As guerras bizantino-búlgaras foram uma série de conflitos travados entre os bizantinos e os búlgaros que começaram quando estes se assentaram pela primeira vez na península balcânica no e se intensificaram com a expansão do Primeiro Império Búlgaro para o sudoeste após 680. Ambos os lados continuaram a lutar no decorrer do século seguinte com resultados variados até que os búlgaros, liderados pelo cã Crum, infligiram uma série de decisivas derrotas sobre os bizantinos. Após a morte de Crum, em 814, seu filho Omortague negociou uma paz que perduraria por trinta anos. Em 893, quando as hostilidades recomeçaram, Simeão I derrotou os bizantinos em sua ofensiva para criar um grande império na Europa Oriental, mas fracassou.
Em 971, o imperador bizantino João I Tzimisces enfrentou croatas, magiares, pechenegues e rus', mas, mesmo assim, conseguiu subjugar a maior parte do enfraquecido Império Búlgaro, derrotando Bóris II e capturando Preslava, sua capital. Finalmente, , o "matador de búlgaros", conquistou completamente a Bulgária em 1018 após uma decisiva vitória na Batalha de Clídio em 1014. Os búlgaros não se acomodaram e diversas revoltas ocorreram contra o controle bizantino entre 1040 e 1041 e nas décadas de 1070 e 1080, mas fracassaram. Em 1185, porém, Teodoro Pedro e João Asen iniciaram uma rebelião e o enfraquecido Império Bizantino, que enfrentava diversos conflitos dinásticos internos, não conseguiu evitar que os búlgaros se libertassem.
Depois que a Quarta Cruzada conquistou Constantinopla em 1204, Joanitzes, o imperador da Bulgária, tentou iniciar relações amigáveis com os estados cruzados, mas o recém-criado Império Latino rejeitou suas ofertas de aliança,. Por conta desta gélida recepção, Joanitzes se aliou ao Império de Niceia, um dos estados sucessores bizantinos criados na ocasião, o que reduziu o poder dos cruzados e os manteve cercados na região. Mesmo tendo seu sobrinho Boril se aliado aos latinos, seus sucessores se alinharam com os nicenos. Após o colapso do Império Latino, os bizantinos, aproveitando-se de um guerra civil no vizinho, capturaram partes da Trácia, mas o imperador búlgaro Teodoro Esvetoslau logo recuperou o território perdido. As relações bizantino-búlgaras continuaram flutuando entre alianças e guerras até que os turcos otomanos tomaram a capital búlgara em 1393 e a bizantina em 1453.
Guerra de Asparuque
thumb|300px|Fundação do estado búlgaro sob Asparuque
Os bizantinos e os protobúlgaros se enfrentaram pela primeira vez quando a horda do filho mais jovem do cã Cubrato, Asparuque, mudou-se para o ocidente e se assentou na região que corresponde atualmente ao sul da Bessarábia. Asparuque derrotou os bizantinos liderados por Constantino IV - que realizaram uma campanha combinada por mar e terra - na Batalha de Ongala. Sofrendo de problemas de saúde, o imperador teve que abandonar exército, que entrou em pânico e foi derrotado pelos protobúlgaros. Em 681, Constantino foi forçado a reconhecer a reconhecer a existência de um estado búlgaro na província da Mésia II e ainda pagou tributos para evitar novas invasões búlgaras na Trácia.Teófanes, o Confessor. , p.357-360 Mesmo assim, oito anos depois, Asparuque invadiu com sucesso a região.
Guerras de Tervel
Tervel, mencionado pela primeira vez nos textos bizantinos em 704 quando o imperador bizantino deposto Justiniano II procurou-o em busca de ajuda, apoiou Justiniano numa tentativa de recuperar o trono bizantino em troca de amizade, presentes e a mão de sua filha em casamento. Com um exército de cavaleiros emprestados por Tervel, Justiniano avançou rapidamente para a capital e conseguiu invadi-la em 705. Agora no trono, Justiniano executou os usurpadores, os imperadores Leôncio e Tibério III, juntamente com suas famílias e cobriu Tervel de presentes, além de conceder-lhe título de cáiser (césar), um título que só não era inferior ao do imperador - a primeira vez na história bizantina que um governante estrangeiro recebeu a honra. Além disso, o novo cáiser provavelmente recebeu territórios no nordeste da Trácia, uma região chamada Zagore. Se a filha de Justiniano, Anastácia, se casou ou não com Tervel, não se sabe.
