Leonor de Portugal (em português antigo: Lyanor ou Lianor; Torres Vedras, 18 de setembro de 1434 – Wiener Neustadt, 3 de setembro de 1467), foi uma infanta portuguesa, esposa de Frederico III e Imperatriz Consorte do Sacro Império Romano-Germânico de 1452 até 1467. Era a sexta filha, terceira menina, do rei Duarte I de Portugal e de sua esposa, a rainha Leonor de Aragão. Quando o seu pai morreu em 1438, a infanta com apenas quatro anos é confiada à regência, primeiro de sua mãe e depois de seu tio, o infante Pedro, Duque de Coimbra. Foi criada juntamente com suas irmãs D. Catarina e D. Joana em Lisboa.
Graças à projeção internacional de Portugal a partir de Quatrocentos devido a Era dos Descobrimentos e às riquezas daí resultantes, Dona Leonor é considerada para esposa do Delfim de França, Luís de Valois e do Imperador Frederico III. As negociações deste último projeto revelam-se frutíferas e os esponsais celebram-se em 1451. Dona Leonor parte para Itália para se reunir ao marido, sendo ambos coroados pelo Papa Nicolau V na Basílica de São Pedro, em Roma, a 16 de março de 1452. Foi a última Imperatriz do Sacro-Império Romano-Germânico a ser coroada em Roma pelo Sumo Pontífice.
Do enlace entre as Dinastias de Avis e de Habsburgo nasceram cinco filhos, dos quais dois sobreviveram: Maximiliano I do Sacro Império Romano-Germânico, que sucedeu a seu pai e Cunegunda da Áustria (1465-1520), que se casaria com o duque Alberto IV da Baviera. De Dona Leonor descende toda a linhagem da Casa de Áustria; entre os seus bisnetos contam-se o Imperador Carlos V, Senhor do Mundo, que iniciou o ramo espanhol da Casa de Áustria que viria a reinar em Portugal, e o Imperador Fernando I, que deu origem ao ramo austríaco da dinastia de Habsburgo.
Família thumb|135px|left| Painel do Infante onde figuram alguns dos familiares de D.Leonor. Estão presentes o pai, o Infante de Roxo, a mãe, o irmão (de joelhos) e a prima D.Isabel. Obra de Nuno GonçalvesD. Leonor nasceu no seio de uma das famílias reais mais cultas do século XV e numa corte cuja riqueza e prosperidade apenas aumentaram durante a sua vida. Filha de um dos príncipes da Ínclita Geração, Dona Leonor cresceu envolvida pelos exemplos de nobreza e distinção dos seus familiares. O seu pai era o Rei Filósofo, o autor de tratados de montaria, a personificação do cavaleiro galante; o seu tio D. Pedro, Duque de Coimbra em Portugal e Duque de Treviso em Itália, dito o príncipe mais culto do seu tempo, era o Infante das Sete Partidas que correra o mundo conhecido; o seu tio D. Henrique, dito o Navegador, era o homem de visão que impulsionava o Reino para novos caminhos de riqueza e glória; a sua tia D. Isabel, Duquesa consorte da Borgonha, era cada vez mais respeitada por toda a Europa como uma das mais inteligentes governantes do seu tempo e o seu tio Fernando, o Infante Santo morreu cativo em África pela honra de Portugal e do Rei, seu irmão. Foi no seio destas personagens e dos seus exemplos que D. Leonor cresceu.
Juventude A morte do pai Foi privada de seu pai aos quatro anos; a sua mãe viu-se forçada a abandoná-la doente em Almeirim quando partiu na senda de refúgio em Castela, após perder a contenda de intrigas palacianas pelo controlo da Regência. O príncipe-herdeiro D. Afonso, o secundogénito D. Fernando, assim como suas três irmãs — D. Leonor, D. Catarina e D. Joana ficam então sob a guarda do tio D. Pedro, Duque de CoimbraCOELHO, M.H. da Cruz (2002-2003) pág. 46.
