thumb|Ur, localizada na região da Mesopotâmia

Ur (em sumério: Urim;S. M. Kramer, The Sumerians, Their History, Culture, and Character, University of Chicago Press, 1963, p. 28 e 298 cuneiforme sumério: URIM2KI ou URIM5KI;Transliteração literal: Urim2 = ŠEŠ.ABgunu = ŠEŠ.UNUG ( e Urim5 = ŠEŠ.AB , onde ŠEŠ=URI3 (The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature.) acádio: Uru<ref name="Cam">The Cambridge Ancient History: Prologomena & Prehistory: vol. 1, parte 1. Página visitada em 15-12-2010.]</ref>) foi uma importante cidade-estado na antiga Suméria, localizada nas proximidades da atual cidade de Tell el-Muqayyar e a 16 km de Nassíria, na província de Dicar do Iraque.Tell el-Muqayyar – em árabe Tell significa "morro" ou "monte", e Muqayyar significa "construído com bitume." Muqayyar também já foi transcrito como Mugheir, Mughair, Moghair, etc. Embora na Antiguidade fosse uma cidade litorânea, situada na foz do rio Eufrates, no Golfo Pérsico, atualmente situa-se no interior do país, ao sul da margem direita do Eufrates, a 16 quilômetros de Nassíria.

O padroeiro da cidade era Nana, a divindade lunar suméria, e o nome da cidade deriva, em sua origem, do nome do deus, URIM2KI, grafia clássica suméria de LAK-32.UNUGKI, literalmente "a morada (UNUG) de Nanna (LAK-32)".Reallexikon der Assyriologie, 1997, ISBN 978-3-11-014809-1, p.360

O sítio arqueológico de Ur caracteriza-se pelas ruínas do Grande Zigurate de Ur, que continha o santuário de Nana, escavado na década de 1930. O templo foi construído no (cronologia curta), durante o reinado de Ur-Namu, e foi reconstruído no por Nabonido. As ruínas abrangem uma área de metros de noroeste a sudeste e 800 metros de nordeste a sudoeste, e se elevavam a 20 metros acima do nível atual da planície local.Zettler, R.L. and Horne, L. (eds.) 1998. Treasures from the Royal Tombs of Ur, Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia

De acordo com o livro bíblico de Génesis, foi a residência de Abraão, patriarca dos hebreus, considerada também a maior cidade de sua época. Em sua peregrinação, Abraão sai de Ur e vai para Harã e de lá para Canaã; nessa época muitos clãs migravam para a região conhecida como Crescente Fértil. e

História História antiga Pré-história Os arqueólogos descobriram evidências de uma ocupação antiga de Ur durante o período de Ubaid. Estes primeiros níveis foram selados por um depósito estéril, interpretado como evidência do Dilúvio Universal mencionado na Bíblia pelos responsáveis pela escavação na década de 1920. Atualmente sabe-se que a planície do sul da Mesopotâmia estava exposta a enchentes regulares tanto do Eufrates quanto do Tigre, e com forte presença de erosões causadas pelo vento e pela água. A ocupação sistemática de Ur apenas se torna clara durante sua emergência no terceiro milênio a.C. (embora ela já fosse um centro urbano em desenvolvimento durante o quarto milênio). O terceiro milênio a.C. costuma ser descrito como o início da Idade do Bronze na Mesopotâmia, que termina aproximadamente após o fim da Terceira dinastia de Ur.

Terceiro milênio a.C. (Idade do Bronze inicial) esquerda|thumb|Mesopotâmia no terceiro milênio a.C.

Existem duas principais fontes que os acadêmicos utilizam para determinar a importância de Ur durante o início da Idade do Bronze. A primeira é o grande corpus de documentos cuneiformes, a maioria do império da chamada Terceira Dinastia de Ur, no fim do terceiro milênio antes de Cristo. À época, este foi o Estado burocrático mais centralizado que o mundo conheceu. A respeito dos séculos anteriores, a Lista de Reis Sumérios apresenta, com alguma falta de exatidão, uma história política da antiga Suméria.

