A Campanha de Napoleão na Síria foi uma expedição organizada e executada por Napoleão Bonaparte, em 1799, contra as forças do Império Otomano que estavam a ser organizadas com a intenção de libertar o Egito da ocupação francesa. A campanha resultou num fracasso, pois não foi atingido o seu principal objectivo - criar condições para prosseguir até à Índia - e foi interrompida devido a uma contraofensiva lançado no Egito pelo Império Otomano, com apoio britânico.
Antecedentes
A 19 de Maio de 1798, o “Exército do Oriente”, sob o comando do general Napoleão Bonaparte, iniciou a viagem para o Egito. O objectivo era criar uma plataforma para prosseguir até à Índia, com a finalidade de atacar o crescente poder britânico na zona do Oceano Índico e, por conseguinte, parte importante da sua economia. No dia 1 de Julho, as tropas francesas iniciaram o desembarque no Egito, na Baía de Marabout. No dia seguinte os Franceses apoderaram-se de Alexandria e, depois de desembarcado todo o exército, prosseguiram para o Cairo. No dia 21 de Julho, dá-se a Batalha das Pirâmides, vitória francesa que pôs em fuga os dois governantes mamelucos do Egito: Murade Bei e Ibrahim Bey. No entanto, a população mostrava-se hostil aos Franceses e, depois de o Sultão pregar a guerra santa contra os infiéis, as revoltas sucederam-se. No Cairo deu-se a revolta mais grave, que foi violentamente reprimida a 21 de Outubro. thumb|left|300px|Mapa da Síria otomana, 1851 O Egito estava praticamente controlado pelos Franceses, mas a situação não era segura porque, para além da guerra santa proclamada pelo Sultão, dois outros acontecimentos constituíram graves obstáculos aos planos de Napoleão: a destruição de parte importante da frota francesa na Batalha do Nilo e a notícia de que, na Síria, um exército estava a ser preparado para invadir o Egito e expulsar os Franceses. Este exército estava a ser organizado por Ahmed al-Jazzar, governador turco da Síria. Para que Napoleão pudesse prosseguir os seus planos e avançar para a Índia, era necessário, por um lado, destruir aquele exército turco e, por outro, obter o apoio de alguns povos da região, já que o domínio naval britânico não permitiria grandes (ou talvez nenhuns) apoios de FrançaEsdaile, pp. 18 e 19..
O teatro de operações Naquela época, a Síria era uma região do Império Otomano, dividida em cinco “pashaliks” (divisões administrativas governadas por um paxá): Alepo, Damasco, Trípoli, Acre e JerusalémHarvey, p. 311.. A região não é tão desértica como o Egito (exceptuado o Delta e parte importante das margens do Nilo), mas as marchas eram particularmente difíceis, dada a natureza arenosa do terreno e alguma escassez de água. As temperaturas são normalmente elevadas no Verão mas, no Inverno, podem surpreender pelos valores muito baixos, em especial nas zonas mais elevadas. Se pretendermos localizar, em termos actuais, os locais por onde esta expedição passou, devemos procurar informação sobre Península do Sinai, Faixa de Gaza e Israel.
As forças em presença
As forças francesas
Napoleão partiu para a expedição da Síria com quatro divisões de infantaria e um corpo de tropas de cavalaria. Transportou consigo a artilharia de campanha, mas não a artilharia de cerco, muito mais pesada. Esta última foi enviada por mar, a partir do porto de Damieta mas, ao chegar ao seu destino, antes do desembarque, foi capturada pelos Britânicos.
As quatro divisões de infantaria estavam sob o comando de Jean Baptiste Kléber, Louis André Bon, Jean Lannes, Jean Reynier e a cavalaria sob o comando de Joachim Murat. Ao todo somavam 13.000 homens e 52 bocas-de-fogo de artilharia. Louis-Alexandre Berthier, o chefe do estado-maior do exército de Napoleão, acompanhou a força expedicionária à SíriaConnelly, p. 101; Marshall-Connelly, p. 89..
