Os direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) no México se expandiram nos últimos anos, de acordo com as tendências jurídicas mundiais. A influência intelectual da Revolução Francesa e da breve ocupação francesa do México (1862-1867) resultou na adoção do Código Napoleônico, que descriminalizou os atos sexuais entre pessoas do mesmo sexo em 1871. Leis contra a imoralidade pública ou indecência, no entanto, foram usadas para processar pessoas que se envolvem com eles. Informações sobre a homossexualidade entre os povos pré-colombianos e os primeiros anos de colonização são raras e confusas. Cronistas frequentemente descrevem costumes indígenas o qual se surpreenderam ou não concordavam, mas eles tendem a ter uma postura de acusação ou de justificação, o que torna impossível distinguir entre a realidade e a propaganda. Em geral, parece que os astecas também se opuseram a práticas homossexuais, enquanto os espanhóis e outros povos indígenas demonstravam maior tolerância. Os nativos americanos Dois-espíritoss, por exemplo, costumavam executar o trabalho de ambos os sexos, masculino e feminino. A história da homossexualidade na época colonial e no período que se seguiu à independência, permanece a ser estudada. Dominam a história LGBT as execuções de homossexuais em 1658 e o fato que ficou conhecido como Baile dos Quarenta e Um, em 1901, dois grandes escândalos que atingiram a vida pública mexicana.
A situação está mudando gradualmente no século XXI, em parte graças à descoberta da comunidade LGBT como uma comunidade consumidora em potencial, o chamado Pink money. Leis foram criadas para combater a discriminação, a partir de 2003, e dois territórios, o Distrito Federal e o estado de Coahuila de Zaragoza, já legalizaram a união civil para homossexuais, até o ano de 2007. Em 21 de dezembro de 2009, o governo da Cidade de México aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com 39 votos a favor e 20 votos contrários, fazendo da Cidade do México a primeira cidade da América Latina a conceder tais direitos. No entanto, o México continua a ser um dos países com os maiores crimes contra a comunidade LGBT, sendo que, em média, uma pessoa homossexual é morta a cada dois dias por motivos homofóbicos no país.
História México pré-colombiano
A maioria das notícias sobre os povos pré-colombianos e a questão da homossexualidade provém de crônicas e contos ditos pelos espanhóis. Os relatos devem tomar-se com precaução, já que era comum a acusação de sodomia para justificar a conquista, igualmente a outras acusações, reais ou inventadas, como sacrifícios humanos, canibalismo e idolatria. Uma vez que ambos os defensores dos nativos indígenas quanto aqueles que se opuseram à sua defesa manipulam informações acerca da homossexualidade no seu parecer, na tentativa de minimizar a incidência de sodomia e outras histórias exageradas, é impossível obter um quadro preciso acerca da percepção da homossexualidade no território do México pré-colombiano. Esta conclusão é advinda do historiador Antonio de Herrera y Tordesillas, que estudou a homossexualidade na sociedade mexicana em 1601.
Os índios dois-espíritos era algo generalizado entre os povos indígenas americanos. Primeiro considerados hermafroditas pelos conquistadores espanhóis, tratava-se de homens que adotavam uma série de funções e comportamentos tidos por femininos, sendo comum, também, a utilização da expressão "duas mentes" para designá-los - eis que não eram considerados nem homens, nem mulheres - pelos conquistadores, mas vistos como um terceiro gênero e com funções espirituais vistas como exageradas. Os conquistadores, muitas vezes, consideravam-nos o equivalente a homossexuais passivos e os tratavam com desprezo e crueldade.
Os maias e astecas thumb|200px|direita|Pintura homoerótica maia nas paredes da gruta de Naj Tunich, em El Petén (na Guatemala). Os maias eram relativamente tolerantes com a homossexualidade. Sabemos que alguns de seus rituais incluíam relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, o que não era motivo para a condenação à morte na sociedade. A sociedade maia considerava a homossexualidade preferível ao sexo heterossexual antes do casamento, então os nobres adquiriam escravos sexuais para seus filhos.
Os astecas eram intolerantes com a homossexualidade, embora alguns de seus rituais públicos tivessem passagens homoeróticas. Um exemplo é a deusa adorada pela civilização, Xochiquetzal, que sob sua aparência masculina, com o nome de Xochilipilli, protegia a prostituição masculina e a homossexualidade. A história mítica dos astecas foi dividida em "quatro mundos", dos quais o primeiro era tido como "fácil, com vida dedicada à sodomia, perversão, e adoração à Xochiquetzal", onde eles tinham esquecido "virtudes masculinas de guerra e a administração da sabedoria". O autor Richard Texler Toltecas, em seu livro Sex and the Conquest, afirma que que os astecas convertiam alguns dos inimigos conquistados, incluindo os Dois-espíritos, seguindo a metáfora de que "a penetração é um exemplo de poder".
A lei asteca castigava a homossexualidade com a morte, que muitas das vezes era praticada através da forca. Os homossexuais ativos tinham seus corpos empalados e os homossexuais passivos sofriam extrações do corpo para o orifício anal. Lésbicas eram punidas com a morte por porrete. Alguns autores afirmam que essas leis rigorosas não foram utilizadas na prática e que os homossexuais eram relativamente livres.
