thumb|330px|Mapa da invasão muçulmana do Levante

A batalha de Jarmuque (), também citada em como Hieromiax ou Iermucas , foi uma grande batalha entre as tropas árabes do Califado Ortodoxo e os exércitos do Império Bizantino. Envolveu uma série de combates que duraram seis dias, de 15 a , travados perto do rio Jarmuque, a sudeste do mar da Galileia, no que é atualmente a fronteira entre a Síria e a Jordânia e não muito longe das fronteiras do Líbano e Israel.

O resultado da batalha foi uma vitória total muçulmana que acabou com o domínio bizantino na província romana da Síria. É considerada uma das batalhas mais decisivas da história militar e foi o ponto mais alto da primeira vaga das conquistas islâmicas que se seguiram à morte de Maomé, prenunciando o rápido avanço muçulmano no Levante, que na altura era cristão.

O imperador bizantino Heráclio tinha enviado uma expedição numerosa para o Levante em maio de 636, com o objetivo de travar o avanço muçulmano iniciado dois anos antes e de recuperar os territórios perdidos. À medida que o exército bizantino se aproximava, os Árabes retiraram da Síria e reagruparam todas as suas forças nas planícies de Jarmuque perto da Arábia, onde, depois de terem recebido reforços, derrotaram as tropas bizantinas numericamente superiores. A batalha é considerada uma das maiores vitórias de Calide ibne Alualide e cimentou a sua reputação como um dos maiores estrategos e comandantes de cavalaria da história.

Contexto Guerras bizantino-sassânidas

Em 610, durante a última guerra bizantino-sassânida, Heráclio tornou-se imperador depois de destronar Focas . Entretanto, os Persas Sassânidas conquistaram a Mesopotâmia e em 611 devastaram a Síria e entraram na Anatólia, ocupando Cesareia. No mesmo ano, Heráclio logrou expelir os invasores da Anatólia, mas sofreu uma derrota decisiva em 613 quando lançou uma grande ofensiva na Síria para os expulsar definitivamente. Ao longo da década seguinte, os Persas conquistaram a Palestina e o Egito. Entretanto, Heráclio reconstruiu o seu exército e, nove anos depois, em 622, contra-atacou. Depois de várias vitórias esmagadoras sobre os Persas e seus aliados no Cáucaso e na Arménia, em 627 Heráclio lançou uma ofensiva de inverno na Mesopotâmia, obtendo uma vitória decisiva na Batalha de Nínive que colocou sob ameaça a capital sassânida, Ctesifonte. Desacreditado por uma série de desastres, o xá foi destronado e morto num golpe de estado liderado pelo seu filho , que imediatamente procurou negociar a paz com os Bizantinos, concordando em se retirar de todos os territórios ocupados. Heráclio devolveu então a Vera Cruz a Jerusalém — que havia sido levada durante a conquista da cidade em 614 — numa cerimónia majestosa.

Sucessão de Maomé

Entretanto, o ambiente político na Arábia tinha mudado rapidamente. O Maomé iniciou sua pregação do Islão e, em 630, tinha conseguido reunir a maior parte da região sob uma única autoridade política. Quando morreu, em 632, Abu Becre foi eleito califa e seu sucessor político. Esta sucessão não foi pacífica, pois pouco depois várias tribos árabes revoltaram-se e foram combatidas pelo novo califa, conflitos que viriam a ser conhecidos por Guerras da Apostasia e que se prolongariam por 632 e 633. Abu Becre acabou vitorioso e logrou reunir a Arábia sob a autoridade do califado de Medina.

