Body Count é o álbum de estreia homónimo da banda norte-americana de heavy metal Body Count. Editado em 1992, o material do disco foca-se em temas sociais e políticos como a violência policial, o racismo e o abuso das drogas. O projeto representa o ponto de viragem na carreira de Ice-T, que para além de ser o vocalista do grupo, escreveu as canções juntamente com o guitarrista Ernie C. Conhecido apenas como um rapper, o trabalho do músico com o conjunto ajudou a estabelecer uma audiência crossover com os fãs de música rock. As canções "There Goes The Neighborhood" e "The Winner Loses" foram lançadas como singles, ambas com vídeos musicais.

Body Count tornou-se muito conhecida pela inclusão da canção "Cop Killer", que foi na altura objecto de muita controvérsia e de criticas por várias figuras políticas, apesar de muitos defenderem o direito da banda à liberdade de expressão. Apesar de ser tocada ao vivo e do apoio das companhias Sire e Warner Bros. Records, Ice-T eventualmente acabou por retirar a canção do álbum por considerar que a controvérsia por si só tinha eclipsado o mérito da música.

Body Count recebeu criticas polarizadas, no entanto, foi colocado na lista da Village Voice como um dos 40 Melhores Álbuns de 1992, e atingiu o pico máximo na posição 26 na tabela Billboard 200. Acredita-se que ajudou a pavimentar o caminho para o sucesso mainstream do género rapcore, isto apesar do próprio álbum não ter incluído nenhum elemento de rap nas suas canções.

Concepção Apesar de na altura Ice-T ser conhecido principalmente pelo seu trabalho dentro do género hip hop, há muito tempo que este era fã dos vários géneros de rock, e como tal usava várias vezes amostras de Jimi Hendrix, Black Sabbath, Led Zeppelin, entre outros, nas suas canções. Ice-T formou Body Count sem interesse próprio. A banda tinha músicos que este conhecia da Escola Crenshaw High. Ice-T refere que "Não queríamos formar um grupo de R&B. [...] Onde íamos buscar a raiva e a ira para atacarmos com isso? [...] Body Count tinha de ser uma banda de rock. O nome por si só nega a banda de ser do estilo R&B."

Ice-T escreveu as canções com o guitarrista Ernie C, e ficou com o papel de vocalista principal. Ice-T lembra que "Eu sabia que não conseguia cantar, mas depois pensei, 'quem consegue no rock 'n' roll?'" Para além de Ice-T e Ernie C, o alinhamento original consistia em Mooseman no baixo, Beatmaster V na bateria e D-Roc "The Executioner" na guitarra ritmo. De acordo com Ice-T, "Demos o nome Body Count ao grupo porque todos os Domingos à noite em L.A., via as noticias e os apresentadores coadunavam-se com o numero de jovens mortos em homicídios de gangs durante aquela semana, e de seguida passavam para o desporto. 'É tudo o que sou,' pensei, 'uma contagem de corpos (Body count)?'"

Ice-T apresentou a banda em 1991 no festival Lollapalooza. Metade do espectáculo foi para as suas canções de hip hop, e a outra metade para as de Body Count, aumentando o seu apelo para com os fãs de rock alternativo e os adolescentes de classe média. Muitos consideravam as actuações de Body Count como os pontos altos da digressão. O grupo apareceu a primeira vez num álbum de Ice-T, O.G. Original Gangster, de 1991. A canção "Body Count" foi precedida por uma entrevista em que o artista se refere ao grupo com sendo "uma banda de hardcore preto," afirmando que "tanto quanto eu estou preocupado, música é música. Não o vejo como rock, R & B, ou todo esse tipo de coisas. Apenas o vejo como música. [...] Faço o que eu gosto e acontece que gosto de rock 'n' roll, e sinto pena por alguém que só ouve um tipo de música."Ice-T (1991). "Body Count". O.G. Original Gangster. Sire/Warner Bros. Records. ISBN 7-5992-6492-2

As gravações de Body Count decorreram entre setembro e dezembro de 1991. O álbum foi editado a 31 de março de 1992 em disco compacto, vinil e cassete de audio. Ice-T refere que Body Count foi feito intencionalmente de maneira diferente dos seus álbuns de hip hop, explicando que "Um álbum de Ice-T tem inteligência, e ignorância por vezes. Às vezes tem raiva, outras vezes tem questões. Body Count tinha a intenção de reflectir apenas raiva. Era suposto ser a voz do irmão revoltado, sem respostas. [...] Se colocas um jovem na prisão com um microfone e lhe perguntares o que ele sente, tens Body Count: 'Que se foda isso. Foda-se a escola. Foda-se a policia.' Não terás inteligência ou compaixão. Terás raiva crua."

