Gueorgui Konstantínovitch Júkov (; Júkov, 1 de dezembro de 1896 — Moscou, 18 de junho de 1974) foi um destacado militar e político russo, e o oficial mais condecorado da história da União Soviética. Primeiro sargento do Exército Imperial Russo na Primeira Guerra Mundial, ao longo da Guerra Civil Russa tornou-se oficial do Exército Vermelho e membro do Partido Comunista. No período entreguerras ele cresceu firmemente nos quadros militares, e comandou as forças soviéticas na batalha final de Halhin-Golie. Por seu papel na vitória contra o Japão, Josef Stalin o nomeou Chefe do Estado-Maior General, já durante a Segunda Guerra Mundial.
As derrotas do verão de 1941, durante a invasão da URSS pela Alemanha Nazista, levaram Stalin a envia-lo às frentes mais sensíveis da guerra, na condição de representante da Stavka. Júkov assumiu então um papel-chave na Frente da Europa Oriental, coordenando as tropas de seu país em várias grandes operações militares, primeiro na defesa e em seguida na contra-ofensiva soviéticas. Em particular, ele desempenhou um papel importante no cerco a Leningrado, foi responsável pelo sucesso soviético na batalha de Moscou, preparou a contra-ofensiva em Stalingrado, coordenou a parte norte da batalha de Kursk, foi co-responsável pela recuperação da Ucrânia e controlou a metade sul da Operação Bagration. Nomeado comandante da principal frente soviética na guerra, Júkov liderou a ação decisiva da ofensiva no Vístula-Oder, e na sequência comandou as tropas soviéticas na conquista de Berlim. Diante dele, em 8 de maio de 1945 o Alto comando das Forças Armadas Alemãs assinou o instrumento de rendição de seu país, pondo fim à guerra na Europa.
Feito marechal da União Soviética em 1943 e gozando de imenso prestígio em seu país, Stalin, desconfiando de sua popularidade, demitiu-o de seus postos em 1946 e ostracizou-o. A morte de Stalin em 1953 permitiu a Júkov retornar à cena política, e ele ajudou a parar a tomada de poder de Lavrenti Beria. Ele tornou-se então vice-ministro (1953-1955) e ministro da Defesa (1955-1957), e membro do Politburo (1957), apoiando Nikita Khrushchov durante a desestalinização. Este, contudo, afastou-o definitivamente de seus cargos em 1957. Inconformado com o papel a que fora relegado na história da Segunda Guerra Mundial difundida pelo governo soviético, a partir de 1963 Júkov passou a escrever suas memórias. Repreendido, ele viu novamente sua sorte mudar com a ascensão de Leonid Brejnev. Suas memórias, publicadas em abril de 1969, tornaram-se um sucesso imediato e permanecem "o mais influente relato pessoal da Grande Guerra Patriótica". Pai de quatro filhas e casado duas vezes, Júkov faleceu poucos anos depois. Seu funeral com honras militares foi dirigido pessoalmente por Brejnev, e suas cinzas depositadas na Necrópole da Muralha do Kremlin.
Por vezes brutal na liderança de suas tropas, e por ter contribuído decisivamente para defender o regime soviético durante a guerra, G. K. Júkov é por vezes alcunhado o "General de Stalin". Contudo, ainda em vida ele recebeu as mais altas honrarias da União Soviética e dos outros países Aliados, dentre as quais quatro medalhas de Herói da União Soviética, a insígnia de Chefe-Comandante da Legião do Mérito, a Grã-Cruz da Legião de Honra e a Grã-Cruz da Ordem do Banho. Além disso, seu papel na Segunda Guerra Mundial tem levado historiadores a descrevê-lo como o principal responsável na derrota da Alemanha nazista, e por vezes como "o homem que derrotou Hitler".
