250px|thumb|Livro do Armeiro-Mor, Armas do Rei de Portugal (fl 10r) O Livro do Armeiro-Mor é um manuscrito iluminado datado de 1509, durante o reino de D. Manuel I, décimo-quarto rei de Portugal. O códice é um armorial, isto é, uma coletânea de armas heráldicas, da autoria do Rei de Armas João do Cró. É considerado uma das obras-primas da iluminura conservadas em Portugal, a par de, por exemplo, o Apocalipse do Lorvão, do século XII, o Livro de Horas de D. Duarte, ou dos contemporâneos Bíblia dos Jerónimos e Livro de Horas de D. Manuel, também executados para o Venturoso. Por ser o mais antigo armorial português que sobreviveu até aos nossos dias, por ser a fonte mais antiga que hoje temos quanto a certas armas, e ainda pela beleza das suas magníficas iluminuras, é considerado o mais importante armorial português. Foi chamado o "monumento máximo do que poderemos chamar a cultura heráldica portuguesa."AZEVEDO, Francisco de Simas Alves de: Uma Interpretação Histórico-Cultural do Livro do Armeiro-Mor, p. 69

A obra é assim chamada por ter sido entregue à guarda do Armeiro-Mor D. Álvaro da Costa, nomeado em 1511, em cuja família o cargo e a guarda do livro se mantiveram por mais de dez gerações. Por essa razão escapou o Livro do Armeiro-Mor ao grande Terramoto de 1755, que destruiu, entre tantas outras coisas, o Cartório da Nobreza. O livro esteve ainda na origem do Livro da Nobreza e Perfeiçam das Armas ainda na primeira metade do século XVI. O Thesouro de Nobreza, já no terceiro quartel do século XVII, seguiu de certa forma o modelo da obra de João do Cró.

Este artigo enumera a totalidade das quase quatrocentas armas no Livro do Armeiro-Mor, na exata ordem em que estas são apresentadas nos cinco capítulos da obra.

Características thumb|Santificação da Eleição do Imperador. Início da capítulo sobre a eleição do Imperador da Alemanha (fl 30r) (Ver infra) O Livro do Armeiro-Mor contém 161 fólios de pergaminho, nas dimensões 403 x 315 mm, e está escrito em português. No fim da Monarquia pertencia à livraria particular do rei D. Carlos. Hoje conserva-se no arquivo nacional da Torre do Tombo (cota Casa Real, Cartório da Nobreza, liv. 19).

O livro foi encomendado por D. Manuel I, conforme se pode ler no início da obra:

Trata-se assim de um livro oficial e normativo, resultante da tentativa de um monarca de ordenar o uso de armas heráldicas no seu reino:

D. Manuel I, mediante uma série de reformas legislativas de base, conseguiu levar a cabo... o que D. João I tinha iniciado e não lograra completar. A publicação das Ordenações, a reforma dos forais, a reformação da justiça, a reforma da fazenda... são, entre outras, manifestações do critério uniformizador e centralizador do monarca. E desse critério se configuram, ainda, como reflexos a Sala dos Brasões e os grandes armoriais seus contemporâneos. Reflexos porque o príncipe deixa de se articular com os fidalgos e os nobres como grandes terra-tenentes, de difícil comando, para passar, tão-somente, a tê-los como serventuários da coroa...Vasco Graça Moura, "Apresentação", Livro do Armeiro Mor (2007), p. XIII

O mesmo rei D. Manuel I mandou assim poucos anos depois pintar a Sala de Sintra, cujo teto é decorado pelas armas das 72 linhagens mais importantes do reino. Todas as armas representadas na Sala de Sintra encontram-se também no Livro do Armeiro-Mor. De forma muito significativa, praticamente todos os títulos de nobreza conferidos em Portugal durante o Antigo Regime até os fins do século XVIII foram conferidos a uma de estas 72 linhagens, o que mostra bem como o Livro do Armeiro-Mor é um espelho da, no contexto europeu, extraordinariamente estável elite da sociedade portuguesa de então.MONTEIRO, Nuno Gonçalo: "17th and 18th century Portuguese Nobility in the European Context..."

O Livro do Armeiro-Mor é um armorial geral - porque inclui armas de todo o reino - e universal - porque inclui também armas de outros reinos, imaginárias ou verdadeiras. Não inclui descrição das armas.