A Casa da Infanta D. Pedro entrega D. Leonor aos cuidados de D. Guiomar de CastroPINA, Rui de. cap. LXVI. dama de nobre e elevada linhagem, filha do Senhor de Cadaval e esposa do aio do Infante D. Afonso, D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, futuro Conde de Atouguia. A partir de 1445, após a morte de sua mãe, sabe-se que a Infanta terá tido casa própria juntamente com suas duas irmãs. Sabe-se que terão servido na casa das Infantas, entre outros, Beatriz Pereira, Branca de Lira, D. Violante Lopes, Maria Rodrigues, Catarina Lopes Bulhoa, Diogo de Torres e Fernão de Torres.SOUSA VITERBO (1910) pág. 43-46 D. Leonor tem à data onze anos e datam muito provavelmente desta altura as primeiras comunicações entre os seus tios D. Pedro e D. Isabel, Duquesa da Borgonha, no que respeita às futuras alianças matrimoniais das Infantas.COELHO, M.H. da Cruz (2002-2003) pág. 47
Os amores de D. João de Menezes da Silva D. Leonor cresceu na corte, em Lisboa, e dos seus últimos anos em Portugal pouco se conhece. Especula-se em algumas fontes quanto os amores que um certo jovem fidalgo da altura lhe terá tido no fim da década de 40 daquela centúria, quando D. Leonor contava com 16 anos e o seu contrato de casamento era já negociado. Era esse fidalgo D. João de Menezes da Silva, três anos mais velho que a Infanta, filho do Alcaide de Campo Maior e de D. Isabel de Menezes, da Casa de Vila Real, irmão do futuro Conde de Portalegre e de Santa Beatriz da Silva. Teria o jovem acesso à Infanta por intermédio de D. Guiomar de Castro, de quem era primo co-sobrinho pelo lado materno. Conta-se que passou a Itália na armada que levou a Infanta D. Leonor e que, após o casamento desta, abraçou a vida religiosa; segundo as mesmas fontes tê-lo-á feito por desgosto de ver a sua amada casada com outrem. Tomou ordens como Frei Amadeu e ficou conhecido para a história como Beato Amadeu.SARAIVA, A.J. (1990) pág. 83-83
Análise do valor político da Infanta thumb|175px|left| A situação da Guerra dos Cem Anos após o Tratado de Troyes de 1420 Aliança entre os seus tios D. Pedro e D. Isabel Pelo seu nascimento e enquanto filha primeira do Rei de Portugal, D. Leonor era vista pelos seus familiares como um trunfo político a ser jogado com muito cuidado. Entre 1445 e 1448 as negociações estão nas mãos dos dois tios da infanta: D. Pedro de Coimbra e D. Isabel de Borgonha. O primeiro pretende casar a sobrinha fora da esfera de alianças tradicionais de Portugal: Inglaterra e Aragão. D. Pedro estava casado com Isabel de Aragão, condessa de Urgel, que seria herdeira do trono de Aragão, não fora seu pai ter perdido a disputa do trono para Fernando de Atenquerra no Compromisso de Caspe. Como tal, D. Pedro era naturalmente hostil à Casa de Aragão, o que em alguma medida pode ajudar a explicar os acontecimentos após a morte do Rei D. Duarte em que a mãe de D. Leonor, D. Leonor de Aragão, filha de Fernando de Atenquerra, disputa e perde a Regência do Reino para o Duque de Coimbra. Já D. Isabel, Duquesa de Borgonha, pretende capitalizar o casamento da sobrinha em seu próprio proveito e do Ducado da Borgonha. O entendimento entre estes dois príncipes de Avis passa então por alianças com o Delfim de França, Luís de Valois ou com o Imperador Frederico III.
thumb|250px|A situação do pós-Guerra dos Cem Anos, em 1477
A influência da Guerra dos Cem Anos O projeto delineado à partida seria do casamento de D. Leonor com o filho de Carlos VII de França e da sua irmã D. Joana com o Ladislau Póstumo, Duque da Áustria e neto do Imperador Sigismundo. Qualquer um dos dois apresentava grandes vantagens para D. Pedro: projeção de Portugal na esfera Europeia e fuga à influência aragonesa. Na lógica da Guerra dos Cem Anos (1337-1453) como conflito maior no palco Europeu e como força polarizadora de fações políticas da época, o casamento das sobrinhas de D. Isabel continuava a política da Borgonha de procurar os melhores interesses para o Ducado ora se aliando com a França, ora com a Inglaterra. E dado que, à data, a guerra se abeirava de uma esmagadora vitória francesa, à Borgonha seria necessário esquecer o passado recente e aliar-se ao antigo inimigo. Em suma, as duas alianças ajudariam porventura a desequilibrar a balança de poder na Europa a favor da França e de Castela e contra Inglaterra e Aragão, além de fortalecerem o eixo Portugal-Borgonha. À coroa francesa não passou com certeza despercebida a importância das negociações destas Infantas portuguesas como garantes do apoio da Borgonha, da neutralidade do Império e do desequilíbrio do poder inglês na Península Ibérica, palco secundário dos jogos de influências dos conflitos anglo-franceses.
