thumb|300px|Títulos de Portugal A crise financeira em Portugal de 2010–2014 fez parte do abrandamento mais amplo da economia de Portugal, que começou em 2001 e terminou possivelmente entre 2016 e 2017. O período de 2010 a 2014 foi provavelmente a fase mais difícil e desafiante de toda a crise económica; este período incluiu o resgate internacional a Portugal de 2011–2014 e foi marcado por intensas políticas de austeridade, mais vincadas do que no ciclo amplo de 2001–2017. O crescimento económico estagnou em Portugal entre 2001 e 2002 e, após anos de crise económica interna, a Grande Recessão mundial começou a atingir Portugal em 2008, culminando na incapacidade do país de pagar ou refinanciar a sua dívida pública sem assistência de terceiros. Para evitar uma situação de insolvência no âmbito da crise da dívida soberana, Portugal pediu em abril de 2011 um programa de resgate financeiro, acumulando um valor de 78 bilhões de euros provenientes do FMI, do MEEF e do FEEF. Portugal concluiu o programa de resgate em maio de 2014, no mesmo ano em que o crescimento económico positivo reapareceu, após três anos de recessão. O Governo alcançou um défice orçamental de 2,1% em 2016 (o mais baixo desde a restauração da democracia em 1974) e, em 2017, a economia cresceu 2,7% (a taxa de crescimento mais elevada desde 2000).
Causas thumb|right|upright=1.2|Manuela Ferreira Leite foi Ministra das Finanças de 2002 a 2004, no Governo liderado por José Manuel Durão Barroso. thumb|right|upright=1.2|De 2005 a 2011, José Sócrates, do Partido Socialista (PS), foi o Primeiro-Ministro e líder do Governo Português. thumb|right|upright=1.2|Os Primeiros-Ministros Pedro Passos Coelho (à esquerda), de Portugal (em funções a partir de 21 de junho de 2011, após José Sócrates ter pedido o resgate financeiro em abril de 2011), e José Luis Rodríguez Zapatero, de Espanha, em outubro de 2011. Com a desaceleração económica e uma taxa de desemprego crescente (superior a 10% em Portugal e 20% em Espanha por volta de 2011), os dois países da Península Ibérica ficaram presos no centro da Crise da dívida soberana da Europa.
Crise económica dos anos 2000 Ao contrário de outros países europeus que também foram gravemente atingidos pela Grande Recessão no final dos anos 2000 e receberam resgates no início da década de 2010 (como a Grécia e a Irlanda), em Portugal os anos 2000 não foram marcados por crescimento económico, mas sim por um período prévio de crise, estagnação, duas recessões (em 2002–03 e em 2008–09) e consolidação orçamental patrocinada pelo Governo, visando reduzir o défice público para os limites permitidos pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento da União Europeia.
Do início dos anos 1960 ao início dos anos 2000, Portugal viveu três períodos de forte crescimento económico e desenvolvimento socioeconómico (aproximadamente de 1960 a 1973, de 1985 a 1992 e de 1995 a 2001), o que fez com que o PIB per capita subisse de 39% da média da Europa do Centro-Norte em 1960 para 70% em 2000. Embora em 2000 Portugal ainda fosse o país mais pobre da Europa Ocidental, tinha contudo alcançado um nível de convergência com as economias desenvolvidas da Europa Central e do Norte sem precedentes nos séculos anteriores, um processo de aproximação que se esperava continuar. Portugal iniciou bem os anos 2000, registando uma taxa de crescimento do PIB de quase 4% em 2000, mas o crescimento desacelerou ao longo de 2001; a taxa de crescimento desse ano foi de 2,0% e o abrandamento inesperado foi uma das causas que levou o défice orçamental do Governo (ainda liderado pelo socialista António Guterres) a derrapar para 4,1%. Portugal tornou-se assim o primeiro país da Zona Euro a ultrapassar claramente o limite de 3% do PEC para o défice orçamental, o que deu origem à abertura de um procedimento por défice excessivo. As eleições antecipadas de 2002 trouxeram ao poder os Social-Democratas liderados por José Manuel Durão Barroso; o seu Governo ficou marcado pela introdução de duras políticas de austeridade orçamental e reformas estruturais, justificadas pela necessidade de reduzir o défice, um conjunto de medidas concebido pela sua Ministra das Finanças, Manuela Ferreira Leite. A economia portuguesa cresceu no seu conjunto 0,8% em 2002, esteve em recessão em 2003 (-0,9%) e cresceu 1,6% em 2004. Ferreira Leite conseguiu manter o défice em 2,9% tanto em 2003 como em 2004, mas recorrendo a medidas pontuais e extraordinárias. Caso contrário, o défice teria atingido os 5%. Entretanto, a primeira metade dos anos 2000 viu também o fim da tendência de queda do rácio da dívida pública em relação ao PIB que tinha marcado a década de 1990: o rácio subiu de 53% em 2000 para 62% em 2004 (ultrapassando o limite de 60% do PEC em 2003).
