Abu Abderramão Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe Alcoraxi Aladaui (; Meca, c. — Meca, ) foi um companheiro do profeta islâmico Maomé, filho do segundo califa, Omar, e irmão de Háfeça, uma das esposas de Maomé. Converteu-se ao islão ainda criança e emigrou para Medina com o pai, participando, a partir da adolescência, de diversas campanhas militares conduzidas por Maomé e, posteriormente, das conquistas muçulmanas da Síria, do Iraque e do Egito.

Conhecido pela prudência e pela aversão às disputas políticas, manteve-se afastado das principais guerras civis que dividiram a comunidade islâmica, recusando repetidas propostas para assumir o califado e outros cargos de governo por recear que sua aceitação provocasse derramamento de sangue entre os muçulmanos. Embora posteriormente tenha manifestado arrependimento por não haver apoiado Ali ibne Abi Talibe durante a Primeira Fitna, sua postura de neutralidade tornou-se uma das características mais marcantes de sua trajetória política.

Abedalá ibne Omar figura entre os mais influentes transmissores de hádices da tradição islâmica. Com 2 630 relatos atribuídos à sua autoridade, foi o segundo maior transmissor entre os sete companheiros conhecidos como muksirun, além de integrar o grupo dos sete companheiros que mais emitiram fátuas. Era reconhecido por sua extrema fidelidade à suna, procurando reproduzir rigorosamente as palavras e os costumes de Maomé, circunstância que lhe conferiu grande prestígio como tradicionalista, jurista e modelo de piedade entre as primeiras gerações do islão.

Vida

Abedalá ibne Omar nasceu em Meca por volta do terceiro ano da missão profética de Maomé. Era filho de Omar e irmão, por parte de pai e mãe, de Háfeça, que mais tarde se tornaria uma das esposas do Profeta. Ainda criança, converteu-se ao islão juntamente com o pai e emigrou para Medina durante a Hégira, embora algumas tradições afirmem que teria chegado à cidade antes de Omar. Desejoso de acompanhar Maomé nas campanhas militares, apresentou-se para participar das batalhas de Badre e de Uude, mas foi recusado em ambas as ocasiões por ainda ser considerado demasiado jovem. Aos quinze anos recebeu autorização para integrar o exército muçulmano durante a Batalha da Trincheira, participando em seguida do Pacto de Riduão, da campanha de Caibar, da Conquista de Meca e da Batalha de Hunaine. Após a morte de Maomé continuou a servir nos exércitos islâmicos, tomando parte nas conquistas da Síria, do Iraque e do Egito, bem como nas batalhas de Jarmuque e Niavende. Décadas depois, participou ainda da expedição contra Constantinopla, capital do Império Bizantino, realizada em 669, na qual também esteve presente Abu Aiube Alançari. Apesar da extensa experiência militar, Abedalá ibne Omar procurou manter-se afastado das guerras civis que dividiram a comunidade islâmica após o assassinato do califa Otomão . Apenas prestou juramento de fidelidade a Ali ibne Abi Talibe quando este passou a ser amplamente reconhecido como califa e adotou atitude semelhante em relação a , esperando que se estabelecesse consenso entre os muçulmanos antes de reconhecer a autoridade de qualquer governante. Nos últimos anos de vida declarou arrepender-se de não haver combatido ao lado de Ali contra os rebeldes durante a Primeira Fitna, e algumas tradições afirmam que também lamentou não ter enfrentado Alhajaje ibne Iúçufe.

Seguindo a orientação deixada por Omar, recusou envolver-se nas disputas sucessórias. O segundo califa permitiu que o filho participasse apenas como conselheiro da comissão encarregada de escolher seu sucessor, entendendo que seu temperamento conciliador não o tornava adequado para exercer o califado. Depois da morte de Otomão, Abedalá recebeu propostas para assumir a chefia da comunidade islâmica. Durante a arbitragem que sucedeu à Batalha de Sifim, foi indicado por Abu Muça Alaxari como candidato ideal ao califado e, após a morte de Iázide I, voltou a ser instado por numerosos partidários a aceitar o cargo. Em todas as ocasiões recusou, afirmando que não admitiria tornar-se causa de derramamento de sangue entre os muçulmanos, ainda que apenas um pequeno grupo se opusesse à sua eleição. Também rejeitou o governo da Síria, apesar da insistência de Ali. Sua postura diante dos governantes caracterizou-se por uma combinação de obediência institucional e independência moral. Considerava que a preservação da unidade da comunidade justificava rezar atrás dos governantes constituídos, mesmo quando desaprovava sua conduta, mas não deixava de censurá-los publicamente em assuntos religiosos. Repreendeu Alhajaje ibne Iúçufe quando este acusou falsamente Abedalá ibne Azobair de alterar o Alcorão e voltou a adverti-lo por retardar deliberadamente a oração da tarde durante um sermão. Segundo a tradição, essa oposição teria motivado uma tentativa de assassinato durante a peregrinação de 693, quando foi ferido no pé por uma lança enquanto se encontrava em Mina. Alguns relatos afirmam que a arma estava envenenada. Pouco antes de morrer, responsabilizou o próprio Alhajaje pelo atentado, argumentando que permitira a entrada de armas no recinto sagrado de Meca.

