A Igreja Católica na Venezuela é parte da Igreja Católica universal, em comunhão com a liderança espiritual do Papa, em Roma, e da Santa Sé. A crise política, social e econômica do país faz com que a Igreja tenha de continuar denunciando os ataques à democracia, as punições aos opositores, as contínuas violações dos direitos humanos, o que faz com que ela seja considerada uma importante voz em defesa dos oprimidos. Por ser uma ditadura do Partido Socialista Unido da Venezuela, críticas ao governo e apoio a opositores por parte das igrejas não são tolerados, e ataques por parte do Governo são rotineiros, como ameaças, ataques às igrejas, difamação, prisões arbitrárias, vigilância, censura e restrição ao acesso de serviços públicos, alimentos ou medicações.
História thumb|left|200px|Coro, local da chegada dos europeus à Venezuela. Colonização Descoberta por Cristóvão Colombo em 1º de agosto de 1498, os colonizadores tiveram como ponto de partida o vilarejo de Santa Ana de Coro para exploração e povoamento das terras. Em 1516, o cardeal Francisco Jiménez de Cisneros, da Espanha, emitiu dois decretos que diziam que a evangelização do atual território venezuelano seria feita pelos frades da Diocese de Santo Domingo e suas dependências, solicitando que seriam auxiliados pelos dominicanos e franciscanos no trabalho missionário no Golfo de Santa Fé, Chichiriviche e Cumaná. Esses decretos referiam-se a dois missionários mortos por nativos em represália aos maus-tratos de conquistadores intrusos. As missões estabelecidas pela Igreja evoluíram gradualmente para cidades, aldeias de nativos convertidos e paróquias com párocos próprios, e esses padres arrumavam meios de libertar os nativos capturados nas famosas encomiendas.
thumb|right|200px|Imagem de Nossa Senhora de Coromoto.
Em 1651 foi relatada uma aparição da Virgem Maria a uma tribo indígena isolada e que resista à evangelização dos missionários. O cacique teria visto uma "formosíssima Senhora de incomparável beleza, que trazia em seus braços um preciosíssimo Menino, caminhando sobre as cristalinas águas da corrente" em uma terra alagada da região. A mulher falou a língua nativa da tribo, pedindo a ele que colocasse água sobre a cabeça para poder "subir aos céus". Apoiados pelo leigo espanhol Juan Sánchez (o dono das terras alagadas), que fez de tudo para facilitar civilização dos índios, os quais receberam terras, construíram seus próprios ranchos e foram batizados e catequizados por vontade própria. Após algum tempo, o cacique que havia visto a Virgem Maria, desistiu de se tornar cristão, e voltou à aldeia. Novamente ele recebeu a visita de Nossa Senhora, mas, cheio de temor tentou acertá-la com uma flecha, a qual ela simplesmente arrancou de sua mão, e sumiu. Neste momento, sua imagem apareceu na mão do cacique, cheia de luz. Recuperada por Juan Sánchez, a imagem da Virgem ganhou o título de Nossa Senhora de Coromoto, sendo proclamada padroeira da Venezuela pelo Papa Pio XII em 7 de maio de 1944.
Os franciscanos, capuchinhos, dominicanos, jesuítas, agostinianos e mercedários empreenderam atividades missionárias, sendo os dois últimos grupos os que se estabeleceram em Caracas. O primeiro grupo citado trabalhou durante 160 anos no território da Nova Barcelona, indo inclusive além do sul do Rio Orinoco. Fundadores de centenas de povoados, os capuchinhos evangelizaram a região dos llanos de Caracas, Nova Andaluzia, ilha de Trinidad e Guiana até o Rio Mazarúni a leste e até o rio Branco; também o alto Orinoco, o Rio Meta, Lago de Maracaibo e em Guajira. Os dominicanos estavam baseados nas regiões de Apure e Barinas, onde fundaram 20 cidades. Os jesuítas foram missionários na região do Orinoco até serem expulsos por Carlos III. O fato é que, nada menos que 347 cidades devem sua existência ao trabalho dos missionários. Os registros apontam que 54 missionários entregaram a vida pela sua fé entre 1514 e 1817.
thumb|right|200px|Foto da Catedral de Caracas em 1867.