As canções "There Goes The Neighborhood" e "The Winner Loses" foram lançadas como singles, ambas com vídeos musicais. enquanto que "Body Count's in the House" fez parte da banda sonora oficial do filme Universal Soldier.

Canções e letras

Ernie C e Ice-T conceberam o álbum com um tom escuro e ameaçador juntamente com letras de temas satânicos, com Black Sabbath em mente. No entanto, Ice-T sentiu que basear as letras na realidade seria mais assustador do que a base fantasista das letras de Black Sabbath; o desenho interno do álbum mostra um homem com uma arma apontada para o rosto do espectador. Ice-T diz que "Para nós aquilo era o demónio [...] o que há de mais assustador que [...] um gangster a apontar-nos uma arma?". Ice-T definiu que o resultado da mistura entre o heavy metal e letras realistas foi "um álbum de rock com mentalidade de rap." O estilo musical do álbum é essencialmente descrito como speed metal e thrash metal. Jon Pareles do The New York Times escreveu que com Body Count, Ice-T "reconheceu um parentesco entre seus raps de gangster e o post-punk, hard-core rock, ambos quebram tabus para excitar os fãs. Mas onde o público principal do rap está, presumivelmente, no interior da cidade, o hard-core apela principalmente para os suburbanos que procuram emoções mais fortes do que aquelas que podem obter a partir da Nintendo ou de um centro comercial local."

Apesar dos esforços de Ice-T para diferenciar Body Count dos seus trabalhos de hip hop, a imprensa focou-se na imagem rap do grupo. Ice-T sentiu que os políticos tinham intencionalmente referido a canção "Cop Killer" como rap, para provocar criticas negativas. "É impossível ouvir a canção 'Cop Killer' e chamá-la de rap. É muito longe de rap. Mas, politicamente, eles sabiam que ao dizer a palavra rap chegavam a muita gente que pensa, 'Rap-preto-rap-preto-ghetto,' e não gostavam. Se disseres rock, as pessoas dizem, 'Oh, até gosto de Jefferson Airplane, de Fleetwood Mac — isso é rock.' Não querem usar a palavra rock & roll para descrever esta canção."

Dá-se muito crédito a Body Count por ter sido pioneiro no género rap metal, popularizado por grupos como Rage Against the Machine e Limp Bizkit, isto apesar de Ice-T não fazer rap em nenhuma das canções do álbum. Ernie C afirmou que "Muitos rappers gostariam de estar numa banda de rock, mas tem de ser feito com sinceridade. Não podes pôr qualquer um numa guitarra e esperar que funcione. [...] [Nós] amava-mos a música que fazíamos, e apareceu."

Temas das composições Tal como os álbuns de rap de Ice-T, Body Count foca-se em vários temas sociais e políticos, com as canções a falarem de tópicos que vão desde a violência policial ao abuso das drogas. De acordo com Ernie C, "Toda a gente escreve sobre aquilo que aprendeu à medida que cresce, e aqui não há excepção. Como os The Beach Boys cantam sobre a praia, nós cantamos sobre como foi o nosso crescimento." Ice-T diz que "Body Count foi um álbum de raiva. Foi feito para ser um disco de protesto. Coloquei lá a minha raiva, enquanto misturava com humor negro." A faixa inicial, "Smoked Pork", é uma introdução falada e mostra Ice-T a fazer o papel de um motorista perdido e de um policia que se recusa a ajudá-lo, dizendo-lhe "meu trabalho é comer estes donuts". Quando o policia reconhece o motorista, são ouvidos tiros. A voz final da faixa é a do motorista a confirmar a sua identidade.Body Count (1992). "Smoked Pork". Body Count. Sire/Warner Bros. Records. ISBN 7-5992-6878-2