Uma vez subjugados os rebeldes, Abu Becre iniciou uma guerra de conquista, começando pelo Sauade (atual Iraque), para onde enviou seu general mais proeminente, Calide ibne Alualide. Ele conquistou a região numa série de campanhas contra os Persas Sassânidas, aumentando a confiança do califa. Após Calide ter estabelecido a sua base no Sauade, Abu Becre apelou às armas para invadir a Síria em fevereiro de 634. A invasão islâmica da região foi um conjunto de operações militares cuidadosamente planeadas e bem coordenadas, que privilegiaram a estratégia sobre a força para lidar com as medidas defensivas bizantinas. Contudo, os Árabes rapidamente concluíram que os seus exércitos eram muito pequenos para enfrentar a resposta bizantina, o que levou os comandantes a pedir reforços. Abu Becre ordenou então a Calide que saísse do Sauade levando reforços para a Síria, onde deveria comandar a invasão. Em julho de 634, os Bizantinos sofreram uma derrota decisiva em Ajenadaim (a oeste de Jerusalém, no vale de Elá). Damasco caiu dois meses depois, seguindo-se a batalha de Fal (ou de Pela, atualmente Tabacate Fal, na Jordânia), na qual a última guarnição significativa bizantina na Palestina foi desbaratada.

O califa Abu Becre morreu em 634. O seu sucessor, Omar , estava determinado a continuar a expansão do califado para o interior da Síria. Apesar das campanhas anteriores lideradas por Calide terem sido bem sucedidas, o general foi substituído no comando por Abu Ubaida ibne Aljarrá. Tendo consolidado o controlo do sul da Palestina, as tropas muçulmanas avançaram para norte ao longo da rota comercial local. Tiberíades e Heliópolis caíram sem grande resistência e em seguida foi conquistada Emesa (atual Hómece), no início de 636. Daí, os muçulmanos prosseguiram as suas conquistas ao longo do Levante.

Contra-ataque bizantino Tendo-se apoderado de Emesa, os muçulmanos encontravam-se já muito perto dos redutos bizantinos de Alepo e de Antioquia, a capital regional onde residia Heráclio. Seriamente alarmado com a sucessão de revezes, Heráclio preparou um contra-ataque para reconquistar os territórios perdidos. Em 635, o xá negociou uma aliança com o imperador bizantino que foi selada através do casamento da sua filha, Maniane com o herdeiro sassânida, um antigo costume romano para cimentar alianças. Enquanto Heráclio preparava uma ofensiva em larga escala no Levante, Isdigerdes deveria levar a cabo um contra-ataque simultâneo no Sauade, no que pretendia ser um esforço conjunto bem coordenado. Porém, quando os Bizantinos lançaram a sua ofensiva em maio de 636, os Persas não conseguiram cumprir a sua parte do acordo, provavelmente devido ao desgaste do seu governo. Em 26 de maio de 636 Teodoro Tritírio e as suas tropas chegam de Emesa e acampam onde é a actual Quiçuá (Kiswe). No percurso avançam pelos montes Golã. Os muçulmanos retiram-se para o que é hoje Der'a, de onde podem conter os avanços para sul dos bizantinos.

Os preparativos bizantinos para a grande ofensiva começaram no final de 635 e, em maio de 636, Heráclio tinha uma grande força concentrada em Antioquia, no norte da Síria. As tropas reunidas incluíam contingentes de Bizantinos, Eslavos, Francos, Georgianos, Arménios e Árabes cristãos (os Gassânidas). Estavam divididas em cinco exércitos, cujo comandante conjunto era Teodoro Tritírio. O general arménio Vaanes, antigo comandante da guarnição de Emesa, foi nomeado comandante geral em campo e tinha sob o seu comando um exército exclusivamente arménio. (Canatir), um príncipe eslavo, comandava os Eslavos e Jabala ibne Alaiame, rei dos Gassânidas, comandava uma unidade exclusivamente árabe. Os restantes contingentes, todos europeus, foram colocados sob o comando de Gregório e Dairjã, enquanto que o próprio Heráclio supervisionava as operações a partir de Antioquia. As fontes bizantinas mencionam ainda Nicetas, filho do general persa Sarbaro, como um dos comandantes, mas não é certo qual seria o exército que ele comandava.

thumb|esquerda|Mapa das movimentações militares bizantinas e muçulmanas no Levante entre 635 e a véspera da batalha de Jarmuque