No período colonial, o desenvolvimento da hierarquia foi lento. A primeira diocese criada em território venezuelano foi a Diocese de Coro, em 21 de junho de 1531 pelo Papa Clemente VII. Para se ter uma dimensão de quanto tempo levou para que a hierarquia católica fosse se desenvolvendo, Caracas foi a primeira a ser elevada a arquidiocese, quase 300 anos depois de sua fundação, em 1803. Os bispos não só organizaram a hierarquia na Venezuela e supervisionaram a disciplina eclesiástica, mas também contribuíram de forma geral para o desenvolvimento do país. Em 1673, González de Acuña, funda o Seminário Tridentino de Caracas, mais tarde renomeado Interdiocesano de Santa Rosa de Lima, introduziu água potável na cidade. Mariano Martí, então bispo de Porto Rico, viajou por sua extensa diocese na Venezuela entre os anos de 1771 e 1784, tornando-se um pioneiro em estatística, quando compilou suas análises demográficas nos quatro volumes de Relación de la visita general. De acordo com os registros históricos, o primeiro sínodo diocesano venezuelano foi realizado em Coro, em 26 de julho de 1574, durante o episcopado de Dom Pedro de Ágreda, enquanto que o segundo sínodo foi convocado em 1687 por Dom Diego de Baños y Sotomayor.
Independência A independência da Venezuela da Espanha ocorreu em 5 de julho de 1811. Como consequência da sucessão de ditaduras politicamente instáveis, as missões declinaram em meados do século XIX, , e, por isso, o Papa Pio XI erigiu o Vicariato Apostólico de Caroní em 4 de março de 1922. Durante o século XX atuaram no país os salesianos, filhas de Maria, irmãs da caridade de Santa Ana, franciscanas, capuchinhas e dominicanas.
Em 1959, Rómulo Betancourt assumiu a presidência, iniciando uma era democrática que perdurou no século seguinte. Ele aboliu a Lei do Mecenato Eclesiástico, uma forma de padroado herdada da coroa espanhola, que fez com que os bispos voltassem a ser nomeados pelo Papa em vez do Estado. O período foi de boa convivência com o governo. Um acordo com a Santa Sé dá à Igreja Católica o reconhecimento de personalidade pública e jurídica. Outro acordo foi assinado entre ambas as partes em 1994, sobre a prestação de assistência espiritual nas Forças Armadas venezuelanas.
Crime organizado thumb|200px|right|Hugo Chávez em 2002. Na década de 1990, Igreja e governo eram pressionados a enfrentar o aumento dos crimes violentos devido ao tráfico de drogas. Em 30 de dezembro de 1999 uma nova, controversa e autoritária constituição foi implementada sob o governo de coligação de Hugo Chávez, cuja agenda de reformas pretendia combater uma recessão econômica e um aumento dos problemas sociais. Ao abrigo da nova constituição, à qual muitos católicos se opuseram devido à falta de uma disposição pró-vida, a Direção de Justiça e Religião deu continuidade à política antiga de distribuição de fundos à Igreja Católica. No entanto, as críticas públicas a certas ações governamentais por parte de membros da Igreja encontraram uma resposta cada vez mais antagônica por parte da inteligência militar em 2000. Ao ser nomeado cardeal em 2001, o arcebispo de Caracas, Antonio Ignacio Velasco Garcia, prometeu continuar a sua intervenção em questões políticas, apesar dos esforços do governo. Os bispos venezuelanos seguiram o exemplo, emitindo declarações críticas à relutância do Presidente Chávez em abordar o crescimento do crime e da pobreza na Venezuela. Sob tal provocação, Chávez atacou a Igreja, referindo-se a alguns membros do clero como "demônios".
