A Segunda Campanha de Napoleão em Itália ocorreu no ano de 1800 e marca a intervenção de Napoleão Bonaparte na Guerra da Segunda Coligação. Este conjunto de alianças tinha sido formado com a finalidade de enfrentar a atitude expansionista da França e obrigá-la a manter-se nas suas fronteiras anteriores ao início das guerras revolucionárias francesas, em 1792. Após um período inicial difícil, em que a França perdeu praticamente tudo o que tinha ganho no norte da Itália durante a Guerra da Primeira Coligação, a situação acabou por se equilibrar em meados de 1799. Com o regresso de Napoleão do Egito e a tomada do poder no golpe de Estado de 18 do Brumário, a situação alterou-se radicalmente. Iniciada a ofensiva simultaneamente na Alemanha e no norte de Itália, os Austríacos acabaram por ser derrotados e aceitarem estabelecer a paz com a França. A ofensiva em Itália foi executada sob o comando de Napoleão, já Primeiro Cônsul. Os territórios que os Austríacos tinham reconquistado foram recuperados pela França.
Antecedentes A Guerra da Primeira Coligação tinha terminado em 1797 com a assinatura, do Tratado de Campoformio (17 de outubro). Só o Reino da Grã-Bretanha, uma potência marítima, se manteve em guerra com a França para quem, atendendo às características do seu poder militar que era essencialmente naval, não constituía perigo imediato exceto no que implicava à utilização das rotas marítimas. Antes da assinatura do Tratado de Campoformio, tinham sido criadas a República Batava (19 de janeiro de 1795), a República da Ligúria (14 de junho de 1797) e a República Cisalpina (29 de junho de 1797). Postos de lado os planos franceses para uma invasão das Ilhas Britânicas (Napoleão considerou-os impraticáveis devido à supremacia naval britânica), o Diretório deu o seu aval para a Campanha do Egito e o Exército do Oriente, sob o comando de Napoleão Bonaparte, iniciou a viagem a 19 de maio de 1798. Já antes da partida de Napoleão para o Egito, a França tinha iniciado uma política de expansão na ItáliaConnelly, The French Revolution and Napoleonic Era, pp. 202-204..
Depois de terminada a Guerra da Primeira Coligação, contrariando os acordos expressos no Tratado de Campoformio, os Franceses aproveitaram todos os pretextos para intervirem nas entidades políticas vizinhas e criaram uma série de "repúblicas irmãs", estados pelo menos aparentemente independentes mas que na realidade não eram mais que uma forma de os Franceses controlarem os territórios ocupados. Na Itália foram criadas várias repúblicas sendo as mais importantes a República Romana, criada em 15 de Fevereiro de 1798 com base nos Estados Pontifícios, e a República Napolitana ou Partenopéia, criada em 23 de janeiro de 1799. Na Suíça, após a invasão francesa (5 de março de 1798) foi proclamada a República Helvética (12 de Abril de 1798)Jones, pp. 140-142.. Esta política expansionista francesa causou preocupação às potências europeias que, para se oporem aos projectos franceses, criaram a Segunda Coligação.
A chamada Guerra da Segunda Coligação começou em março de 1799. Em agosto, quando Napoleão deixou o Egito, a França encontrava-se em dificuldades. Na Alemanha, um exército francês sob o comando do general Jourdan foi obrigado a retirar perante as forças do arquiduque Carlos da Áustria. O seu exército foi reunido ao Exército da Suíça, sob o comando de Massena, formando-se depois o Exército do Danúbio. Na Itália, o general Alexander Suvorov, comandante das forças coligadas russas e austríacas, derrotou os generais franceses. As conquistas efectuadas por Napoleão durante a sua primeira campanha em Itália foram quase todas perdidas e o Exército dos Alpes, sob o comando do general Championnet, foi colocado na defensiva. Quando o exército de Suvorov tentou socorrer as forças russas sob o comando do general Korsakov, na Suíça, foi derrotado por Massena e, a 22 de outubro de 1799, o czar Paulo I retirou as forças russas da coligação.Connelly, The Wars of the French Revolution and Napoleon 1792-1815, pp. 107-109..