A segunda fonte de informação é o trabalho arqueológico realizado no Iraque moderno. Embora os primeiros séculos (primeira metade do terceiro milênio, e antes) ainda sejam pouco compreendidos, as descobertas arqueológicas mostraram de maneira inequívoca que Ur era um importante centro urbano da planície Mesopotâmica. Em especial a descoberta das Tumbas Reais confirmaram este esplendor; estas tumbas, que datam ao período Dinástico Antigo IIIa (aproximadamente século XXV ou ), continham quantidades enormes de itens luxuosos, feitos de metais preciosos e pedras semipreciosas, que importados de locais distantes (nos atuais Irã, Afeganistão, Paquistão, Turquia, e nações do golfo Pérsico). Esta riqueza, até então sem precedentes, é testemunho da importância econômica de Ur durante o início da Idade do Bronze.Aruz, J. (ed.) 2003. Art of the First Cities. The Third Millennium B.C. from the Mediterranean to the Indus, The Metropolitan Museum of Art, Nova York

Estudos arqueológicos da região também contribuíram enormemente à nossa compreensão do cenário e das interações de longa distância que foram realizadas durante este período arcaico. Sabe-se que Ur era o porto mais importante do golfo Pérsico, que se estendia mais para o interior do que nos dias de hoje. Toda a riqueza que chegava pelo mar à Mesopotâmia passava por Ur.

Até agora as evidências dos períodos mais antigos do início da Idade do Bronze são muito limitadas. Que Ur já era então um centro urbano importante parece ser indicado por um tipo de selo cilíndrico, os chamados Selos das Cidades. Estes selos contêm um grupo de sinais proto-cuneiformes que parecem ser inscrições ou símbolos representando o nome de cidades-estados da Suméria antiga. Muitos destes selos foram encontrados em Ur, e o nome de Ur aparece com destaque neles.Matthews, R.J. 1993. Cities, Seals and Writing: Archaic Seal Impressions from Jemdet Nasr and Ur, Berlin

thumb|Império da Terceira Dinastia de Ur

A terceira dinastia teve seu início quando o rei Ur-Namu assumiu o poder, governando entre cerca de e Durante seu governo diversos templos, incluindo o zigurate, foram construídos, e a agricultura foi aperfeiçoada através da irrigação. Seu código de leis, o Código de Ur-Namu (um de seus fragmentos foi identificado em Istambul, em 1952) é um dos documentos mais antigos do gênero, antecedendo o Código de Hamurabi em pelo menos 300 anos. Tanto Ur-Namu quanto seu sucessor, Sulgi, foram deificados ainda durante seus reinados, e após sua morte Ur-Namu continuou a ser considerado uma figura heróica: uma das obras da literatura suméria que chegaram até os dias de hoje descreve a sua morte, e sua jornada até o mundo inferior.Amélie Kuhrt, The Ancient Near East: C.3000-330 B.C., Routledge, 1995, ISBN 0-415-16762-0 Neste período, as casas da cidade eram villas de dois andares e 13 ou 14 dormitórios, com paredes interiores revestidas de gesso.

Ur-Namu foi sucedido por Sulgi, maior rei da Terceira Dinastia de Ur, que solidificou a hegemonia de Ur e transformou o império num Estado burocrático altamente centralizado. Sulgi governou por muito tempo (pelo menos 42 anos; 48 segundo alguns autores), e se deificou no meio de seu reinado.

O império de Ur continuou pelos reinados de três outros monarcas, Amar-Sim, Su-Sim e Ibi-Sim. Caiu para os elamitas por volta de , durante o 24.º ano real de Ibi-Sim, um evento celebrado pelo Lamento de Ur.Douglas Frayne, Ur III Period (2112-2004 BC), University of Toronto Press, 1997, ISBN 0-8020-4198-1"The ruling family of Ur III Umma. A Prosopographical Analysis of an Elite Family in Southern Iraq 4000 Years ago" , J.L. Dahl, UCLA, 2003

De acordo com uma estimativa, Ur foi a maior cidade do mundo de 2030 a ; sua população era de aproximadamente pessoas.Largest Cities Through History. Geography - About.com

Idade do Bronze Tardia A cidade de Ur perdeu sua força política após o fim da Terceira Dinastia de Ur. Ainda assim, sua posição geográfica importante no acesso ao golfo Pérsico assegurou a importância econômica da cidade durante o segundo milênio a.C. O esplendor da cidade, a potência do império, a grandeza do rei Sulgi, e, indubitavelmente, a propaganda estatal eficiente perduraram por toda a história mesopotâmica. Sulgi foi uma figura histórica conhecida durante os dois mil anos seguintes, e as narrativas históricas das sociedades mesopotâmicas conservaram nomes, eventos e mitologias em sua memória.

