Hinde binte Oteba ibne Rabia ibne Abede Xemece ibne Abede Manafe ibne Cuçai Alcoraixia (; m. depois de 639) foi uma companheira de Maomé pertencente ao ramo dos abedexemecitas dos coraixitas. Filha de Oteba ibne Rabia e esposa de Abu Sufiane ibne Harbe, destacou-se inicialmente como uma das mais influentes opositoras do islamismo em Meca, participando ativamente da resistência coraixita contra Maomé antes de converter-se durante a Conquista de Meca. Era mãe de , fundador do Califado Omíada, circunstância que contribuiu para fazer dela uma das mulheres mais conhecidas da história islâmica primitiva.
A tradição islâmica a associa sobretudo aos acontecimentos das batalhas de Badre e Uude. Após perder o pai, o irmão e o tio em Badre, tornou-se uma das principais incentivadoras da guerra contra os muçulmanos e, segundo os relatos tradicionais, participou da mutilação do corpo de Hâmeza ibne Abede Almotalibe depois de sua morte em Uude, episódio que lhe valeu o epíteto de Ākilat al-Akbād ("a mulher que comeu o fígado"). A Encyclopaedia of Islam, contudo, observa que a literatura hostil aos omíadas contribuiu para acentuar e difundir essa imagem negativa. Após converter-se ao islamismo, Hinde passou a integrar a comunidade muçulmana e, segundo a tradição, participou da Batalha de Jarmuque, incentivando os combatentes e ajudando a impedir a desorganização das tropas. As fontes também a descrevem como uma mulher eloquente, enérgica e politicamente influente, qualidades refletidas tanto em sua atuação pública quanto nos conselhos que dirigiu ao filho Moáuia quando este assumiu o governo da Síria.
Vida
Hinde era filha de Oteba ibne Rabia e , descendendo por ambos os lados da família de Maomé. Pertencia ao ramo dos abedexemecitas da tribo dos coraixitas. Embora fosse uma das mais ferrenhas opositoras do islão em seus primeiros anos, seu irmão Abu Hudaifa figurou entre os primeiros convertidos à nova religião. Seu primeiro casamento foi com , primo de Calide ibne Alualide, com quem teve um filho chamado Abane. Segundo a tradição, o marido suspeitou que Hinde lhe fosse infiel e a enviou de volta à casa paterna; quando sua inocência foi reconhecida, ela decidiu romper definitivamente o casamento. Mais tarde, ao procurar um novo marido, pediu ao pai que lhe descrevesse as qualidades, e não os nomes, dos pretendentes. Entre eles escolheu Abu Sufiane ibne Harbe, com quem teve Moáuia, Oteba, Juairia e Ume Aláqueme. Hinde participou ativamente da oposição dos coraixitas a Maomé. Após seu pai, seu irmão Alualide e seu tio Xaiba morrerem na Batalha de Badre, jurou que não voltaria a chorar, usar perfumes nem manter relações conjugais até que a derrota fosse vingada. Também censurou duramente o irmão Abu Hudaifa por ter combatido ao lado dos muçulmanos contra o próprio pai, chegando a satirizá-lo em versos.
Durante a Batalha de Uude, acompanhou o exército comandado por Abu Sufiane juntamente com outras mulheres coraixitas, incentivando os combatentes por meio de poemas e do toque de pandeiros. Movida pelo desejo de vingar as mortes ocorridas em Badre, foi uma das pessoas que prometeram recompensar Uaxi ibne Harbe caso este matasse Hâmeza ibne Abede Almotalibe, oferecendo-lhe todas as suas joias, os bens que trazia consigo e dez moedas de ouro. Segundo a tradição preservada pelas fontes islâmicas, depois que Uaxi matou Hâmeza, Hinde recebeu dele o fígado do adversário e tentou mastigá-lo, razão pela qual ficou conhecida pelo epíteto de Ākilat al-Akbād ("a mulher que comeu o fígado"). Também teria entregue todas as joias prometidas a Uaxi e utilizado partes do corpo de Hâmeza e de outros combatentes mortos para confeccionar colares e tornozeleiras, incentivando outras mulheres de Meca a fazerem o mesmo. A Encyclopaedia of Islam observa, contudo, que as tradições hostis aos omíadas construíram um retrato particularmente negativo de Hinde, contribuindo para fixar essa imagem na historiografia islâmica posterior. Pouco antes da Hégira de Zainabe binte Maomé para Medina, Hinde aproximou-se dela oferecendo ajuda e tratando-a por "prima". Temendo que sua partida fosse impedida, porém, Zainabe respondeu que não pretendia deixar Meca.
A hostilidade de Hinde ao islão persistiu até a Conquista de Meca. Quando Abu Sufiane regressou à cidade anunciando que Maomé concederia salvo-conduto aos que se refugiassem em sua casa, Hinde foi a primeira a opor-se, agarrando o marido pela barba e conclamando os coraixitas a matá-lo. No dia seguinte, entretanto, ela própria abraçou o islão. Segundo a tradição, sua decisão foi influenciada por um sonho em que os ídolos a empurravam para o fogo enquanto Maomé a salvava, bem como pela impressão causada ao observar os muçulmanos passarem toda a noite em adoração junto à Caaba, algo que, segundo afirmou, jamais testemunhara anteriormente. Temendo que a antiga inimizade de Hinde pudesse provocar sua execução antes de chegar à presença de Maomé, Abu Sufiane aconselhou-a a apresentar-se sob a proteção de uma pessoa influente. Disfarçada e acompanhada, segundo diferentes tradições, por Omar, Otomão ou por seu irmão Abu Hudaifa, Hinde juntou-se ao grupo de mulheres que compareceram diante de Maomé para prestar o juramento de fidelidade previsto em . Durante a cerimônia, interveio diversas vezes. Ao ouvir a proibição do furto, observou que o marido era avarento e perguntou se poderia utilizar parte de seus bens sem autorização para sustentar a si e aos filhos. Maomé respondeu que lhe era permitido retirar apenas o necessário para as despesas da família.
Prosseguindo o juramento, Hinde reagiu às demais condições impostas. Diante da proibição do adultério, declarou que uma mulher livre não cometeria tal ato; quando Maomé mencionou o infanticídio, respondeu que os filhos criados na infância haviam sido mortos pelos muçulmanos em Badre; ao tratar da calúnia, reconheceu que a difamação era moralmente condenável; por fim, ao ouvir que as mulheres deveriam obedecer ao Mensageiro de Deus nas boas obras, afirmou que não comparecera para depois desobedecer-lhe. Segundo algumas tradições, Maomé somente aceitou seu juramento depois que ela cobrisse as mãos com hena, pois comparara sua palma sem tintura à pata de um animal feroz. Ao perceber sua identidade, Maomé não fez qualquer referência à antiga hostilidade que ela lhe dedicara. Comovida com a recepção, Hinde declarou que antes desejara ver destruída a família de Maomé mais do que qualquer outra sobre a Terra, mas que agora nenhuma lhe era mais estimada. Ao regressar para casa, destruiu os ídolos que possuía e, pouco depois, enviou a Maomé dois cabritos assados preparados por uma serva, desculpando-se por não poder oferecer mais. Maomé orou para que seus rebanhos prosperassem, e as tradições relatam que Hinde mais tarde atribuía o aumento de seus animais àquela bênção.
Hinde acompanhou Abu Sufiane durante a Batalha de Jarmuque, onde, segundo a tradição, estimulou os combatentes muçulmanos com discursos entusiásticos e desempenhou papel importante, juntamente com outras mulheres, em impedir que o exército se desorganizasse quando surgiram os primeiros sinais de retirada. A Encyclopaedia of Islam também preserva a tradição segundo a qual exortava os muçulmanos a "circuncidarem" seus adversários incircuncisos com as espadas, refletindo a veemência de sua participação no combate. Algumas tradições afirmam que Hinde se divorciou de Abu Sufiane após a conquista da Síria, passando a dedicar-se ao comércio. Durante o califado de Omar , obteve do tesouro público um empréstimo de quatro mil dirrãs para investir em atividades mercantis, mas acabou sofrendo prejuízo. Quando seu filho Moáuia foi nomeado governador da Síria, visitou-o e aconselhou-o a obedecer ao califa em todas as circunstâncias, recordando-lhe que Omar era um governante que colocava o temor de Deus acima de qualquer interesse pessoal e advertindo-o de que o favorecimento indevido de parentes poderia resultar em sua destituição. As fontes divergem quanto à data de sua morte. Alguns relatos a situam em 635, durante o califado de Omar, no mesmo dia em que faleceu o pai de Abu Becre. Entretanto, a tradição que a apresenta participando da Batalha de Jarmuque em 636 e visitando Moáuia depois de sua nomeação como governador da Síria em 639 indica que ainda vivia após essa data. A Encyclopaedia of Islam observa igualmente que algumas fontes afirmam ter morrido no califado de Omar, enquanto outras transferem sua morte para o de Otomão, antes da ascensão de seu filho ao califado.
Personalidade e legado
As fontes descrevem Hinde como uma mulher inteligente, eloquente, corajosa e orgulhosa. Tornou-se conhecida por seus discursos de incentivo aos combatentes, pelos poemas satíricos dirigidos a adversários e pelas elegias compostas em memória de parentes mortos em combate, parte das quais foi preservada pela tradição literária árabe. Segundo um relato tradicional, Hinde encontrou a poetisa Alcança em uma feira, depois de ouvir que ela se apresentava como a mulher árabe mais duramente atingida pela perda dos irmãos nas guerras tribais. Contestando essa afirmação, Hinde sustentou que a maior desgraça recaíra sobre ela em razão da morte do pai, do irmão e do tio na Batalha de Badre, travando com Alcança uma recitação alternada de elegias em homenagem aos respectivos familiares. A imagem de Hinde na tradição islâmica foi profundamente marcada pelos relatos sobre sua atuação antes da conversão ao islão, sobretudo pelo episódio da mutilação do corpo de Hâmeza. A Encyclopaedia of Islam ressalta, contudo, que as tradições hostis aos omíadas contribuíram para construir um retrato particularmente negativo e, por vezes, caricatural de sua personalidade, em contraste com os relatos posteriores que destacam sua conversão, sua participação nas campanhas muçulmanas e sua influência sobre Moáuia I.
Bibliografia
Categoria:Abedexemecitas Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Mulheres na religião Categoria:Nascidos no século VI Categoria:Mortos no século VII Categoria:Mulheres em guerras da Idade Média Categoria:Árabes do século VI Categoria:Árabes do século VII Categoria:Muçulmanos envolvidos nas guerras bizantino-árabes