Meros três anos depois, o próprio Justiniano II violou os termos de seu tratado e, aparentemente, iniciou uma campanha para recuperar as terras cedidas. Tervel o derrotou na Batalha de Anquíalo em 708. Em 711, enfrentando uma séria revolta na Ásia Menor, Justiniano novamente buscou a ajuda de Tervel, mas recebeu apenas um apoio morno na forma de soldados. Enganado pelo rebelde Filípico, Justiniano foi capturado e executado, mas seus aliados búlgaros receberam a permissão de voltar incólumes para casa. Tervel se aproveitou da situação e armou diversos raides na Trácia no ano seguinte, saqueando toda a região até chegar às redondezas de Constantinopla.
De acordo com a informação cronológica disponível no "Imennik", Tervel morreu em 715. Porém, o cronista bizantino Teófanes, o Confessor, relata a participação de Tervel numa tentativa de restaurar o deposto imperador Anastácio II em 718 ou 719. Se Tervel de fato viveu até lá, foi ele o governante que firmou um novo tratado com o Teodósio III em 716 (confirmando o tributo anual pago pelos bizantinos e as concessões na Trácia, além de regulamentar as relações comerciais e o tratamento de refugiados políticos), e foi também ele que ajudou a libertar Constantinopla do segundo cerco árabe em 717-718. De acordo com Teófanes, os búlgaros chacinaram árabes nesta batalha.
Guerras de Constantino V 300px|thumb|Guerras bizantino-búlgaras entre 741-775
Após a morte de Sevar, a Bulgária passou por um longo período de crise e conflitos internos, enquanto os bizantinos consolidavam sua posição. Entre 756 e 775, o novo imperador bizantino Constantino V Coprônimo liderou nove campanhas contra os vizinhos do norte para recuar a fronteira até o Danúbio (a antiga Fronteira da Mésia).Teófanes, o Confessor. Cronografia, p.429 Por conta das frequentes mudanças de governo (foram oito cãs no espaço de vinte anos) e uma constante crise política, a Bulgária estava à beira da destruição.
Em sua primeira campanha, em 756, Constantino conseguiu derrotar os búlgaros por duas vezes, mas, três anos depois, Vineque derrotou decisivamente o exército bizantino na Batalha do Passo de RishkiTeófanes, o Confessor. Cronografia, p.431 e logo tentou a paz, mas acabou assassinado pelos nobres búlgaros. O novo governante, Teletzes, foi derrotado na Batalha de Anquíalo em 763.Nicéforo. Opuscula histórica, p.69-70 Em suas campanhas subsequentes, nenhum dos lados conseguiu conquistar ganhos importantes, pois os bizantinos não conseguiram atravessar a cordilheira dos Bálcãs e a sua frota foi destruída por duas vezes em tempestades (2 600 naus foram afundadas somente na de 756Nicéforo. Opuscula histórica, p.73Teófanes, o Confessor. Cronografia, p.437). Em 774, eles derrotaram uma força búlgara muito inferior em Berzitia, mas esta seria a última vitória de Constantino V: por causa das sucessivas derrotas, os búlgaros criaram uma artimanha para revelar os espiões bizantinos em Plisca. O cã Telerigue enviou um emissário em segredo até Constantino V indicando sua (falsa) intenção de fugir da Bulgária para buscar refúgio com o imperador e queria se assegurar que seria bem recebido. Para conseguir o feito, o imperador revelou quem eram os seus agentes na Bulgária, que foram imediatamente presos e executados. Como Constantino morreu em 775, a esperada retaliação bizantina não se materializou.
Fracassada retaliação de Constantino VI Em 791, o imperador bizantino Constantino VI embarcou numa expedição contra a Bulgária para se vingar das incursões búlgaras na região do vale do Estrimão a partir de 789. Kardam atacou primeiro e encontrou o exército bizantino perto de Adrianópolis na Trácia. O exército bizantino foi derrotado e retornou pra casa.