Idade do Ferro Durante o século VI a.C. foram realizadas novas edificações em Ur, sob o governo de da Babilónia. O último rei babilônio, Nabonido, fez melhorias no zigurate. A cidade, no entanto, entrou em declínio por volta de e deixou de ser habitada após , talvez devido a uma seca causada pela mudança no traçado de alguns rios, e ao assoreamento da saída para o golfo Pérsico.

Ur bíblica Ur é considerada por muitos estudiosos como sendo a cidade de Ur Kasdim mencionada no Livro do Gênesis (hebraico bíblico: ), terra natal do patriarca Abraão (Ibrahim, em árabe), que teria nascido, de acordo com a tradição, no segundo milênio a.C.

Ur é mencionada quatro vezes na Torá e no Antigo Testamento, com a distinção de "dos Kasdim/Kasdin" - tradicionalmente traduzidos como "Ur dos Caldeus". Os caldeus já habitavam a região por volta de , e seu nome é mencionado em Gênesis 11:28, 11:31, 15:7. No Livro de Neemias (9:7), uma passagem que menciona Ur é parafraseada do Gênesis.

O Livro dos Jubileus afirma que Ur teria sido fundada em 1688 Anno Mundi, por 'Ur, filho de Kesed', supostamente descendente de Arfaxade, acrescentando que naquele mesmo ano as primeiras guerras teriam sido travadas na Terra. "E 'Ur, o filho de Kesed, construiu a cidade de 'Ara dos Caldeus, e deu a ela este nome em homenagem a seu próprio nome e ao nome de seu pai. [Kasdim]" (Jubileus 11:3).

Ur na tradição islâmica De acordo com os textos islâmicos, o profeta Ibrahim (Abraão) teria sido arremessado ao fogo em Ur. Nesta história, este fogo de Nimrod teria sido transformado em água, o que salvou a vida de Ibrahim. Embora o Corão não mencione o nome do rei, estudiosos muçulmanos descreveram Nimrod como sendo o rei com base nas fontes judaicas, especialmente o Livro de Jasher (11:1 and 12:6).Lore of Light: Stories from the Lives of the Prophets, Hajjah Amina Hatun. A. S. Noordeen, 1994, ISBN 967-9963-66-7

Arqueologia thumb|direita|Escavações arqueológicas em Tell el-Mukayyar, Iraque. Em 1625, o sítio foi visitado por Pietro della Valle, que registrou a presença de tijolos antigos inscritos com símbolos estranhos, e cimentados com bitume, bem como peças, igualmente inscritas, de mármore negro, que pareciam ser selos.

O sítio foi escavado pela primeira vez em 1853 e 1854, por John George Taylor, vice-cônsul britânico em Baçorá de 1851-1859.J. E. Taylor, "Notes on the Ruins of Muqeyer", Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland, vol. 15, p. 260-276, 1855JE Taylor, "Notes on Abu Shahrein and Tel-el-Lahm", Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland, vol. 15 , p. 404-415, 1855. Nas publicações relevantes ele foi identificado erroneamente como J. E. Taylor.E. Sollberger, Mr. Taylor in Chaldaea, Anatolian Studies, vol. 22, p. 129-139 , 1972

Taylor trabalhava para o Museu Britânico, tendo recebido instruções para fazê-lo do Foreign Office. Durante as escavações, encontrou nos quatro cantos do topo do zigurate cilindros de argila que traziam uma inscrição de Nabonido (Nabuna`id), último rei da Babilônia (), encerrada com uma oração para seu filho, Belsaruzur (Bel-ŝarra-Uzur), o Belsazar do Livro de Daniel. Foram encontradas evidências de restaurações anteriores do zigurate, feitas por Ismedagã, de Isim, e Su-Sim, de Ur, e por Curigalzu, um rei cassita da Babilônia do também alegou ter reconstruído o templo. Taylor escavou também um edifício babilônico interessante, a pouca distância do templo, que fazia parte de uma antiga necrópole babilônia. Por toda a cidade Taylor encontrou vestígios abundantes de enterros realizados em períodos posteriores; aparentemente, por ser considerada um local santificado, Ur havia se tornado um local favorito para sepulcros, e passou a ser usada como necrópole após ter deixado de ser habitada.