O Tratado de Paris (em francês: Traité de paix entre le Roi, le roi d'Espagne et le roi de la Grande-Bretagne, 1763) é um tratado de paz assinado em 10 de fevereiro de 1763 entre França e Espanha e Grã-Bretanha e Portugal, com a finalidade principal de encerrar as hostilidades da Guerra dos Sete Anos (1756–1763) e reorganizar os territórios coloniais de cada nação na Ásia e na América do Norte.
Apesar de ter sido negociado gradativamente em Fontainebleau nos dois anos finais do conflito e assinado em Paris, capital francesa, o tratado inversamente representou uma derrota definitiva dos interesses franceses na América do Norte e a soberania das reivindicações territoriais dos britânicos. O tratado é um documento complexo e intricado de termos e disposições, o que reflete a profundidade do conflito e o presumido impacto dos termos negociados sobre as nações envolvidas. Este documento precedeu em apenas cinco dias o também singular Tratado de Hubertsburg – firmado entre Prússia, Áustria e Saxônia – que encerrou o teatro de operações da guerra no continente europeu. Combinados, ambos os tratados cimentaram a prevalência do Império Britânico em suas colônias mundiais e a supremacia da Prússia como potência expansionista no continente.
Pelos termos detalhados do tratado, a Coroa britânica ampliou sua posição dominante na América do Norte com a anexação de territórios significantes da Nova França (como Montreal e Quebec), enquanto a Transferência da Louisiana para a Espanha foi o evento culminante do fim da presença francesa no continente após mais de dois séculos de investimento colonial.
Contexto Ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, Espanha, Portugal, França e Inglaterra despontaram como as principais potências regionais, projetando seu poderio econômico e militar através do investimento contínuo em rotas de comércio com o Oriente e no desenvolvimento de uma rede colonial extensa no chamado Novo Mundo. Nas primeiras décadas do século XVI, franceses e ingleses investiram fortemente na exploração geográfica da América do Norte movidos pelo interesse em expandir sua rede comercial e estabelecer rotas marítimas alternativas até a Ásia, onde também mantinham atividades comerciais e coloniais. A partir do século XVII, as Províncias Unidas dos Países Baixos (conhecidas coletivamente como "Holanda") desvencilhou-se por completo do controle espanhol e ascendeu como uma relevante potência comercial, eventualmente se beneficiando dos interesses globais das demais potências. Na década de 1700, com o Tratado de União, o monarca inglês passa reinar também sobre Escócia e Irlanda, formando o Reino da Grã-Bretanha e angariando uma posição de ainda maior relevância e poder militar e econômico dentre as potências europeias.
Neste período, a Europa tornou-se palco de numerosos conflitos entre estas potências, motivadas principalmente por disputas dinásticas e territoriais, como a Guerra dos Nove Anos (1688–1697) e a Guerra da Sucessão Espanhola (1700–1714). Os conflitos neste período eram resolvidos através de tratados e alianças diplomáticas complexas, algumas das quais frágeis demais diante das ambições expansionistas das nações. As disputas e rivalidades históricas foram invariavelmente transportadas para as colónias dos países envolvidos, abrindo caminho às numerosas guerras inter-coloniais. A Guerra dos Sete Anos, o maior destes conflitos de proporção global, é um caso singular por ter se iniciado nas colônias antes de envolver diretamente as metrópoles.
No desenrolar do conflito, a França aliou-se à Espanha e ambos concentraram seus esforços principalmente no continente europeu. A Grã-Bretanha buscou apoiar indiretamente a Prússia no continente enquanto investia pesadamente na vitória sobre os franceses na América do Norte. No contexto do continente americano, o conflito (estudado separadamente como Guerra Franco-Indígena) envolveu nações indígenas locais em alianças estratégicas com franceses e britânicos em meio à disputa por territórios no Vale do Rio Ohio, Acádia e Canadá. Na Ásia, o conflito ocorreu principalmente no subcontinente indiano e no Mar do Sul da China, onde franceses e ingleses competiram pela prevalência das atividades comerciais da Companhia Francesa das Índias Orientais e da Companhia Britânica das Índias Orientais, respectivamente. Espanhóis e holandeses também estenderam suas disputas para a região, buscando consolidar sua presença no lucrativo comércio oriental.
Negociações miniatura|right|250px|O Primeiro-ministro britânico Lorde Bute, que governou nos dois anos finais da guerra, foi um dos articuladores das trocas territoriais com a França previstas no tratado. Bute desejava manter a estabilidade financeira do Império Britânico e conter possíveis tentativas de contra-ataque francês na América. Durante a guerra, a Grã-Bretanha conquistou as colônias francesas do Canadá, Guadalupe, Santa Lúcia, Martinica, Dominica, Granada, São Vicente, Granadinas e Tobago (na América). Os principais vencedores do conflito, os britânicos também tomaram os postos comerciais franceses na Índia, Goreia e Senegal e as colônias espanholas de Manila e Havana. A França, por sua vez, havia conseguido a célebre captura de Minorca e de diversos postos comerciais britânicos em Sumatra. A Espanha, beligerante indireto no conflito, também projetou suas ambições colonialistas e conquistou a vila de Almeida e a Colônia do Sacramento de Portugal.
Questão da Luisiana A Luisiana compreendia uma ampla extensão de territórios desde o Golfo de São Lourenço, passando pelos Grandes Lagos e as Montanhas Rochosas até o Golfo do México. Em 1682, o explorador francês René Robert Cavelier de La Salle empreendeu uma expedição até a atual Nova Orleães e reivindicou o território explorado em nome de Luís XIV. Desde então, a região foi colonizada por franceses, sendo vital para o prestígio dos franceses em todo o escopo do colonialismo, bem como um fator decisivo de sua presença dominante no continente.