No ano seguinte, Constantino liderou outro exército contra a Bulgária e acampou em Marcela, perto de Karnobat, iniciando a construção de uma fortificação. Kardam chegou com seu exército no dia 20 de julho e ocupou as colinas vizinhas. Após as forças terem se avaliado mutuamente por um tempo, Constantino VI finalmente ordenou o ataque, mas, na Batalha de Marcela, suas forças saíram da formação e novamente foram derrotadas, provocando nova fuga. Kardam capturou a tenda imperial e prendeu os serviçais do imperador. Após seu retorno para casa, Constantino assinou um tratado de paz e passou a pagar um tributo anual para a Bulgária.
Em 796, o governo imperial novamente queria não pagar o tributo e Kardam ameaçou devastar a Trácia se não recebesse. De acordo com o cronista Teófanes, o Confessor, Constantino zombou da demanda enviando esterco ao invés de ouro como um "tributo adequado" e prometendo liderar um novo exército contra o já idoso Kardam em Marcela. Mais uma vez, o exército de Constantino marchou para o norte e mais uma vez deu combate a Kardam nas redondezas de Adrianópolis. Os exércitos se encararam por dezessete dias sem iniciar o combate enquanto os dois monarcas provavelmente negociavam. No final, o conflito foi evitado e nova paz foi assinada nos mesmos termos de 792.
Guerras de Crum thumb|esquerda|300px|Expansão territorial da Bulgária sob o cã Crum O cã Crum iniciou uma agressiva política de expansão nos Bálcãs, atacando o vale do Estrimão em 807, onde derrotou a guarnição bizantina e capturou uma enorme quantidade de ouro destinada ao pagamento dos salários de todo o exército bizantino.Teófanes, o Confessor. Cronografia, p.484-486 Dois anos depois, ele cercou e forçou a rendição de Sérdica (Sófia), chacinando a guarnição bizantina mesmo tendo-lhes prometido um salvo conduto. Esta atrocidade fez com que o imperador assentasse populações vindas da Anatólia ao longo da fronteira para protegê-la e para tentar recapturar a agora refortificada cidade de Sérdica, um objetivo que acabou não se concretizando.
Conflito com Nicéforo I No início de 811, Nicéforo I iniciou uma enorme campanha contra a Bulgária, avançando rapidamente até Marcela. Crum tentou negociar no dia 11 de julho do mesmo ano, mas Nicéforo estava determinado a continuar seu avanço. Se exército conseguiu evitar as emboscadas búlgaras na cordilheira dos Bálcãs e derrotou um exército de homens que tentou impedir que ele penetrasse na Mésia. Outro exército, formado às pressas e com homens, foi derrotado perante as muralhas da capital Plisca,Anonimo Vaticano, p.148-149 que caiu em 20 de julho. Vitorioso, Nicéforo, que havia sido ministro das finanças antes de se tornar imperador, se apoderou do tesouro de Crum, ateou fogo na cidade e liberou o exército para saquear a cidade e a população. Uma nova tentativa diplomática de paz por parte de Crum foi rejeitada por Nicéforo, que demonstrou grande crueldade contra os búlgaros.
Cada vez mais preocupado com uma possível ruptura na disciplina de seu exército, Nicéforo finalmente decidiu voltar para a Trácia. Neste meio tempo, Crum mobilizou tantos súditos quanto pôde encontrar (incluindo mulheres) e espalhou armadilhas e emboscadas por todo o caminho de volta, principalmente nos passos de montanha. No amanhecer do dia 26 de julho, os bizantinos se viram encurralados contra um fosso e uma muralha de madeira no passo de Varbitsa.Teófanes, o Confessor. Cronografia, p.489-492 Nicéforo foi morto na batalha que se seguiu e seu filho, Estaurácio, saiu carregado pelos guarda-costas imperiais após receber um grave ferimento no pescoço. De acordo com a tradição, Crum fez do crânio do imperador uma taça banhada em prata, o que aumentou sua reputação e valeu-lhe o apelido de "Novo Senaqueribe".
Conflito com Miguel I Rangabe