Família e primeiros anos Origens Júkov nasceu no vilarejo rural de Strelkovka, no Império Russo, e que atualmente é parte da cidade de Júkov, no Distrito de Maloiaroslavetski do Oblast de Kaluga. Seu pai, Konstantin, nascera em 1841 e, órfão ainda pequeno, fora criado por uma velha senhora, Anna Júkova. Anna morreu em 1849, obrigando Konstantin a trabalhar desde cedo. Ele empregou-se inicialmente em uma sapataria de um vilarejo vizinho, e aos onze anos partiu para Moscou para trabalhar em uma famosa fabrica de botas. Ele se casou pela primeira vez em 1870 com Anna Ivanova, e o casal teve dois filhos, Grigori e Vassili (este último morto antes dos dois anos). Anna Ivanova morreu de tuberculose em 1892, e no mesmo ano Konstantin desposou Ustienia Artémievna, nascida em 26 de setembro de 1863 em uma aldeia próxima, Tchernaia Griaz. Filha mais velha de camponeses cuja situação beirava a servidão, seus pais inicialmente não possuíam sobrenome, mas na década de 1880 adotaram o nome Pilikhin. Em 1885 ela havia se casado com Faddei Stefanovitch, que quatro anos depois morrera também de tuberculose, deixando-lhe um filho pequeno, Ivan. Em 1886 ela havia dado à luz outro filho, Gueorgui, que morrera ainda bebê.
Quando de seu casamento com Konstantin, em 1892, Ustienia tinha vinte e nove anos, e o noivo quarenta e um. Konstantin trouxe ao par um pouco de renda, graças ao seu trabalho como sapateiro, e Ustienia possuía um pequeno lote de terra cultivável. O casal adquiriu uma vaca e uma égua para transportar mercadorias entre Maloiaroslavets e sua aldeia. O casal teve um primeiro filho em 1894, Maria, e dois anos depois nasceu Gueorgui, em 19 de novembro de 1896 de acordo com o calendário juliano, ou em 1 de dezembro no calendário gregoriano. O nome dado à criança possuía dupla significância. De um lado, era costume dar o nome de um filho morto ao próximo filho nascido. De outro, no antigo calendário comemorava-se em 26 de novembro o dia de São Jorge, que aparece no brasão de armas da Rússia. O casal teve ainda um terceiro filho em 1901, Aleksei, que morreu aos dezoito meses, provavelmente de desnutrição. Enquanto a família permanecia em Strelkovka, Konstantin trabalhava em Moscou.
Infância e juventude O pequeno Gueorgui Júkov nasceu na mesma isbá que seu pai herdara de Anna Júkova. Em suas memórias ele descreveria essa habitação de um cômodo e duas janelas como "uma casa muito velha e com um canto afundado [na terra]. Com o tempo as paredes e o telhado tinham sido tomados pelo musgo e pelo mato". No verão de 1901 o telhado dessa casa desabou, e a família foi forçada a vender a vaca e a égua, a fim de construir uma nova casa. Esta casa foi feita às pressas, e apesar de nova era um reflexo da miséria da família: "Do lado de fora esta casa era a pior de todas [do vilarejo], a varanda era feita de madeiras velhas, as janelas feitas com vidros aos pedaços".
Durante a infância o jovem Júkov gostava de caçar e pescar com as crianças da aldeia, e, como os meninos de sua idade, ele também trabalhava no campo durante a época da colheita. Em 1903 ele foi aceito na escola paroquial de uma aldeia vizinha, para um curso de três anos que incluía instrução religiosa. Ali, Júkov aprendeu a ler e a escrever e rudimentos de matemática. Essa experiência também lhe ensinou a importância da leitura, algo que lhe seria muito útil ao longo de sua carreira militar. esquerda|miniaturadaimagem|218x218px|Júkov no início da juventude (1915) Segundo Júkov, seu pai lhe disse que após os eventos de 1905 ele havia sido "demitido e expulso de Moscou por participar das manifestações", embora nunca tenha lhe contado esse episódio em detalhes. Em 1906 seu pai voltou em definitivo para a aldeia de Strelkovka, dizendo que não retornaria a Moscou "porque a polícia o havia proibido de estabelecer-se em outras cidades". Investigações recentes, todavia, não encontraram registro dessa proibição na polícia ou nos arquivos do tribunal de Moscou, embora de fato Konstantin tenha vivido em Strelkovka o restante de sua vida.
Quando Gueorgui tinha doze anos, sua mãe decidiu tirá-lo da escola e mandá-lo trabalhar com seu próprio irmão, Mikhail Pilikhin, que era peleteiro em Moscou. Assim, Júkov partiu para Moscou no outono de 1908, e lá permaneceu por quatro anos e meio. O trabalho era difícil e os aprendizes eram frequentemente agredidos pelos artesãos, mas ele integrou-se bem à família de seu tio. Com o tempo, foi promovido a aprendiz-chefe do curtume, e faz amizade com seu primo Alexander, que passou a ser seu parceiro de leitura.
