thumb|300px|Soldo representando no anverso - com barba curta - com seu filho ( 776-778). No reverso, e , ambos com barba curta

A dinastia isaura ou isáurica, também chamada de dinastia síria, governou o Império Bizantino entre 717 e 802. Os imperadores isauros conseguiram defender e consolidar o território do império frente à ameaça do Califado Omíada e seu sucessor, o Califado Abássida depois do massacre inicial durante a expansão muçulmana no . Contudo, eles tiveram menos sucesso na Europa, onde foram derrotados diversas vezes pelo Império Búlgaro, tiveram que ceder o Exarcado de Ravena e perderam toda a influência sobre a Itália e o Papado para o Reino Franco.

A dinastia isáurica também é fortemente associada com a crise religiosa do Iconoclasma, uma tentativa de recuperar a graça divina purificando a fé de uma suposta e excessiva adoração aos ícones e que provocou grandes tumultos por todo o império.

No final da era isáurica, em 802, os bizantinos continuavam lutando contra árabes e búlgaros para conseguir sobreviver e a situação política havia se complicado sobremaneira pela ressurreição do Império Romano do Ocidente na forma do Império Carolíngio de Carlos Magno.

Contexto: Império Bizantino no thumb|300px|Mapa do Império Bizantino no final da dinastia heracliana (717)

A dinastia heracliana, que reinou entre 610 e 711, com um breve interregno entre 695 e 705, enfrentou alguns dos maiores desafios da longa história dos bizantinos. Depois de vencer os persas sassânidas na última guerra romano-persa, o imperador Heráclio e seu exaurido império tiveram que enfrentar a rápida expansão muçulmana pelo Levante.

Depois da conquista muçulmana da Síria, a rica província do Egito, a principal fornecedora de grãos e impostos do império, caiu também. Além disso, os bizantinos enfrentaram ataques em toda região da Líbia contra o Exarcado da África, contra a Cilícia, que controlava as rotas pelas montanhas para o interior da Ásia Menor, e no planalto armênio, a principal fonte de mão-de-obra do império e uma zona-tampão vital entre a Síria árabe e a passagem noroeste para a Ásia Menor. Estas três regiões seriam os principais campos de batalha da guerra bizantino-árabe pelos próximos cinquenta anos. Os árabes também desafiaram a supremacia bizantina no Mediterrâneo construindo uma vitoriosa frota para enfrentar a até então invencível marinha bizantina. A irrupção de uma guerra civil em 656 deu aos bizantinos um respiro e o imperador reforçou suas posições nos Bálcãs e na Itália. Seu sucessor, Constantino IV conseguiu debelar o primeiro cerco árabe à capital imperial, Constantinopla, e já emendou uma contra-ofensiva que garantiu a segurança da Ásia Menor, recuperando a Cilícia e forçando o Califado a pagar um tributo. Na mesma época, porém, ele foi derrotado pelo cã búlgaro Asparuque e foi forçado a aceitar o assentamento dos búlgaros nas terras até então bizantinas ao sul do Danúbio. Com a primeira deposição do filho e herdeiro de Constantino, Justiniano II, em 695, iniciou-se um período de anarquia que durou quase um quarto de século e provocou uma sucessão de desastres que quase provocaram o fim do império. Cartago finalmente caiu em 697 e uma tentativa de recuperá-la foi derrotada no ano seguinte. A Cilícia foi novamente conquistada pelos árabes e se tornou a base de onde os raides anuais dos árabes que penetravam profundamente na Ásia Menor, saqueavam cidades e destruíam as fortalezas da região. A região do Cáucaso também foi reconquistada e se consolidou o domínio muçulmano na região. Finalmente, o califa omíada Solimão ibne Abedal Maleque iniciou os preparativos para uma enorme expedição com um único objetivo: conquistar Constantinopla.

