A Cruzada Saboia ou Cruzada Savoia foi criada a partir do mesmo planejamento que levou à Cruzada Alexandrina, uma ideia do papa Urbano V que foi encampada por Amadeu VI, conde de Saboia cujo objetivo era combater o Império Otomano em sua expansão pela Europa oriental. Embora tenha contasse originalmente com a colaboração do Reino da Hungria e do Império Bizantino, ela acabou sendo desviada para atacar o Segundo Império Búlgaro, conseguindo alguns poucos ganhos que acabaram sendo entregues aos bizantinos. Ela pouco conseguiu contra os otomanos, com alguns combates nas redondezas de Constantinopla e em Galípoli.

Sobre a atenção maior dispendida aos búlgaros, o historiador Nicolae Iorga argumenta "que não foi a mesma coisa que uma cruzada, esta expedição parecia mais uma escapada" . Ainda assim, a tomada de Galípoli, de acordo com Oskar Halecki, foi "o primeiro sucesso dos cristãos na defesa da Europa e, ao mesmo tempo, a última grande vitória [sobre os turcos] durante todo o século XIV"Halecki, Un Empereur de Byzance à Rome (Warsaw, 1930), citado em Setton, 300..

Preparativos Votos Em 31 de março de 1363, Sexta-Feira Santa, na Avinhão papal, os reis França e Chipre, João II e Pedro I, fizeram votos cruzados de ir à Terra Santa e receberam do papa Urbano V o "sinal da cruz" (signum crucis) para costurarem em suas roupas como sinal do compromisso. Este foi o início da Cruzada Saboia, mesmo tendo João II jamais cumprido o voto pessoalmente e Pedro I, não cooperado em nada com o conde de Saboia na empreitadaSetton, 285.. Amadeu sequer chegou a realizar o voto cruzado perante o papa até provavelmente 19 de janeiro de 1364, quando um concílio de nobres locais foi realizado em Avinhão para formar uma liga (colligatio) contra as pilhagens das companhias livres. Foi certamente neste ocasião que o papa deu-lhe uma Rosa de Ouro e Amadeu fundou a cavalheiresca da Ordem do Colar para substituir a mais antiga - provavelmente extinta - Ordem do Cisne NegroCox, 179–81.. Os membros originais da Ordem do Colar era seguidores devotos, provavelmente parentes, de Amadeu e é provável que tenham todos jurado acompanhá-lo na cruzada. Quando ela partiu, todos, com exceção de dois que não puderam ir por estarem enfermos, marcharam para o orienteCox, 184.. A ordem, assim como a cruzada, foi dedicada à Virgem Maria. A data limite estabelecida para a partida foi 1 de março de 1365, embora o papa esperasse que tanto Pedro de Chipre quanto Amadeu de Saboia partissem antesSetton, 286.. Ambos perderam o prazo, mas, em 27 de junho, o rei de Chipre tenha partido de Veneza para a Cruzada AlexandrinaCox, 205..

Em maio de 1363, Urbano também havia pedido a Luís I da Hungria para que ele formasse uma cruzada contra os turcos e o rei passou o inverno de 1364-1365 preparando seu exército para uma grande ofensiva que pretendia expulsá-los da Europa. Em janeiro de 1365, dez galés estavam sendo preparadas na Provença para o rei húngaro, que havia também pedido ajuda em Zara e na Dalmácia. Na primavera, Luís invadiu não a Europa turca (Rumélia), mas o norte da Bulgária, que era na época governada pelo segundo filho do tsar, João Esracimir. Ele conquistou e ocupou Vidin, aprisionando Esracimir. Desta forma, ele conseguiu completar sua expedição em tempo de se juntar com Amadeu num ataque conjunto contra os turcos na primavera de 1366Setton, 286–87..