Júkov tornou-se um peleiro profissional no final de 1912, e até 1914 viveu com um salário confortável, fez algumas aulas noturnas, e depois as abandonou para desfrutar de passatempos como o cinema e o teatro. Primeiro alojado na casa de seu tio, no início de 1913 ele alugou um quarto na casa de uma viúva, no centro de Moscou. Ali, ele conheceu Maria Malisheva, a filha da senhoria, e os dois só não se casaram porque eclodiu a Primeira Guerra Mundial, que reorientou Júkov para uma carreira militar.
Início da carreira militar Primeira Guerra Mundial
Após a declaração de guerra do Império Alemão contra a Rússia, em 1 de agosto de 1914, o czar não tardou a mobilizar suas tropas. Júkov não foi chamado inicialmente porque era demasiado jovem, mas em 7 de agosto de 1915 foi recrutado pelo Exército Imperial Russo e incorporado ao quartel de Maloiaroslavets.
Como ele sabia montar, foi posto na cavalaria e recebeu um primeiro treinamento em Kaluga, na caserna do 189.º Batalhão de Infantaria de Reserva. Em setembro, após um mês de formação inicial, Júkov foi transferido para o 10.º Regimento de Dragões de Novgorod, que se encontrava perto de Carcóvia. O treinamento da cavalaria durou mais oito meses, e em março de 1916 os recrutas partiram para o front, no contexto da preparação da ofensiva Brusilov. Júkov, contudo, foi selecionado para ser treinado como sub-oficial, e então enviado para Izium. Após seu exame final, ele foi feito segundo sub-oficial e enviado ao seu regimento, que lutava no front sudoeste.miniaturadaimagem|A Primeira Guerra Mundial levou Júkov a ser conscrito pelo Exército Imperial Russo (c. 1915)|247x247px|esquerdaSua unidade, o 10.º Regimento de Cavalaria, era parte da 10.ª Divisão de Cavalaria, uma subdivisão do 3.º Corpo de Cavalaria, que formava a ala esquerda do 9.º Exército. Em seu desembarque em Kamianets-Podilski, em 15 agosto de 1916, o esquadrão de Júkov foi atacado por um avião austríaco, que deixou mortos e feridos. O primeiro feito de armas de Júkov, em setembro, foi a captura de um oficial alemão a oeste da Bucovina, feito que lhe valeu sua primeira Cruz de São Jorge. Em outubro de 1916, durante uma patrulha de reconhecimento, uma mina terrestre deixou três feridos, incluindo Júkov, que entrou em coma. Ao recobrar a consciência no dia seguinte, foi evacuado para Carcóvia, onde permaneceu até dezembro. Ele recebeu uma segunda Cruz de São Jorge por esse incidente, que lhe deixou ligeiramente surdo e sofrendo vertigens, e foi transferido para um esquadrão da reserva. Ao todo, Júkov passou apenas cinco semanas no front.
Em suas memórias, Júkov afirmou ter sido gradualmente influenciado pelas ideias revolucionárias que ganhavam força sob o impacto da guerra, sugerindo uma lenta conversão ao comunismo. Quanto à Revolução Russa de 1917, ele registra três episódios. Em 8 de março de 1917, eclodindo a Revolução de Fevereiro, o seu esquadrão teria se amotinado, formado um comitê de soldados e encarcerado seus oficiais, eventos esses que alguns autores julgam pouco verossímeis. De todo modo, em março Júkov foi eleito presidente do soviete de seu esquadrão, e seu representante junto ao soviete do regimento. Depois, a sua participação na Revolução de Outubro teria consistido no fato de que o esquadrão sob sua liderança "adotou a plataforma bolchevique e se recusou a se ucranizar", obrigando-o a fugir dos nacionalistas que apoiavam Symon Petliura. No contexto da desintegração do exército russo (iniciada em 10 de novembro) e da proclamação da independência da Ucrânia (dia 20), Júkov retornou a Moscou (dia 30), mas, em vista da fome que assolava a capital russa, em janeiro de 1918 retornou à casa materna em Strelkovka.
Guerra Civil Russa