Em 1762, os britânicos impuseram uma vitória esmagadora aos franceses na Batalha de Signal Hill. A França, ao mensurar o provável avanço das tropas britânicas para o sul do território, propôs uma negociação direta com a Espanha sobre o destino da Luisiana no limiar do conflito. Em novembro daquele mesmo ano, França e Espanha firmaram o Tratado de Fontainebleau, garantindo a transferência de porções da Luisiana aos espanhóis independentemente dos termos que seriam acordados posteriormente com os britânicos.
Posteriormente, o Tratado de Paris complementou estas negociações anteriores e estabeleceu a cessão da Luisiana para os britânicos como parte das negociações de paz, culminando no desmantelamento de uma imensa região que vinha sendo de controle dos franceses há séculos. Como parte das manobras negociadas, os britânicos assumiram o controle do território a leste do rio Mississippi, formando sua colônia da Flórida Ocidental enquanto os franceses mantiveram o controle sobre a cidade de Nova Orleães. A Espanha assumiu as terras a oeste do Mississippi, formando a muito maior colônia de Luisiana Espanhola. Estas disposições do tratado foram mantidas até o Tratado Franco-Americano de 1803, em que a Luisiana foi adquirida pelos Estados Unidos, e o Tratado de Adams-Onís (1819), pelo qual a Flórida foi cedida pela Espanha e tornou-se uma região estadunidense.
Questão do Canadá miniatura|left|250px|Em 8 de setembro de 1760, as forças britânicas consumaram a tomada de Montreal, até então o principal assentamento colonial da Nova França. Com os avanços britânicos a partir desta data, os franceses perceberiam um desfecho trágico cada vez mais provável. Na década de 1760, Canadá compreendia menos da metade do território do país atual (o atualmente chamado Leste do Canadá), correspondendo basicamente a região das Montanhas Rochosas (a sudoeste de Montreal) até a costa de Terra Nova no Mar do Labrador. Ainda assim, a região era de importância vital para os franceses, que ali se estabeleceram desde a expedição de Jacques Cartier em 1535. Nas décadas seguintes à chegada de Cartier, a França manteve um controle rígido sobre a região, investindo na colônia através da edificação de fortificações e cidades no litoral atlântico e favorecendo a comercialização com as nações indígenas nativas. Os franceses também consideravam a região ao norte da Terra Nova como uma ampla possibilidade de navegar uma rota alternativa até a China.
A Inglaterra, por sua vez, mantinha suas possessões coloniais ao sul entre a Nova França e o Oceano Atlântico, conhecidas coletivamente como Treze Colônias, das quais a Província da Baía de Massachusetts possuía fronteira diretamente com o Canadá francês. Desde 1700, as duas forças coloniais empreendiam disputas severas por território e expansão que resultaram em profundos conflitos, como a Guerra da Rainha Ana (1702–1713) e a Guerra do Rei Jorge (1744–1748). Em ambos os conflitos, os britânicos haviam tomado diversas regiões do controle francês e os tratados de paz posteriores provaram-se insuficientes para concluir as tensões resultantes.
A Guerra dos Sete Anos, como conflito que herdou todas essas disputas não solucionadas anteriormente, era crucial ao interesse britânico em expandir e consolidar suas conquistas na Nova França. Eventualmente, os britânicos ampliaram fortemente sua presença na região através das sucessivas vitórias no conflito. Na negociação do Tratado de Paris, a Grã-Bretanha optou por devolver a ilha de Guadalupe, uma lucrativa colônia açucareira no Caribe, e manter suas possessões conquistas na América do Norte. Sob a liderança do Duque de Choiseul, a França – que enfrentava um cenário de devastação financeira e esgotamento social severos – relutantemente aceitou os termos e cedeu grande parte do Canadá. Os britânicos renomearam a região como Província do Québec e posicionaram James Murray, um herói da guerra, como governador-geral da região. Maiores negociações entre as duas partes permitiram que súditos franceses emigrassem para regiões sob controle da França e também asseguraram a tolerância religiosa dos britânicos para os católicos que se mantiveram na região.
Questão de Dunquerque miniatura|right|250px|Pelos termos do tratado, os britânicos conseguiram impor aos franceses a demolição de fortificações em Dunquerque, um ponto de tensão entre as duas potências desde o fim da Guerra dos Nove Anos em 1697. A cidade portuária de Dunquerque, banhada pelo Canal da Mancha e localizada no Estreito de Dover, foi um dos pontos mais controversos do tratado. Desde o fim da Guerra da Sucessão Austríaca, a França mantinha sua posse sobre a cidade com a condição de remover todas as suas fortificações. Os britânicos temiam que a cidade servisse de ponto de partida de uma eventual tentativa de invasão pelos franceses, o que de fato foi planejado em 1759, durante a Guerra dos Sete Anos, mas abortado em função dos gastos excessivos que a França já enfrentava no decorrer do conflito.
O Tratado de Utreque, firmado em 1714, havia permitido a construção de fortificações francesas na cidade com algumas poucas ressalvas. Esse acordo momentâneo acabou eclipsado pela retomada de rivalidades entre os dois países, especialmente porque a Grã-Bretanha entendia a fortificação de cidades costeiras francesas como uma ameaça direta a sua hegemonia sobre o Mar do Norte. Entretanto, pelos termos do Tratado de 1763, a França teve de se submeter às condições impostas anteriormente pelo Tratado de Aquisgrão e destruir as fortificações militares na região. Esta questão continuou a ser uma fonte de ressentimento político para os franceses e foi novamente debatida e encerrada no Tratado de Paris, exatamente vinte anos depois, que reconheceu uma série de provisões favoráveis à França no contexto da Guerra Revolucionária Americana.