Abu Jafar Amade ibne Ibraim ibne Abi Calide ibne Aljazar de Cairuão (), conhecido como ibne Aljazar (ibn al Jazzar) ou Algazar (al-Gazzar) e pelo nome latinizado de Algizar (Cairuão, — Cairuão, ) foi um polímata da Ifríquia (atual Tunísia) que se celebrizou principalmente como médico, nomeadamente pelo seu extenso tratado “Viático do viajante”, o qual foi traduzido para e levado para o Ocidente no por Constantino, o Africano, da Escola Médica de Salerno, e que se tornou um livro de ensino clássico da medicina A faculdade de medicina de Sousse foi batizada em sua honra.

Biografia Algizar cresceu numa família de médicos, tendo seguido o percurso do seu pai e do seu tio, como era hábito na sua época. De facto, algumas profissões, como o ensino e a medicina, estavam reservadas a certas famílias. Durante a infância, Algizar recebeu um ensino pluridisciplinar, conforme os usos e metodologia em voga em Cairuão, a principal cidade do Emirado Aglábida: estudou o Alcorão, a fiqh (jurisprudência islâmica), a suna (a segunda fonte das leis islâmicas), os hádices, gramática e literatura árabe. Aprendeu igualmente medicina com o pai, o tio e com o judeu .

É autor de obras de gramática e de história e compõe poesia. Segundo alguns autores, teria ultrapassado o seu mestre Isaac Israeli pelo número de obras e a respetiva diversidade, avanços, metodologia, importância do conteúdo, difusão e persistência da sua influência ao longo do tempo. Uma das suas obras mais relevantes é um livro de medicina destinado aos pobres, que denota uma predisposição social pouco usual na época. Graças aos seus conhecimentos de medicina, os habitantes de Cairuão acorriam em grande número a ele para serem curados e também ensinados. Era ele próprio que preparava os medicamentos (xaropes, unguentos, comprimidos e outros) e entregava-os a um criado que, sentado no vestíbulo da sua casa, os dava aos destinatários e recebia os pagamentos dos remédios e dos honorários de médico. Ignoram-se os preços que praticava, mas quando morreu, Algizar deixou uma enorme fortuna, avaliada em dinares de ouro e 25 quintais de livros. Estes últimos, escritos com cálamo em peles tratadas, tinham então um valor muito elevado.

O Viático Algizar escreveu alguns livros sobre gramática, história, jurisprudência, prosódia, etc. Perderam-se muitas das suas obras, que se conhecem apenas por citações de diferentes autores. A mais importante é a “Zād al mussāfir wa tuhfatu elqādim” ("Viático do viajante"; ). Traduzida em latim e , foi copiada, recopiada e impressa em França e Itália no . Foi adotada e vulgarizada na Europa como um livro de ensino clássico da medicina. O livro não é uma compilação, como o “Cânone” de Avicena, que mistura medicina e filosofia. Ao contrário de Avicena, Algizar era um médico praticante, pelo que o seu livro apresenta outra perspetiva.

O Viaticum de Algizar é um tratado de medicina que cobre o corpo humano da cabeça aos pés, concebido para ensinar clínica. Não inclui anatomia nem filosofia, mas lições escritas para os seus cursos, como salienta o autor na conclusão do livro e como se percebe pelas repetições que se encontram. Para cada doença, o livro enumera o nome, os sintomas conhecidos, o tratamento e por vezes indica o prognóstico. Cita frequentemente autores estrangeiros, como que para dar importância lhes dar importância, ou por honestidade intelectual, para justificar os empréstimos.

Dividida em dois volumes e sete capítulos, quatro no primeiro e três no segundo, aborda as doenças que podem afetar o ser humano. Capítulos: Doenças da cabeça Doenças da face Doenças do peito Doenças do estômago, intestinos, fígado e rins Doenças do aparelho respiratório Doenças que afetam episodicamente Doenças da epiderme

Embora Rasis seja algumas décadas mais velho, Algizar adota no “Viático” o mesmo estilo do “el Haoui” e “O Continente” de Rasis, mas mais elaborado e mais conciso. Pode questionar-se se não terá tido acesso a esses livros muito cedo, o que é pouco provável, pois não separa o sarampo da varíola, a inovação de Rasis, e entre os médicos a que se refere com frequência, como Cláudio Galeno, Hipócrates, Dioscórides, Tridon, Fergorius, Aristóteles e Isaac Israeli, não cita Rasis.

Obras No total são-lhe atribuídas cerca de quarenta obras, entre as quais: Viático do Viajante ou Provisão do viajante e alimentação do sedentário (Zād al moussāfir wa tuhfatu elqādim), traduzido em latim por Constantino, o Africano com o título Viaticum peregrinorum Livro do estômago, suas doenças e seus tratamentos, traduzido em latim por Constantino, o Africano com o título Liber de stomacho Livro dos medicamentos simples, traduzido em latim por Constantino, o Africano com o título Liber de Gradibus Simpleium Livro da amnésia e das formas de fortificar a memória Livro dos perfumes Livro das propriedade A educação das crianças A geriatria A medicina dos pobres Dissertação sobre a urina

A maior parte dos livros citados pelo seu biógrafo , ele próprio também médico, são essencialmente dissertações.

Notas e bibliografia

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