966). "Perennial Philosophy: From Agostino Steuco to Leibniz", Journal of the History of Ideas, 27 (1): 505–532), doi:10.2307/2708338, JSTOR 2708338 Particularmente, ela se consolidou como uma postura filosófica e doutrinal a partir do século XV, em que filósofos renascentistas consideravam a existência de uma verdade única e antiga revelada à humanidade em diversos tempos e tradições, por vezes preservada e transmitida por ritos e textos esotéricos. Em sentido estrito, visava inicialmente a conciliação de doutrinas pagãs, filosofia platônica, judaísmo e o cristianismo; genericamente, refere-se a uma tentativa de abranger diversas fés religiosas ou entendimentos filosóficos. Seu sentido ampliou-se, porém, com a espiritualidade moderna a partir do século XX.

Agostino Steuco (1497-1548) cunhou o termo philosophia perennis, visando realizar uma "filosofia da harmonia" como resposta católica em meio ao avanço do protestantismo e suas críticas do paganismo no Concílio de Trento, porém seu sentido nem sempre se preservou. O conceito cresceu na era moderna a partir da intensificação de trocas interculturais, tendo sido inclusive um modelo historiográfico adotado por vezes até o século XIX. Tornou-se uma categoria identificável por estudiosos contemporâneos da religião para se referir a tendências sincréticas, unificadoras ou sistematizadoras de cunho universalizante traçadas até mesmo a filósofos helenísticos ou medievais antes da Renascença. Nos séculos XIX e XX, o termo foi também adotado em meio a controvérsias no neotomismo como forma de situar o aristotelismo em resposta à questão moderna.

A filosofia perene tem suas raízes no interesse renascentista pelo neoplatonismo e sua ideia do Uno, da qual toda a existência emana. Marsilio Ficino (1433-1499) procurou integrar o hermetismo com o pensamento grego e judaico-cristão, discernindo uma Prisca theologia que poderia ser encontrada em todas as eras. Giovanni Pico della Mirandola (1463-94) sugeriu que a verdade poderia ser encontrada em muitas, e não apenas em duas tradições. Ele propôs a harmonia entre o pensamento de Platão e Aristóteles, e viu aspectos da prisca theologia em Averróis (Ibn Rushd), o Alcorão, a Kabbalah e outras fontes.

Antecedentes considerados perenialistas já existiam em pensadores médio platônicos que buscavam a unidade da filosofia numa chamada "antiga teologia" tradicional, como em Numênio de Apameia que dizia: "será necessário voltar atrás e conectar aos preceitos de Pitágoras, e apelar para as nações famosas, apresentando seus ritos e doutrinas e instituições formadas em concordância com Platão, e que os brâmanes, judeus, magos e egípcios estabeleceram";Numênio de Apameia. Sobre o Bem. In Droge, Arthur J. (1989). Homer Or Moses?: Early Christian Interpretations of the History of Culture (em inglês). [S.l.]: Mohr Siebeck. . p. 70 e entre alguns cristãos, como em Agostinho de Hipona que referia: "aquilo que hoje é chamado de religião cristã existia entre os antigos e nunca deixou de existir desde a origem da raça humana, até o momento em que o próprio Cristo chegou e os homens começaram a chamar de 'cristã' a verdadeira religião que já existia anteriormente".Agostinho de Hipona. Retratações I.13.3. In Schuon, Frithjof (2004). The Fullness of God: Frithjof Schuon on Christianity (em inglês). [S.l.]: World Wisdom, Inc. . p. 21

Uma interpretação mais popular defende o universalismo, a ideia de que todas as religiões, sob aparentes diferenças, apontam para a mesma Verdade. No início do século XIX, os transcendentalistas propagaram a ideia de uma verdade metafísica e universalismo, que inspirou os unitaristas, que fizeram proselitismo entre as elites indianas. No final do século XIX, a Sociedade Teosófica popularizou ainda mais o universalismo, não apenas no mundo ocidental, mas também nas colônias ocidentais. No século XX, o universalismo foi popularizado no mundo anglófono por meio da escola perenialista inspirada no neo-vedanta, que defende uma origem única e metafísica das religiões ortodoxas, e por Aldous Huxley e seu livro A Filosofia Perene.Zum Begriff des Neo-Vedanta, vgl. Lidia Guzy: Baba-s und Alekh-s - Askese und Ekstase einer Religion im Werden: Vergleichende Untersuchung der asketischen Tradition. Weißensee-Verlag 2002, S. 69, Anm. 99

