Dom Martinho da Costa Lopes (Laleia, concelho de Manatuto, Timor português, 11 de novembro de 1918 — Lisboa, Hospital de Egas Moniz, 27 de fevereiro de 1991) foi um defensor intransigente do povo de Timor-Leste. Na entrevista que ele deu a António Cadavez do Diário de Notícias, em 3 de julho de 1983, respondeu: "foi a minha missão defender este povo pobre, marginalizado e sofredor"."É natural que os indonésios me considerem 'persona non grata'", Diário de Notícias, ano 119, n.º 41.757 (3 de julho de 1983), p. 38.

Biografia Frequentou durante os anos de 1935 a 1938 o Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima, em Soibada, matriculando-se nas aulas de Latim, Português, Francês e História Universal. Em 5 de janeiro de 1939 parte para Macau a fim de prosseguir os seus estudos no Seminário de S. José, de Macau, aonde chegou a 24 do mesmo mês. Terminado o curso preparatório e humanístico, ingressa no Seminário Maior.

Em 1941 cursou Filosofia I, Ciências Físico-Químicas e Matemática, ficando aprovado com dezassete (17), dezasseis (16) e dezassete (17) valores, respetivamente. Em 1942 frequentou Filosofia II, Inglês e Ciências - História Natural - tendo sido aprovado nas duas primeiras com dezoito (18) e na última com dezassete (17). Em 1943, iniciou o curso teológico: Dogma I, Direito Canónico, Liturgia e Canto Gregoriano, tendo ficado aprovado nas duas primeiras cadeiras com dezassete (17) e nas restantes com dezasseis (16) valores. Em 1944 tirou a Dogma II, Moral I e a Sagrada Escritura, tendo sido aprovado em todas as cadeiras que frequentou com dezoito (18) valores. Em 1945, Dogma III, Moral II e Direito Canóníco II, ficando aprovado nas três primeiras com dezoito (18) e na última com dezasseis(16) valores. Em 1946, finalmente, conclui o Dogma IV, Moral III e História Eclesiástica, tendo ficado aprovado, respetivamente, com dezasseis (16), dezanove (19) e dezassete (17) valores.

Findo o curso teológico, regressou a Timor português em 1 de setembro de 1946, estagiando como Professor no Colégio de S. Francisco Xavier e no Colégio-Liceu Dr. Francisco Machado.

Ordenado Presbítero em 18 de abril de 1948, partiu para a Missão de Bobonaro, daqui seguindo para a Maliana, onde organização e estruturou o regime de internato do Colégio de Maliana.Padre Manuel Teixeira (1974), Macau e a sua Diocese: Missões de Timor, Macau, Tipografia da Missão do Padroado, p. 493.

Tomou conta das cristandades da Maliana, Cailaco, Atabase, Batugadé e Balibó.

Em setembro de 1951, transferido para Díli e colocado no Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima, em Daré, como Professor, Ecónomo e Prefeito de Disciplina.

Em 31 de janeiro de 1954, exonerado de cargo de Professor e Ecônomo do Seminário e nomeado, interinamente, Procurador, em Díli, das Missões e Missionários da Diocese.

Em 27 de maio de 1954 é exonerado do cargo do Procurador das Missões e Missionários da Diocese e nomeado Vigário Cooperador da Missão de Baucau.

Em 10 de setembro de 1955, exonerado do cargo de Vigário Cooperador da Missão de Baucau e nomeado, de novo, Professor do Seminário de Nossa Senhora de Fátima de Daré, lecionando várias disciplinas, nomeadamente, as de Latim III e IV, fundando e orientado a revista, em latim, intitulada Avete Juvenes! (Todos saúdam os jovens!).

Em 4 de novembro de 1957, foi eleito Deputado por Timor, tendo tomando parte no dia 25 do mesmo mês na VII legislatura da Assembleia Nacional.app.parlamento.pt/PublicacoesOnLine/.../lopes_martinho_da_costa.pdf. Teve um trabalho parlamentar extremamente alto.Pedro Aires de Oliveira, "LOPES, Martinho da Costa (1918-1991)", Dicionário Biográfico Parlamentar, 1935-1974, A-L, Manuel Braga da Cruz, et al., Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais e a Assembleia da República, pp. 856-857. Entretanto, o governador Filipe Themudo Barata, que esteve entre 1959 a 1963, foi-se avistar com o Bispo de Díli, "D. Jaime diz-me que a não concede".Filipe Themudo Barata (1998), Timor Contemporâneo: Da primeira ameaça da Indonésia ao nascer de uma nação, Lisboa, Equilíbrio Editorial, p. 128. Tendo regressado a Timor português findo o mandato, foi nomeado Superior da Missão de Suai, em 26 de agosto de 1961.