O socialista José Sócrates tornou-se Primeiro-Ministro após as eleições de 2005; tal como o seu predecessor, Sócrates tentou reduzir o défice orçamental através de contenção e aumentos de impostos. Nessa altura, a economia portuguesa estava claramente atrás dos parceiros europeus e previa-se que o défice de 2005 ficasse acima dos 6% sem medidas extraordinárias. No Programa de Estabilidade e Crescimento para 2005–2009, o XVII Governo Constitucional propôs deixar o défice superar os 6% em 2005, mas reduzi-lo estruturalmente para menos de 3% até 2008, plano que foi aceite pelas autoridades europeias. A economia continuou a registar valores positivos, embora fracos, de crescimento em 2005 (0,8%) e 2006 (1,4%). Um marco notável na crise ocorreu em 2005, quando a taxa de desemprego portuguesa ultrapassou a média europeia pela primeira vez desde 1986. Em 2007, o Governo alcançou um défice de 2,6% (um ano antes do previsto), abaixo do limite de 3,0% do PEC. Nesse ano, a economia cresceu 2,4%, a taxa mais elevada da década (excluindo 2000). No entanto, o crescimento comparativamente baixo levou a revista The Economist a descrever Portugal como "o novo doente da Europa"."A new sick man of Europe". The Economist De 2005 a 2007, a dívida pública manteve-se estável num rácio de aproximadamente 68% do PIB.
A Grande Recessão começou a atingir Portugal em 2008; nesse ano a economia não cresceu (0,0%) e recuou quase 3% em 2009. Entretanto, o Governo reportou um défice orçamental de 2,6% em 2008, que disparou para quase 10% em 2009. A austeridade foi momentaneamente aliviada em 2008–2010, no âmbito do plano europeu de recuperação económica, mas foi retomada em maio de 2010. Em 2010 registou-se crescimento económico (1,9%), mas a situação financeira manteve-se muito difícil (défice de 8,6%); o país acabou por se ver impossibilitado de pagar ou refinanciar a dívida soberana, solicitando um resgate financeiro em abril de 2011; nesse ano a economia recuou 1,3% e o Governo registou um défice de 4,2%. O rácio da dívida em relação ao PIB subiu acentuadamente de 68% em 2007 para 111% em 2011.
