thumb|Material de ecodoppler
O ecodoppler venoso dos membros inferiores é um exame não invasivo que utiliza os ultrassons de modo a adquirir informações sobre a anatomia, fisiologia e a patologia do sistema venoso superficial e profundo.
Está indicado principalmente no estudo de duas patologias: trombose venosa e insuficiência venosa. À semelhança da ecocardiografia, a ultrassonografia venosa requer uma compreensão de hemodinâmica de modo a fornecer relatórios de exame fiáveis e úteis. Na insuficiência venosa, o exame ecodoppler é extremamente útil na confirmação da doença varicosa, ao fazer uma avaliação da hemodinâmica, avaliando a progressão da doença e a sua resposta ao tratamento. Tornou-se a referência standard para o estudo dessa patologia.
Desde a sua introdução nos anos 60, os ultrassons foram rapidamente aplicados à medicina, contribuindo enormemente para a precisão e rapidez do diagnóstico e do tratamento subsequente. Fácil de executar, mas difícil de interpretar, a ecografia, posteriormente associada à codificação a cores e ao efeito Doppler, veio revolucionar o mundo da imagiologia, da obstetrícia, da cardiologia, da angiologia entre outros. Porém, a sua execução requer um treino adequado para que não se caia em erros de diagnóstico. Na verdade, os conhecimentos e o treino do examinador são tanto ou mais importantes que o equipamento propriamente dito. Se a ecografia está relacionada com o estudo da imagem na maioria das disciplinas, já a sua aplicação ao estudo das veias não é linear e um conhecimento aprofundado de hemodinâmica é absolutamente necessário para que o examinador forneça um exame de qualidade e útil ao posterior tratamento do paciente. A dificuldade deste exame e a falta de centros especializados para ministrar o treino necessário fazem com que ainda hoje os resultados do exame sejam controversos.
É um exame inócuo, o paciente não é exposto a radiações, pode ser usado em qualquer idade, não necessita de preparação (salvo para estudar os eixos venosos abdominais), tem índices de sensibilidade e especificidade de cerca de 90% respetivamente e apesar do custo do material, é considerado como um exame pouco dispendioso e de primeira linha para a confirmação de um diagnóstico.
A importância deste exame, no caso do estudo da insuficiência venosa crónica, não se limita a confirmar que esta insuficiência existe. Sendo um exame predominantemente hemodinâmico e dado o desenvolvimento que tem sido feito no campo do tratamento das varizes, este exame deve fornecer indicações ao cirurgião sobre as possibilidades de restabelecer a drenagem do sistema venoso superficial. É indispensável a exatidão destas informações e a elaboração de uma cartografia detalhada quando está previsto efetuar um tratamento conservador. Sobre esta cartografia o hemodinamista que efetuou o exame, em equipa com o cirurgião, marcará os pontos essenciais para que a correção cirúrgica seja efetuada(dissecção virtual).