A existência do lesbianismo é atestada pela palavra ‘patlacheh, que na língua náuatle refere-se a mulheres executando atividades masculinas, incluindo a penetração em outras mulheres, como revelado no livro Historia general de las cosas de la Nueva España, de Bernardino de Sahagún.
A conquista thumb|upright=1.3|esquerda|Gravura de Théodore de Bry, representando a cena em que Balboa excita seus cães contra os berdaches (1594); Biblioteca Pública de Nova Iorque. Desde o primeiro contato dos espanhóis com os indígenas, o canibalismo e a homossexualidade na sociedade indígena foi questionada. O médico de Colombo, Diego Alvarez Chanca, foi o primeiro a dar conhecimento sobre os mesmos, numa carta de 1494. Ele fala do costume dos Caribes em capturar meninos e eliminar todos os órgãos masculinos. Estas "características femininas desenvolvidas faziam com que os Caribes usassem-na para praticar sodomia de forma similar aos árabes, que desfrutavam de suas jovens como eunucos e bardajes. [...] Uma vez que os homens cresciam, os caribes os matavam e comiam".
Um relatório sobre os nativos da região, atribuído à Hernán Cortés e feito em 1519 pelo Conselho da vila de Veracruz, comentava que "eles com certeza são todos sodomitas e praticam esse pecado abominável". O relatório era destinado ao rei Carlos I de Espanha. Em outro relato de um conquistador italiano anônimo, é dito que os homens e mulheres de Pánuco adoravam um órgão sexual masculino e falos foram erigidos em praças públicas e templos para adoração, o que era visto como "multiplicidade de métodos usados por homens para satisfazer seu vício abominável [e] quase incrível demais para ser acreditado. [...] Por fim, o relato dizia que "todos os habitantes da Nova Espanha e os de outras regiões adjacentes comiam carne humana e comumente praticavam sodomia e bebiam em excesso", comparando alguns dos costumes dos nativos com os sarracenos impíos.
Em meados do século XVI, tanto Bernal Díaz del Castillo, como o explorador Gonzalo Fernández de Oviedo e o soldado Juan de Grijalva escrevem sobre cenas de sodomia esculpidas na arquitetura, jóias de ouro e estátuas. O fato foi confirmado em 1526 por Gonzalo Fernández de Oviedo, encarregado de explorar as minas de ouro da América. Ao mesmo tempo, Álvar Núñez Cabeza de Vaca escreve:
Isabel I de Portugal, esposa de Carlos V, possivelmente impulsionada por essas histórias, proibiu em 1529 o plantio ou o uso do agaver para fermentação do pulque. A rainha acreditava que a bebida alcoólica levava os índios a "fazer sacrifícios humanos e praticar o pecado nefando".
Estas e outras histórias tornaram-se um gênero literário genuíno, circulando em toda a Península, e foram usadas para justificar a noção de império e a dominação dos índios e ocupação de seus territórios. O téologo Francisco de Vitória, no entanto, entendia que os índios tinham razão e, como tal, o imperador não deveria possuir direito sobre eles, considerados "infiéis que cometem pecados não naturais, como a idolatria, prostituição e pederastia, todas as infracções a Deus, podiam ser detidos pela força". A legitimidade para tal se baseava na cultura e costumes diferentes dos índios, entre os mais notáveis: o canibalismo, o sacrifício humano e a sodomia, a este respeito a conquista do México poderia simplesmente ter representado uma extensão da conquista espanhola dos infiéis, em seguida, representados pelos mouros.
Vice-Reino da Nova Espanha
A partir de meados do século XVI, os primeiros cronistas que viveram e trabalharam na Nova Espanha tornaram-se mais notáveis. O frei Toribio de Benavente, mais tarde chamado Motolinia, foi um dos cronistas mais importantes deste período. Ele escreveu que os índios bebiam um vinho chamado pulque, a ponto de ficarem bêbados, seguido pelo sacrifício de humanos e os "vícios da carne", especialmente [...] classificado como um pecado hediondo. Alguns historiadores oficiais do Reino da Espanha também se pronunciaram acerca da homossexualidade no território do atual México, entre eles Francisco López de Gómara e Ginés de Sepúlveda. Lopes de Gómara identificou os índios americanos como "seres fantásticos", apesar de nunca ter pisado em solo americano. Ginés de Sepúlveda acreditava que os índios haviam sido pré-determinados pela natureza para a servidão. O frade franciscano Bernardino de Sahagún dedicou o capítulo De las personas viciosas tales como rufianes y sodomitas, de seu livro Historia general de las cosas de la Nueva España (1558-1565), ao assunto. Outro conquistador que abordou a homossexualidade na região foi Bernal Díaz del Castillo, que escreveu um relato da conquista espanhola do México. Ele relatou, em 1568, as religiões indígenas e seus sacerdotes, o sacrifício humano e a homossexualidade. Em 1569, Tomás López Mendel culpa os sacerdotes indígenas de espalhar a homossexualidade entre o povo.