No final, a economia portuguesa cresceu menos em termos per capita nos anos 2000 e início dos anos 2010 do que a economia americana durante a Grande Depressão ou a economia japonesa durante a sua Década Perdida. Apesar das políticas governamentais assumidamente orientadas para consolidar as finanças públicas, Portugal esteve quase sempre sob o procedimento por défice excessivo e o rácio dívida/PIB cresceu de 50% em 2000 para 68% em 2007 e 126% em 2012. As causas da estagnação são complexas. O economista João Ferreira do Amaral aponta a adesão ao Euro em 1999–2002, uma moeda demasiado forte para a economia e indústria portuguesas, retirando ao país a capacidade de gerir a sua própria política monetária (subir ou descer taxas de juro) e cambial (desvalorização da moeda). Vítor Bento considera igualmente que a pertença a uma união monetária criou desafios para os quais a economia não se conseguiu adaptar. Bento assinala também que o Euro esteve na origem de desequilíbrios macroeconómicos internos na Zona Euro – tais como défices externos excessivos nos países da periferia (como Portugal) e excedentes externos nos países centrais – e que esses desequilíbrios foram a causa principal da crise da Zona Euro. Vários economistas (incluindo o ex-Primeiro-Ministro e mais tarde Presidente da República Aníbal Cavaco Silva) apontam para a dimensão do Estado português, cujas despesas totais superavam 45% do PIB em 2005. Essa hipótese esteve na base das exigências de austeridade impostas no resgate financeiro de 2011–2014. Para Ricardo Reis, a adesão ao Euro foi uma das causas centrais, pois as baixas taxas de juro permitiram a entrada de capital estrangeiro que o sistema financeiro canalizou para setores não transacionáveis e de baixa produtividade, reduzindo a produtividade geral da economia. Entretanto, a Segurança Social exigia cada vez mais despesa pública, e os sucessivos aumentos de impostos nos anos 2000 limitaram o potencial de crescimento da economia. Outros problemas estruturais identificados foram a corrupção, a burocracia excessiva, as baixas qualificações da população adulta, a baixa produtividade total dos fatores, a rigidez da legislação laboral e a lentidão do sistema judicial.
Insegurança nos mercados financeiros Após a crise financeira de 2007–2008, tornou-se público em 2008–2009 que dois bancos portugueses (Banco Português de Negócios (BPN) e Banco Privado Português (BPP)) tinham acumulado prejuízos ao longo de anos devido a maus investimentos, desvios e fraude contabilística. O caso do BPN foi particularmente grave devido à sua dimensão e às ramificações políticas — o então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e figuras do seu espaço político mantinham relações pessoais e de negócios com o banco e com o seu presidente, José Oliveira e Costa, que acabou detido e condenado por fraude e outros crimes. Para evitar um colapso sistémico no setor financeiro, o Governo português decidiu nacionalizar e intervir nas instituições, resultando em elevados custos para os contribuintes.
Nas primeiras semanas de 2010, a ansiedade em relação aos níveis de dívida de alguns países da UE alastrou-se da Irlanda e Grécia para Portugal, Espanha e Itália. Na imprensa económica internacional, o acrónimo PIIGS passou a ser utilizado para referir estas economias sob pressão.
Alguns decisores alemães chegaram a defender que a concessão de apoios financeiros de emergência aos países em dificuldades deveria ser acompanhada de pesadas sanções e condicionalismos.
Robert Fishman, num artigo do The New York Times, assinalou que Portugal foi vítima de sucessivas vagas de especulação por parte de negociadores de dívida, agências de notação financeira e especuladores.Portugal’s Unnecessary Bailout – The New York Times No primeiro trimestre de 2010, antes do pico da pressão dos mercados, Portugal apresentava taxas de recuperação económica positivas dentro da UE. No entanto, os problemas acumulados ao longo de anos — como o aumento de encargos públicos, endividamento e má gestão de fundos estruturais — deixaram o país vulnerável. Instituições como a OCDE, o FMI e a União Europeia teciam críticas contínuas às regras do mercado de trabalho português e à eficiência da despesa pública.
No verão de 2010, a agência Moody's cortou a nota da dívida soberana de Portugal de Aa2 para A1.Notação de crédito Devido aos gastos com medidas de estímulo e à descida do PIB, o rácio da dívida aumentou substancialmente, o que levou a agência a alertar para o peso dos juros nas finanças públicas.BBC News - Moody's downgrades Portugal debt
Medidas de austeridade e pressão sobre a dívida pública