é um filme japonês de 1949, dirigido por Yasujiro Ozu e escrito por Kogo Noda, baseado no livro Chichi to musume, do escritor e crítico japonês Kazuo Hirotsu. O filme foi escrito e filmado durante a Ocupação do Japão pelas Forças Aliadas e estava sujeito aos critérios de censura da Ocupação. Estrelado por Chishū Ryū, que apareceu em quase todos os filmes do diretor, e Setsuko Hara, marcando sua primeira de seis colaborações com Ozu, esse foi o primeiro longa da chamada "trilogia Noriko" de Ozu, sucedida por Bakushū (1951) e Tōkyō Monogatari (1953); em cada um deles Hara retrata uma jovem chamada Noriko, embora as três Norikos sejam personagens distintas e que não posuem relação alguma, ligadas principalmente por seu status de mulheres solteiras no Japão do pós-guerra.
Banshun pertence ao gênero de cinema japonês conhecido como shomin-geki, estilo este que trata do cotidiano comum das classes trabalhadora e média dos tempos modernos. O filme é frequentemente considerado o primeiro no período criativo final do diretor, "o principal protótipo do trabalho [do diretor] nas décadas de 1950 e 1960". Esses filmes são caracterizados, entre outras particularidades, por um foco exclusivo em histórias sobre famílias durante o imediato pós-guerra do Japão, uma tendência que carrega enredos muito simples e o uso de uma câmera geralmente estática.
Banshun foi lançado em 19 de setembro de 1949, com aclamação da crítica por parte da imprensa japonesa. No ano seguinte, recebeu o prestigioso prêmio Kinema Junpo como a melhor produção japonesa lançada em 1949. Em 1972, o filme foi lançado comercialmente nos Estados Unidos, sendo, novamente, avaliado muito positivamente. Banshun foi intitulado como o trabalho "mais perfeito" do diretor, e "o filme definitivo da abordagem e linguagem cinematográfica mestre de Ozu", além de ser chamado de "um dos mais perfeitos, mais completos e um dos estudos mais bem-sucedidos de personagens já alcançados no cinema japonês". Na versão de 2012 da pesquisa da Sight & Sound sobre "Os Maiores Filmes de Todos os Tempos", publicada pelo British Film Institute (BFI), Banshun aparece como o segundo filme japonês com melhor classificação na lista, em 15º lugar, atrás do próprio Tōkyō Monogatari de Ozu, listado em 3º.
Sinopse O filme se inicia com uma cerimônia do chá. O professor Shukichi Somiya (Chishū Ryū), viúvo, tem apenas uma filha, Noriko (Setsuko Hara), uma moça de 27 anos que cuida da casa e das necessidades diárias — cozinhar, limpar, consertar, etc. — de seu pai. Em uma viagem de compras a Tóquio, Noriko encontra um dos amigos de seu pai, o professor Jo Onodera (Masao Mishima), que mora em Kyoto. Noriko sabe que Onodera, que era viúvo como seu pai, casou-se novamente recentemente e Noriko diz a ele que acha a própria ideia de seu novo casamento desagradável, até mesmo "suja". Onodera, e mais tarde seu pai, provocam-na por ter tais pensamentos.
A irmã de Shukichi, tia Masa (Haruko Sugimura), convence-o de que já é hora de sua filha se casar. Noriko é amiga do assistente de seu pai, Hattori (Jun Usami), e tia Masa sugere que seu irmão pergunte a Noriko se ela poderia estar interessada em Hattori. Quando ele toca no assunto, porém, Noriko ri: Hattori está noivo de outra mulher há algum tempo.
Destemida, Masa pressiona Noriko para se encontrar com um jovem casado, um graduado da Universidade de Tóquio, chamado Satake que, acredita Masa, tem uma forte semelhança com Gary Cooper, ator americano. Noriko recusa, explicando que não deseja se casar com ninguém, pois isso deixaria seu pai sozinho e desamparado. Masa surpreende Noriko ao afirmar que ela também está tentando arranjar um casamento entre Shukichi e a Sra. Miwa (Kuniko Miyake), uma jovem viúva atraente, conhecida de Noriko. Se Masa tiver sucesso, Noriko não terá desculpa.