O tomo contém um índice que divide a obra em cinco capítulos (ver infra). Após armas lendárias e europeias, o corpo do livro trata das armas da Casa Real de Portugal e das principais famílias do reino, ao todo 287 armas portuguesas. As armas portuguesas encontram-se dispostas por ordem decrescente de importância, começando com as linhagens da velha ou imemorial nobreza, algumas remontando aos tempos do Condado Portucalense. O livro apresenta um escudo de armas por página nas secções que apresentam as armas lendárias, estrangeiras, ou da principal nobreza do reino. Na última secção do livro são apresentadas quatro escudos de armas de linhagens menores ou mais recentes por página.

A análise do Livro do Armeiro-Mor é longa. A obra foi publicada em 1956 pela Academia Portuguesa da História, acompanhado pelo até hoje mais importante estudo da mesma. Essa obra encontra-se hoje esgotada. Mais recentemente, a mesma academia publicou uma segunda edição em 2007, que reproduz trechos do estudo de 1956 e inclui a mais recente investigação sobre o tema. O estudo mais importante das linhagens apresentadas no Livro do Armeiro-Mor continua a ser a obra Brasões da Sala de Sintra, em três volumes, da autoria de Anselmo Braamcamp Freire. Mais recentemente, José Augusto Sotto Mayor Pizarro publicou a sua tese de doutoramento, Linhagens Medievais Portuguesas: Genealogias e Estratégias 1279-1325, em três volumes, na qual podemos seguir o percurso de algumas destas linhagens durante o reinado de D. Dinis.

Nacionalidade do autor A autoria da obra tem sido disputada, principalmente a nacionalidade do Rei de Armas Portugal, tendo um Mestre Harriet inglês, o bacharel António Rodrigues, e um Jean du Cros francês sido sugeridos. Segundo os comentários à mais recente edição da obra, os dois primeiros estão definitivamente postos de lado, e parece confirmada a nacionalidade portuguesa de João do Cró.José Calvão Borges, "Breve história do Livro do Armeiro-Mor", in Livro do Armeiro Mor (2007), p. XXII-XXIV

Elmos e paquifes O Livro do Armeiro-Mor destaca-se por não apresentar os timbres das respetivas armas - apenas inscrevendo a palavra timbre sobre 86 dos escudos portugueses, na última secção da obra -, dando toda a atenção ao escudo, e apenas ornamentando o mesmo com elmos e magníficos paquifes, e um virol. Sendo o escudo o elemento absolutamente fundamental das armas heráldicas, isto pode ser considerado uma tradição que dá a devida importância ao escudo e, mantendo as armas simples e limitadas ao fundamental, confere às mesmas uma grande dignidade. No entanto, no posterior Livro da Nobreza e Perfeição das Armas, de António Godinho, cuja iniciativa se deve a D. Manuel I mas que apenas foi completado no reinado de D. João III, optou-se por representar também os respetivos timbres.

Foram identificados vários modelos de virol na obra, e sete modelos de paquife, dos quais três adornam 190 das armas, e os restantes quatro apenas 24.José Calvão Borges, "Descrição e análise", in Livro do Armeiro Mor (2007), p. XXXVI Quanto aos elmos que encimam os escudos, não parecem existir critérios, no caso das Casas nobres, quanto ao uso de elmos de ouro (34 casos) e de prata. "...só resta uma explicação. O iluminador não respeitou qualquer regra na escolha dos metais ou cores e na forma dos elementos exteriores ao escudo. As opções basearam-se exclusivamente em critérios artísticos, devidos à inspiração e criatividade do artista."José Calvão Borges, "Descrição e análise", in Livro do Armeiro Mor (2007), p. XXXVIII Como o mesmo autor refere, isto era relativamente frequente nos armoriais da época.

Certos erros menores na obra de João do Cró foram corrigidos por António Godinho, cuja obra, embora também não isenta de erros, "se deve preferir na fixação do armorial português".Martim de Albuquerque e João Paulo de Abreu e Lima: "Introdução, Notas...", in Livro da Nobreza e Perfeiçam das Armas, p. 19 O Livro do Armeiro-Mor, no entanto, é sem margem para dúvida a obra de referência quanto à arte heráldica.

