Revendo as principais teorias e modelos instrutivos associados à resolução de problemas e à realização de projetos, Educação e Trabalho de Projeto pretende fazer uma síntese do que caracteriza este tipo de metodologias, as principais fases de implementação, assim como a sua evolução normativa em Portugal.

Projeto: o que é?

Projeto pode ser definido como "um conjunto de práticas conscientemente finalizadas que se desenvolvem através de um processo complexo que inclui momentos de ação e representação, conduzindo à existência de interações múltiplas e diversificadas" (Silva & Miranda, 1990, p.21).Silva, I., & Miranda, G. (1990). Projeto Alcácer. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Trata-se, portanto, de um conjunto de atividades planificadas com vista a alcançar um determinado objetivo através da utilização de recursos disponíveis.

De acordo com Miranda (2008, p.4), "uma das características que distingue o conceito de projeto do de mera atividade (isolada, automática ou imposta) é o seu carácter intencional e gerador, pois o projeto pode ser pensado como projectus, algo «lançado para a frente»".

Em educação, o trabalho de projeto está associado a uma visão progressista da educação, que deva transcender aos modelos ocidentais de edcuação, em que os alunos desenvolvem competências essenciais como o espírito crítico, colaboração e comunicação, em resposta a questões ou problemas com maior ou menor grau de complexidade.

Segundo Moura (2007), "os projetos nascem a partir de problemas, necessidades, oportunidades e desafios de um indivíduo, coletividade ou instituição. Um desafio pode representar também uma aspiração ou desejo de realização pessoal, coletiva ou institucional. Estes elementos constituem o que chamaremos de situação geradora do projeto."

O processo de aprendizagem está centrado nos alunos (student-centered) uma vez que estes escolhem os temas e os problemas dos projetos que vão desenvolver, investigam e apresentam o produto final. No entanto, o papel do professor torna-se essencial neste processo uma vez que os conteúdos e problemas não têm todos o mesmo valor ou importância do ponto de vista curricular. Cabe ao professor envolver os alunos mas sem esquecer os critérios precisos para avaliar o seu valor e interesse, pois como afirma Kilpatrick (2007, citado por Miranda, 2008, p.8), o projeto não significa "uma subordinação do professor ou da escola a caprichos infantis".

Por exigir uma planificação cuidada, o projeto assume-se como uma atividade intencional. Em educação, essa planificação não se resume ao professor, devendo envolver o aluno. Como afirma Kilpatrick (2007, citado por Miranda, 2008, p.5), "A criança deve ter oportunidade de planificar". Acrescenta-se que esse ato intencional deve resultar do aluno e dos seus interesses, tornando-o, assim, ativo e mais autónomo na construção do conhecimento. Esta é uma visão partilhada pelo construtivismo e pelos métodos de ensino indireto.

Origens do trabalho de projeto na educação

O método de projeto, na educação, surgiu primeiramente nos EUA em resultado do livro The Project Method de William H. Kilpatrick em 1918. Muitos dos seus fundamentos foram baseados não só no movimento da Escola Progressiva de Dewey como também no movimento da Escola Nova com origem na Europa.

John Dewey

John Dewey (1859-1952) foi um dos maiores filósofos e pensadores da educação nos finais do século XIX até meados do século XX. thumb|left|John Dewey (1902) Defensor do pragmatismo, ou instrumentalismo como preferia designá-lo, pensava que as ideias só têm valor se servirem de instrumento para a resolução de problemas reais. Estendeu esta visão a várias áreas do saber e da sociedade. No campo da pedagogia, baseia o seu pensamento no movimento de educação progressiva defendendo o experimentalismo e os interesses dos alunos, apoiando-se na sua curiosidade natural. Assim, um dos seus principais objetivos preconizava que se deve educar a criança como um todo, dando ênfase ao crescimento físico, emocional e intelectual da criança.

As suas crenças filosóficas tiveram grande impacto na educação para a qual preconizava alguns princípios essenciais: a) A escolaridade formal é apenas um método de transmissão de cultura e educação; b) A educação deve ter a função de transformar as experiências do presente mais acessíveis e significativas no futuro; c) A melhor maneira de aprender é praticar, estimular o desenvolvimento individual pelo que a repetição mecanizada deve ser substituída; d) A finalidade do processo educativo é o progresso social; e) A cooperação deve ser o pilar entre os indivíduos através do desenvolvimento do companheirismo.

Com base nestes princípios, Dewey defende uma educação pela ação em que o aluno resolva por si os problemas e não através de modelos predefinidos. É neste sentido que uma das ideias-chave da escola progressiva é a experiência. A sua visão pedagógica contrapõe-se ao ensino tradicional da altura e reveste-se de uma componente política e ideológica, nomeadamente os ideais liberais e democráticos.

Neste vídeo podemos assistir a alguns dos fundamentos da escola progressiva da educação em que o objetivo é dotar os alunos de hoje de competências para o mundo de amanhã.

Dewey foi um escritor bastante prolífico. Escreveu sobre quase todos os temas da sociedade. Entre as suas principais obras dedicadas ao tema da educação destacam-se My Pedagogic Creed (1897), The School and Society (1900), The Child and the Curriculum (1902) (estes dois traduzidos em língua portuguesa), Democracy and Education: an introduction to the philosophy of education (1916) e Experience and Education (1938). Neste pequeno vídeo podemos assistir a um excelente resumo sobre a sua vida e obra.

William Heard Kilpatrick

William Heard Kilpatrick (1871-1965), filósofo da educação, é considerado um dos mais conceituados pedagogos contemporâneos. Foi um dos principais defensores da educação progressiva, destacando-se principalmente pelas ideias expostas em O Método de Projeto (1918) em que abordou as ideias do seu mentor Dewey. Tentou demonstrar como a inclusão de projetos correspondia à abordagem progressiva e ativa centrada no aluno. A sua mensagem era de que a escola precisava de ser mais democrática e orientada para o aluno. Assim, defende que os projetos, porque resultam em experiência, deveriam partir de problemas reais do quotidiano do aluno.