Financiamento Em 1 de abril de 1364, Urbano V tentou ajudar Amadeu a financiar a expedição emitindo uma série de sete bulas concedendo-lhe várias novas fontes de receita. Todos os "ganhos mal adquiridos" (male acquisita) a partir de roubo, rapina ou usura que não pudessem ser restituídos às vítimas deveriam ser utilizados nos seis anos seguintes pela cruzada. Além disso, "todos os legados, presentes, confiscos, multas e penalidades até então não utilizados que haviam sido herdados, doados, designados ou coletados para as cruzadas à Terra Santa e o esforço de guerra no Condado de Saboia e suas dependências nos doze anos anteriores e pelos próximos seis" deveriam ser entregues ao conde para sua expedição. Finalmente, a igreja deveria pagar um dízimo (um décimo) de seus próprios dízimos para ajudar o conde, com exceção dos sacerdotes que receberam permissão de se juntar à cruzada pessoalmente

Exército e frota thumb|300px|Galé veneziana. No início de 1366, Amadeu estava em Saboia preparando seu exército, mais da metade do qual composto por seus vassalos hereditários de modo que não faltou quase nenhum de seus parentes. Seu meio-irmão, Ogier e seu sobrinho, Humberto, filho de outro meio-irmão, Humberto, se juntaram. Aimão, irmão mais novo de Jaime de Piemonte, e dois filhos bastardos de Amadeu, ambos chamados Antônio, participaram . Entre os cruzados estavam o cavaleiro Richard Musard, Aimão, herdeiro de Amadeu III de Genebra, que estava doente demais para participar, e Luís de Beaujeu, senhor d'Alloignet, que ia no lugar de Antoine de BeaujeuCox, 207–08..

Viagem ao oriente 300px|esquerda|thumb|Papa Urbano V recebe o juramento de João V Paleólogo. De Saboia a Veneza Em 3 de janeiro de 1366, em Le Bourget-du-Lac, preparando-se para partir, nomeou sua esposa, Bona de Bourbon, regente em sua ausência, a ser apoiada por um concílio. Talvez como um protesto pelo atraso ou pelo destino proposto - que não era a Terra Santa - em 6 de janeiro Urbano revogou as bulas de 1 de abril de 1364, cortando assim grande parte do financiamento de Amadeu. Embora o conde tenha ido pessoalmente a Avinhão para protestar - e tenha aparentemente recebido a benção papal para continuar sua aventura - as bulas não foram re-emitidasCox, 206–07.. O conde foi forçado a exigir um imposto geral para sua viagio ultramarino, mas ele não foi coletado até 1368 e o custo do transporte naval teve que ser pago através de empréstimos ( florins) em alguns bancos de Lyon e o empenho da prata da família. Em 8 de fevereiro, Amadeu partiu para VenezaCox, 209. .

Ele alcançou Rivoli em 15 de fevereiro e Pávia, onde seu cunhado, Galeácio II Visconti, governava em meados de março. Ele então deu meia-volta e visitou Saint-Jean-de-Maurienne antes de retornar a Pávia em meados de maio, onde foi padrinho no batismo de seu sobrinho, filho de João Galeácio, João Galeácio II. Sua irmã, a mãe do João Galeácio pai, Bianca, fez-lhe uma doação nesta época e seu cunhado também emprestou-lhe homens e dinheiro: florins e 25 homens d'armas, seiscentos brigandi (mercenários) e dezesseis condestáveis comandados pelo seu filho, Cesare, que seriam pagos por Galeácio nos primeiros seis meses.

Depois de perceber que a Cruzada Alexandrina havia prejudicado suas relações comerciais com os estados islâmicos, a República de Veneza estava pouco disposta a participar da cruzada ou de ajudá-la a chegar ao oriente. Uma carta do papa Urbano em março de 1365 não conseguiu fazer o doge mudar de ideia, mas os emissários de Amadeu conseguiram duas galés (o pedido era de cinco e mais duas fustas). Urbano negociou com a República de Gênova e com a cidade de Marselha para tentar conseguir mais navios, mas a promessa de transporte que ele conseguiu do imperador Carlos IV jamais foi cumprida. Um grande número de mercenários das companhias livres haviam se juntado à cruzada e esperavam em Tournus sob o comando de Arnaldo de Cervole, mas, quando ele foi assassinado em 25 de maio de 1366 perto de Mâcon, eles abandonaram a expedição.