Origens A filosofia perene frequentemente utiliza de conceitos filosóficos partilhados pelo neoplatonismo e religiões abraâmicas, mas conforme Aldous Huxley, dentro outros expoentes, apresenta em sua coletânea A Filosofia Perene, ela também pode ser encontrada em correntes budistas (ex: mahayana, zen e dzogchen), hinduístas (ex: vedanta) e na filosofia chinesa (ex: taoísmo).Huxley, Aldous. A Filosofia Perene. 1945. O neoplatonismo em si tem origens diversas na cultura sincrética do período helenístico, e foi uma filosofia influente ao longo da Idade Média.

Egito Antigo e Grécia Antiga O filósofo lituano Algis Uždavinys, inspirado por Pierre Hadot, propõe que a filosofia grega se originou da filosofia e religião do Egito antigo; diversos estudiosos já evidenciaram as relações entre a mitologia grega e inspirações de origem semítica, por exemplo no contato com os fenícios. Uždavinys afirma que há uma linhagem de pensamento entre os egípcios e os mitos gregos, elaborada na filosofia dos pré-socráticos, até os pitagóricos e Platão, e critica a alcunha "neoplatonismo", porque há uma relação de continuidade entre o pensamento de Platão e os filósofos posteriores.Uždavinys, Algis. Philosophy as a Rite of Rebirth: From Ancient Egypt to Neoplatonism. The Prometheus Trust. 2008. . As doutrinas não escritas de Platão, segundo as propostas das pesquisas da Escola de Tübingen e Milanesa, evidenciam isso.Dmitri Nikulin, ed., The Other Plato: The Tübingen Interpretation of Plato's Inner-Academic Teachings (Albany: SUNY, 2012)Hans Joachim Krämer and John R. Catan, Plato and the Foundations of Metaphysics: A Work on the Theory of the Principles and Unwritten Doctrines of Plato with a Collection of the Fundamental Documents (SUNY Press, 1990)

Período helenístico Durante o período helenístico, as campanhas de Alexandre, o Grande, trouxeram a troca de ideias culturais em seu caminho pela maior parte do mundo conhecido de sua época. Os Mistérios de Elêusis e os Mistérios Dionisíacos misturavam-se com influências tais como o Culto de Ísis, Mitraísmo e Hinduísmo, junto com algumas influências persas. Essa troca intercultural não era nova para os gregos; o deus egípcio Osíris e o deus grego Dionísio foram equacionados como Osíris-Dionísio pelo historiador Heródoto já no século V a.C. (ver Interpretatio graeca). miniaturadaimagem|Plotino com seus discípulos

Roma Antiga Filo de Alexandria (c.25 a.C - 50 d.C) tentou conciliar o racionalismo grego com a Torá, que ajudou a preparar o caminho para o cristianismo com o neoplatonismo, e a adoção do Antigo Testamento com o cristianismo, em oposição ao gnóstico Marcion. Filo traduziu o judaísmo em termos de elementos estóicos, platônicos e neopitagóricos, e sustentava que Deus é "supra racional" e só pode ser alcançado por meio do "êxtase". Ele também afirmou que os oráculos de Deus fornecem o material do conhecimento moral e religioso.Cahil, Thomas (2006). Mysteries of the Middle Ages. New York: Anchor Books. pp. 13–18. .

Neoplatonismo O neoplatonismo surgiu no século III e persistiu até pouco depois do encerramento da Academia Platônica em Atenas em 529 d.C. por Justiniano I. Os neoplatônicos foram fortemente influenciados por Platão, mas também pela tradição platônica que prosperou durante os seis séculos que separaram o primeiro. dos neoplatônicos de Platão. O trabalho da filosofia neoplatônica envolveu descrever a derivação de toda a realidade de um único princípio, "o Uno". Foi fundada por Plotino, e tem sido muito influente ao longo da história. Na Idade Média, as ideias neoplatônicas foram integradas às obras filosóficas e teológicas de muitos dos mais importantes pensadores islâmicos medievais, cristãos e judeus.

