miniatura|Mapa dos países latino-americanos governados em 2011 por partidos políticos filiados ao Foro de São Paulo, destacados em vermelho Guinada à esquerda, virada à esquerda, onda rosa, maré rosaHasan, Mehdi. Golpe na Venezuela fracassou, mas derrubar Maduro ainda é a meta dos EUA. The Intercept Brasil. 11 de maio de 2020. ou pós-neoliberalismo foi o fenômeno político essencialmente sul-americano do início do século XXI de ascensão à liderança nacional de políticos de esquerda,McMaken, Ryan (2016). Latin America's Pink Tide Crashes On The Rocks. por meio de eleições, em contraposição às lideranças políticas da década de 1990 que promoveram reformas neoliberais e o Estado mínimo. A duração, em algumas análises, restringiu-se ao intervalo de tempo mais preciso de 1998 a 2006 (período específico tratado como "triunfo da esquerda"), embora outras análises consideraram que o fenômeno durou até 2015. Nesse intervalo, o ano de 2008 foi referido como o ápice do fenômeno em função da quantidade de governantes nacionais associados à onda que estavam no poder. Segundo a ex-presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner, Hugo Chávez da Venezuela, Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil e Evo Morales da Bolívia foram "os três mosqueteiros" da esquerda sul-americana. Hugo Chávez seria considerado o líder da "onda rosa". Já em meados da década de 2010, houve uma guinada à direita, significando uma reversão do fenômeno, com vitórias eleitorais de lideranças associadas às políticas do fim do século XX.
Os governos associados à guinada à esquerda foram comumente caracterizados como de esquerda ou centro-esquerda, contudo, as diferenças relevantes entre eles desafiam tal classificação no espectro político. Sem negar a existência de várias características em comum, o jornal francês Libération preferiu tratar como "as esquerdas", ao salientar a heterogeneidade e pluralidade dos governos associados ao fenômeno e que uma união não foi necessariamente construída entre esses países. No entanto, para alguns analistas, esses governos formaram uma "social-democracia radical" ou "social-democracia crioula" na América do Sul, onde se enfatizou o confronto entre a social-democracia e o neoliberalismo. Para além do espectro político, podem caracterizar o fenômeno: o atendimento à aspiração popular por inclusão política e social na forma de eliminação da pobreza e combate às desigualdades, bem como a volta do Estado em sua função de fornecer serviços públicos essenciais às pessoas.
De acordo com pesquisa realizada pela BBC, em 2005, três quartos dos 350 milhões de pessoas na América do Sul viviam sob a liderança de presidentes de esquerda. Após o movimento de integração político-econômica, várias dessas nações contestaram os termos do chamado "Consenso de Washington" — um conjunto de diretrizes de política econômica lançada na anos 1990 pelo governo dos Estados Unidos em parceria com o Fundo Monetário Internacional (FMI) — buscando estabelecer relações comerciais independentes entre os países sul-americanos. As iniciativas de integração sul-americana têm tido, como principal referência histórica, o pan-americanismo, nos termos defendidos pelos libertadores Simón Bolívar e José de San Martín.
Etimologia
As expressões "onda rosa" e "maré rosa" são traduções do inglês da expressão "" presente numa frase de março de 2005 de Larry Rohter, repórter do The New York Times em Montevidéu. Ele caracterizou a eleição de Tabaré Vásquez como parte de uma "não tanto uma maré vermelha ... e sim uma rosa". O termo parece ser um jogo de palavras baseado na substituição do vermelho — a cor associada ao comunismo — por um tom suave de "rosa" para indicar as forças crescentes das ideias social-democratas.
Anos antes, "onda rosa" tinha denominado uma fase nas políticas nacionais oeste-europeias cujas eleições, em meados da década de 1990, foram vencidas por figuras como o primeiro-ministro francês Lionel Jospin (do Partido Socialista) e o primeiro-ministro britânico Tony Blair (do Partido Trabalhista).
História O colapso da União Soviética em 1991 mudou o ambiente geopolítico, pois muitos movimentos revolucionários desapareceram e a esquerda adotou os princípios básicos do capitalismo. Como resultado, os Estados Unidos não mais percebiam os governos de esquerda como uma ameaça à segurança, criando uma abertura política para a esquerda.
Na década de 1990, a esquerda aproveitou a oportunidade para solidificar sua base, concorrer a um cargo público e ganhar experiência no governo local. No final dos anos 1990 e no início dos anos 2000, as tentativas iniciais fracassadas da região de políticas de privatização, cortes nos gastos sociais e investimento estrangeiro deixaram os países com altos níveis de desemprego, inflação e crescente desigualdade.Rodríguez, Robert G. (2014). "Reevaluación del ascenso de la izquierda latinoamericana" (PDF). Revista de ciencias políticas de Midsouth. Asociación de Ciencias Políticas de Arkansas. 15 (1): 59 Este período viu um número crescente de pessoas trabalhando na economia informal e sofrendo de insegurança material, e os laços entre as classes trabalhadoras e os partidos políticos tradicionais enfraquecidos, resultando no aumento de protestos em massa contra os efeitos sociais negativos destes. Políticos, como os piqueteros na Argentina e na Bolívia, movimentos indígenas e camponeses enraizados entre os cocaleiros cujo ativismo culminou no conflito do gás boliviano no início e meados dos anos 2000. As plataformas sociais de esquerda, com foco na mudança econômica e nas políticas redistributivas, ofereceram uma alternativa atraente que mobilizou grandes setores da população da região que votaram em líderes de esquerda para cargos públicos.