Legado

Hádices

Por ter convivido estreitamente com Maomé, de quem era cunhado por intermédio de Háfeça, Abedalá ibne Omar tornou-se uma das principais autoridades da tradição profética. Transmitiu hádices, figurando como o segundo maior narrador entre os sete companheiros conhecidos como muksirun, atrás apenas de Abu Huraira. Aprendeu tradições não apenas com Maomé, mas também com Omar, Háfeça, Abu Becre, Otomão, Aixa, Zaíde ibne Tábite, Bilal ibne Rabá e Abedalá ibne Maçude. Dentre os hádices transmitidos por sua autoridade, 168 foram incluídos simultaneamente nas coleções de Albucari e Muslim ibne Alhajaje, enquanto outros 81 aparecem apenas no Ṣaḥīḥ al-Bukhārī e 31 exclusivamente no Ṣaḥīḥ Muslim. Era conhecido pelo rigor com que preservava a redação original dos ensinamentos proféticos, recusando-se a substituir palavras por sinônimos durante a transmissão. Essa preocupação fazia com que narrasse hádices com grande cautela, apesar do amplo conhecimento que possuía. Segundo os tradicionalistas Mujaíde e , que conviveram longamente com ele, Abedalá transmitia pouquíssimos relatos espontaneamente. Na ciência do hádice, uma das cadeias de transmissão mais prestigiadas, conhecida como a "cadeia de ouro", corresponde justamente à sequência Maleque → → Abedalá ibne Omar. Entre seus discípulos destacaram-se Abedalá ibne Abas, Jabir ibne Abedalá, , Haçane de Baçorá, Saíde ibne Almuçaíbe, Nafi, Mujaíde e .

Jurisprudência

Abedalá ibne Omar também ocupou posição de destaque entre os juristas da primeira geração islâmica. Foi um dos sete companheiros que mais emitiram fátuas e exerceu essa atividade durante aproximadamente sessenta anos. Após o desaparecimento dos companheiros mais velhos, ele e Abedalá ibne Abas tornaram-se as principais autoridades jurídicas consultadas em Medina. Ao emitir pareceres, fundamentava-se primeiramente no Alcorão e na suna; na ausência de texto aplicável, recorria ao consenso dos companheiros e, quando este inexistia, escolhia entre as opiniões existentes ou solucionava a questão mediante analogia jurídica. Embora fosse profundamente influenciado pelas posições jurídicas de Omar, não hesitava em divergir do pai quando sua própria interpretação o levava a conclusão diferente. Era extremamente cauteloso ao emitir decisões legais e recusava pronunciar-se quando não possuía convicção suficiente. Certa vez censurou um homem que insistia em obter uma resposta para um problema desconhecido, afirmando que não desejava transformar as próprias costas em ponte para o inferno mediante uma opinião incorreta. Pelo mesmo motivo recusou o convite do califa Otomão para exercer o cargo de cádi, temendo cometer injustiças ao julgar os litígios da comunidade.

Personalidade

As fontes clássicas apresentam Abedalá ibne Omar como um dos companheiros mais rigorosos na observância da suna. Procurava reproduzir fielmente os hábitos cotidianos de Maomé, rezando nos mesmos lugares onde o Profeta havia rezado, percorrendo os mesmos caminhos e chegando a cuidar das árvores sob cuja sombra ele descansara para que não secassem. Depois que Maomé elogiou seu caráter, acrescentando que seria ainda melhor se praticasse regularmente a oração noturna, Abedalá jamais voltou a abandonar essa devoção. Também demonstrava grande zelo pela difusão da saudação islâmica, saindo frequentemente às ruas apenas para cumprimentar os demais muçulmanos. Apesar de possuir grande fortuna, distribuía constantemente seus bens entre os pobres e frequentemente libertava escravos. Chegava a alforriar servas pelas quais desenvolvia especial afeição, receando que o apego aos bens materiais comprometesse sua devoção religiosa. Tratava seus escravos com generosidade e, quando alguns passaram a frequentar a mesquita esperando obter a liberdade, respondeu que preferia ser enganado por quem buscasse aproximar-se de Deus do que agir com desconfiança. Vestia-se com simplicidade, alimentava-se moderadamente e era reconhecido por sua serenidade e mansidão, recusando responder até mesmo às ofensas pessoais. Os cronistas também o descrevem como um homem de estatura mediana, constituição robusta, pele morena, cabelos compridos até os ombros e barba tingida de amarelo, costume que atribuía ao exemplo de Maomé. Faleceu em Meca, já octogenário, em 693.

Bibliografia

Categoria:Companheiros de Maomé Categoria:Naturais de Meca Categoria:Filhos de Omar Categoria:Árabes do século VII Categoria:Generais do Califado Ortodoxo Categoria:Generais do Califado Omíada Categoria:Aditas (coraixitas) Categoria:Juramento de Riduão