Em paralelo com as muitas catástrofes na política externa, o período heracliano assistiu a profundas mudanças na sociedade e na natureza do que restava do império: a civilização urbanizada e cosmopolita da Antiguidade Tardia desapareceu e uma era medieval se iniciou. Com o declínio da maior parte das cidades, que involuíram para pequenos e fortificados centros urbanos com funções meramente administrativas, a sociedade voltou a ser majoritariamente agrária na qual a educação e a vida intelectual praticamente desapareceram. A perda das províncias mais ricas do império somada com as sucessivas invasões reduziram a economia imperial para um tamanho insignificante perante aos recursos disponíveis ao Califado. A economia monetária sobreviveu, mas o escambo renasceu e se fortaleceu em paralelo; A prática administrativa também se alterou: juntamente com o sistema provincial herdado dos romanos, os exércitos foram reorganizados num novo sistema de temas que visava preservar o pouco que sobrou do território imperial concentrando o poder administrativo e militar nas mãos dos governadores (estrategos), o que os fez também mais propensos a se rebelar. Ao mesmo tempo, a burocracia central em Constantinopla ganhou proeminência.

No campo religioso, a perda das províncias orientais monofisistas encerrou a longa disputa com os calcedonianos e também deu fim à fracassada tentativa de compromisso entre os dois representada pelo monotelismo, rechaçado no Terceiro Concílio de Constantinopla em 680. Doze anos depois, o Concílio Quinissexto promoveu os interesses e pontos de vista do patriarca de Constantinopla frente aos da Sé de Roma.

O império em crise

Depois da segunda deposição de , o Império Bizantino entrou numa outra era de caos que só se compara ao atrapalhado governo de Focas durante a última guerra contra os persas. Filípico, o rebelde da Crimeia que tomou o trono se mostrou totalmente incompetente para a função. Em vez de enfrentar as iminentes ameaças representadas pelos búlgaros ou os árabes, ele reiniciou a controvérsia religiosa ao tentar reimpor a detestada solução intermediária entre monofisistas e calcedonianos de Heráclio, o monotelismo. Quando o rei Tervel da Bulgária, que era aliado de Justiniano II, invadiu a Trácia, Filípico não teve alternativa a não ser convocar as tropas do Tema Opsiciano para combatê-lo. Infelizmente para o imperador, as tropas não lhe eram minimamente leais e, depois de ter sido cegado ritualmente, Filípico foi substituído, em junho de 713, pelo seus principal secretário, Artêmio.

Artêmio foi coroado como e ele deu ao império um breve período de bom governo, reforçando as muralhas da capital e enchendo completamente os silos de Constantinopla, tudo isso para enfrentar a iminente invasão árabe. Todos os cidadãos receberam ordem de estocar alimentos suficientes para três anos, pois, se os árabes chegassem até a região dos estreitos, seria indubitavelmente um longo cerco. Porém, Anastácio se mostrou bom demais para o império: num esforço de evitar o cerco à capital, o imperador planejou um ataque preemptivo contra os inimigos utilizando Rodes como base. Porém, o Tema Opsiciano uma vez mais se revoltou a Anastácio acabou confinado num mosteiro na Tessalônica em 715.

Os opsicianos escolheram Teodósio, um relutante coletor de impostos, para governar o império, uma escolha que não teve nada a ver com suas habilidades. Quando Leão, o Isauro, estratego do Tema Anatólico, pediu apoio ao Senado e ao patriarca para se tornar imperador, precisou de pouco para persuadi-los.

