thumb|upright=1.2|A Alhambra e o Albaicín vistas do Generalife

thumb|upright=1.2|Outra vista do Albaicín desde o Generalife

O período muçulmano de Granada, a cidade no sul de Espanha foi iniciado na segunda década do e prolonga-se até aos primeiros anos do . Granada surgiu como entidade urbana quando a capital do recém-criado reino taifa de Granada foi transferida de Medina Elvira (Madinat Ilbira) para o que é atualmente o bairro de Albaicín. A Taifa de Granada foi fundada durante o período de desintegração do Califa de Córdova, quando o líder zírida Zaui ibne Ziri, que ocupava a Cora de Elvira, se declarou independente.

A cidade manteve-se depois como capital de sucessivas divisões políticas e administrativas do seu território, até se tornar a capital do Reino Nacérida. Após ter sido conquistada por Castela em 1492 são levadas a cabo paulatinamente obras que modificam de forma sensível a estrutura urbana até tornar-se uma cidade conventual.

Antecedentes Na época anterior à fundação da cidade pelos Zíridas não existia qualquer cidade nos terrenos depois ocupados. Essa situação já se passava na época da invasão muçulmana no e quando o Emirado de Córdova foi criado. No entanto, sabe-se, por exemplo pelas crónicas de ibne Alcátibe (), que no local existia uma fortaleza () construída sobre os restos de um ópido ibero-romano, a qual foi usada por Sawwar ben Hamdun como baluarte contra a rebelião dos muladis ocorrida no e que, conforme os dados arqueológicos existentes, era uma alcaria dependente de Medina Elvira.

Alguns autores defendem que no lugar onde se ergue Granada existiu uma cidade importante nos períodos romano e visigótico chamada Ilíberis. Porém, parece evidente que em algum momento antes da invasão muçulmana essa cidade ficou despovoada, sendo substituída por outra localidade próxima, situada cerca de 10 km a ocidente, que geralmente é identificada como um assentamento romano chamado Castilia. Este assentamento, inicialmente arabizado como Qastiliya, foi gradualmente ganhando cada vez mais relevância, convertendo-se em Medina Ilbira, uma das principais cidade do emirado e califado andalusíes.

A cidade zírida A transferência da capital de Ilbira para Garnata (nome árabe de Granada) deveu-se às melhores condições de defesa proporcionadas pela última. Ilbira situava-se na lezíria, enquanto que Granada estava numa localização escarpada, onde até já existia uma fortaleza (ou o que dela restava). A transferência teve lugar entre 1010 e 1025, tornando-se definitiva depois de Elvira ter sido arrasada e incendiada, ficando em ruínas. A grande mesquita da cidade, que tinha sido construída em 718 e que se conhece devido às escavações de Gómez Moreno no final do , foi então destruída.

esquerda|thumb|Muralhas erguidas pelos Zíridas para proteger os núcleo original da cidade

Os Zíridas instalaram-se na colina do Albaicín, na margem direita do rio Darro, um afluente do Genil, onde existia uma pequena povoação e restos de casas do final do período romano. As escavações mostraram que os Zíridas procederam à limpeza do terreno, demolindo os restos das ocupações anteriores, que foram usados para enchimento e material de construção. A zona inicialmente ocupada de forma intensiva situa-se no centro do atual bairro do Albaicín conhecida como alcáçova Cadima (al-Qasba Qadima). No final do , já estava urbanizada a maior parte da colina e uma muralha rodeava a cidade. Em larga medida, esta muralha ainda subsiste, parcialmente embutida no casario urbano.

A cidade era abastecida de água por dois sistemas; a , construída nessa época, que levava água desde Alfacar para ser armazenada em algibes (cisternas) urbanos, e a coracha do Darro, da qual existem restos conhecidos, como a , e que se devia situar numa torre semelhante à que ainda existe, na margem direita do rio. Essa torre, da qual existem algumas ruínas, é mencionada em vários textos antigos. A acéquia Gorda também foi construída nesta época. Recolhia as águas do rio Genil, mas era usada para regadio e não para abastecimento.

A cidade zírida ocupava uma área de 75 hectares e possuía cerca de casas, repartidas entre vários bairros, todos situados na colina do Albaicín:

Harat al-Qasaba — situado junto à alcáçova Cadima, onde hoje se erguem a e a atual .