Princípios básicos da ultrassonografia thumb|esquerda|Sonda de alta frequência para ecografia superficial A ultrassonografia baseia-se no princípio de que o som pode passar através dos tecidos do corpo humano e ser reflectido pelas interfaces tissulares do mesmo modo que a luz pode reflectir-se num espelho. Os tecidos oferecem vários graus de resistência, conhecida como impedância acústica, à passagem do feixe de ultrassons. Quando há uma agrande diferença de impedância entre dois planos tissulares, a interface entr eles reflectirá fortemente o som. Quando o feixe de ultrassons encontra o ar, ou um tecido sólido como o osso, a diferença de inpedância é tão grande que a maioria da energia acústica é reflectida tornando impossível ver as estruturas que estão para lá dessa barreira. O examinador verá só uma sombra, em vez da imagem prevista. Esta é também a razão pela qual se coloca um gel entre a sonda e a pele para evitar que haja ar a impedir a correta visualização. Os líquidos, incluindo o sangue, têm uma baixa impedância, o que significa que pouca energia será reflectida e a visualização não é possível. Porém, quando o fluxo sanguíneo é muito lento pode ser visualizado, o que é chamado de "contraste espontâneo". thumb|SI insuficiente no ostium durante a manobra de Valsalva. O fluxo regurgitante dirige-se para a sonda (neste caso codificado em azul) como mostra o retângulo vertical à direita Esta tecnologia é largamente utilizada para confirmar os diagnósticos em patologia venosa. A qualidade de imagem necessária tornou-se possível com o desenvolvimento do Doppler. O desenvolvimento da técnica doppler conduziu à introdução da cor permitindo "visualizar" o fluxo sanguíneo num determinado sector da imagem e ter informações sobre a direção e velocidade desse mesmo fluxo. Trata-se de uma informação codificada na qual, por convenção, o fluxo que se dirige para a sonda aparece a vermelho e o fluxo que se afasta da sonda aparece a azul. Esta disposição de cores pode ser invertida e a gama de cores pode ser modificada no aparelho; seja como for, no ecrã aparecerá um retângulo vertical com as cores escolhidas no qual a superior será a cor do fluxo que se dirige para a sonda. Uma coloração uniforme do fluxo significa que estamos em presença de um fluxo laminar. No caso de existirem turbulências, várias colorações aparecerão, misturando amarelo,vermelho,verde e branco. Mudando sucessivamente o sector visualizado podemos adquirir uma informação importante sobre a velocidade, direção e características (laminar ou turbulento) do fluxo sanguíneo num determinado vaso.
Diferentes sondas são necessárias de acordo com a profundidade dos tecidos que desejamos estudar. O treino e a experiência do examinador são extremamente importantes devido aos muitos problemas técnicos. A anatomia venosa, por exemplo não é constante, varia de pessoa para pessoa, e na mesma pessoa a disposição venoso do membro inferior direito não é igual à do esquerdo.
A sonda é um sensor ultrassónico, geralmente conhecido por transdutor, que funciona enviando e recebendo a energia acústica. É um emissor/receptor de ultrassons e consoante o tipo de sonda assim os ultrassons emitidos vão atingir uma profundidade maior ou menor. Quanto mais alta a frequência, menor a profundidade atingida e vice-versa. A emissão de ultrassons gera-se nos cristais da sonda pelo efeito piezoeléctrico. Os ultrassons são recebidos pela sonda, transformados em impulso eléctrico, voltagem, e enviados ao aparelho para processamento do sinal e conversão em imagem no ecrã. A profundidade atingida pelo feixe de ultrassons é dependante da frequência da sonda usada. Quanto maior a frequência, menor será a profundidade atingida.
Material utilizado Este exame necessita de um aparelho de ultrassonografia de alta qualidade para que tenha a capacidade de um correto tratamento de imagem. Deverá poder ser capaz de fornecer uma informação de excelente qualidade sobretudo nos planos mais superficiais, efetuar Doppler de emissão pulsada e codificação a cores. As sondas utilizadas dependem da profundidade a ser estudada; assim, para o sistema venoso superficial usa-se uma sonda linear de 12 MHz, no caso de pacientes com tecido adiposo mais espesso uma sonda de 7.5 MHz é preferível. Para o sistema venoso profundo acima do nível inguinal, veias ilíacas e veia cava inferior, uma sonda sectorial de 4 a 6 MHz será necessária. Assim, é preciso três sondas e uma máquina de boa qualidade, o que equivale a dizer que este tipo de material é oneroso. Por outro lado a experiência do examinador é fundamental e condiciona os resultados do exame. Ao contrário do estudo arterial, a estrutura da parede venosa tem pouca importância e o fundamental são as ilações hemodinâmicas que o exame deve fornecer. Deste modo, a formação do examinador em hemodinâmica é primordial, sem a qual este exame perderá todo o seu valor. thumb|Realização do desenho da cartografia.