Nessa altura, o exército do Califado Ortodoxo estava dividido em quatro grupos: um sob o comando de Anre ibne Alas na Palestina, outro comandado por Xurabil ibne Haçana na Jordânia, outro por Iázide ibne Abi Sufiane na região de Cesareia-Damasco e, por último, outro comandado por Abu Ubaida e Calide em Emesa. Como as forças muçulmanas estavam separadas geograficamente, Heráclio decidiu atacar tentando tirar partido dessa situação. Em vez de se envolver numa batalha em campo aberto, planeou a ofensiva a partir de uma posição central, concentrando grandes forças contra cada uma das unidades muçulmanas antes que elas conseguissem agrupar. Heráclio contava recapturar o território perdido forçando o inimigo a se retirar ou destruindo forças inimigas separadamente. Foram enviados reforços para Cesareia comandados por Constantino III, filho de Heráclio, provavelmente para bloquear as tropas de Iázide que cercavam a cidade. O exército imperial bizantino partiu de Antioquia e do norte da Síria em data incerta de meados de junho de 636.

O exército imperial deveria levar a cabo o seguinte plano: Os Gassânidas de Jabala, equipados com armamento leve, marchariam de Alepo para Emesa via Hama e travariam o principal exército muçulmano em Emesa. Dairjã faria um movimento de flanco, deslocando-se entre a costa e a estrada de Alepo, e aproximar-se-ia de Emesa por ocidente, atacando o flanco esquerdo dos muçulmanos quando estes tivessem Janla pela frente. Gregório atacaria o flanco direito dos muçulmanos, aproximando-se de Emesa por nordeste, vindo pela Mesopotâmia. Bucinador marcharia ao longo da estrada costeira e ocuparia Beirute, de onde atacaria Damasco, mal defendida, por ocidente, para bloquear o principal exército muçulmano em Emesa; A unidade de Vaanes serviria de reserva e aproximar-se-ia de Emesa via Hama.

Estratégia dos muçulmanos

esquerda|thumb|Négede sobreposto às fronteiras da Arábia Saudita. O Négede histórico, contudo, ainda era mais extenso, projetando-se consideravelmente para sudeste

Desde o início das invasões que a estratégia muçulmana consistia em forçar os bizantinos a enviar o maior número de tropas possível para a Síria, de modo a aí poderem obter uma vitória militar decisiva. Ao contrário dos bizantinos, que optavam por avanços cautelosos procurando tirar partido das condições naturais de defesa do terreno, os muçulmanos procuravam ativamente entrar em combate.

Os Árabes descobriram os preparativos de Heráclio em Xaizar através de prisioneiros bizantinos. Quando souberam do contra-ataque, os muçulmanos evacuaram Hómece (Emesa) e Damasco. Alertado para a possibilidade de ser apanhado com forças divididas que podiam ser derrotadas mais facilmente, Calide convocou um conselho de guerra no qual recomendou a Abu Ubaida que retirasse as tropas da Palestina, do norte e do centro da Síria, concentrando todo o exército ortodoxo num só lugar. Abu Ubaida ordenou então reunião de todas as tropas na vasta planície perto de Gabita, cujo controlo tornava possíveis as cargas de cavalaria e facilitava a chegada de reforços enviados por Omar. O local era também adequado ao posicionamento de uma força poderosa e unida para fazer frente aos exércitos bizantinos e beneficiava da proximidade com o reduto ortodoxo de Négede em caso de retirada. Foram dadas instruções para devolver a jizia (tributo) a quem o tivesse pago.

Todavia, após a concentração em Gabita, os muçulmanos foram alvo de raides pelas forças gassânidas pró-bizantinas. Acampar na região era também precário, pois em Cesareia encontrava-se uma forte guarnição bizantina que podia atacar a retaguarda muçulmana enquanto estivesse em combate com o corpo principal do exército bizantino. Seguindo o conselho de Calide, as tropas muçulmanas se retiraram para Dara (Dara'ah) e Adir Aiube (Dayr Ayyub), cobrindo o território entre as gargantas do Jarmuque e as planícies de lava de harra e estabelecendo uma linha de acampamentos na parte oriental da planície de Jarmuque. Esta nova posição defensiva era forte e as manobras espicaçaram ambos os lados para uma batalha decisiva, do tipo que os Bizantinos tentavam evitar. Durante aquelas manobras não houve combates, à exceção de algumas escaramuças menores entre a elite da cavalaria ligeira de Calide e a guarda avançada bizantina.

Campo de batalha