Metade do exército cruzado, sob Étienne de la Baume, partiu de Pávia para Gênova para embarcar na frota que o levaria a Veneza. Em 1 de junho, o resto, sob o comando de Amadeu, partiu para Pádua, onde a família reinante, os Carraresi, ofereceram-lhe seu palácio em Veneza. Em 8 de junho, Amadeu e o exército principal finalmente chegaram a Veneza, onde o doge, informado que o destino final não seria a Terra Santa, mostrou-se mais disposto a ajudar, incluindo homens e navios se os cruzados tomassem Tênedos dos genoveses (o que Amadeu não aceitou).

Quando chegou a Veneza, o exército da cruzada já estava organizado em três batalhões (batailles) sob o comando geral do marechal Gaspard de Montmayeur: o primeiro era liderado por Amadeu, Gaspard, Aymard de Clermont e os irmãos Guy e Jean de Vienne; o segundo por Étienne de la Baume, o senhor de Basset e Saint-Amour; o terceiro - e maior (o grosse bataille) - incluía os parentes de Amadeu e era comandado por Guillaume de Grandson, primo de Amadeu, Antelme d'Urtières e Florimont de Lesparre.

A partida da frota se deu em 21 de junhoCox, 208–13..

De Veneza a Galípoli thumb|esquerda|300px|Ruínas do Castelo de Pilos, de onde Amadeu resgatou Maria de Bourbon. A frota seguiu pela costa da Dalmácia parando em Pula (Pola), Ragusa, Corfu e finalmente em Coroni, que estava sob controle veneziano. Lá, Amadeu soube que Maria de Bourbon, a filha do duque Luís II de Bourbon, irmão de sua esposa Bona, estava sendo cercado em seu castelo de Pilos (Navarino) pelo arcebispo de Patras, Ângelo Acciaioli, que havia tomado suas terras em nome de Filipe de Taranto, cunhado e adversário dela na disputa pela coroa do Principado de Acaia, uma reivindicação que ela fazia em nome do filho, Hugo, cujo pai era o finado Roberto de Taranto. No início de 1366, Maria e Hugo haviam conseguido organizar um exército de mercenários de Chipre e da Provença e tentaram conquistar a força o território que ela reivindicava. Durante as negociações, o castelão de Pilos, Guilherme de Talay, havia prendido Simone del Poggio, o guarda-mor de Filipe de Taranto, nas masmorras do castelo. Quando Amadeu chegou, uma contra-ofensiva liderada pelo arcebispo havia conseguido cercar Maria e Hugo ali e o conde se ofereceu para arbitrar o conflito. Ele determinou que Maria deveria renunciar às suas pretensões sobre Patras e que o arcebispo deveria evacuar suas tropas do sul de Acaia, deixando a região sob o controle de Maria. Depois de resgatar a "donzela em perigo" e de defender os "direitos da igreja", Amadeu voltou para seus navios.

Em Coroni, a frota veneziana, que estava sendo liderada por Antelme d'Urtières, capitão da galé do conde, se juntou com os genoveses para formar uma frota de quinze navios sob o comando geral do almirante Étienne de la Baume. O exército foi dividido nos navios de acordo com a geografia: havia um navio para os homens de Bresse (Breysse), outro para "os homens de Faucigny" (des gens de Foucignie), outros para os saboianos (Savoye) etc. Todos os navios deveriam navegar à vista dos outros e nenhum à frente do conde, com pesadas multas para quem violasse essas regras. Bandeiras e sinais luminosos permitiam a comunicação entre os navios dia e noite e os sinais de ataque eram dados por trombeteiros no navio do conde. A viagem inteira foi estritamente controlada por AmadeuCox, 211.. De Coroni, a frota seguiu para Agios Georgios em Hidra, Cálcis (em Negroponte) e finalmente Euripo, a última parada antes do território turcoCox, 215.Cox, 219..

Campanhas Galípoli thumb|300px|Mapa da República de Veneza em 1400. As principais cidades na rota de Amadeu estão indicadas.