A Bienal Brasileira de Música Contemporânea é um festival de música organizado pela Funarte, vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), realizado desde 1975 no Rio de Janeiro, que reúne compositores e instrumentistas brasileiros ou residentes no país para execução de composições escritas para variadas formações musicais. Tradicionalmente o envento utiliza espaços importantes como a Sala Cecília Meireles, Teatro Dulcina e Sala Sidney Miller, e muitas vezes em parceria com a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EMUFRJ).

Histórico A iniciativa para realização da Bienal Brasileira de Música Contemporânea surgiu a partir dos I e II Festivais de Música da Guanabara, em 1969 e 1970, respectivamente, organizados pelo compositor Edino Krieger. Ele teve o apoio de Myrian Dauelsberg, então diretora da Sala Cecília Meireles, para realizar a primeira Bienal, ocorrida de 8 a 12 de outubro de 1975. As três primeiras Bienais foram organizadas pela Sala Cecília Meireles e a partir da quarta edição, elas foram encampadas pela Funarte, quando Edino Krieger dirigia a área musical dessa Fundação.

Os concertos apresentam obras para as mais variadas formações musicais, desde solistas, música de câmara (duos, quartetos, etc.) e música eletroacústica, até grandes orquestras sinfônicas. Além dos concertos, as Bienais costumam incluir palestras, lançamentos de discos, debates e mesas redondas, proporcionando um ambiente de troca de experiências.

A Bienal ocorre sempre em anos ímpares no Rio de Janeiro e é precedida de convite a compositores brasileiros no país e no exterior, e a estrangeiros aqui residentes, para que proponham a apresentação de suas obras de criação recente. As propostas eram avaliadas por comissões de seleção constituídas por músicos de renome escolhidos pela Funarte.

Edições As três edições iniciais do evento foram organizadas pela Sala Cecília Meireles. A quarta edição, em 1981, foi a primeira sob a tutela da Funarte.

É um evento bienal (ocorre a cada dois anos) e é realizada ininterruptamente desde 1975.

I Bienal (1975) A I Bienal Brasileira de Música Contemporânea marcou o início do mais importante e duradouro evento de música de concerto contemporânea no país. Realizada entre 8 e 12 de outubro de 1975, no Rio de Janeiro, o evento foi uma iniciativa da Sala Cecília Meireles, com a organização liderada por Myrian Dauelsberg e o patrocínio da Petrobras. A Bienal nasceu com o objetivo claro de documentar, apresentar e catalisar a produção musical erudita brasileira recente, preenchendo o vazio deixado pela extinção dos Festivais de Música da Guanabara (ocorridos em 1969 e 1970). Esta edição inaugural contou com a seleção de 35 compositores de diversas vertentes estéticas. O marco de abertura foi a obra "Estruturas Primitivas" (1975), do compositor Ricardo Tacuchian, simbolizando o propósito da Bienal de dar palco às novas criações nacionais.

II Bienal (1977) Dois anos após seu sucesso inicial, a II Bienal ocorreu em 1977, também sob a organização da Sala Cecília Meireles. A continuidade do evento demonstrou a necessidade e a aceitação da Bienal pela comunidade musical brasileira. Esta edição manteve a estrutura de convocatória e seleção de obras inéditas ou de pouca circulação, reforçando seu papel como um mecanismo de visibilidade essencial para os compositores brasileiros da época, que frequentemente enfrentavam dificuldades para ter suas obras executadas e ouvidas.

A Bienal de 1977 solidificou, de fato, a periodicidade bienal do evento.

III Bienal (1979) A III Bienal, realizada em 1979 pela Sala Cecília Meireles, foi a última sob sua organização direta. O prestígio e a relevância alcançados pelo evento em suas três primeiras edições chamaram a atenção do governo federal para a necessidade de institucionalizar e garantir a permanência do projeto com um apoio mais robusto. Este evento finalizou a "fase pioneira" da Bienal, tendo sido crucial para estabelecer o formato pluralista e a seriedade curatorial que seriam posteriormente adotados pela instituição que assumiria sua gestão. A busca por espaço para a audição de obras de música de câmara, sinfônica e eletroacústica continuou a ser o foco principal.

IV Bienal (1981) A partir de 1981, a Bienal sofreu uma importante transição institucional. A IV Bienal marcou a primeira edição sob a organização da Fundação Nacional de Artes (Funarte), que encampou o projeto e lhe conferiu estabilidade e recursos federais. Este movimento transformou o evento, que passou a ser visto como a Bienal oficial e institucionalizada do país, garantindo sua continuidade ininterrupta.

Além dos concertos, a edição de 1981 promoveu uma expansão das atividades, incluindo palestras, lançamentos de discos, debates e mesas redondas. Essa inclusão transformou a Bienal em um fórum abrangente de reflexão e intercâmbio sobre a música contemporânea brasileira. O evento manteve a Sala Cecília Meireles como sua principal sede no Rio de Janeiro.

V Bienal (1983) Realizada em 1983, a V Bienal consolidou o evento como o principal fórum de música erudita de vanguarda sob a coordenação da Funarte. Esta edição reafirmou o compromisso com a diversidade estilística. O corpo curatorial e de seleção continuou a atrair obras de compositores consagrados e novos talentos, apresentando-as em concertos com o apoio de orquestras de prestígio, como a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Em um movimento que uniu a divulgação da nova produção à preservação histórica, a Funarte aproveitou a Bienal para relançar, em formato de disco, dois importantes álbuns em homenagem ao centenário do nascimento do musicólogo Mário de Andrade, originalmente editados pela Fundação em 1983. Este ato sublinhou a ligação da música contemporânea com a tradição modernista brasileira.