Em 14 de agosto de 1963, foi exonerado do cargo de Superior da Suai e nomeado diretor do Colégio "Bispo Medeiros".

De 1964 a 1968 fazia parte parte do Conselho de Governo e era membro eleito do Conselho Legislativo de Timor português.

Em 3 de julho de 1965 é exonerado do cargo do Colégio "Bispo Medeiros" e nomeado, pouco depois, Superior da Missão de Liquiçá.

Em 17 de janeiro de 1969 é exonerado do cargo de Superior da Missão de Liquiçá e nomeado Superior da Missão de Ossu e diretor do Colégio masculino de Santa Teresinha da mesma Missão.Padre Manuel Teixeira (1974), Macau e a sua Diocese: Missões de Timor, Macau, Tipografia da Missão do Padroado, p. 494.

Formação académica e eclesiástica Foi nomeado Chanceler e Procurador Geral da Diocese de Díli, em 15 de agosto de 1972. Cerca de dois meses depois, tornou-se o diretor do jornal diocesano a Seara. Mas no ano seguinte, no dia 28 de março de 1973 o Seara foi encerrada, por uma decisão do Bispo de Díli, D. José Joaquim Ribeiro "por conveniências, mandamos que seja suspensas, temporariamente a publicação do Seara e que seja avisados deste fato os seus leitores"."Despacho", Seara: Suplemento Quinzenal do "Boletim Eclesiástico da Diocese de Díli", ano 8, 4.ª série, n.º 245 (24 de março de 1973), p. 1.

Em 3 de outubro de 1975 foi nomeado Vigário-Geral da Diocese de Díli, sendo o Bispo de Díli, D. José Joaquim Ribeiro, num período de grande volatilidade política. Quando as tropas indonésias desembarcaram em Díli, no dia 7 de dezembro de 1975, a igreja vai tornar-se no grande defensor do povo timorense.

Quando mais tarde, perturbado pelos assassinatos em massa dos timorenses, o Bispo de Díli, D. José Joaquim Ribeiro pediu o seu afastamento em maio de 1977. Mas teve que esperar até 22 de outubro de 1977, quando lhe foi dada a sua resignação.

Administrador Apostólico de Díli A sua posição foi ocupada por D. Martinho da Costa Lopes, que tinha sido o número dois proposto pelo Bispo de Díli, D. José Joaquim Ribeiro, no dia 23 de outubro de 1977, que aos 58 anos de idade se tornou Administrador Apostólico da Diocese de Díli com dignidade episcopal, o que significa que ele exercia funções de bispo, mas sem ter sido consagrado bispo (não recebeu a ordenação episcopal), respondendo diretamente perante o Papa João Paulo II. Na opinião dos padres João Felgueiras, S.J., e José Alves Martins, S.J.: "Mons. Martinho da Costa Lopes vivia profundamente o drama da situação do povo, de que se inteirava quando visitava as várias regiões de Timor, constatando a situação de prisioneiros em que vivia a população".João Felgueiras, S.J., e José Alves Martins, S.J., (2010), Nossas Memórias de Vida em Timor, Braga, Editorial A.O., p. 95. Todavia, "afastado de radicalismo, em muitos aspetos D. Martinho um conservador da velha guarda. Como o seu antigo chefe, o bispo Ribeiro, estava preparado para aceitar os Indonésios caso estes tivessem revelado um comportamento decente".Arnold S. Kohen, (1999) D. Ximenes Belo - Por Timor, Lisboa, Editorial Notícias, p. 131.