Início
miniaturadaimagem|Hugo Chávez, anunciando sua prisão e conclamando as tropas insurgentes a se renderem após o golpe fracassado de 1992 Na década de 1980, a enorme dívida externa, a crise cambial, a inflação e a corrupção geraram uma crise na Venezuela. Em 1989 estourou o Caracaço, uma série de protestos e distúrbios relacionados às medidas econômicas anunciadas pelo governo de Carlos Andrés Pérez. O Caracaço agravou a instabilidade política na Venezuela e, em 1992, um grupo de soldados liderados por Hugo Chávez tentou dar um golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez. Chávez passaria dois anos na prisão e agora livre, em meio ao colapso dos partidos tradicionais e à crescente rejeição popular às medidas tomadas pelo governo, Chávez viajaria a Cuba onde seria recebido por Fidel Castro. Em Cuba, Hugo Chávez diria que "Cuba é um bastião da dignidade latino-americana e como tal deve ser vista e como tal deve ser seguida e como tal deve ser alimentada". Ao retornar, Hugo Chávez deu início a seu próprio movimento político, o Movimento da V República, que o levaria ao poder em 1999, percorrendo o país explicando seu projeto político baseado na necessidade de "refundar a República" convocando uma assembleia constituinte e dizendo que não era socialista, como diria em entrevista a Jaime Bayly: "Não sou socialista, acredito que o mundo de hoje, a América Latina que virá, exige um salto em frente". Hugo Chávez representaria o primeiro presidente de um governo de esquerda depois de muitas décadas na América do Sul e o primeiro governo de um partido membro do Foro de São Paulo. Em entrevista ao ator Sean Penn, Hugo Chávez se definiria como social-democrata, estabelecendo diferenças com o modelo de Fidel Castro: “Fidel é comunista, eu não. Eu sou um social-democrata. Fidel é um marxista-leninista”.
Desenvolvimento direita|miniaturadaimagem|250x250px|Da esquerda para a direita: Rafael Correa, Evo Morales, Néstor e Cristina Kirchner, Lula, Nicanor Duarte e Hugo Chávez, na fundação do Banco do Sul
Em 2009, o anúncio do então presidente de Honduras, Manuel Zelaya, de realizar um referendo para convocar uma assembleia constituinte que lhe permitiria a reeleição terminaria com um golpe e sua destituição do cargo. Em 2012, seria desencadeado um julgamento político contra o presidente Fernando Lugo por sua responsabilidade política nos confrontos entre camponeses e policiais, com saldo de 17 mortes. Essa crise no Paraguai terminaria com a destituição de Fernando Lugo. miniaturadaimagem|260x260px|A Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) foi fundada por líderes de esquerda como o nicaraguense Daniel Ortega, o venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales Com as dificuldades enfrentadas pelos mercados emergentes em todo o mundo na época, os latino-americanos se afastaram da economia liberal e elegeram líderes de esquerda que recentemente haviam adotado processos mais democráticos.Reid, Michael (septiembre-octubre de 2015). "Obama y América Latina: un día prometedor en el barrio". Relaciones Exteriores . 94 (5): 45–53 A popularidade desses governos esquerdistas dependia de sua capacidade de usar o boom das commodities dos anos 2000 para iniciar políticas populistas,Lansberg-Rodríguez, Daniel (Fall 2016). "Life after Populism? Reforms in the Wake of the Receding Pink Tide". Georgetown Journal of International Affairs. Georgetown University Press. 17 (2): 56–65. como as usadas pelo governo bolivariano na Venezuela. De acordo com Daniel Lansberg, isso gerou "grandes expectativas do público em relação ao crescimento econômico contínuo, subsídios e serviços sociais". Com a China se tornando simultaneamente uma nação mais industrializada e exigindo recursos para sua economia crescente, ela tirou proveito das relações tensas com os Estados Unidos e fez parceria com governos de esquerda na América Latina. A América do Sul, em particular, inicialmente viu uma queda na desigualdade e no crescimento de sua economia como resultado do comércio de commodities da China.Reid, Michael (2015). "Obama and Latin America: A Promising Day in the Neighborhood". Foreign Affairs. 94(5): 45–53.
Como os preços das commodities despencaram na década de 2010, juntamente com gastos excessivos em algumas economias pelos governos da onda rosa, as políticas tornaram-se insustentáveis e os apoiadores ficaram desencantados, o que levou a rejeição dos governos de esquerda. Analistas dizem que essas políticas insustentáveis foram mais aparentes na Argentina, Brasil, Equador e Venezuela, que receberam financiamento chinês sem qualquer supervisão.Piccone, Ted (November 2016). "The Geopolitics of China's Rise in Latin America". Geoeconomics and Global Issues. Brookings Institution: 5–6. Como resultado, alguns estudiosos afirmaram que a ascensão e queda da onda rosa foi "um subproduto da aceleração e declínio do ciclo das commodities".
As políticas nacionais de esquerda na América Latina se dividiram entre os estilos de Hugo Chávez e Lula da Silva, já que este último não se concentrava apenas nos afetados pela desigualdade, mas também atendia às empresas privadas e ao capital global.
Nessa etapa, mudanças significativas foram alcançadas na vida das mulheres e das pessoas LGBT da região: as condições básicas das mulheres de baixa renda e de suas famílias foram melhoradas, foi promovida uma maior participação feminina nas legislaturas nacionais e de alto nível, em alguns países as relações entre pessoas do mesmo sexo e o direito à identidade de gênero foram reconhecidos por lei. No entanto, os governos foram amplamente apoiados por relações de poder heteropatriarcais, privilegiando homens heterossexuais, e os projetos políticos foram baseados em conceitos tradicionais de gênero e sexualidade.
Declínio miniaturadaimagem|O impeachment de Dilma Rousseff desencadeou a onda conservadora em meados da década de 2010