VI Bienal (1985) A VI Bienal, ocorrida em 1985, continuou a consolidar o papel da Funarte como grande agente de difusão musical. A edição reuniu 67 compositores, entre mestres consagrados e jovens novatos, e serviu como uma importante vitrine para a criação musical.

O evento viu a estreia da obra "Clichê Music" (1985), de Tim Rescala, uma peça para barítono/narrador, instrumentos de câmara e fita magnética, que ficou notória por seu tom humorístico e metalinguístico, satirizando os próprios "fórmulas clichês" percebidas na música contemporânea da época.

Foi também o palco para a apresentação de "O Canto Multiplicado" de Marlos Nobre e "Miniópera" de Henrique de Curitiba, demonstrando a pluralidade de gêneros.

VII Bienal (1987) Realizada entre 5 e 14 de novembro de 1987, predominantemente na Sala Cecília Meireles, a VII Bienal reuniu um total de 78 compositores brasileiros. Dos 12 concertos realizados, 23 obras eram estreias mundiais, mantendo a Bienal fiel à sua missão de apresentar a novíssima produção musical.

O evento prestou uma homenagem póstuma ao compositor e musicólogo germano-brasileiro Bruno Kiefer (1923–1987), falecido em março daquele ano, reconhecendo sua enorme contribuição para a música de concerto do Sul do país e sua importância como professor e historiador.

Entre os nomes de destaque que apresentaram obras estavam Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Eduardo Guimarães Alves e Silvio Ferraz, indicando um forte diálogo com a vanguarda paulista, ao lado de outros grandes nomes como Jorge Antunes e Tim Rescala.

VIII Bienal (1989) A década de 1980 se encerrou com a VIII Bienal entre os dias 22 a 30 de novembro1989, que celebrou a consolidação definitiva do festival, atingindo um pico de participação com obras de 85 compositores em 15 concertos. Essa edição utilizou grandes espaços como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Sala Cecília Meireles e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM).

Esta edição foi um marco por comemorar os 20 anos do I Festival de Música da Guanabara (1969), o evento precursor da Bienal. O concerto inaugural, realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro do Rio de Janeiro (em uma expansão dos locais de apresentação), foi dedicado exclusivamente à execução das obras que se classificaram nos primeiros lugares daquele festival histórico.

Foram revisitadas e interpretadas pelo Coro e Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro obras fundamentais como "Pequenos funerais cantantes" (com texto de Hilda Hilst) de Almeida Prado, e "Concerto breve para piano e orquestra" de Marlos Nobre, que também atuou como solista.

IX Bienal (1991) A IX Bienal, realizada em 1991, deu continuidade ao formato já consolidado pela Funarte. O evento manteve o foco na apresentação de uma vasta produção, incluindo obras de compositores de diversas regiões do Brasil.

A musicóloga e compositora Kilza Setti (membro da Academia Brasileira de Música) teve obras apresentadas, refletindo seu trabalho que frequentemente utiliza materiais folclóricos e etnomusicológicos.

O compositor Carlos Kater foi um dos nomes de destaque na cena de música contemporânea paulistana, apresentando a instalação fonoluminosa "Cidade/city/cité" na mostra "Homenagem à Avenida Paulista" em 1991, no mesmo contexto de efervescência que a Bienal representava no Rio de Janeiro. As atividades e a diversidade de linguagens artísticas, incluindo música eletroacústica, eram uma constante nestas edições.

X Bienal (1993) A X Bienal foi realizada de 15 a 23 de outubro de 1993. O evento se expandiu para múltiplos locais de prestígio, incluindo o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a Sala Cecília Meireles, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EMUFRJ) e o Espaço Cultural Sérgio Porto, oferecendo um amplo painel da criação musical.

A edição contou com a participação de 86 compositores e prestou homenagem a grandes nomes da música brasileira, como Mário de Andrade, Ascendino Nogueira, Camargo Guarnieri e Breno Blauth.

No campo da Música Cênica, estreou a obra "A decadência da tuba", de Eduardo Guimarães Alves, que, seguindo o humor e a metalinguagem de compositores como Gilberto Mendes e Tim Rescala, utilizava fragmentos de libretos de óperas famosas em uma encenação humorística para satirizar a linguagem operística.

XI Bienal (1995) A XI Bienal, realizada em 1995, continuou a tradição de estreias e a apresentação de obras de vanguarda.

O catálogo desta edição, com concertos realizados no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e na Sala Cecília Meireles, registrou a estreia mundial de "Metamorphosis" (1995), para violino e piano, do compositor João Guilherme Ripper.

A edição também apresentou a obra "HÕKREPÖJ" da compositora Kilza Setti, que teve sua inspiração em pesquisas etnomusicológicas realizadas com o povo indígena Timbira e o apoio do Centro de Trabalho Indigenista (CTI).

Um concerto marcante no Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi o da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense (OSN UFF), regida por André Cardoso, que apresentou obras como "Movimento..." de Elferico Morquet e "Concerto do agreste" de Sérgio Oliveira de Vasconcellos-Corrêa.

A Bienal de 1995 também marcou a cerimônia de entrega do Prêmio Nacional de Música a importantes nomes da cena, como Almeida Prado e Hans-Joachim Koellreutter.

XII Bienal (1997) A XII Bienal, ocorrida entre 25 de outubro e 4 de novembro de 1997, foi um evento de grandes celebrações e recordações históricas.

O evento prestou homenagens a figuras centenárias importantes para a música brasileira: o centenário de nascimento de Francisco Mignone e de Oscar Lorenzo Fernandez. Além disso, celebrou os 90 anos de nascimento de Camargo Guarnieri.

O concerto de abertura, realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi dedicado às obras de Mignone e Guarnieri, enchendo a sala e reforçando a ligação da música contemporânea com a tradição nacionalista.