miniatura|440px|Mapa de dados mostrando a percentagem de mulheres com idades compreendidas entre os 15 e os 49 anos que foram submetidas a MGF (2020). Não existem dados para os países a cinzento claro. A mutilação genital feminina (MGF), também por vezes chamada de circuncisão feminina, termo que a comunidade médica rejeita, é a remoção ritualista de parte ou de todos os órgãos sexuais externos femininos. Geralmente executada por um circuncisador tradicional com a utilização de uma lâmina de corte, com ou sem anestesia, a MGF concentra-se em 27 países africanos, Indonésia, Iémen e no Curdistão iraquiano, sendo também praticada em vários outros locais na Ásia, no Médio Oriente e em comunidades expatriadas em todo o mundo. Mais de metade dos casos documentados pela Unicef concentram-se em apenas 3 países (Indonésia, Egito e Etiópia)., p. 44 (circuncisador tradicional), pp. 45–46 (anestesia), p. 46 (lâmina), pp. 26–27 (29 países)., p. 6/6: "Esta prática também se encontra em países como a Colômbia, Irão, Jordânia, Omã, Arábia Saudita, partes da Indonésia e da Malásia e em algumas comunidades da Europa e da América do Norte, embora não haja grande quantidade de dados disponíveis e precisos sobre a magnitude do fenómeno nestes contextos". A idade em que é realizada varia entre alguns dias após o nascimento e a puberdade. Em metade dos países com dados disponíveis, a maior parte das jovens é mutilada antes dos cinco anos de idade.

Os procedimentos diferem de acordo com o grupo étnico. Geralmente incluem a remoção do clítoris e do prepúcio clitoriano e, na forma mais grave, a remoção dos grandes e pequenos lábios e encerramento da vulva. Neste último procedimento, denominado "infibulação", é deixado um pequeno orifício para a passagem da urina e o sangue da menstruação e a vagina é aberta para relações sexuais e parto. As consequências para a saúde dependem do procedimento, mas geralmente incluem infeções recorrentes, dor crónica, dificuldade de urinar ou escoar o fluxo menstrual, cistos, impossibilidade de engravidar, complicações durante o parto e hemorragias fatais. Não são conhecidos quaisquer benefícios médicos., p. 1: "A mutilação genital feminina não apresenta quaisquer benefícios conhecidos para a saúde".

A prática tem raízes nas desigualdades de género, em tentativas de controlar a sexualidade da mulher e em ideias sobre pureza, modéstia e estética. É geralmente iniciada e executada por mulheres, que a vêem como motivo de honra e receiam que se não a realizarem a intervenção as filhas e netas ficarão expostas à exclusão social., p. 15: "Existe uma obrigação social de conformismo em relação à prática e a crença generalizada de que se as famílias não o fizerem estão sujeitas a pagar um preço que inclui a exclusão social, criticismo, ridicularização, estigma ou a incapacidade de encontrar potenciais maridos para as filhas". Mais de 130 milhões de mulheres e jovens foram alvo de mutilação genital nos 29 países onde é mais frequente. Entre estas, mais de oito milhões foram infibuladas, uma prática que na sua maioria ocorre no Djibuti, Eritreia, Somália e Sudão.

A mutilação genital feminina vem sendo ilegalizada ou restringida em grande parte dos países onde é comum,, p. 8 embora haja grandes dificuldades em fazer cumprir a lei. p. 48}} Desde a década de 1970 existem esforços internacionais para abolir esta prática. Em 2012, a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu a mutilação genital feminina como violação de direitos humanos e votou de forma unânime pela intensificação dos esforços pela sua abolição.

Origem histórica As origens da MGF são desconhecidas. Gerry Mackie pensa que a prática teria começado no Reino de Cuxe (actual Sudão) no 1º ou 2º milênio a.C. e sugere que a infibulação teria sido criada em um contexto de poliginia para garantir a paternidade das crianças. O exame de múmias egípcias não mostrou nenhum sinal de MGF. Citando o anatomista australiano Grafton Elliot Smith, que estudou centenas de múmias no início do , Mary Knight observa que as regiões genitais podem parecer MGF de tipo III, mas acrescenta que isso está relacionado à deterioração ou remoção pós-mortem de tecidos moles por embalsamadores; estas razões também impedem qualquer identificação de um tipo I ou II.

