thumb|250px|Os sete astronautas em 1960. Atrás: Shepard, Grissom e Cooper. Frente: Schirra, Slayton, Glenn e Carpenter. Os Mercury Seven, também chamado de Sete Originais ou Grupo 1 de Astronautas, foi um grupo de sete astronautas selecionado pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA) para integrarem o programa espacial dos Estados Unidos e participarem da fase tripulada do Projeto Mercury. Foram os primeiros astronautas dos Estados Unidos e pilotaram todas as missões tripuladas do Projeto Mercury entre maio de 1961 e maio de 1963. Os sete escolhidos foram anunciados publicamente em 9 de abril de 1959 e eram Scott Carpenter, Gordon Cooper, John Glenn, Gus Grissom, Walter Schirra, Alan Shepard e Donald Slayton.
O processo de seleção começou pouco depois do estabelecimento da NASA e do Projeto Mercury em 1958. Foi decidido que os melhores candidatos seriam pilotos de teste militares, pois estes detinham muitas das habilidades necessárias e seria algo que simplificaria o processo. Os registros de 508 pilotos de testes foram obtidos com o Departamento de Defesa e analisados, dos quais 110 se encaixavam nos requisitos mínimos. Este número foi gradualmente reduzido por meio de apresentações sobre o programa espacial, entrevistas, recusas e exames médicos até que os sete finalistas foram finalmente escolhidos.
Os sete voaram em todos os programas da NASA do século XX. Grissom morreu em 1967 no incêndio da Apollo 1. Shepard foi o primeiro norte-americano no espaço em 1961 e pisou na Lua na Apollo 14 em 1971. Glenn foi o primeiro norte-americano a orbitar a Terra em 1962 e tornou-se em 1998 a pessoa mais velha a ir para o espaço na STS-95. Carpenter voou apenas na Mercury antes de ser desqualificado por problemas no seu braço, enquanto Slayton só foi viajar para o espaço na Apollo–Soyuz em 1975. Cooper também voou no Projeto Gemini, enquanto Schirra foi o único a voar nos programas Mercury, Gemini e Apollo.
Antecedentes O lançamento em 4 de outubro de 1957 do Sputnik 1, o primeiro satélite artificial da história, pela União Soviética em meio à Guerra Fria iniciou uma competição tecnológica e ideológica contra os Estados Unidos que ficou conhecida como Corrida Espacial. Tal demonstração aparente da inferioridade tecnológica norte-americana causou um choque profundo no povo dos Estados Unidos. Os soviéticos continuaram com o lançamento da Sputnik 2 em novembro, que carregava o primeiro ser vivo ao espaço, uma cachorra chamada Laika. Analistas da inteligência norte-americana concluíram que a União Soviética planejava colocar um humano em órbita, o que fez com que a Força Aérea dos Estados Unidos e o Comitê Nacional para Aconselhamento sobre Aeronáutica (NACA) fortalecessem seus esforços para alcançar o mesmo objetivo.
O presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower, em resposta a Crise do Sputnik, decidiu criar uma nova agência espacial civil, a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA), que absorveria a NACA e seria responsável pelo comando geral do programa espacial dos Estados Unidos. Enquanto isso, a Força Aérea lançou seu próprio projeto espacial chamado Man in Space Soonest, o qual tinha sido aprovado pelo Estado-Maior Conjunto, pedindo um orçamento de 133 milhões de dólares. O projeto enfrentou dificuldades técnicas, que por sua vez causaram problemas de financiamento, e por fim criaram conflitos com as outras duas agências que deveriam prestar apoio, a NACA e a Agência de Pesquisa de Projetos Avançados (ARPA). O principal problema era a incapacidade da Força Aérea de articular um propósito militar claro para o Man in Space Soonest. A Força Aérea concordou em setembro de 1958 transferir a responsabilidade do projeto para a NASA, que foi estalecida em 1º de outubro de 1958.