Em junho de 1981, o Administrador Apostólico foi diretamente ao presidente indonésio, Suharto, em Jacarta, e apresentou três exigências para uma investigação sobre o caso de Timor-Leste. Primeiro, os fundos do governo central da indonésia não estava sendo recebido pelo povo de Timor-Leste. Uma fonte anónima sugeriu que até 90% da dotação inicial desaparece. Segundo, algumas infiltrações de grupos radicais e disruptivas na TNI de Timor-Leste que não têm interesse do povo no coração. Terceiro, a situação de Timor-Leste pode ser considerado um genocídio sistemático do povo timorense pelo exército.Document no. 16 - A compilation of views on Mons. Lopes from people who know him well. Intended as a background document only (4. pp.) in Dossier on East Timor - March 1982: A Collection of Material Gathered in Indonesia during March 1982, Timor Information Services, pp. 26/5. A partir desta data, começou a perseguição do D. Martinho da Costa Lopes. No mês seguinte, o Núncio Apostólico em Jacarta, Pablo Puente Buces, foi a Timor-Leste e parecia que ele estava ao lado das Forças Armadas da Indonésia, rejeitando o que Mons. Martinho da Costa Lopes tinha para dizer.Ibid., p. 27/5.

Em agosto de 1981, o ministro indonésio da Defesa e Segurança, general Mohammad Jusuf, mais os generais Ali Murtopo e o Dading Kalbuadi, convocaram o monsenhor D. Martinho da Costa Lopes para ir ao Aeroporto Internacional de Baucau. Durante a conversa que mantiveram, o ministro acusou de que ele "andava a acusar os militares de massacrar o povo de Timor-Leste, é verdade?". A resposta foi sim.

Mas a suas denúncias não se ficaram por aqui. D. Martinho da Costa Lopes, no dia 13 de outubro de 1982, ele proferiu uma homilia junto ao monumento consagrado a Virgem e perante uma numerosa assistência de 12 a 15 mil pessoas, julgou que: "oportuno denunciar, pela primeira vez, a morte, relativamente recente, ocorrida em setembro de 1981, de 500 timorenses que, apenas rendidos, foram cruelmente trucidados na cerca de Santo Antônio de Lacluta, de mulheres grávidas deventravas, cujos bebés nascituros 'eram' arrancados com violência, do útero materno, foram esborrachados contra as rochas e, finalmente, dos que forçados a integrar-se em operações militares, sem armas, sem comida, sem assistência médica e sem transportes, morreram na berma das estadas estradas, a fome, ao abandono e a ralante...""Curriculum Vitae de D. Martinho da Costa Lopes, Arquivo e Museu da Resistência Timorense. procissão em honra de N.ª Sr.ª de Fátima, em Díli, exigiu das autoridades indonésias o respeito dos direitos humanos dos timorenses. Ele narra os acontecimentos relacionados com 500 timorenses que haviam sido mortos e denunciou vigorosamente os crimes do ocupante indonésio, sendo nesse mesmo dia interpelado pela INTEL. Após o encontro com as forças de ocupação da indonésia, vai culminar no seu afastamento de Administrador da Diocese de Díli.

No dia 19 de novembro de 1981, é recebido pelo presidente da Indonésia, Suharto, e também é recebido pela Conferência Episcopal da Indonésia e denuncia as atrocidades das Forças Armadas da Indonésia.

No dia 2 de maio de 1983, um grupo de católicos de Timor-Leste enviou ao cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado da Santa Sé, em que propunha "que, se não fosse os condicionalismos e implicações criadas por esta guerra interminável, atrever-se-iam mesmo a solicitar a escolha e nomeação do Monsenhor D. Martinho da Costa Lopes para Bispo residencial da sua Diocese".Abaixo-assinado de cristãos timorenses não identificados solicitando à Santa Sé a continuação de D. Martinho da Costa Lopes com Administrador Apostólico da Diocese de Díli, ao Cardeal do Secretário de Estado de Sua Santidade, 2 de maio de 1983 Finalmente, foi demitido a 12 de maio de 1983.

Administrador Apostólico emérito Deixou Timor-Leste a 17 de maio de 1983 e rumou a Roma, onde teve uma reunião com o Papa João Paulo II, o Secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Agostino Casaroli, e o cardeal brasileiro-italiano Agnelo Rossi, que era Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos. Aliás sobre o último, "foi aconselhado pelo prefeito da Congregação dos Povos, o cardeal brasileiro Agnelo Rossi, a apresentar a sua resignação".Dom Carlos Filipe Ximenes Belo (2016), História da Igreja em Timor-Leste: 450 de Evangelização, 2.º volume, 1940-2012, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, p. 252.