Napoleão tinha chegado a Paris no dia 16 de outubro, quando já as forças francesas tinham retomado o controlo das operações na Suíça e na Alemanha. Com o golpe de Estado de 18 de Brumário (9 de novembro de 1799), Napoleão assumiu o cargo de Primeiro Cônsul e voltou a sua atenção para a resolução do conflito. No dia de Natal de 1799, Napoleão enviou uma carta ao rei Jorge III do Reino Unido e outra ao imperador Francisco I da Áustria em que propunha a paz sob a condição de ser restabelecida a situação acordada no Tratado de Campoformio. A Grã-Bretanha não aceitou a abertura de negociações de paz e sugeriu que a melhor prova da boa fé do governo francês era a restauração dos Bourbons. A Áustria, que tinha reconquistado os seus anteriores territórios no norte de Itália, recusou as condições apresentadas por NapoleãoMarchall-Cornwall, p. 95; Dodge, p. 158..
O teatro de operações miniaturadaimagem|esquerda|Os Alpes e as passagens para a bacia do rio Pó.
As tropas francesas partiram de França e concentraram-se em Genebra, Suíça. Todo o território, da Suíça até à bacia do rio Pó, em Itália, é montanhoso. Os Alpes, que separam a Suíça da Itália, são um sistema montanhoso que se estende por 1.060 km desde a costa no Mediterrâneo e estabelecem uma fronteira natural entre o Norte de Itália com a França, Suíça, Áustria e Eslovénia. O ponto mais elevado dos Alpes é o Monte Branco que atinge a altitude de 4.807 metros.
miniaturadaimagem|esquerda|Os Alpes e a bacia do rio Pó.
As principais passagens para a travessia dos Alpes continuam a ser as que foram utilizadas por Napoleão Bonaparte (1800) ou até por Aníbal Barca (218 a.C.): o passo do Grande São Bernardo liga o cantão de Valais (Suíça) a Aosta e Ivrea (Itália) e situa-se a uma altitude de 2.468 metros; o Passo do Pequeno São Bernardo liga Bourg-Saint-Maurice, no departamento de Saboia (França), a La Thuile, no vale de Aosta (Itália), e atinge uma altitude de 2.188 metros; o passo de São Gotardo liga Airolo (Suíça) e Bellinzona (Suíça), a uma altitude de 2.108 metros; o passo do Simplon liga Briga (Suíça) a Domodossola (Itália) a uma altitude de 2.009 metrosWebster's Geographical Dictionary, p. 38..
Quem atravessar os Alpes de Norte para Sul desemboca na fértil bacia do Pó. Este rio, o maior em Itália, nasce nos Alpes Cócios e atravessa o norte de Itália de Oeste para Leste indo desaguar no mar Adriático, perto de Veneza. É navegável em quase toda a sua extensão (652 km)Webster's Geographical Dictionary, p. 938. o que mostra a importância das pontes para permitir a passagem das tropas entre as duas margens. Nesta região encontram-se algumas das principais cidades italianas: Turim, Milão, Pavia, Bérgamo, Bréscia, Mântua, situam-se na margem esquerda (Norte); Alexandria, Piacenza, Parma, ou a povoação de Marengo, na margem direita (Sul). O rio Pó tem numerosos afluentes em ambas as margens, com origem nos Alpes, a Norte, ou nos Apeninos, a Sul. A maior parte destes afluentes constituem também obstáculos que só podem ser ultrapassados em pontes.
Génova, que se encontrava cercada quando Napoleão entrou em Itália, é uma cidade portuária na região da Ligúria. É banhada a Sul pelo mar da Ligúria, parte do mar Mediterrâneo. A Norte está rodeada pelo extremo ocidental dos Apeninos Setentrionais. A comunicação com Nice e e outras cidades francesas da chamada Côte d'Azur é feita pela faixa costeira que passa a Sul da cordilheira dos Alpes Marítimos, chamada Riviera.
As forças em presença As forças francesas Após o golpe de estado de 18 de Brumário, Napoleão Bonaparte assumiu o cargo de Primeiro Cônsul e nomeou o general Louis-Alexandre Berthier como Ministro da Guerra. No dia 24 de novembro foram dadas ordens para Massena assumir o comando do Exército de Itália e para o Exército do Danúbio ser incorporado no Exército do Reno ficando esta força sob o comando do general Jean Victor Marie MoreauMarshall-Cornwall, p. 95..
