thumb|upright=1.15|Mapa do Reino Burgúndio, o primeiro Reino da Borgonha, entre 443 e 476
thumb|upright=1.15|A Burgúndia como parte do Império Franco entre 534 e 843
thumb|upright=1.15|Os reinos da Alta Borgonha (ou Borgonha Transjurana) e Baixa Borgonha (inicialmente Reino da Provença e Borgonha) nos
Reino da Borgonha (; ) ou Burgúndia () é uma designação aplicada a sucessivas entidades de caráter nacional centradas no território histórico da Borgonha, que atualmente se encontra no sul-sudeste de França. O nome da região e do reino deve-se aos burgúndios, um povo de origem escandinavo.
Ao longo da história a Borgonha existiu como entidade política sob várias formas e diferentes fronteiras. Duas destas entidades foram conhecidas como Reino de Borgonha — a primeira e a segunda . Há ainda autores que consideram um reino mais antigo, no , e no esteve eminente a criação de um terceiro reino borgonhês. Quase todas estas entidades, não só reinos como condados e ducados, destacaram-se pela sua influência e riqueza.
Um primeiro reino da Borgonha foi criado no pelos burgúndios depois de se instalarem nas margens do lago Léman, na Sapaudia (ou Sabáudia, atual Saboia). O seu soberano mais glorioso, Gundebaldo, governou um território que se estendia de Langres a Marselha e do Reno ao Loire. Durante os seis séculos que se seguiram à instalação desse povo, os turbilhões da história originaram o aparecimento de diversas entidades geopolíticas de fronteiras em constante mudança que tomaram o nome de Borgonha. O tratado de Verdun, de 843, divide a região em duas grandes entidades territoriais: uma Borgonha franca a ocidente (que constituiria depois o ducado) e uma Borgonha imperial a oriente, da qual fazia parte o futuro Franche Comté (franco-condado) da Borgonha ou simplesmente Franco-Condado.
No século IX, a Borgonha imperial assiste ao nascimento de dois reinos no seu seio. O primeiro, a sul, estendia-se até à costa do mar Mediterrâneo e chamou-se "Borgonha-Provença" (Bourgogne-Provence) ou Reino de Arles. O segundo, chamado "Reino de Borgonha", situava-se originalmente na Helvécia (em Transjurânia, ou seja, para lá dos montes do Jura), mas integrou rapidamente outros domínios, como as terras da diocese de Besançon.
Em 933, durante o reinado de , rei da Borgonha Transjurana, o Reino da Borgonha e o Reino de Arles são unidos, tomando essa união o nome de Reino da Borgonha e de Arles, que se submete à suserania de soberanos germânicos.
O reino dos burgúndios O reino dos burgúndios (regnum Burgondionum), que se pode considerar o primeiro reino da Borgonha, deve o seu nome ao povo burgúndio, que se instalou em 443 nas margens do lago Léman. Gundebaldo e o seu filho Sigismundo foram os soberanos mais marcantes deste reino. No seu apogeu, o reino ocupou uma área considerável, que tinha os seus limites a norte de Langres, e a sul se estendia até Marselha. A ocidente estendia-se até Nevers e a nordeste até às margens do lago de Constança.
A sua existência foi efémera: de 444 até 534. As pretensões dos francos durante o reinado de , em 500 ou 501, foram continuadas pelos seus filhos Clodomiro, rei de Orleães, Quildeberto, rei de Paris e Clotário, rei de Soissons. Durante as campanhas militares levadas a cabo entre 532 e 534, os dois últimos acabaram por conseguir pôr termo ao reino burgúndio.
Reino da Borgonha merovíngio Os merovíngios integraram o reino burgúndio nos diferentes reinos merovíngios, mas conservaram a sua individualidade. A Burgúndia apresentava-se sempre como uma entidade geopolítica, da mesma forma que a Nêustria ou a Austrásia. Os monarcas merovíngios instalaram rei na Burgúndia. Os reis burgúndios mais conhecidos desse período foram Gontrão e Dagoberto . Gontran residiu principalmente em Chalon-sur-Saône, onde reuniu concílios, e em Saint-Marcel (Saône-et-Loire) mandou erigir uma basílica e um mosteiro.