thumb|250px|left| As possessões das três principais famílias do Sacro Império em finais do século XIV: dos Wittelsbach, dos Luxemburgo (família de Ladislau) e dos Habsburgo (família de Frederico)
O interesse do Imperador Frederico III O esboço inicial alterou-se devido à debilidade de Ladislau, que viria a morrer de leucemia em 1457,FERDA, Jiri. (2008) e às ambições dos seus primos maternos da Casa de Habsburgo. Ladislau era o último e imberbe representante da Casa de Luxemburgo e senhor titular de um império em desintegração, que incluía a Boémia, a Hungria e a Baixa Áustria. O seu primo Frederico de Habsburgo sucedera ao pai de Ladislau — Alberto II — no trono Imperial, pois Ladislau só nasceu 4 meses após a morte do pai, já em 1440. Com o passar dos anos acentua-se a preponderância política de Frederico face ao pequeno e doente Ladislau e tal não escapou ao olhar atento de Isabel da Borgonha.COELHO, M.H. da Cruz. (2002-2003) pág. 47
Ao Sacro Imperador Romano-Germânico não passou despercebida a grande riqueza da Casa de Avis. O comércio de açúcar das ilhas atlânticas e de escravos, ouro e malagueta da costa africana, tornavam o Portugal do século XV um país em franco crescimento económico. Ainda mais tendo em conta o clima de paz do Reino, em que as únicas operações militares da época se situavam no Norte de África, não perturbando a economia interna. Frederico III era um governante constantemente atormentado com problemas pecuniários. Os seus rendimentos esvaíam-se entre as tentativas de unificar o património dos Habsburgos na Suábia, nos Alpes e na Baixa Áustria dispersos por inúmeras linhas colaterais; em tentar reaver a Boémia e a Hungria para seu primo Ladislau Póstumo e em tentar aumentar o prestígio imperial impondo-se como força preponderante na Europa. Como tal, a união com uma rica princesa de uma Dinastia em ascensão era do agrado da Casa d'Áustria.
Influência Aragonesa À medida que se abeira a chegada da segunda metade do século XV, tudo parece encaminhado para o casamento das duas irmãs D. Joana e D. Leonor com Luís de Valois e Frederico III, respetivamente. Contudo, a política interna portuguesa sofre um volte-face em Julho de 1448, quando o irmão de D. Leonor atinge a maioridade e começa o seu reinado como Afonso V de Portugal. thumb|260px|right| O Império Aragonês em 1443.O Duque de Coimbra afasta-se para os seus domínios no Mondego e o primeiro homem da corte é agora D. Afonso, Duque de Bragança. Inimigo jurado do Duque de Coimbra, apoiante da rainha D. Leonor de Aragão na contenda pela regência em 1445, D. Afonso surge como natural aliado dos interesses aragoneses. Inglaterra e Aragão opõem-se à união de D. Leonor com o Delfim de França, mas já uma aliança entre Portugal e o Império é vista de forma favorável. De facto, Afonso V de Aragão (1396-1458) herdara os Reinos da Sicília e Nápoles e procura uma aliança com o Império para assegurar os seus domínios italianos reclamados pela francesa Casa de Anjou, disputa que no final do século XV originaria as Guerras Italianas. O grande impulsionador da aliança deixa de ser Isabel, Duquesa da Borgonha, passando o tio materno de D. Leonor, Afonso de Aragão a desempenhar esse papel. Sintomáticas desta situação são as cartas endereçadas pela Rainha de Aragão — datadas de 14 de Outubro de 1448 Monumenta Henricina(1968) docs. 203-206. — aos monarcas peninsulares recomendando-os os embaixadores do Imperador, que em meados de desse mês do ano de 1448 chegaram à Península. A alteração de planos e de personagens nesta senda matrimonial acaba por alterar também a própria noiva proposta para o Imperador: será agora a filha mais velha, D. Leonor.
Diligências pré-matrimoniais Embaixada alemã de 1448 thumb|200px|right|Leonor de Portugal por um seguidor de Hans Burgkmair, o Velho, 1473-1531