Kilpatrick considera o seu método de projetos como uma alternativa ao ensino tradicional baseado na rotina e na memorização. Deste modo, é defendido que "o currículo deve centrar-se na vida, na experiência e na criança e não tanto na matéria ou conteúdo a ser ensinado" (Miranda, 2008, p.3).Miranda, G. L. (2008). Leitura comentada do texto "O método de Projeto" de W. Kilpatrick (2007/1918). 1-9. O professor deixa de ser uma figura autoritária e passa a ter um papel de "guia" nas aprendizagens dos alunos. Neste sentido, o processo de ensino e aprendizagem está mais centrado no aluno do que no conteúdo e no professor, em comparação com os métodos de ensino direto.

Modelos instrutivos baseados em projetos

O trabalho de projeto insere-se numa perspetiva construtivista e progressiva da aprendizagem e assume-se como uma forma de ensino indireto. Estas são metodologias que enfatizam os processos e não apenas os conteúdos. Segundo Abrantes e Oliveira (2010),Abrantes, M., & Oliveira, I. (2010). Língua Portuguesa na Metodologia de Trabalho de Projeto, no 1ºCEB. In Atas do I EIELP. [Online] Consultado a 8 de março de 2013. a metodologia de trabalho de projeto é um método "que requer a participação de cada membro de um grupo, segundo as suas capacidades, com o objetivo de realizar um trabalho conjunto, decidido, planificado e organizado em comum acordo" (p.146). Continuam afirmando que se trata de "uma metodologia investigativa centrada na resolução de problemas. Estes deverão ser pertinentes para quem procura resolvê-los, deverão constituir ocasião para novas aprendizagens e ter uma ligação à sociedade na qual os alunos vivem" e que "transformar um problema em projeto e concretizá-lo é, em última análise, o objetivo da pedagogia de projeto" (p.146-147).

Discovery learning ou aprendizagem pela descoberta

Aprendizagem pela Descoberta é um conceito que surgiu inúmeras vezes na história da educação, nomeadamente pela mão de filósofos como Rousseau, Pestalozzi e John Dewey. Mais recentemente, o conceito de Aprendizagem pela Descoberta evoluiu, essencialmente, das ideias de Jerome Bruner. Genericamente, assume que o processo de aprendizagem é centrado no aluno em oposição a métodos ditos tradicionais baseados na transmissão unidirecional, em que o conhecimento é apresentado pelo professor na sua forma final.

De acordo com Johnson (2010) a Aprendizagem pela Descoberta é um método indutivo, que parte do específico para o geral, em que o professor apresenta exemplos que os alunos trabalham até encontrar as inter-relações. O professor pode assumir diferentes graus de intervenção de forma a facilitar a descoberta por parte do aluno. Nesse processo de raciocínio indutivo, o aluno deve apelar à sua intuição, imaginação e criatividade de forma a atingir o princípio desejado. Trata-se de uma abordagem de ensino que pretende envolver o aluno na construção do seu próprio conhecimento. Tem como principais objetivos promover uma aprendizagem significativa, real e contextualizada e desenvolver competências metacognitivas envolvendo ativamente o aluno.

Utilizando o método de Aprendizagem pela Descoberta, ao aluno são apresentadas experiências, conceitos e exemplos com a orientação do professor. Não se trata de uma aprendizagem caótica e livre de planificação, antes uma forma que se inspira na natural curiosidade que os seres humanos têm para aprender. Aliás, os seus defensores afirmam que, muitas vezes, o aluno vai além dos objetivos iniciais do professor em termos de aprendizagem.

A UWA refere que este modelo pode ter a desvantagem de poder confundir o aluno se não existir o cuidado de fornecer uma estrutura inicial. Por seu lado, aponta algumas vantagens:

a) Envolve ativamente o aluno no processo de aprendizagem;

b) Estimula a curiosidade;

c) Possibilita o desenvolvimento de competências de aprendizagem para a vida;

d) Personaliza a experiência de aprendizagem;

e) É altamente motivador pois dá aos indivíduos a oportunidade de experimentar e descobrir algo por si próprios;

f) Baseia-se na compreensão e conhecimento prévios do aluno.

Segundo Johnson (2010), existem dois tipos de Aprendizagem pela Descoberta: Open Discovery Learning (ODL) e Guided Discovery Learning (GDL).

Open discovery learning (ODL)

Open Discovery Learning (ODL) - sem tradução em português (embora se possa mencionar Aprendizagem pela Descoberta Pura) - situa-se num espetro mais afastado da Aprendizagem pela Descoberta porque, embora exista uma certa estrutura organizativa, deixa ao aluno uma grande margem de manobra para, individualmente, em pares ou em grupo, decidir sobre o caminho a seguir. É o aluno que determina as condições ao escolher o problema, questão ou tópico a estudar, e executa as atividades de acordo com o plano que ele próprio definiu. O professor fornece pouca ou nenhuma orientação neste processo.

Aqui, o aluno toma todas as decisões numa perspetiva bem própria de uma aprendizagem centrada no aluno. Mais uma vez, Johnson (2010) refere como exemplos de ODL o trabalho de pesquisa (research paper), o estudo independente ou investigação (independent study or investigation) e a pesquisa (inquiry). Todas estas modalidades surgem de questões colocadas pelos próprios alunos, envolvem a pesquisa e organização da informação e a apresentação de resultados. Desenvolvem nos alunos competências de pensamento crítico, reflexão, criação e discussão.