Apesar da escalada das tensões entre a Igreja e um governo que tenta combatê-la, o catolicismo na Venezuela continuou a ser a fé da maioria. A Igreja continuou a demonstrar um forte compromisso com o bem-estar social através da Caritas Nacional, filiada na organização internacional, especificamente no apostolado pastoral, onde movimentos como a Ação Católica, o apostolado leigo, a Legião de Maria, o Movimento da Família Cristã e a Associação Venezuelana de Médicos Católicos, que melhoram a qualidade de vida de todos os venezuelanos. Através dos esforços destas organizações, o país conseguiu lidar com uma perda devastadora de mais de 30.000 vidas devido às fortes chuvas que causaram inundações e deslizamentos de terra ao longo da costa norte em dezembro de 1999.
Atualmente Em 2000, havia 1.149 paróquias na Venezuela, com 1.308 padres diocesanos e 1.111 religiosos. Além disso, 324 irmãos e 4.346 irmãs atendiam à educação, à saúde e a outras necessidades humanitárias, especialmente entre os pobres das zonas rurais. A educação permaneceu entre os principais objetivos da Igreja, refletindo séculos de dedicação a este esforço. Em 1999, o governo destinou 1,5 milhões de dólares para programas escolares e sociais geridos pela Igreja.
Socialismo thumb|200px|right|Nicolás Maduro, atual ditador venezuelano. thumb|200px|right|Cardeal venezuelano Baltazar Porras, opositor do regime socialista de Maduro. A Igreja Católica venezuelana diz que o país vive "um regime de fato, sem respeito às garantias previstas na Constituição e aos mais altos princípios de dignidade do povo". As relações são tensas com o governo venezuelano desde que o movimento chavista chegou ao poder, em 1999, e, na gestão de Nicolás Maduro, a Igreja Católica é considerada um agente político de desestabilização do país. O governo se aproveita da carência de itens primários à população para manipulá-la. O acesso rápido a alimentos, medicações e educação é dado apenas aos apoiadores do governo. Nas escolas, os alunos são submetidos a doutrinação socialista do governo, impedindo o direito dos pais de educar seus filhos com as convicções cristãs. Muitos cristãos recebem ameaças de grupos criminosos ligados às guerrilhas colombianas, os quais normalmente saem impunes de seus feitos, ou até mesmo com apoio do governo. Projetos sociais das igrejas para os necessitados enfrentam empecilhos impostos pelo governo. Mulheres cristãs capturadas pelas guerrilhas são traficadas às redes de prostituição. A perseguição aos homens chega a ser ainda maior; eles são recrutados para as guerrilhas ou para o exército em troca de alimentos e medicamentos, e, quando líderes religiosos tentam convencê-los a não irem, estão passíveis a terem suas igrejas fechadas, serem sequestrados, espancados ou até mortos. Em uma reunião com representantes da Fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), o Administrador Apostólico de Caracas e Arcebispo de Mérida, Cardeal Baltazar Porras, disse que a Igreja é perseguida em meio à crise social, política e econômica que se vive na Venezuela, causada pelo governo. Ele citou como exemplo as restrições contra centros educacionais católicos. "Parece que se busca colocar obstáculos para que a própria Igreja feche seus colégios", disse. Do mesmo modo, indicou que as paróquias são atacadas pelo governo através dos “conselhos comunais e grupos pró-governo chamados ‘coletivos’”: "Por exemplo, em Caracas, nas áreas populares, os coletivos ficam nas portas das paróquias e escutam o que o sacerdote diz na homilia, se não gostam, começam as ameaças", denunciou.
Em 2014 o governo venezuelano realizou sua reforma fiscal, extinguindo a isenção fiscal até então concedida às igrejas, incluindo a Igreja Católica, que passaram a ser obrigadas a pagar impostos.