O Grupo de Tarefas Espaciais foi estabelecido em 5 de novembro no Centro de Pesquisa Langley em Hampton, Virgínia, com Robert Gilruth como seu diretor. Keith Glennan, o Administrador da NASA, e seu vice Hugh Dryden adotaram em novembro a sugestão de Abe Silverstein, diretor de Desenvolvimento de Voos Espaciais, que o primeiro projeto espacial tripulado norte-americano deveria se chamar Projeto Mercury. O nome foi anunciado por Glennan em 17 de dezembro, o 55º aniversário do primeiro voo dos Irmãos Wright. O objetivo do Projeto Mercury era lançar um humano em órbita da Terra, trazê-lo de volta em segurança e avaliar suas capacidades no espaço.
Critérios A primeira tarefa para o Grupo de Tarefas Espaciais era decidir um nome apropriado para definir as pessoas que voariam para o espaço. Uma sessão de ideias ocorreu em 1º de dezembro. Por analogia com o termo "aeronauta" veio o nome "astronauta", que significa "viajante estelar", mesmo com as ambições do Projeto Mercury sendo bem mais limitadas. Os membros do grupo ficaram satisfeitos e acharam que tinham cunhado uma palavra nova, porém o termo já era usado em obras de ficção científica desde a década de 1920. O painel de seleção consistia em Charles Donlan, Warren North e Allen Gamble, todos gerentes da NASA, com os três elaborando uma especificação de serviço civil para os astronautas. O painel propôs que os astronautas ficassem nas avaliações 12 a 15 do serviço civil, dependendo de qualificação e experiência, com um salário anual de 8 330 a 12 770 dólares (equivalente a 71 594 a 109 755 dólares em valores de 2018). Os três descreveram os deveres dos astronautas como:
O painel considerou que muitas pessoas poderiam possuir as habilidades necessárias – foram considerados como possíveis grupos de candidatos pilotos de aeronaves, submarinistas, mergulhadores de grande profundidade e montanhistas – porém no final foi decidido que os melhores candidatos seriam pilotos de teste militares. Aceitar apenas militares simplificaria o processo, além de satisfazer os requerimentos de segurança, já que o papel certamente envolveria o manuseio de materiais confidenciais. A decisão de restringir o processo a pilotos de teste militares foi feita por Glennan, Dryden e Gilruth na última semana de dezembro de 1958. A ironia de empregar apenas militares em um programa civil não passou desapercebida, com Glennan achando que era melhor ter a aprovação de Eisenhower para isso, já que o presidente tinha determinado que o programa espacial fosse civil. Um encontro foi marcado e Eisenhower foi convencido dos argumentos, dando sua aprovação.
O painel estabeleceu os critérios para a seleção. Os astronautas deveriam: ter menos de quarenta anos de idade, menos de 1,80 metros de altura, estarem em excelente condição física, possuírem um bacharelato ou equivalente, serem formandos de uma escola de pilotos de teste, terem pelo menos 1 500 horas de voo e serem qualificados como pilotos de aeronaves a jato. O limite de altura devia-se ao tamanho da espaçonave Mercury, cujo tamanho impossibilitava alguém mais alto. Ainda não se tinha certeza que uma pilotagem no sentido comum seria possível no espaço, porém desde o início o projeto da cápsula dava certo grau de controle manual.
Seleção thumb|esquerda|270px|Os sete astronautas em frente de um Convair F-106 Delta Dart em 20 de janeiro de 1961. Esquerda para direita: Carpenter, Cooper, Glenn, Grissom, Schirra, Shepard e Slayton. O primeiro passo para a seleção foi obter junto ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos os registros de serviço de todos os formandos de escolas de pilotos de teste do país. Todos os ramos das Forças Armadas concordaram em cooperar totalmente e entregaram sem problemas seus registros. Haviam 508 pilotos de teste no total, dos quais 225 eram da Força Aérea, 225 da Marinha, 35 do Exército e 23 do Corpo de Fuzileiros Navais. Donlan, North, Gamble e Robert Voas analisaram os registros em janeiro de 1959 e identificaram 110 – cinco dos Fuzileiros, 47 da Marinha e 58 da Força Aérea – que cumpriam os requisitos mínimos. Estes pilotos foram divididos em três grupos, com os mais promissores ficando no primeiro grupo.
Foram levados 69 candidatos até o Pentágono em Washington, D.C., divididos em dois grupos. O primeiro de 35 se reuniu em 2 de fevereiro. Os oficiais da Marinha e dos Fuzileiros Navais foram recepcionados pelo almirante Arleigh Burke, Chefe de Operações Navais, enquanto os oficiais da Força Aérea foram recebidos pelo general Thomas D. White, Chefe do Estado-Maior da Força Aérea. Os dois afirmaram seu apoio ao programa espacial e prometeram que as carreiras dos voluntários não seriam afetadas negativamente. Eles reconheceram que seria uma empreitada perigosa, porém era algo de grande importância nacional.
Os candidatos então acompanharam três apresentações. A primeira era sobre a NASA e sobre o Projeto Mercury, a segunda sobre o papel do piloto no projeto, e a última sobre o programa de estudos proposto para o treinamento. À tarde os candidatos tiveram breves encontros individuais com o comitê de seleção. Foi enfatizado que a participação era completamente voluntária, que os candidatos eram livres para recusar e que não haveria repercussões negativas em suas carreiras caso escolhessem não participar. Vários recusaram nesse momento.
Os restantes foram instruídos a se apresentaram na sede da NASA em Washington no dia seguinte. Voas lhes passou uma série de testes de padronização: o Teste de Análises Miller a fim de medir o QI, o Teste de Analogias de Engenharia Minnesota para medir aptidão em engenharia e o Teste de Raciocínio Matemático Doppelt com o objetivo de medir a aptidão matemática. Donlan, North e Gamble em seguida realizaram entrevistas em que fizeram perguntas técnicas e indagaram aos candidatos sobre suas motivações para participar do programa. Os candidatos também foram avaliados por dois psiquiatras da Força Aérea, George E. Ruff e Edwin Z. Levy. O cirurgião de voo William S. Augerson da Força Aérea examinou seus registros médicos. Descobriu-se que alguns estavam acima do limite de altura e foram eliminados neste ponto do processo.
Esse processo foi repetido uma semana depois com o segundo grupo de 34 candidatos. Dos 69, descobriu-se que seis estavam acima do limite de altura, quinze foram eliminados por outros motivos e dezesseis recusaram. Isto deixou a NASA com 32 possíveis astronautas: quinze da Marinha, quinze da Força Aérea e dois dos Fuzileiros. Foi decidido não se ocupar com os 41 restantes, pois 32 parecia um número mais do que adequado para selecionar os doze astronautas planejados. O grau de interesse também indicou que poucos abandonariam o projeto no treinamento, o que resultaria no treino de astronautas que não voariam. Foi assim decidido cortar o número de selecionados para seis.
Em seguida houve uma série de testes físicos e psicológicos entre janeiro e março na Clínica Lovelace e no Laboratório Médico Aeroespacial Wright, sob a direção de Albert H. Schwichtenberg, um general de brigada da Força Aérea aposentado. Os testes incluíam corridas em esteiras e em mesas de inclinação, submersão dos pés em água congelante, três doses de óleo de rícino e cinco enemas. Apenas um candidato, Jim Lovell, foi eliminado por motivos médicos, um diagnóstico que depois se descobriu estar errado; treze outros foram recomendados com ressalvas. Gilruth teve dificuldade em escolher apenas seis dos dezoito restantes e acabou por fim escolhendo sete.
Muitos dos outros 25 finalistas, mesmo não tendo sido escolhidos, conseguiram ter carreiras militares distintas e de sucesso. Três posteriormente conseguiram se tornar astronautas: Lovell e Pete Conrad foram escolhidos em 1962 logo no grupo seguinte, enquanto Edward Givens foi selecionado em 1966 no quinto grupo. Outros alcançaram patentes altas nas forças armadas: Lawrence Heyworth tornou-se contra-almirante, Robert B. Baldwin e William P. Lawrence foram vice-almirantes, e Thomas B. Hayward chegou a almirante. Este último chegou a comandar a Sétima Frota da Frota do Pacífico e foi o Chefe de Operações Navais de 1978 a 1982.
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