Leão III, o Isauro , que futuramente seria o fundador da chamada dinastia isáurica, nasceu na verdade em Germaniceia, no noroeste da Síria, por volta de 658. Sua suposta origem na Isáuria deriva de uma referência feita por Teófanes, o Confessor, que, contudo, pode ser uma adição posterior. Depois de ser elevado à posição de espatário por Justiniano II, ele lutou contra os árabes na Abásgia e foi nomeado estratego dos anatólicos por Anastácio II. Depois da queda deste em 716, Leão se aliou a Artavasdo, o general dos armeníacos, e foi proclamado imperador durante a invasão de dois exércitos árabes, um deles comandado pelo irmão do califa Solimão , Maslama ibne Abedal Maleque. Leão evitou o ataque de Maslama através de inteligentes negociações, nas quais ele prometeu reconhecer a suserania do califa. Finalmente, em 25 de março de 717, Leão entrou em Constantinopla e depôs Teodoro.

Cerco árabe e suas consequências

Logo nos primeiros meses o imperador teve que enfrentar seu primeiro grande desafio, um massivo ataque muçulmano à capital imperial: o exército e a marinha do califa, liderados por Maslama, contavam com homens e navios de acordo com as fontes. Qualquer que seja o número verdadeiro, é certo que era uma força gigantesca, muito maior do que o exército imperial. Felizmente para Leão e para o império, Anastácio II havia consertado e reforçado as muralhas marítimas da capital. Além disso, o imperador também firmou uma aliança com o cã búlgaro Tervel, que concordou em atacar a retaguarda dos árabes.

Entre julho de 717 e agosto do ano seguinte, a cidade foi cercada por mar e terra pelos muçulmanos, que construíram uma longa linha dupla de circunvalação e contravalação no lado terrestre, isolando a capital por ali. A tentativa árabe de completar o cerco pelo mar, porém, fracassou quando a marinha bizantina utilizou o fogo grego contra eles, o que manteve a frota árabe bem longe das muralhas, deixando assim abertas algumas rotas de reabastecimento. Forçados a estender o cerco pelo inverno adentro, as forças atacantes sofreram enormes perdas, por causa do frio e da falta de provisões. Na primavera, reforços foram enviados pelo novo califa, Omar II , por mar a partir da África e do Egito e por terra a partir da Ásia Menor. As tripulações da nova frota eram compostas majoritariamente por cristãos, que logo começaram a desertar em grandes números, enquanto que as tropas terrestres foram emboscadas e destruídas na Bitínia. Com o avanço da fome e das doenças pelo acampamento árabe, o cerco acabou sendo abandonado em 15 de agosto de 718. No retorno para casa, a frota árabe sofreu ainda mais perdas por causa de tempestades e da erupção do vulcão da ilha de Tera.

Mesmo durante o cerco, Leão já havia conseguido sufocar algumas tentativas de secessão: suas tropas rapidamente acabaram com uma revolta na Sicília, onde um tal Basílio Onomágulo foi declarado imperador. Em 719, ele também debelou uma tentativa do deposto Anastácio II de recuperar o trono perdido com a ajuda dos búlgaros. Leão também reforçou sua posição ao coroar sua esposa, Maria, como augusta em 718 e seu filho, Constantino como co-imperador dois anos depois. Aproveitando-se do estado enfraquecido do Califado depois das enormes perdas sofridas no fracassado cerco, Leão conseguiu lançar uma contra-ofensiva de relativo sucesso. Os árabes logo se recuperaram, porém, e, a partir de 720, passaram a realizar raides anuais que devastaram grandes partes da Ásia Menor, apesar da aliança dos bizantinos com os cazares, que lançaram repetidos ataques contra o flanco norte do Califado. Icônio e Cesareia foram saqueadas e as tropas bizantinas foram novamente expulsas da região da armênia

Começo do Iconoclasma thumb|300px|Esta página, do iconódulo Saltério de Chludov, ilustra o texto "Eles me deram bile para comer; e quando eu estava sedento, me deram vinagre para beber" com uma imagem de um soldado oferecendo vinagre a Cristo numa esponja colocada na ponta de uma vara. Abaixo, à esquerda, está uma imagem do último patriarca iconoclasta de Constantinopla, , e , esfregando uma pintura de Cristo também com uma esponja na ponta de uma vara