Ao contrário do que sucedera no início da Campanha do Egito, as tropas francesas estavam agora mais bem equipadas e mais adaptadas ao ambiente do deserto. A maioria já dispunha de cantis para transporte individual de água e utilizavam uniformes de algodão. No entanto, nos meses de Inverno, a Palestina pode ter dias muito frios e as tropas também sofreram com isso. Marshall-Cornwall, p. 89.
As forças do Império Otomano 300px|right|thumb|Jezzar em Acre. Pintura de 1800 As forças que se opunham a Napoleão eram formadas por tropas de diversas origens, mas sobretudo por Turcos e Mamelucos. Estavam adaptadas ao teatro de operações. Mostraram frequentemente serem combatentes de valor, mas não dispunham da disciplina nem da capacidade de organização das tropas francesas. Para além da infantaria, estas tropas dispunham sempre de uma cavalaria numerosa, o que lhes proporcionava grande mobilidade.
O exército que o Império Otomano preparou para enfrentar os Franceses estava sob o comando do governador turco da Síria, Ahmed al-Jazzar. É difícil conhecer o total dos seus efectivos, que estavam dispersos por vários fortes mas, para além deste exército, houve a intervenção de um outro, enviado pelo Paxá de Damasco. Apesar de, no total, as forças do Império Otomano serem mais numerosas, verificou-se que nos diversos combates ou batalhas que se registaram, estiveram sempre em inferioridade numérica, com excepção da Batalha do Monte Tabor, em que intervieram as tropas do Paxá de Damasco, e do combate de Beni Adi, a 1 de MaioMarshall-Cornwall, pp. 90 e 91; Smith, pp. 145 a 156..
A expedição
Preparação
Após ter esmagado a revolta do Cairo (a mais séria de várias revoltas que se desencadearam por todo o Egito), no final de Dezembro Napoleão foi até Suez com um pequeno grupo de reconhecimento. A povoação de Suez tinha já sido ocupada pelo General Bon. O objectivo de Napoleão era contactar e estabelecer relações de amizade com as tribos árabes da Península do Sinai, por forma a poder realizar o seu objectivo de marchar até à Índia. Inicialmente, Napoleão tinha planeado executar este projecto em aliança com a Turquia mas, após ter antagonizado a Sublime Porta, esperou conseguir o levantamento do mundo árabe contra os TurcosMarshall-Connelly, p. 89. Se o caminho para a Índia implicava a colaboração dos Árabes e se o Egito estava conquistado, porque iria ser lançada uma expedição na Síria?
Napoleão decidiu, sem ordens de Paris, antecipar-se aos planos de Jezzar (que estava a organizar um exército otomano na Síria) e marchar ao seu encontro. O objectivo de Napoleão era avançar até Acre, derrotar as tropas de Jezzar e, então, com um exército de cerca de 50.000 homens, constituído por Franceses mas também por Árabes e Núbios, forçar o Sultão a aceitar a paz e a apoiá-lo na marcha para a Índia. No dia 19 de Novembro, Napoleão enviou um ultimato a Jezzar, no qual declarava considerar como acto de guerra dar guarida às tropas de Ibrahim Bey. Este chefe mameluco tinha retirado para aquela região após a derrota na Batalha das Pirâmides. Não recebeu nenhuma resposta a este ultimato e, assim, decidiu prosseguir com os seus planos. No dia 25 de Janeiro também enviou uma mensagem ao único príncipe indiano que continuava a lutar com sucesso contra o domínio britânico, Fateh Ali Tipu do Reino de Mysore. Nesta mensagem, Napoleão informava Tippu de que, em breve, chegaria com um exército invencível, ao qual se juntariam os Mamelucos e os Árabes do EgitoConnelly, pp. 101 e 102; Harvey, pp. 311 e 312. Para Napoleão, a Síria podia ser a primeira etapa de uma longa marcha, que o poderia conduzir à Índia, mas também a Constantinopla. De acordo com o seu conceito de acção, algumas vitórias militares seriam um incentivo para as vítimas de Jazzar (Maronitas, Drusos ou Xiitas) se reunirem a ele e, também, para estimular a sublevação de diversos povos (Gregos, Arménios, Persas, Curdos ou Turcomanos), com a finalidade de se libertarem do jugo otomanoSolé, p. 241. 400px|left|thumb|Mapa do teatro de operações da Campanha do Egito e Síria