Contudo, supõe-se geralmente que a MGF se originou no Egito faraónico, e que essa seria a origem do termo "circuncisão faraônica".

A primeira menção conhecida da circuncisão masculina e feminina aparece em escritos do geógrafo e historiador grego Estrabão, que, visitando o Egito cerca de de 25 a.C., escreveu, no seu trabalho Geografia, que "um dos costumes mais zelosamente observados entre os egípcios é esse, eles educam escrupulosamente todas as crianças que nasceram, e circuncidam os machos e excisam as fêmeas".

Um papiro grego datado de 163 a.C. mencionou a operação realizada em meninas em Memphis, no Egito, na época em que receberam seus dotes, apoiando teorias de que a MGF se originou como uma forma de iniciação de mulheres jovens.

Quaisquer que sejam as origens da prática, a infibulação vinculou-se à escravidão. Gerry Mackie cita o missionário português João dos Santos, que em 1609 escreveu sobre um grupo perto de Mogadíscio que tinha o "costume de costurar suas fêmeas, especialmente suas escravas jovens para torná-las incapazes de concepção, o que torna esses escravos mais caros, tanto pela sua castidade como por uma maior confiança que seus Mestres colocam nelas ". Assim, Mackie argumenta, uma "prática associada à vergonhosa escravidão feminina veio a representar honra".

Numa época mais próxima da actual, ginecologistas da Europa do e dos Estados Unidos retiravam o clitóris para tratar a loucura e a masturbação. Um médico britânico, Robert Thomas, sugeriu a clitoridectomia como uma cura para a ninfomania em 1813. A primeira clitoridectomia relatada no Ocidente, descrita em The Lancet em 1825, foi realizada em 1822 em Berlim por Karl Ferdinand von Graefe em uma menina de 15 anos que se masturbava excessivamente.

Isaac Baker Brown, um ginecologista inglês, presidente da Medical Society of London e co-fundador em 1845 do St. Mary Hospital, acreditava que a masturbação ou "irritação não natural " do clitóris, causava histeria, irritação espinhal, convulsões, idiotice, manias e até morte. Logo, removia o clitóris " sempre que tinha a oportunidade de fazê-lo". Os resultados não eram, de modo algum, satisfatórios, mas Brown realizou várias clitoridectomias entre 1859 e 1866. Quando expôs num livro os seus pontos de vista, caiu em desgraça junto dos seus pares, que o acusaram de charlatanismo e o expulsaram da Sociedade de Obstetrícia de Londres. Em França, por volta também dessa época, o médico Jules Guérin "curava" as suas pacientes queimando-lhes os clitóris com um ferro em brasa.

Mais tarde no , A. J. Bloch, um cirurgião em Nova Orleans, removeu o clitóris de uma menina de dois anos de idade, que supostamente se masturbava. Clitoridectomias e outras cirurgias castradoras foram realizadas nos Estados Unidos na década de 1960 para tratar a histeria, erotomania e lesbianismo.

Métodos O procedimento é geralmente realizado por uma circuncisadora tradicional, nas casas das meninas, com ou sem anestesia. O cortador é geralmente uma mulher mais velha, mas em comunidades onde o barbeiro assumiu o papel de assistente de saúde, ele também executará a MGF.

Quando atuam os cortadores tradicionais, podem ser usados dispositivos não esterilizados, incluindo facas, navalhas, tesouras, vidro e pedras afiadas.

Profissionais de saúde estão freqüentemente envolvidos no Egito, no Quênia, na Indonésia e no Sudão. No Egito, 77 por cento dos procedimentos de MGF, e na Indonésia mais de 50 por cento, foram realizados por profissionais médicos a partir de 2008 e 2016. Mulheres no Egito relataram em 1995 que anestesia local tinha sido usada em suas filhas em 60 por cento dos casos, anestesia geral em 13 por cento, e nenhuma anestesia em 25 por cento (dois por cento faltavam / não sabiam).

