miniaturadaimagem|Em Roma antiga, a escola filosófica mais popular e divulgada foi o estoicismo

A filosofia helenística estende-se, em um primeiro momento, da morte de Alexandre () ao fim da República Romana e coroação de Augusto como imperador romano (31 a.C.), portanto durante aquilo que historiadores da cultura convencionaram como helenismo. As correntes formadas neste período, todavia, influenciam vastamente a filosofia posterior, permitindo considerar-se como filosofia helenística muito da filosofia ocidental que se estende até o , como o posterior neoplatonismo.Chauí, 2010, p. 14

Filosofia de uma nova época A partir do processo histórico que se formava desde o até o imperialismo ateniense e toda a instabilidade política e econômica posterior,AUSTIN, Michel; VIDAL-NAQUET, Pierre. O tempo das crises. In: Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986. o período de Alexandre, o Grande e o contexto seguinte construíram-se pouco a pouco com novas noções sobre o pertencimento do indivíduo no mundo.FERGUSON, John. Cosmópolis; Pólis. In: A Herança do Helenismo. Lisboa: Verbo, 1973ORRIEUX, Claude; PANTEL, Pauline Schmitt. L'époque hellénistique. In: Histoire grecque. Paris: PUF, 2004. Nesse contexto, diferente da Grécia Antiga, o pensamento foi gradativamente alterando-se, sofrendo até mesmo influências das religiões orientais, criando-se uma lógica de cosmopolitismo - em outras palavras, de uma universalidade do pensamento humano,"Os helenísticos conseguiram o que os sofistas não conseguiram: a popularização da filosofia." (Chauí, 2010, p. 36) aplicável a todos os indivíduos. Sendo assim, não teria mais como base as restrições existentes do referencial da pólis, naturalmente um conceito restritivo, pois fechada em si, autônoma, mesmo que conectada a outras.Chauí, 2010, p. 19-20

A princípio, as correntes que compõem a filosofia helenística compartilham uma oposição intensa à filosofia clássica, platônica e aristotélica, mesmo possuindo em suas bases pontos fortemente clássicos. Destacam-se as ideias de que ética e física, sobretudo para estoicos e epicuristas, apoiavam uma à outra, sendo indivisíveis para que seu conhecimento fosse perfeito; um forte materialismo, recusando-se à transcendência - forte, por exemplo, no pensamento aristotélico, embora este materialismo não se aplique exatamente a todas as correntes (como a dos neoplatônicos); as formas sistemáticas que tornam as correntes filosóficas em doutrinas, firmes em suas verdades, sendo que estas articulam os saberes da física, da ética e da lógica;"(...)cada sistema apresenta-se como conjunto articulado de verdades, constituindo uma totalidade coerente e autossuficiente. Daí, pouco a pouco, o ensino das doutrinas tende a ser mais importante do que novas investigações que, embora realizadas continuamente, são consideradas acréscimos ao corpo doutrinário e não refutações ou inovações." (Chauí, 2010, p. 16) a noção de que cabia ao estudo da filosofia a função de estabelecer caminhos (condutas) capazes de conduzir à felicidade, a chamada "medicina da alma"."Assim, malgrado as diferenças, pode-se, finalmente, apontar como traço comum às escolas helenísticas o racionalismo ético ou a convicção de que é possível definir regras racionais universais para a conduta humana cuja exemplaridade é oferecida pela figura do filósofo como sábio ou homem virtuoso que não se deixa corromper pela boa fortuna nem abater-se pelo infortúnio, capaz de ensinar aos outros o caminho da vida feliz, fazendo da filosofia uma sabedoria de vida." (Chauí, 2010, p. 17)

Há, por fim, uma crítica à entrega das paixões, capazes de conduzir a uma dilaceração da alma, sendo a filosofia, o melhor caminho, a verdadeira terapia da felicidade. Estuda-se as paixões para reconhecer seus malefícios e buscar expurgá-las, a começar pelo desejo de possuir objetos ou outros indivíduos; valoriza-se o logos e aquilo que depende apenas do indivíduo em sua busca por felicidade."(...) não se submeter ao páthos, mas buscar a apathéia, graças à qual se chega à ataraxía, isto é, à ausência total de perturbação. Alcançar essa serenidade ou essa tranquilidade de espírito é a verdadeira felicidade ou beatitude." (Chauí, 2010, p. 18)