Mais de metade do exército francês no Egito não participou na expedição à Síria. Charles Dugua ficou com a guarnição do Cairo e com a responsabilidade de toda região do Delta. Jacques-François Menou ficou a comandar a guarnição de Roseta e Auguste de Marmont a de Alexandria. No Baixo Egito ficavam cerca de 10.000 militares e, no Alto Egito, ficavam entre 4.000 e 5.000, isto é, a divisão de Louis Charles Antoine Desaix, que para ali tinha sido enviada em perseguição de Murade Bei. Contudo, Napoleão só pôs o seu plano em execução depois de receber uma mensagem do general Desaix a informar que o exército de Murade Bei deixara de constituir um perigo. Na expedição da Síria participaram também alguns dos cientistas que acompanharam o exército francês ao Egito. Foi o caso, entre outros, de Gaspard Monge, Claude Berthollet, Louis Costaz, Jules-César Savigny e Pierre Jacotin. Este último escolheu fazer o trajecto a pé, até S. João de Acre, munido de uma bússola, com a finalidade de estabelecer uma carta da PalestinaConnelly, p. 101; Marshall-Connelly, p. 89; Solé, pp. 240 e 244.
Marcha até Acre; conquista de Jafa
A divisão de Reynier formou a guarda avançada e iniciou o movimento quinze dias antes do resto do exército, mas foi parada pelos Turcos no forte de fronteira, em Alarixe (El Arish), a 8 de Fevereiro. Napoleão deixou o Cairo a 10 de Fevereiro de 1799 e iniciou a marcha para a Síria. Após 120 Km de marcha, o exército chegou a Salaheya, no limite oriental do Delta do Nilo, onde começa o deserto. Depois, foi necessário marchar cerca de 20 horas sobre a areia, para atingir o oásis de Qatieh. A próxima etapa, até Al Arish, implicou três dias de marcha, em que dispuseram de não mais de três poços de água, que davam para abastecer, quando muito, dois batalhõesConnelly, p. 102; Marshall-Cornwall, p. 89; Solé, pp. 244 e 245.
Napoleão atingiu Alarixe a 17 de Fevereiro. Com a sua artilharia de campanha, sujeitou a um duro bombardeamento as forças de Jazzar que se tinham barricado nas casas, no exterior das muralhas, sob protecção da artilharia da fortaleza. Após os primeiros combates, em que os Franceses fizeram cerca de 500 prisioneiros, a maior parte das tropas refugiou-se na fortaleza e a cavalaria reuniu-se a cerca de 2 Km de distância. No dia 20 de Fevereiro, a guarnição do forte, constituída por 900 Turcos e Mamelucos, rendeu-se aos Franceses, embora estes tenham perdido cerca de 400 homens no ataque ao forteHarvey, p. 312.. A maior parte da guarnição turca foi libertada sob palavra de, durante um ano, não combaterem contra os Franceses. A marcha continuou e Gaza foi ocupada no dia 24, sem oferecer resistência. O mesmo não se passou em Jafa, cuja guarnição era constituída por tropas de Jezzar. A população da Síria era predominantemente árabe, mas as guarnições das fortalezas eram turcas. No dia 7 de Março, após três dias de combates e depois de os sapadores franceses terem aberto uma brecha nas muralhas da cidade, Jafa foi assaltada e saqueada. No entanto, cerca de 2.500 Turcos refugiaram-se na cidadela, que só foi conquistada no dia seguinte. Foram capturados 2.000 ou 2.500 Turcos, muitos dos quais tinham sido libertados sob palavra em El Arish. Foram encontradas 400.000 rações de biscoito e 100 toneladas de arroz.Connelly, p. 102; Marshall-Cornwall, pp. 89 e 90; Solé, pp. 245 a 251; Harvey, pp. 311 a 313.
300px|thumb|Napoleão Bonaparte visitando as vítimas da peste em Jafa, a 11 de Março de 1799. por Antoine-Jean Gros, 1804, Museu do Louvre, Paris