Em 613, depois da captura e condenação a morte da rainha Brunilda em Renève, deixou de haver rei residente na Borgonha. O rei da Nêustria juntou a Borgonha aos seus estados. Em 687, na sequência da batalha de Tertry, é a vez do reino da Nêustria-Borgonha desaparecer. O vencedor, o austrasiano Pepino de Herstal, leva a cabo a união dos reinos francos. Em 751, o reino dos merovíngios chega ao fim, com a coroação de Pepino, o Breve, que inaugura a era dos soberanos carolíngios.
As personalidades borgonhesas mais marcantes deste período foram a rainha Brunilda e o bispo
Os condados burguinhões sob os Carolíngios miniaturadaimagem|O mapa mostra a divisão do antigo reino da Borgonha em quatro grandes regiões administrativas no século IX, sob os Carolíngios: Franque, Transjurana, Cisjurana e Arlesiana. Ele ilustra visualmente a fragmentação territorial e administrativa após o declínio da autoridade central, destacando capitais e a linha do Tratado de Verdun (843). Essa representação evidencia a transição da unidade borgonhesa para uma organização baseada em condados subordinados diretamente ao poder carolíngio. O reino da Borgonha desaparece como entidade geopolítica com os Carolíngios. O vasto território do antigo regnum francorum que perde o seu rei é dividido por Carlos Martel (m. 741) em diversas partes, cada qual com o seu governador: a Borgonha Transjurana, a Borgonha Cisjurana (que incluía a Provença), o futuro ducado e condado da Borgonha. Alguns textos dessa época ainda mencionam a Burgúndia ou regnum Burgundiae, mas estas denominações só têm expressão geográfica. A obra dos Carolíngios, marcada por uma forte centralização, consistiu em criar os condados burguinhões, os quais constituem as novas circunscrições administrativas, também chamadas pagi, decalcadas do modelo das antigas cividades galo-romanas. À frente desses condados estava um conde, que dependia diretamente do palácio, tal como os seus vizinhos congéneres. Os grandes da Borgonha, refratários a todo o tipo de autoridade centralizada, foram "postos na ordem" e forçados a obedecer.
Mas a dinastia carolíngia carregava nela própria os germes da sua destruição. As partilhas sucessivas do reino entre os herdeiros destruíram a unidade da monarquia que Carlos Magno e os seus antepassados tinha construído. As competições e as rivalidades, que abriram caminho ao feudalismo, irão permitir a emergência de dinastias condais ávidas de protagonismo.
O Reino da Borgonha e de Arles O tratado de Verdun de 843 rasga definitivamente a unidade do velho império de Carlos Magno. A sua obra política desmorona-se. A mutilação a que tratado sujeita a Borgonha faz nascer, a oeste do rio Saône, uma Borgonha francesa (ou Borgonha franca) e a leste do mesmo rio uma Borgonha imperial, quinhão do imperador Lotário. Os herdeiros deste desaparecem um após outro sem descendentes, e cada um dos tios e irmãos tentam desapossar os seus parentes. Os Normandos assolam o norte, os Sarracenos ameaçam o sul, a anarquia reina por todo o lado e o trono dos Francos subsiste com grandes dificuldades. A morte de Luís II, o Gago em 879 só agrava a situação.
O Reino da Provença dos (879–928) esquerda|thumb|upright=1.15|Reino da Alta Borgonha (Transjurânia mais Condado da Borgonha) e Ducado da Suábia entre 888 e 1032
A 15 de outubro de 879, uma assembleia de notáveis e prelados reunida em Mantaille elege como rei o cunhado de Carlos, o Calvo, Bosão, conde de Autun que exercendo funções de duque no Lyonnais, Viennois e na Provença. Apesar de receber o título real, Bosão não assume a qualidade de rei da Borgonha Cisjurana. O seu "Reino da Provença", também chamado "Reino de Arles", estendia-se desde as margens do rio Doubs a norte até ao Mediterrâneo a sul, fazendo fronteira com a Helvécia e a Itália a leste e sudeste. Sob a sua coroa estavam reunidas uma parte da Borgonha, o Bugey, a Bresse, o Delfinado, a Tarentaise, a Provença e uma parte do Languedoc. Bosão instala a capital em Vienne e cria uma chancelaria dirigida por Adalgaire, o abade de .
A atribuição do título real a Bosão provoca a união contra ele dos Carolíngios, cuja reação não tarda. Os príncipes carolíngios, entre eles o rei Carlomano, noivo da sua filha de Bosão, e Ricardo, o Justiceiro, irmão de Bosão, marcham sobre ele. No entanto, Bosão consegue manter a sua autoridade sobre uma parte dos seus domínios e conserva o seu título, bem como os territórios na Provença. O norte da Borgonha, tendo escapado à sua autoridade, nunca faz parte deste reino.
Quando Bosão morre em 887, é sucedido por Luís III, que é reconhecido como "rei da Provença" em Valença em 890, sob a tutela da sua mãe e reúne durante algum tempo os títulos de imperador e de rei de Itália. Mas o seu rival Berengário, duque de Friul manda rebentar-lhe os olhos em Verona em 905. Luís III, doente, delega a sua autoridade a Hugo de Arles, conde da Provença, até ao ano de 926, quando Hugo ocupa o trono de Itália.
Em 928, quando morre Luís, o Cego, Hugo afasta Carlos Constantino, herdeiro legítimo, filho de Luís, e apodera-se do Reino da Provença. Carlos Constantino consegue manter o governo de Vienne e do Viennois.
O Reino da Borgonha Transjurana dos Guelfos (888–933) thumb|upright=1.15|As quatro Borgonhas nos séculos XI e XII. De norte para sul: Ducado da Borgonha, Condado da Borgonha, Borgonha Transjurana e Borgonha Cisjurana mais Provença. As últimas três são territórios do Sacro-Império a partir de 1032
Em 888, a morte do último sucessor de Carlos Magno, , desprezado por causa da sua fraqueza face aos Normandos, incapaz de reprimir a audácia dos grandes vassalos, abandonado por todos, dá o sinal para a separação geral de diversos reinos que tinham estado sob o seu governo. Na Germânia, Arnulfo é proclamado rei, enquanto que os nobres franceses elegem Odo.
A Helvécia é o berço de uma nova monarquia, que forma um novo reino borgonhês. Os borgonheses da Transjurana, a região situada entre o monte Jura e os Alpes Peninos, são liderados pelo duque Rodolfo. Este não é borgonhês; é membro à Casa de Guelfo. As peripécias da política permitiram ao seu pai , , apoderar-se do governo do ducado da Transjurana.
Quando foi conhecida a morte de Carlos, o Gordo, os nobres laicos e eclesiásticos do antigo ducado da Transjurana reuniram-se na basílica de São Maurício e em janeiro de 888 proclamaram rei Rodolfo I. O novo reino da Borgonha sobrevive apesar da fidelidade dos nobres ser vacilante e de enfrentar a hostilidade de Arnulfo. O reino, formado originalmente por condados sobre os quais Rodolfo exerce a sua autoridade, expande-se rapidamente integrando os condados da arquidiocese de Besançon (o futuro condado da Borgonha), após um acordo concluído em Ratisbona entre Rodolfo e Arnulfo, embora a soberania de Escuens tenha sofrido oscilações. A morte de Arnulfo em 899, e depois do seu filho Zuentiboldo em 900 permite a Rodolfo desembaraçar-se da pressão exercida pelo rei da Germânia sobre ele. Rodolfo morre a 25 de outubro de 912 e é sucedido pelo filho .
Anexação do Reino da Provença ao reino da Borgonha Transjurana (933–1032) thumb|upright=1.15|Os reinos franco e da Borgonha durante o reinado de Hugo Capeto
Rodolfo II cai progressivamente na dependência feudal do rei da Germânia e alarga as suas possessões. O Reino da Borgonha compreende então a Suábia, Brisgóvia, Alsácia e Helvécia. Em 933, Rodolfo II, então em disputa com Hugo de Arles pela coroa de Itália, obtém deste a cessão do antigo Reino da Provença em troca do abandono das pretensões ao trono italiano.