Rabad Badis — situado na zona atualmente ocupada pelo convento de Santa Isabel la Real, praça de San Miguel Bajo e os becos do Gallo e das Monjas. Situava-se fora da muralha original, mas dentro da erguida pelo rei Badis ben Habus .

thumb|A , construída pelo último monarca zírida, Abedalá ibne Bologuine , para abastecer Granada de água potável e para irrigação, com água recolhida em Alfacar, 7 km a norte da cidade.

Rabad al-Murabittin — situado a sul da alcáçova, na zona atual de Cruz Verde e Cruz de Quirós.

Bairro ou arrabalde Qawraya — situado mais a leste, nas encostas do Aljibe Grande, Aljibe do Trillo e San Agustín.

Rabad al-Ajsarïs — ocupava a encosta sudeste da colina, entre as ruas atuais de San Juan de los Reyes e Carrera del Darro, até à Cuesta del Chapiz.

Aitunjar Arrohan e Careyo (ou Qurayya) — situados acima da Porta de Guadix Alta.

Sened — situado extramuros, na encosta (sanad) sudoeste da colina a que deve o seu nome; ainda existe atualmente com o nome de Zenete; a etimologia hoje mais aceite desmente as teorias anteriores que atribuíam o nome do bairro à confederação tribal dos Zenetas, da qual os Zíridas faziam parte.

Além destes, existiam ainda três bairros situados na margem esquerda do Darro, ou seja, na encosta da colina depois ocupada pela Alhambra:

Yurra — o atual La Churra, a que Seco de Lucena chama Rabad al Cadi.

Rabad al-Mansura — situado junto ao anterior, entre o que hoje é a Cuesta de Gomérez y la calle Almanzora Alta.

Rabad Mawrur — situado junto às Torres Bermejas.

A cidade almorávida e almóada thumb|esquerda|O Arco das Pesas, a antiga porta Bib Cieda, que ligava a Alcáçova Cadima ao bairro de Rabad al-Bayyazin

As informações conhecidas sobre as épocas almorávida e almóada são provenientes que quatro fontes contemporâneas: ibne Galibe (também conhecido com ibne Hamama), que viveu na cidade no ; , morto em 1232; Azuri, o geógrafo almeriense que esteve em Granada em 1137; e Dreses , embora este último só tenha registado informações posteriores aos Zíridas. A fonte com mais informações é Azuri.

A estrutura urbana modificou-se pouco nesse extenso período. Da análise das descrições citadas feitas por diversos autores, como Gómez-Moreno Martínez, Terrasse, Seco de Lucena, etc., depreende-se que os Almorávidas ampliaram o recinto muralhado, abrindo portas como a Bib Cieda (Arco das Pesas) e Bib-Albunaida (Porta Monaita), ambas ainda de pé. No mesmo período foi também construída a desaparecida Bib-Alfajjarin, ou Porta dos Alfareros (oleiros), cujos restos fora escavados há alguns anos junto à Praça de Santo Domingo, no bairro do . A construção das Torres Bermejas e da Bab Mawror junto a elas também é atribuída aos Almorávidas.

Em finais do século XI e início do século XII foram construídos dois passeios extramuros para ócio, citados pelos autores referidos e em diversos poemas: a Alameda de Mu'ammal, nas margens do rio Genil, na zona onde agora se encontra o Campo del Príncipe; e a "Nayd", cuja localização tem sido debatida por diversos autores, mas que se supõe situar-se na zona hoje conhecida por Vistillas de los Ángeles e Barranco del Abogado.

Na época almóada também não houve modificações de monta na estrutura urbana, conservando-se com testemunhos dessa época alguns edifícios de grande interesse, nomeadamente o Qasar al-Sayyi (Alcázar Genil) e o palácio Dar-al-Bayda, que vários autores identificam como o atual Cuarto Real de Santo Domingo. No , foi ampliado o cemitério situado junto à Porta de Elvira (maqbarat al-faqth Sa'ad ben Malik), foi muralhado o resto do Rabad Al-fajjarin e o Nayd, e construído outro cemitério no Campo del Príncipe, na extremidade oriental da cidade.

