O Reino Ostrogótico foi um Estado germânico fundado pelos ostrogodos que ocuparam a península Itálica e áreas vizinhas de 493 a 552. Sucessor do Reino de Odoacro, foi originalmente criado quando os ostrogodos sob o rei invadiram, a mando do imperador bizantino Zenão (r. 474–475; 476–491), a península Itálica e mataram Odoacro , um soldado germânico, antigo líder dos federados no norte da península e governante de facto da Itália, que tinha deposto o último imperador do Império Romano do Ocidente, Rômulo Augusto .

Sob Teodorico, seu primeiro rei, o Reino Ostrogótico alcançou seu apogeu, estendendo-se da Gália (moderna França), no Ocidente, para a moderna Sérvia no Oriente. Muitas das instituições do Império Romano do Ocidente foram preservadas durante seu reinado. Após sua morte, o reino entraria num período de instabilidade política que instigaria os bizantinos a invadirem a península e iniciarem a Guerra Gótica de 535–554, na qual o reino foi completamente conquistado.

História

Antecedentes

Reino Ostrogótico Federado

Os ostrogodos foram o ramo oriental dos godos. Se assentaram e estabeleceram um poderoso Estado ao norte do mar Negro, em Aujo, mas durante o final do permaneceram sob domínio dos hunos. Após o colapso do Império Huno em 454, um grande número de ostrogodos foram assentados pelo imperador Marciano na província romana da Panônia como federados. Mas em 459/460, durante o reinado de , devido ao cessar do pagamento dos subsídios anuais concedidos aos ostrogodos, eles devastaram a Ilíria. A paz foi concluída em 461, segundo a qual o jovem , filho de Teodomiro da dinastia dos Amalos, foi enviado à Constantinopla para ser refém por 10 anos, onde recebeu uma educação romana.

thumb|esquerda|Soldo do imperador Marciano

Em anos precedentes, um grande número de godos, primeiro sob Áspar e então sob Teodorico Estrabão, entraram em serviço no exército romano e foram um significativo poder político e militar na corte de Constantinopla. O período entre 477-483 viu um complexa luta de três vias entre Teodorico, o Amal, que tinha sucedido seu pai em 474, Teodorico Estrabão, e o novo imperador oriental Zenão (r. 474–475; 476–491). Neste conflito, alianças deslocaram-se regularmente, e grandes partes dos Bálcãs foram devastadas. No fim, após a morte de Estrabão em 481, Zenão chegou a um acordo com Teodorico. Parte da Mésia Inferior e Dácia Ripense foram cedidas aos godos, e Teodorico foi nomeado mestre dos soldados na presença (magister militum praesentalis) e cônsul em 484. Em 488, Zenão convence o líder ostrogótico a partir com seu povo em direção a Itália, então controlava pelo oficial germânico Odoacro.

Reino de Odoacro

thumb|soldo de Odoacro na qual aparece o nome do imperador Zenão (r. 474–475; 476–491), a quem estava nominalmente subordinado thumb|Reino de Odoacro em 480

Em 476, Odoacro, um mestre dos soldados germânico, depôs o imperador do ocidente Rômulo Augusto e declarou-se rex Italiae ("Rei da Itália"), enquanto ainda nominalmente permaneceu sob suserania imperial. Este fato foi reconhecido por Zenão em 477, enquanto nomeou Odoacro para o posto de patrício. Odoacro manteve o sistema administrativo romano, cooperou ativamente com o senado de Roma, e seu governou foi eficiente e bem-sucedido. Ele evitou os vândalos da Sicília em 477, e em 480 conquistou a Dalmácia após a morte de Júlio Nepos .