Escolas helenísticas Ceticismo

thumb|Pirro de Élis, imagem retratando uma anedota contada por Sexto Empírico. Ao alcançar a ataraxía, o filósofo manter-se-ia sereno e impassível

O ceticismo caracterizou-se como uma corrente de pensamento que surgiu primeiramente com Pirro de Élis, contemporâneo de Alexandre. Denominada de pirronismo, é a primeira filosofia cética e é considerada a mais radical.Abbagnano, 2014, p. 891 Tem como uma de suas características principais o natural impedimento do dogmatismo, uma vez que é ideal ao filósofo abster-se de juízo, ou seja, manter um constante estado de dúvida para com verdades possíveis, impedindo-as de serem naturalizadas, ou até mesmo possíveis em sua existência.Chauí, 2010, p. 57-59 Além disso, o filósofo cético, especialmente o que estiver diretamente ligado ao Pirronismo, deveria ter outras três qualidades: ser “incapaz de falar”, com isso incapaz de sentenciar uma “verdade”; ser desprendido de paixões, assim não sendo guiado, e retirado de sua serenidade por ilusões dos sentidos; e por fim ser sereno, livre da confusão do mundo. Este último conceito, porém, exige uma explicação melhor: a indiferença (1ª qualidade) e a insensibilidade (2ª qualidade) garantiriam um estado de tranquilidade mental sem a necessidade de constantes formulações intelectuais e afetivas e, assim sendo, o filósofo manteria sua felicidade, consciente da ausência de respostas e livre da constante tensão que seria a busca pela verdade.Chauí, 2010, p. 59-60

Pirro fez parte da expedição de Alexandre pela Ásia e entrou em contato com algumas correntes de pensamento orientais. Uma possível influência dos gimnosofistas indianos permitiu o desenvolvimento da filosofia de Pirro, mas este também articulou saberes provenientes de correntes do pensamento megárico, cínico e democriteano. Aqui a ataraxía, essa serenidade ideal do filósofo, estabelece-se graças ao vazio interior de representações enquanto se mantém e aceita a dúvida, conceito permitido pela influência oriental.Chauí, 2010, p. 53-54 Sobre as origens, também se considera o pensamento megárico como o precursor ocidental mais antigo,Abbagnano, 2014, p. 152 aqui sempre considerando que é de vital importância a ideia de que não se possa arbitrar entre verdade ou falsidade em determinado questionamento. Os megáricos já refletiam sobre isso: vê-se aqui um exemplo do enraizamento das filosofias helenísticas em filosofias anteriores, mesmo que sejam conflitantes e opostas, uma vez que sejam filosofias de contextos diferenciados.

Outros filósofos continuaram o pensamento cético, embora alguns destes tenham considerado o ceticismo de forma diferente, como os da chamada terceira Academia, que teve como representante inicial Carnéades de Cirene no . Houve ainda alguns pensadores viventes da era cristã que retomaram o ceticismo mais rigoroso, entre eles Sexto Empírico, do .Abbagnano, 2014, p.151 Definir o ceticismo como escola pode ser algo controverso, uma vez que ele rejeita o dogmatismo - o próprio Sexto Empírico comenta que o ceticismo apenas teria uma escola enquanto fosse conduta de vida, e não mera instituição enraizada em um dogma.Chauí, 2010, p. 46

Representantes Pirro (360 – a. ) Tímon (325 – ) Arcesilau (316 – ) Carnéades (a. 214 – ) Enesidemo () Agripa ( – I) Sexto Empírico (160 – 210 a.C.)