Importância e indicações A finalidade deste exame incide principalmente sobre o estudo de duas patologias distintas, a insuficiência venosa superficial e/ou profunda e a trombose venosa também superficial e/ou profunda.
Permite ao examinador estudar a anatomia do do sistema venoso superficial e profundo assim como a direção do fluxo sanguíneo, o qual é crucial na determinação da patologia venosa. Tornou-se o exame de referência usado na avaliação da situação e hemodinâmica da patologia venosa dos membros inferiores.
O fluxo sanguíneo normal, fisiológico, nas veias é anterógrado, de modo que a evidência do oposto, fluxo retrógrado, pode significar patologia venosa. A presença de um refluxo é também importante; quando não é isolado numa veia (no caso de um fluxo retrógrado), significa que o fluxo sanguíneo é bi-direccional onde deveria ser anterógrado.
Este exame não deve ser efetuado sem indicação médica ou cirúrgica, tal como a suspeita de uma trombose venosa ou o estudo da doença varicosa. Está a ser efetuado como rotina e em alguns hospitais, no post-operatório ortopédico nomeadamente na cirurgia do joelho. A justificação para tal rotina nestas condições explica-se pela presença de edema e dor secundários à cirurgia que podem mascarar a presença de uma trombose venosa profunda.
Técnica de exame No caso de suspeita de trombose venosa superficial ou de trombose venosa profunda, este exame pode ser efectuado com o paciente deitado, já no caso do estudo da insuficiência venosa ele deve ser executado obrigatoriamente em posição de pé (ortostatismo). Esta posição permite o estudo da competência valvular e da direção do fluxo sanguíneo.
O protocolo de exame varia consoante o fim a que se destina o estudo. Assim, o protocolo utilizado para um estudo das alterações hemodinâmicas num paciente com insuficiência venosa é muito diferente do protocolo de investigação de uma suspeita de trombose venosa. O exame efetuado com a intenção de tratar o paciente por stripping ou terapia por laser, por exemplo, é muito diferente do exame executado com a intenção de efetuar uma Cura CHIVA. Trombose venosa thumb|Sonda paralela ao eixo da veia mostrando a "cabeça do trombo" flutuando na VGS
Ao contrário do ecodoppler arterial, no ecodoppler venoso a sonda deve estar perpendicular ao eixo do vaso, logo, nas imagens adquiridas, as veias aparecem como pequenos círculos. A razão pela qual a sonda deve estar perpendicular ao eixo do vasoé que, trabalhando dessa maneira, detectam-se melhor todas as veias e suas ramificações assim como as perfurantes, o que é importantíssimo no estudo das varizes. Além disso, quando em presença de uma trombose venosa, é possível testar a compressibilidade da veia. Se a sonda estiver no sentido do eixo do vaso é fácil acontecer um pequeno deslizamento ao comprimir a veia e sair assim do plano de estudo, dando um falso negativo de trombose pois o vaso desapareceu, parecendo compressível. A falta de compressibilidade é um dos sinais mais fidedignos de trombose de uma veia já que um coágulo muito recente pode ser pouco visível devido à sua baixa ecogenicidade, mesmo com bons aparelhos e a codificação a cores pode originar um falso negativo ou um falso positivo. Não ver o coágulo não significa que ele não exista, não ver com nitidez o lúmen da veia não significa presença de coágulo. A localização e o aspecto do trombo determina a gravidade da situação: assim deve ser sempre pesquisada a hipótese de um coágulo flutuante, sobretudo quando este coágulo se situa na junção safeno-femoral em cujo caso há uma indicação cirúrgica de urgência, pois a frequência de fragmentaçao da cabeça do coágulo e a embolia pulmonar mortal é importante. Em urgência existe uma técnica simplificada chamada "ecografia de compressão" que é usada para o diagnóstico rápido da trombose venosa profunda, principalmente a nível da veia femoral comum e veia poplítea. Este exame abreviado é extremamente útil e é efetuado pela simples compressão das veias com a sonda.