Conquista ostrogótica da Itália

Um acordo foi alcançado entre Zenão e Teodorico, estipulando que Teodorico, se vitorioso, governaria na Itália como representante do imperador. Teodorico partiu da Mésia com seu povo no outono de 488, passou através da Dalmácia e cruzou os Alpes Julianos em direção a Itália no final de Agosto de 489. O primeiro confronto com o exército de Odoacro ocorreu no rio Isonzo em 28 de agosto. Odoacro foi derrotado e retirou-se em direção a Verona, onde um mês mais tarde outra batalha foi travada, resultando em uma sangrenta, mas esmagadora, vitória gótica. Odoacro fugiu para sua capital em Ravena, onde a maior parte de seu exército sob Tufa rendeu-se para os godos. Teodorico então enviou Tufa e seus homens contra Odoacro, mas ele mudou sua lealdade novamente e retornou para Odoacro. Em 490, Odoacro foi então capaz de fazer campanha contra Teodorico, tomou Mediolano e Cremona e sitiou a principal base gótica em Ticino (atual Pávia). Neste ponto, contudo, os visigodos intervieram, o cerco de Ticino foi aliviado, e Odoacro decisivamente derrotado no rio Adda em 11 de agosto de 490. Ele fugiu novamente para Ravena, onde o senado e muitas cidades italianas declararam-se para Teodorico.

Os godos agora viraram-se para sitiar Ravena, mas desde que careciam duma frota e a cidade poderia ser reabastecida por mar, o cerco poderia ser suportado quase indefinidamente, apesar das provisões. Não foi até 492 que Teodorico foi capaz de adquirir a frota e capturar os portos de Ravena, assim cortando inteiramente a comunicação com o mundo exterior. Os efeitos disto apareceram seis meses depois, quando, com a mediação do bispo da cidade, negociações começaram entre as duas partes. Um acordo foi alcançado em 25 de fevereiro de 493, em que os dois deveriam dividir a Itália entre eles. Um banquete foi organizado de modo a celebrar este acordo. Foi neste banquete, em 15 de março, que Teodorico, após fazer um brinde, matou Odoacro com suas próprias mãos. Um massacre geral dos soldados e apoiantes de Odoacro se seguiu. Teodorico e seus godos eram agora mestre da Itália.

Reinado de Teodorico, o Grande

Reinado de Teodorico

"Teodorico foi um homem de grande distinção e de boa-vontade para com todos os homens, e reinou por trinta e três anos. Em seus tempos a Itália por trinta anos gozou de tal boa sorte que seus sucessores também herdaram a paz. Por tudo que ele fez de bom. Ele então governou duas raças ao mesmo tempo, romanos e godos, que embora ele mesmo fosse do secto ariano, não fez nenhum ataque à religião católica; deu jogos no circo e anfiteatro, de modo que mesmo os romanos chamaram-o um Trajano ou um Valentiniano, cujos tempos tomou como modelo; e pelos godos, devido a seu édito, no qual estabeleceu justiça, foi julgado em todos os aspectos, o melhor rei deles." Anônimo Valesiano, Excerpta II 59-60

Como Odoacro, Teodorico foi ostensivamente um patrício e sujeito ao imperador de Constantinopla, atuando como seu vice-rei da Itália, uma posição reconhecida pelo novo imperador em 497. Ao mesmo tempo, foi o rei de seu próprio povo, que não eram cidadãos romanos. Na realidade, agiu como um governante independente, embora, diferente de Odoacro, meticulosamente preservou as formas exteriores de sua posição subordinada.

O aparato administrativo do Reino de Odoacro, em essência do antigo império, foi mantido e continuou a ser composto exclusivamente por romanos, tal como o articulado e letrado Cassiodoro. O senado continuou a funcionar normalmente e foi consultado em nomeações civis, e as leis do império ainda era reconhecida como regendo a população romana, embora os godos fossem regidos sob suas próprias tradições legais. De fato, como um governante subordinado, Teodorico não possuía o direito de emitir suas próprias leis (leges) no sistema do direito romano, mas meramente éditos (edicta), ou esclarecimentos de certos detalhes. A continuidade na administração é ilustrada pelo fato de vários ministros seniores de Odoacro, como Libério e Cassiodoro, o Velho, foram mantidos nas altas posições do novo reino. A estreita cooperação entre Teodorico e a elite romana começou a ruir em anos posteriores, especialmente após conciliação da cissão eclesiástica entre Roma e Constantinopla, com os principais senadores conspirando com o imperador. Isto resultou na prisão e execução do mestre dos ofícios Boécio e seu sogro, Símaco, em 524.