O Exército de Itália, sob o comando do general André Massena desde 24 de novembro, estava dividido em dois corpos principais: o primeiro, sob o comando do general de divisão Nicolas Jean-de-Dieu Soult, tinha um efetivo de 19.790 homens e incluía a guarnição de Génova; o segundo corpo, sob o comando do general de divisão Louis-Gabriel Suchet, tinha um efetivo de 15.607 homens. Para além destes dois corpos, o Exército de Itália dispunha de 1.500 homens em Antibes, sob o comando do general Jean-Charles Monnier, e de 8.000 homens do corpo de tropas do extinto Exército dos Alpes, sob o comando do general de divisão Jean Victor TharreauSmith, p. 177.. Ao todo, eram 44.897 homens, dos quais só 36.000 eram tropas de combate e apenas 30.000 estavam disponíveis para a defesa do sector de GénovaMarshall-Cornwall, p. 97..
miniaturadaimagem|Napoleão Bonaparte, Primeiro Cônsul Quadro de Jean-Auguste Dominique Ingres, de 1803/1804.
O Exército do Reno, sob o comando do general Moreau, tinha um efetivo de 172.706 homensChegamos a este valor ao somar os efetivos dos Exércitos do Reno e do Danúbio antes da sua reunião num único exército; Smith, pp. 177-178.. O Exército do Reno não estava destinado a atuar no teatro de operações da Itália mas o General Moreau recebeu ordens de Napoleão para enviar através dos Alpes uma força de 25.000 homens com a finalidade de reforçar o Exército de Reserva.
O Exército de Reserva foi criado por ordem de Napoleão Bonaparte de 5 de dezembro de 1799. As instruções para a sua formação foram enviadas por Napoleão ao general Berthier, Ministro da Guerra, no dia 25 de janeiro de 1800. De acordo com essas instruções, o Exército de Reserva deveria ser formado por três Corpos de Exército, cada um com 18.000 homens e dezasseis bocas de fogo de artilharia, e o seu centro estaria posicionado em DijonBarnett, p. 71. A 10 de maio de 1800, o Exército de Reserva tinha a seguinte composiçãoDodge, p. 172.:
Vanguarda, sob comando do general Jean Lannes, constituída por uma divisão sob comando do general François Watrin, com 8.000 homens; Corpo de Exército do general Guillaume Philibert Duhesme, formado por duas divisões: - Divisão do general Louis Henri Loison, com 7.000 homens; - Divisão do general Jean Boudet, com 8.000 homens; Corpo de Exército do general Claude Victor-Perrin, formado por três divisões: - Divisão do general René Nicolas Monnier, com 4.000 homens; - Divisão do general Dominique-André de Chambarlhac, com 6.000 homens; - Divisão do general Joseph Chabran, com 5.000 homens; Corpo de Cavalaria, sob o comando do general Joachim Murat.
Inicialmente, o comandante deste exército foi o general Berthier até o comando ser assumido por Napoleão quando entraram em Itália. O chefe do estado-maior era o general Pierre Antoine, conde Dupont de l'Étang. A artilharia estava a cargo do coronel Auguste Frédéric Louis Viesse de Marmont. Mais tarde houve algumas alterações no comando das unidades e apareceram novos generais como Louis Charles Antoine Desaix, recém chegado do Egipto, ou Gaspard Amédée Gardanne.
No dia 26 de dezembro de 1799, Napoleão decretou o estabelecimento de uma guarda consular com um efectivo de 2.100 homens. Esta força era formada por dois batalhões de granadeiros, cada um contendo uma companhia de infantaria ligeira, dois esquadrões de cavalaria e uma bateria de artilharia. Este corpo de tropas acompanhou Napoleão na expedição a Itália e deu origem, mais tarde à Guarda ImperialMarshall-Cornwall, p. 96..
As forças austríacas miniaturadaimagem|esquerda|Michael von Melas, comandante do exército austríaco.
As tropas austríacas em Itália eram mais numerosas que as francesas – cerca de 90.000 homens - mas encontravam-se muito dispersas. Para além das tropas que estavam sob comando direto do general Michael Friedrich Benedikt von Melas, cerca de 60.000 homens que atacaram o Exército de Itália já sob o comando de Massena, existiamDodge, pp. 173-174.: