Sade ibne Abi Uacas (; Meca, — , ) foi um dos companheiros de Maomé, comandante militar, estadista e tradicionalista pertencente aos zuraítas dos coraixitas. Figura entre os primeiros convertidos ao islã e integra o grupo dos dez companheiros aos quais Maomé prometeu o Paraíso. Participou de todas as campanhas militares conduzidas pelo profeta e distinguiu-se como um de seus mais próximos colaboradores, sendo frequentemente tratado por ele como "tio materno" em razão dos laços de parentesco entre ambos. Durante o Califado Ortodoxo, comandou a conquista muçulmana do Iraque, derrotando decisivamente o Império Sassânida na Batalha de Cadésia e ocupando Ctesifonte, antiga capital do império. Por determinação do califa Omar , fundou a cidade de Cufa, da qual se tornou o primeiro governador. Posteriormente integrou a xura de seis membros encarregada de escolher o sucessor de Omar e, durante a Primeira Fitna, manteve posição de neutralidade entre Ali ibne Abi Talibe e . Além de sua atuação militar e política, Sade destacou-se como transmissor de hádices, sendo considerado uma das principais autoridades da primeira geração islâmica. Suas tradições foram preservadas nas principais coleções sunitas e exerceram influência duradoura sobre a jurisprudência e a historiografia islâmicas.

Vida

Sade nasceu em Meca em 592. Era filho de , pertencente aos zuraítas, e de , que morreu sem abraçar o islã. Por linhagem paterna, descendia de Zura ibne Quilabe, enquanto, por parte materna, ligava-se aos Banu Omaia, encontrando-se ambas as genealogias com a de Maomé em ancestrais comuns dos coraixitas. Seu avô Uaibe ibne Abede Manafe era tio de Amina binte Uabe, mãe de Maomé, razão pela qual o profeta costumava tratá-lo como seu "tio materno". Converteu-se ao islã aos dezessete ou dezenove anos de idade, figurando entre os primeiros adeptos da nova religião. Segundo diferentes tradições, foi o terceiro, o sétimo ou o nono convertido, numa época em que a oração ritual ainda não havia sido prescrita. Sua mãe tentou forçá-lo a abandonar a nova fé, jurando que não voltaria a falar nem a alimentar-se enquanto ele não renunciasse ao islã. Sade, porém, manteve-se firme, declarando que não abandonaria sua religião ainda que ela possuísse cem vidas. Esse episódio foi posteriormente relacionado à revelação do versículo que determina a obediência aos pais apenas naquilo que não implique desobediência a Deus. Ainda nos primeiros anos da pregação islâmica, Sade ganhou fama por ter sido o primeiro muçulmano a derramar sangue em defesa da nova religião ao ferir um politeísta que insultava um grupo de fiéis. Pouco depois emigrou para Medina antes da chegada de Maomé e foi ligado em fraternidade a Muçabe ibne Omeir ou, segundo outra tradição, a Sade ibne Muade. Participou das expedições de Rabigue e Nacla, ocasião em que disparou a primeira flecha lançada pelos muçulmanos contra uma caravana dos coraixitas. Também comandou a Expedição de Harrar, uma de suas primeiras missões militares independentes.

Durante a vida de Maomé, Sade participou de todas as campanhas militares conduzidas pelo profeta. Na Batalha de Badre, matou , comandante da cavalaria dos coraixitas, entregando sua espada a Maomé após o combate. Em Uude, destacou-se como um dos principais defensores do profeta durante o contra-ataque dos coraixitas. Reconhecido por sua habilidade como arqueiro, acertou todos os disparos que efetuou, levando Maomé a entregar-lhe pessoalmente as flechas e a incentivá-lo com as palavras: "Atira, Sade! Que meu pai e minha mãe sejam teu resgate!". Ao longo desse período, acompanhou ainda todas as demais campanhas militares e permaneceu repetidamente ao lado do profeta em momentos de maior perigo, inclusive durante vigílias noturnas em Medina quando havia receio de ataques inimigos. Diversos episódios de sua vida foram posteriormente associados à revelação de versículos do Alcorão. Entre eles figuram a proibição definitiva das bebidas alcoólicas, motivada por um conflito ocorrido entre alguns muçulmanos durante um banquete no qual Sade ficou ferido; a revelação do versículo que ordena ao profeta não afastar de sua companhia os primeiros crentes humildes, entre os quais Sade era mencionado; e o versículo relativo à distribuição dos despojos de guerra, revelado depois que pediu para conservar uma espada obtida em combate. Também foi relacionado ao versículo que determina a obediência aos pais apenas quando esta não implique desobediência a Deus, em referência à pressão exercida por sua mãe para que abandonasse o islã. Após a Conquista de Meca, ou segundo outras tradições durante a Peregrinação de Despedida, Sade adoeceu gravemente, levando Maomé a visitá-lo quando muitos acreditavam que sua morte era iminente. Preocupado por deixar apenas uma filha como herdeira, manifestou o desejo de legar toda a sua fortuna em testamento. O profeta recusou sucessivamente que dispusesse da totalidade ou da metade de seus bens, autorizando-o a destinar, no máximo, um terço da herança, princípio que se tornou um dos fundamentos clássicos do direito sucessório islâmico. Maomé também orou por sua recuperação e pediu a Deus que atendesse às suas súplicas, circunstância que contribuiu para a tradição segundo a qual as preces de Sade eram invariavelmente aceitas.

Após a morte de Maomé, Sade continuou a desempenhar funções de relevo durante o Califado Ortodoxo. No governo de Abu Becre , exerceu inicialmente a cobrança da zacate entre os hauazinitas e, durante o califado de Omar , foi nomeado comandante das forças enviadas ao Iraque após a derrota muçulmana na Batalha da Ponte. À frente desse exército, comandou a decisiva Batalha de Cadésia, travada em 15 A.H. (636), na qual os sassânidas sofreram uma derrota que abriu caminho para a conquista da Mesopotâmia. Segundo algumas tradições, encontrava-se enfermo durante o combate e dirigiu as operações a partir de uma posição elevada, delegando o comando direto das tropas aos seus subordinados. A vitória em Cadésia permitiu a ocupação de Ctesifonte, capital do Império Sassânida, e foi consolidada pouco depois com a derrota sassânida na Batalha de Jalula, travada por um destacamento enviado por Sade e comandado por seu sobrinho . Embora a cronologia exata dessas campanhas varie entre as fontes, elas marcaram o colapso definitivo do domínio sassânida sobre o Iraque e estabeleceram as bases para a expansão muçulmana em direção ao planalto iraniano. Pelas vitórias obtidas e pelas táticas empregadas durante essas campanhas, Sade passou a ser lembrado como um dos mais destacados comandantes militares dos primeiros tempos do islã, recebendo posteriormente o epíteto de Fāris al-Islām ("Cavaleiro do Islã").

Concluída a conquista do Iraque, Omar determinou a fundação de Cufa para servir de cidade-guarnição às tropas árabes anteriormente aquarteladas em Ctesifonte. Embora a iniciativa tenha partido do califa, as fontes atribuem a Sade a organização do novo assentamento, tornando-se seu primeiro governador entre 17 e 21 A.H. (638–642). Durante sua administração, porém, foi alvo de acusações de distribuir injustamente os despojos de guerra, conduzir de forma inadequada as campanhas militares e prolongar excessivamente as orações. Também se afirmava que sua residência em Cufa apresentava luxo incompatível com os padrões defendidos por Omar, que ordenou parte de sua demolição. Embora o califa o considerasse inocente das acusações, decidiu substituí-lo para evitar o agravamento das tensões entre os habitantes da cidade. No início do califado de Otomão , Sade voltou a exercer o governo de Cufa por determinação expressa deixada por Omar. Pouco tempo depois, entretanto, um desentendimento com Abedalá ibne Maçude em torno da restituição de um empréstimo tomado do tesouro público provocou novas divisões entre os habitantes da cidade, levando à sua segunda destituição cerca de um ano após a nomeação. Ainda durante esse período reprimiu uma revolta em Rei, antes de retirar-se definitivamente da administração provincial. Apesar de sua destituição do governo de Cufa, Sade continuou a gozar da confiança de Omar. Quando o califa foi mortalmente ferido em 23 H (644), incluiu-o no conselho de seis companheiros encarregado de escolher seu sucessor, a xura, declarando que jamais o afastara do governo por desonestidade ou incapacidade e recomendando que, caso não fosse escolhido califa, o futuro governante buscasse seus conselhos. Durante as deliberações, Sade retirou sua própria candidatura e apoiou Abederramão ibne Aufe, cuja mediação resultou na escolha de Otomão como terceiro califa.

Após o assassinato de Otomão e a eclosão da Primeira Fitna, Sade recusou-se a participar da guerra civil. Manteve posição de neutralidade tanto em relação a Ali ibne Abi Talibe quanto a , sustentando que não combateria enquanto não pudesse distinguir com certeza o crente do descrente. Segundo uma tradição amplamente preservada, respondeu aos que insistiam para que tomasse partido: "Trazei-me uma espada que distinga o crente do descrente, e então combaterei". Embora sua posição e alguns episódios relacionados ao período variem entre as fontes, a tradição sunita o apresenta como exemplo de prudência diante da discórdia entre os primeiros muçulmanos. Nos últimos anos de vida retirou-se para sua propriedade em , nas proximidades de Medina, onde se dedicou à agricultura. Perdeu a visão na velhice e morreu em 55 A.H. (675), embora algumas tradições indiquem os anos de 54 A.H. (674) ou 58 A.H. (678). Seu corpo foi levado para Medina e sepultado no Cemitério de Albaqui, envolto, conforme seu testamento, na túnica desgastada que usara em Badre. A oração fúnebre foi presidida por Maruane ibne Aláqueme, então governador de Medina. As fontes registram que foi o último sobrevivente entre os dez companheiros aos quais Maomé prometera o Paraíso e também o último dos muajiritas a falecer. Descrito como homem de constituição física vigorosa, excelente cavaleiro e arqueiro de notável pontaria, Sade era conhecido por sua firme oposição às injustiças. Casou-se doze vezes e teve quarenta filhos, dos quais as fontes preservam o nome de trinta e seis. Entre seus irmãos, morreu em Badre, Amir caiu na Batalha de Jarmuque, enquanto , que combateu ao lado dos coraixitas em Uude e foi apontado como responsável por quebrar um dos dentes de Maomé, morreu sem converter-se ao islã.

Legado