Epicurismo miniaturadaimagem|Epicuro de Samos O epicurismo surge como uma doutrina diferenciada, em um contexto em que a filosofia costumava preocupar-se com os aspectos subjetivos e mais abstratos. Epicuro rejeita qualquer conhecimento que provenha de algo transcendente aos sentidos e afirma que a felicidade está ao alcance do homem através dessa filosofia voltada à verdade, distanciada do divino e ligada a uma noção mecânica do universo. Epicuro teria nascido em meio à cultura ateniense - assim, sua filosofia pode ser entendida como essencialmente grega.Petit, 1987, p. 93 Existiriam no epicurismo três características básicas: um atomismo descendente de Demócrito, que permitiria a Epicuro explicar que o universo era formulado em princípio pela matéria (além de uma outra realidade, invisível, intangível) e que a alma seria mortal; a crença na indiferença dos deuses, posto que existiriam mas, uma vez que teriam atingido a felicidade, não viveriam com o propósito de dar forma ou reger o universo; e uma noção fixa acerca dos sentidos, considerando-os verdadeiros caminhos para a compreensão da verdade e o alcance do bem, sendo o bem aqui entendido por prazer.Abbagnano, 2014, p. 390 Esse prazer seria, em última instância, a ausência de perturbação, ou seja, a ataraxía. A verdade traduzida por aquilo que estava ao alcance do homem seria, então, o caminho para a felicidade e para a liberdade.

As noções acerca da física dentro da filosofia de Epicuro, sobretudo o atomismo, estão dispostas de modo a se considerar a ideia de criação como tola, uma vez que não haveria o que criasse o fator criador. Em outras palavras, não seria possível que um todo se originasse do nada; logo, seria necessário que algo criasse aquilo que desse origem ao universo.Chauí, 2010, p. 97-98 Posto isso, a reflexão epicurista leva, entre outros pontos, ao fato de que até mesmo a alma poderia morrer, uma vez que sua vida estaria ligada à vida do corpo - aqui fica clara a importância dada aos sentidos. Além disso, a formação e a transformação das coisas (gerando a criação do novo) seria ocasionada pelos movimentos dos átomos: o todo sempre existiu e é composto pelos átomos; a novidade vem apenas da mudança atômica.

Também sua consideração sobre a indiferença dos deuses apresenta-se como, novamente, uma rejeição do transcendente, sendo que seria possível que a relação de Epicuro com o divino e suas considerações sobre este (especialmente em relação à libertação das superstições geradas pela ideia de transcendência) estejam ligadas à sua mãe, a quem o filósofo acompanhava quando jovem ao meio religioso.Chauí, 2010, p. 81

Por fim, o forte apela às sensações como fontes de conhecimento permite uma associação direta entre o bem e o prazer: o bem buscado pelo homem só poderia ser encontrado com auxílio dos sentidos; os sentidos só poderiam encontrar como bem o prazer. Há, certamente, um caráter hedonista em tudo isso, na medida em que o prazer seria o único bem possível de ser alcançado. Tal pensamento já existia desde a Escola cirenaica:Abbagnano, 2014, p. 578 seria sustentando todo esse sistema que o filósofo alcançaria a felicidade, uma vez que estaria livre da tormenta da transcendência e satisfeito com os bens alcançáveis.

O pensamento epicurista se propagou pelo mundo helenístico ao longo do tempo e chegou a Roma, conforme o contato entre as culturas da época crescia e a presença de Roma se fazia mais forte.WALBANK, F. W. La llegada de los romanos. In: El Mundo Helenístico. Madrid: Gredos, 2012. Entre seus representantes no mundo romano, Lucrécio teve seu pensamento muito influenciado por seu momento de vida, o que permitiu uma aceitação à filosofia epicurista.Chauí, 2010, p. 253-254 Teria sido um dos filósofos que melhor aderiu ao epicurismoChauí, 2010, p. 253 e sua obra teria expandido as noções epicuristas.

Representantes Epicuro (ca. 341– ca. ) Metrodoro de Lâmpsaco (ca 331/330 – ca. ) Colotes (ca. 320– ca. ) Leontina () Carneisco () Rabírio () Zenão (ca. 150 – ca. ) Filodemo (ca. 110 – ca. ) Lucrécio (ca. 99 – ca. )

Estoicismo miniaturadaimagem|Zenão de Cítio