A cidade nacérida thumb|Muralhas da Al Casba Cadima (à esquerda) e do bairro de Rabad Badis (à direita, mais pequenas), com o palácio Dar al-Horra

thumb|A Bib Bib Elbeira (Porta de Elvira), num postal colorido do final do ou início do

Granada cresceu de forma sustentada durante a segunda metade do , com o advento do Reino Nacérida, o que obrigou à ampliação das muralhas defensivas. Foi terminada a muralha do Nayd, iniciada ainda no período almóada, e construída a do grande bairro Rabad al-bayyazin, a norte da cidade, esta última terminada antes de 1327. Nessa época a cidade apresenta-se com uma estrutura tipicamente islâmica. Tanto a almedina como os arrabaldes eram organizados em bairros, de tamanho e população muito diversa. Cada um desses bairros tinha um cádi, encarregado de manter a ordem, sobretudo nos mercados. Dispunham também de um sistema de vigilância noturna, ajustada estritamente ao perímetro do bairro, que tinha como missão vigiar e abrir as portas da muralha quando fosse necessário, tanto as interiores como as principais, para o exterior.

Conforme o tamanho do bairro, este podia dispor de serviços comunitários (hamam, escola, forno, mesquita, etc.) ou apenas um oratório. A ocupação do terreno era muito densa, com muito poucos espaços livres, principalmente na almedina e não tanto nos arrabaldes, com ruelas sinuosas e estreitas, curtas e quebradas, embora tenha havido exceções a este tipo de traçado, como no caso da Alcaicería, onde havia ruas direitas.

Organização geral da cidade No apogeu do reino de Granada, a cidade estava organizada espacialmente, segundo o mapa de Seco de Lucena, em seis grandes distritos muralhados, com os seus bairros (rabad em árabe), e dois arrabaldes extramuros. Os distritos eram separados entre eles por cercas defensivas, com portas que eram fechadas durante a noite.

Distritos intramuros Al Casba Cadima (Alcáçova Velha) Situava-se na parte mais alta da colina do Albaicín, onde se encontrava o palácio real dos zíridas, reconstruído pelo rei Badis, e que foi também a residência dos sultões nacéridas até aos primeiros anos do . Tinha dois bairros: Harat Alcazaba, a norte, e Rabat Almufadar, a sul. Tinha pelo menos quatro portas de acesso: Bib Cieda (que ainda existe atualmente com o nome de Arco das Pesas), Bib Caxtar e Bib Elbis no lado norte da muralha, ligando com o arrabalde do Albaicín; e Bib Albonud no lado oriental. O mapa de Seco de Lucena não regista qualquer porta nos lados sul e oeste, apesar destes confinarem com os bairros mais populosos da cidade.

Al Casba Situava-se imediatamente a sul do anterior, rodeando-o a oriente e a ocidente. O seu único contacto com o Al Casba Cadima fazia-se pelo extremo nordeste, no bairro Rabad Cauracha. O recinto muralhado descia até ao rio Darro, onde se encontrava o Rabad Haxarris, cujo hamam ainda se conserva em bom estado (é conhecido como El Bañuelo). Além desses dis bairros, existiam ainda os de Rabad Aitunjar, um dos mais povoados; Rabad Badis, onde se encontrava o palácio Dar al-Horra ("casa da senhora"), que ainda existe atualmente; e o Rabad Al-Murabidin ("dos eremitas"). Acedia-se ao recinto murado através de seis portas. Além da já citada Bib Albonud, havia uma porta que dava para o rio, a Bib Adiefaf (porta dos padeiros), que dava acesso ao caminho que subia até à Alhambra, cruzando o Darro pela Ponte do Cádi. A Bib al-Hazarin, Bib al-Murabidin e Bib al- Asad ligavam o Al Casba com as partes mais novas a sul. A última ligava com o bairro do Zenete. Finalmente, a Bib al-Bonaida (atual Porta Monaita) ligava com o bairro da Carretera ("da estrada"), que até ao foi um arrabalde extramuros. Juntamente com a Alcáçova Cadima, a Al Casba constituía o núcleo histórico original da cidade.

A cidade nova thumb|esquerda|A Alhondaq Gidida (Corral del Carbón, "curral ou pátio do carvão")