Em uma apresentação de noh com a presença de Noriko e seu pai, onde este cumprimenta sorridente a Sra. Miwa, Noriko fica enciumada. Mais tarde, quando seu pai tenta convencê-la a conhecer Satake, ele diz a ela que pretende se casar com a Sra. Miwa. Davastada, Noriko decide relutantemente conhecer o jovem e, para sua surpresa, tem uma impressão muito favorável dele. Sob pressão de todos, Noriko consente com seu casamento arranjado.
Os Somiya fazem uma última viagem juntos antes do casamento, visitando Kyoto. Lá eles reencontram o Professor Onodera e conhecem sua família. Noriko muda de opinião sobre o novo casamento de Onodera quando descobre que sua nova esposa é uma pessoa legal. Enquanto arrumam a bagagem para a viagem de volta para casa, Noriko pergunta ao pai por que eles não podem simplesmente ficar como estão agora, mesmo que ele se case novamente – ela não consegue se imaginar mais feliz do que vivendo cuidando dele. Shukichi a adverte, dizendo que ela deve abraçar a nova vida que construirá com Satake, na qual ele, Shukichi, não fará parte, porque "essa é a ordem da vida e da história humana". Noriko pede perdão ao pai por seu "egoísmo" e concorda em prosseguir com o casamento. miniaturadaimagem|194x194px|Noriko (Setsuko Hara) em um shiromuku (traje tradicional de casamento) Chega o dia do casamento de Noriko. Em casa, pouco antes da cerimônia, Shukichi e Masa admiram Noriko, que está vestida com um traje tradicional de casamento (shiromuku). Noriko agradece ao pai pelo cuidado que teve com ela ao longo de sua vida e parte em um carro alugado para o casamento. Depois, Aya (Yumeji Tsukioka), uma amiga divorciada de Noriko, vai com Shukichi a um bar, onde ele confessa que sua ideia inicial de que se casar com a Sra. Miwa foi apenas uma estratégia para persuadir Noriko a se casar. Aya, emocionada com seu feito, promete visitá-lo com frequência. Nisso, o filme se encerra com Shukichi voltando para casa sozinho.
Elenco Chishu Ryu como Shukichi Somiya, pai de Noriko Setsuko Hara como Noriko Somiya, filha de Shukichi Yumeji Tsukioka como Aya Kitagawa, amiga de Noriko Haruko Sugimura como Masa Taguchi, irmã de Shukichi e tia de Noriko Hohi Aoki como Katsuyoshi Taguchi, filho de Jo Onodera Jun Usami como Shuichi Hattori, assistente de Shukichi Kuniko Miyake como Akiko Miwa, viúva que inicia um relacionamento com Shukichi Masao Mishima como Jo Onodera, colega de Shukichi Yoshiko Tsubouchi como Kiku Onodera, a nova esposa do Sr. Onodera Yoko Katsuragi como Misako Toyoko Takahashi como Shige Jun Tanizaki como Seizo Hayashi Yoko Benisawa como dona de uma casa de chá
Produção
Os censores da Ocupação
Problemas de censura em Banshun O evento central de Banshun é o casamento da heroína com um homem que ela conheceu apenas uma vez em um único encontro arranjado. Isto imediatamente apresentou um problema para os censores da ocupação americana. De acordo com a historiadora de cinema Kyoko Hirano, esses agentes “consideravam feudalista o costume japonês de organizar reuniões para possíveis parceiros de casamento, o miai, porque o costume lhes parecia diminuir a importância do indivíduo”. Hirano observa que, se esta política contra a exibição de casamentos arranjados no cinema tivesse sido rigidamente aplicada, Banshun nunca poderia ter sido feito. No roteiro original (que os cineastas foram obrigados a submeter aos censores antes que a produção pudesse ser aprovada), a decisão de Noriko de se casar foi apresentada como uma decisão familiar coletiva, não uma escolha individual, e os censores aparentemente não aprovaram a ideia.
A sinopse explica que a viagem de pai e filha a Kyoto, pouco antes do casamento de Noriko, ocorre para que ela possa visitar o túmulo de sua falecida mãe. Esta motivação está ausente do filme final, possivelmente porque os censores teriam interpretado tal visita como “adoração aos ancestrais”, uma prática que eles também desaprovavam.