Filosofia islâmica Já no início da Idade de Ouro Islâmica investia-se na busca de uma sabedoria universal, a partir de projetos de tradução desde os abássidas de se reunir textos gregos, egípcios, hebraicos, persas e indianos, formando um corpo comparável a uma "filosofia perene" árabe. Isso estava a par do conceito islâmico de universalismo da revelação. Filósofos islâmicos como Alfarábi (870–950) e Surauardi (1154–1191) viam o ensino filosófico como componente de uma única verdade, a “Religião da Verdade” (din al-haqq), transmitida desde Adão aos primeiros profetas como Idris/Hermes, até a Platão, Pitágoras e Aristóteles. Surauardi empregava a expressão al-hikmat al-laduniyyah (“sabedoria divina”) com o mesmo sentido tradicional encontrado em “filosofia perene”, ou também Hikmat al-khalidah e Hikmat al-atiqa.Caminhos e refúgios, Hossein Nasr, p 128. Segundo ele, uma única sabedoria sempre existiu em todos os filósofos e profetas, entre os hindus, persas, babilônios, egípcios e gregos antigos até o tempo de Platão.

Um exemplo dessa intenção é visto em Ibn Miskawayh (932–1030), que escreveu uma doxografia sobre sábios da antiguidade chamada al-Hikmat al-khalidah ("Sabedoria Eterna"). Segundo Hossein Nasr, esse gênero textual continuou nos séculos posteriores entre filósofos islâmicos, antes mesmo de se popularizar no Ocidente com Steuco.

Posteriormente surgiram inovações e novos sistemas. Acadêmicos ocultistas árabes como Ibn Turka, Jalal al-Din Davani e Mir Damad proclamaram a "ciência das letras" ('ilm al-huruf) ou letrismo como o núcleo de uma filosofia perene, a qual teve aplicação em uma ideologia neopitagórica universalista imperial. Afirmavam que ela fora legada pelo rei Salomão aos sábios hebreus como Daniel, aos gregos, egípcios como Hermes, persas como Zoroastro, indianos como e Ṭumṭum e Sāmūr, até ao Clã do Profeta, com a revelação do Corão sendo a culminância da história profética. Ibn Turka afirmava:Melvin-Koushki, Matthew S. (maio de 2012). The Quest for a Universal Science: The Occult Philosophy of Ṣāʾin al-Dīn Turka Iṣfahānī (1369-1432) and Intellectual Millenarianism in Early Timurid Iran. Universidade de Yale. p. 325."Saiba que essa ciência da sabedoria (ʿilm-i ḥikmat) era mais prevalente no tempo dos profetas anteriores, e especialmente no tempo de Salomão, de cujo ensino e do ensino de seus companheiros extraíram grandes pensadores, como Anaxágoras, Pitágoras, Sócrates e outros―verdadeiramente, suas nobres filosofias embelezaram os lineamentos da era, como qualquer pessoa com um módico de perspicácia pode ver de seus magníficos escritos."

Renascença

A ideia de uma filosofia perene originou-se de vários teólogos da Renascença que se inspiraram no neoplatonismo e na teoria das Formas. Marsilio Ficino (1433-1499) argumentou que há uma unidade subjacente ao mundo, que tem uma contrapartida no reino das ideias. De acordo com Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494), um estudante de Ficino, a verdade pode ser encontrada em muitas, em vez de apenas duas, tradições. De acordo com Agostino Steuco (1497–1548) existe “um princípio de todas as coisas, do qual sempre houve um e o mesmo conhecimento entre todos os povos”.Schmitt, Charles (1966), "Perennial Philosophy: From Agostino Steuco to Leibniz", Journal of the History of Ideas, 27 (1): 505–532 doi:10.2307/2708338, JSTOR 2708338