Capítulo Primeiro dos Nove da Fama O primeiro capítulo do Livro do Armeiro-Mor apresenta as armas dos chamados Nove da Fama, heróis históricos ou lendários de grande renome, e ainda uma figura fora dos da Fama. Ao todo dez iluminuras de grande beleza, onde cada escudo é apresentado por uma figura, ainda que as armas sejam em grande parte fantasiosas. Os heróis da Fama estão divididos em três grupos de três: três reis Hebreus, três reis Pagãos, e três reis Cristãos. A ordem de apresentação das dez figuras é cronológica, exceto entre os pagãos, onde Heitor, o lendário príncipe de Troia, é apresentado depois de Alexandre Magno. A outra figura lendária é o rei Artur, que encabeça a lista dos heróis cristãos.

A figura fora dos da Fama representa Bertrand du Guesclin, condestável de França durante a Guerra dos Cem Anos.

Capítulo Seguinte dos Brasões thumb|Armas do Rei de Inglaterra (fl 9r) thumb|Armas do Rei da Noruega (fl 20v) thumb|Armas do Rei de Chipre (fl 16v) Os Estados da Europa, Ásia e África

O seguinte capítulo da obra, intitulado no índice "dos Brasões", apresenta as armas de 49 grandes e pequenos estados, em outras tantas páginas. Entre estes estados encontramos os principais reinos da Europa Ocidental, incluindo os reinos das Ilhas Britânicas e da Escandinávia. Encontramos ainda certas armas históricas de reinos já não existentes à altura da execução da obra em 1509, nomeadamente três reinos cristãos da Terra Santa fundados na era das Cruzadas: o reino de Jerusalém, o reino arménio da Cilícia, e o reino do Chipre. Do mesmo modo encontramos as armas do Império Bizantino e da dinastia Paleólogo, a última dinastia do Império.

Por fim encontramos também neste capítulo, à semelhança do visto no primeiro capítulo, armas de reinos ou figuras lendárias, como a Rainha Branca. Algumas de estas armas lendárias, mais ou menos fantasiosas, ou não identificadas estão representadas na seguinte lista em itálico.

Estas iluminuras, ao contrário das precedentes, não apresentam figuras, mas apenas os escudos, pendurados de um elmo coroado, e paquifes.

Índia Maior (fl 6r) Índia Menor (fl 6v) Rei de Jerusalém (fl 7r) Imperador da Alemanha (fl 7v) Rei dos Romanos (fl 8r) Rei de França (fl 8v) Rei de Inglaterra (fl 9r) Rei de Castela (fl 9v) Rei de Portugal (fl 10r) Rei da Boémia (fl 10v) Rei da Sicília (fl 11r) Sultão de Babilónia (fl 11v) Rei de Constantinopla (fl 12r) Rei de paleólogos (fl 12v) Rei de Navarra (fl 13r) Rei de Tarso (fl 13v) Rei da Hungria (fl 14r) Rei da Escócia (fl 14v) Rei de Aragão (fl 15r) Rei de Mailogres (fl 15v) Rei da Irlanda (fl 16r) Rei do Chipre (fl 16v) Rei de Clavomnia (fl 17r) Rei de Mens (fl 17v) Rei d'Elves (fl 18r) Rei de Granat (fl 18v) Rei de Conimbra (fl 19r) Rei da Arménia (fl 19v) Rei da Dinamarca (fl 20r) Rei da Noruega (fl 20v) Rei da Polónia (fl 21r) Rei da Pomerânia ("Grifonia") (fl 21v) Rei de Granata (fl 22r) Rei de Marrocos (fl 22v) Rei da Sardenha (fl 23r) Rei de Tunes (fl 23v) Rei da Dalmácia (fl 24r) Rei de Salónica (fl 24v) Rei da Valáquia (fl 25r) Rei de Danamt (fl 25v) Rei de Bugia (fl 26r) Rei de Estunell (fl 26v) Rei de África (fl 27r) Rei da Arábia (fl 27v) Rei das Órcades (fl 28r) Rei da Bósnia (fl 28v) Rei da Polónia (fl 29r) Rainha Branca (fl 29v) Rei da Suécia (fl 30r)

Capítulo da Eleição do Imperador da Alemanha thumb|Armas do Arcebispo de Tréveris (fl 31r) thumb|Armas do Duque da Saxónia (fl 34r) Os sete Príncipes-eleitores do Império