A crescente medicalização da MGF é preocupante — afirma a Dra. Enshrah Ahmed — pode criar um senso de legitimidade para a prática, dando a impressão de que o procedimento é bom para a saúde, ou pelo menos inofensivo, e contribuir para a sua institucionalização, tornando-a rotineira e até mesmo levando à sua disseminação em grupos culturais que atualmente não a colocam.

Classificação A Organização Mundial de Saúde classificou a MGF em quatro tipos distintosː miniatura|esquerda|Tipos de MGF Tipo I — Clitoridectomia — é a remoção parcial ou total do clitóris (uma parte pequena, sensível e erétil dos genitais femininos) e, em casos muito raros, apenas o prepúcio do clitóris. Tipo II — Excisão — esta é a remoção parcial ou total do clitóris e dos pequenos lábios (as dobras interiores da vulva), com ou sem a remoção dos grandes lábios (as dobras exteriores da pele da vulva). Tipo III — Infibulação ou excisão faraónica. A infibulação é considerada a pior das formas de MGF., com a amputação do clitóris e dos pequenos lábios, os grandes lábios são seccionados, aproximados e suturados, sendo deixada apenas uma minúscula abertura necessária à passagem da urina e da menstruação. Esse orifício é mantido aberto por um filete de madeira ou palha. As pernas devem ficar amarradas durante 2 ou 6 semanas. Assim, a vulva desaparece, ficando perfeitamente lisa. Por ocasião do casamento a mulher será “aberta” pelo marido (usando por vezes uma faca) ou por uma “matrona”, mulher mais experiente no assunto. Mais tarde, quando se tem o primeiro filho, essa abertura é aumentada para permitir o parto, sempre difícil porque o tecido cicatricial não distende. Algumas vezes, após cada nascimento, a mulher é novamente infibulada. Tipo IV — Isto inclui todos os outros procedimentos prejudiciais para a genitália feminina para fins não médicos como picar, perfurar, incisar, raspar e cauterizar a área genital.

Consequências

A curto e longo prazo A MGF prejudica a saúde física e emocional das mulheres ao longo de suas vidas. Não tem benefícios para a saúde conhecidos. As complicações a curto ou longo prazo dependem do tipo de MGF, se os praticantes tiveram treinamento médico, e se usaram antibióticos e instrumentos cirúrgicos esterilizados ou de uso único. No caso do Tipo III, outros fatores incluem o quão pequeno furo foi deixado para a passagem de urina e sangue menstrual, se fio cirúrgico foi usado em vez de agave ou espinhos de acácia e se o procedimento foi realizado mais de uma vez.

Complicações comuns a curto prazo incluem inchaço, hemorragia excessiva, dor, retenção de urina e problemas de cicatrização e/ou infecção da ferida. Uma revisão sistemática em 2015 de 56 estudos que registraram complicações imediatas sugeriu que cada uma delas ocorreu em mais de uma em cada dez meninas e mulheres submetidas a qualquer forma de MGF, incluindo o corte simbólico do clitóris (Tipo IV), embora os riscos aumentassem com o Tipo III. A revisão também sugeriu que havia uma escassez de relatos. Outras complicações a curto prazo incluem hemorragia fatal, anemia, infecção urinária, septicemia, tétano, gangrena, fasciíte necrosante e endometrite. Não se sabe ao certo quantas mulheres morrem como resultado da prática, porque as complicações podem não ser reconhecidas ou relatadas. É pensado que o uso de instrumentos compartilhados por parte dos praticantes ajuda à transmissão da hepatite B, hepatite C e HIV, embora nenhum estudo ainda o tenha demonstrado.

As complicações a longo prazo variam de acordo com o tipo de MGF. Incluem a formação de cicatrizes e quelóides que levam a restrições e obstrução, cistos epidermóides que se podem infectar e formação de neuroma envolvendo os nervos que terminavam no clitóris.

Gravidez e parto