Qualquer referência no roteiro à devastação causada pelos bombardeios aliados foi removida. Originalmente, Shukichi comenta para a esposa de Onodera, em Kyoto, que a cidade dela é um lugar muito bonito, diferente de Tóquio, que possuía vários de seus bairros em ruínas. Os censores eliminaram a referência "às ruínas" (como uma crítica implícita aos Aliados) e, no filme final, a palavra “hokorippoi” (“empoeirado”) foi substituída para descrever a Tóquio que Shukichi morava.
Os censores, a princípio, excluíram automaticamente uma referência no roteiro a Gary Cooper, astro de Hollywood, mas depois a permitiram quando perceberam que a comparação era com o pretendente (invisível) de Noriko, Satake, que é descrito pelas personagens femininas como atraente, e foi, portanto, lisonjeiro para o ator americano.
Às vezes, as exigências dos censores pareciam irracionais. Uma frase sobre a saúde de Noriko ter sido afetada negativamente por "seu trabalho após ser recrutada pela Marinha [Japonesa] durante a guerra" foi alterada para "o trabalho forçado durante a guerra", como se até mesmo a simples menção à Marinha Japonesa fosse de alguma forma suspeito e subversivo.
Na fase de análise do roteiro pelos censores, eles exigiram que a personagem tia Masa, que a certa altura encontra uma bolsa perdida no chão e a guarda como uma espécie de amuleto de boa sorte, fosse mostrada entregando a bolsa para a polícia. Ozu respondeu transformando a situação, no filme final, em uma espécie de piada interna em que Shukichi repetidamente (e inutilmente) solicita sua irmã a entregar a bolsa à polícia. Esta mudança foi chamada de “uma espécie zombeteira de conformidade parcial com a censura”.
A alegada "subversão" da censura por parte de Ozu Um estudioso, Lars-Martin Sorensen, afirmou que o objetivo parcial de Ozu ao fazer o filme era apresentar um ideal do Japão em desacordo com aquele que a Ocupação queria promover, e que ele subverteu, com sucesso, a censura para conseguir isso. "A controversa e subversiva 'mensagem' político-histórica do filme é… que a beleza da tradição, e da subjugação dos caprichos individuais à tradição e à história, ofusca de longe as tendências ocidentais importadas e impostas do Japão ocupado." miniaturadaimagem|Hattori (Jun Usami) e Noriko andando de bicicleta em direção à praia (com a placa da Coca-Cola em primeiro plano) Sorensen usa como exemplo a cena do início do filme em que Noriko e o assistente de seu pai, Hattori, andam de bicicleta em direção à praia. Eles passam por uma placa da Coca-Cola em forma de losango e por outra placa, em inglês, alertando que a capacidade de peso da ponte sobre a qual passam é de 30 toneladas: informação bastante irrelevante para este jovem casal, mas perfeitamente apropriada para veículos militares americanos que pode passar por essa estrada. (Nem a placa da Coca-Cola nem o aviso de trânsito são mencionados no roteiro aprovado pelos censores.) Sorensen argumenta que esses objetos são “referência(s) óbvia(s) à presença do exército ocupante”.
Por outro lado, Banshun, mais do que qualquer outro filme feito por Ozu, está repleto de símbolos da tradição japonesa: a cerimônia do chá que abre o filme, os templos de Kamakura, a performance noh que Noriko e Shukichi assistem, e os jardins Zen de Kyoto. Sorensen argumenta que essas imagens de marcos históricos “pretendiam inspirar admiração e respeito pelos tesouros do Japão antigo, em contraste com a impureza do presente”. Sorensen também afirma que, para o público de Ozu, “a exaltação da tradição japonesa e a herança cultural e religiosa deve ter trazido lembranças dos bons e velhos tempos, quando o Japão ainda estava vencendo suas batalhas no exterior e o nacionalismo atingiu seu auge." Para estudiosos como Bordwell, que afirmam que Ozu estava promovendo com este filme uma ideologia que poderia ser chamado de liberal, Sorensen argumenta que as resenhas contemporâneas do filme “mostram que Ozu (o diretor e suas convicções pessoais) era considerado inseparável de seus filmes, e que ele era considerado um puro conservador”.