thumb|esquerda|Síliqua de

Por outro lado, o exército e todos os ofícios militares permaneceram reservados para os godos. Eles foram assentados principalmente no norte da Itália, e mantiveram-se em grande parte para além da população romana, uma tendência reforçada por suas crenças distintas: os godos eram principalmente arianos, enquanto as pessoas a quem reinavam sobre seguiam o cristianismo calcedoniano. No entanto, e diferente dos visigodos e vândalos, havia considerável tolerância religiosa, que foi também estendida para os judeus. A visão de Teodorico foi claramente expressada em suas cartas para os judeus de Gênova: "A verdadeira marca de civilitas é a observância da lei. É isto que faz vida em comunidades possível, e que separa homem dos brutos. Nós, portanto, de bom grado aderimos a seu pedido que todos os privilégios que a previsão da antiguidade conferiu aos costumes judaicos possam ser renovados para vocês..." e "Nós não podemos pedir uma religião, porque nenhum pode ser forçado a acreditar contra sua vontade."

Relações com os Estados germânicos do Ocidente

thumb|esquerda|Máxima extensão do território governado por Teodorico (vermelho escuro). As zonas pontilhadas expressam os Estados que estavam em sua órbita de influência através de alianças matrimoniais

Foi em sua política exterior, e não na política interna, que Teodorico apareceu e atuou como um governante independente. Por meio de alianças matrimoniais, procurou estabelecer uma posição central entre os Estados bárbaros do Ocidente. Como Jordanes afirma: "...não havia raça deixada nos reinos ocidentais que Teodorico não tinha amizade ou pôs em sujeição durante sua vida." Isto era, em parte, concebida como uma medida defensiva, e em parte como um contrapeso à influência imperial. Suas filhas Teodegoda e Ostrogoda foram casadas respectivamente com o rei visigodo Alarico II e o príncipe burgúndio Sigismundo , sua irmã Amalfrida casou-se com o rei vândalo Trasamundo , enquanto ele mesmo casou-se com Audofleda, irmã do rei franco Clóvis I .

Estas políticas não foram sempre bem sucedidas na manutenção da paz: Teodorico encontrou-se em guerra com Clóvis quando o último atacou os domínios visigodos na Gália em 506. Os francos foram rapidamente bem sucedidos, matando Alarico na batalha de Vouillé e subjugando a Aquitânia em 507. Contudo, começando em 508, os generais de Teodorico fizeram campanha na Gália, e foram bem sucedidos no resgate da Septimânia para os visigodos, bem como estendendo o domínio ostrogótico para o sul da Gália (Provença) em detrimento dos burgúndios. Lá, em 510, Teodorico restabeleceu a findada prefeitura pretoriana da Gália. Agora Teodorico tinha uma fronteira comum com o Reino Visigótico, onde, após a morte de Alarico, também governou como regente de seu neto infante Amalarico .

Os laços familiares também serviram pouco com Sigismundo que, como um convicto católico calcedoniano cultivou laços estreitos com Constantinopla. Teodorico percebeu isso como uma ameaça e fez campanha contra ele, mas os francos agiram primeiro e invadiram a Burgúndia em 523, rapidamente subjugando-a. Teodorico pode apenas reagir expandindo seus domínios na Provença tão ao norte quanto o rio Isère.

A paz com os vândalos, assegurada em 500 com a aliança matrimonial com Trasamundo, e seus interesses comuns como poderes arianos contra Constantinopla, colapsou após a morte de Trasamundo em 523. Seu sucessor Hilderico mostrou favor aos católicos nicenos, e quando Amalfrida protestou, ela e sua comitiva foram assassinadas. Teodorico estava preparando uma expedição contra ele quando morreu.

Relações com o Império Bizantino