Nas letras de "KKK Bitch", Ice-T descreve um encontro sexual com uma mulher que mais tarde vem a descobrir ser a filha de um Grande Mestre do Ku Klux Klan. As letras continuam a descrever um cenário em que os membros de Body Count "destroem" um encontro dos Klan para "ficarem extremamente zangados com os brancos doidos". Ice-T faz inúmeras referências humorísticas a "[cair] em amor com as sobrinhas de doze anos de Tipper Gore", e coloca a possibilidade do Grande Mestre o perseguir "depois de o neto ficar com o nome de pequeno Ice-T."Body Count (1992). Body Count. Lyrics sheet. Sire/Warner Bros. Records. ISBN 7-5992-6878-2 Em The Ice Opinion: Who Gives a Fuck?, Ice-T escreveu que "'KKK Bitch era irónico porque os sentimentos eram verdadeiros. Tínhamos tocado no Sul, em algumas áreas do Ku Klux Klan, e as raparigas vinham sempre aos bastidores dizer-nos que os seus pais e os seus irmãos não gostavam de homens negros. [...] Sabíamos que 'KKK Bitch' iria zangar o Ku Klux Klan. Existe humor na canção, mas mexe bem com eles. É uma ponta de punk." miniaturadaimagem|265px|left|A canção "Cop Killer" foi escrita em 1990, e desde então tem sido tema recorrente nos espectáculos da banda. "Voodoo" descreve um encontro fictício entre Ice-T e uma idosa com um boneco de voodoo. "The Winner Loses" descreve a queda de um utilizador de cocaína crack. "There Goes the Neighborhood" é uma resposta sarcástica aos críticos de Body Count, cantada do ponto de vista do racista branco que se questiona "Não sabem eles que rock é só para os brancos? / Não conhecem as regras? / Aqueles pretos são muito hardcore / Esta merda não é boa." Para o vídeo da música, a palavra "nigger" (preto) foi substituída por "rapazes negros". O vídeo da música acaba com um músico negro a plantar uma guitarra eléctrica no chão e logo de seguida ateia-lhe fogo. A imagem final é similar a uma cruz em fogo.Body Count (1992). "There Goes The Neighborhood". Music video. Body Count. Sire/Warner Bros. Records. ISBN 7-5992-6878-2

"Evil Dick" foca-se na promiscuidade masculina. As letras descrevem um homem casado que partiu em busca de mulheres estranhas, isto depois dos seu "pénis demoníaco" (Evil Dick) lhe dizer "Não durmas só, não durmas só." "Momma's Gotta Die Tonight" conta a história de um adolescente negro que mata e desmembra a sua mãe racista depois desta ter reagido negativamente quando ele trouxe uma rapariga branca para casa. Em The Ice Opinion: Who Gives a Fuck?, Ice-T escreve que as letras são metafóricas, explicando que "Quem ainda perpetua o racismo tem que morrer, não necessariamente fisicamente, mas tem que se matar essa parte do cérebro. A partir de agora, é considerá-lo morto. Toda a atitude está morta."

Ice-T refere-se à última faixa do álbum, "Cop Killer", como uma canção de protesto, dizendo que a canção "[cantada] na primeira pessoa por alguém que está farto de brutalidade policial." A canção foi escrita em 1990, e desde então tem sido tema recorrente nos espectáculos da banda, incluindo em Lollapalooza, em 1991, ainda antes desta ter sido gravada em estúdio. A versão do álbum menciona o então policia Daryl Gates e o motorista negro Rodney King, que foi espancado por oficiais da Policia de Los Angeles, evento esse gravado em vídeo. Em The Ice Opinion: Who Gives a Fuck?, Ice-T escreve que a canção "[é] um aviso, não uma ameaça à autoridade que diz, 'Yo, policia: Somos humanos. Tratem-nos de acordo.'" Numa entrevista à Rolling Stone, Ice-T diz que "Tínhamos estado a celebrar o quatro de julho, o que é realmente apenas o dia nacional do Foda para a Policia [...] Aposto que durante a Guerra da Revolução, ouve canções similares à minha."

Lançamento e recepção

As cópias iniciais do álbum estavam dentro de um saco preto de corpos, um mecanismo de promoção que levantou pequenas criticas. O álbum estreou-se na posição 32.ª da lista Top 50 da revista Billboard, alcançando o máximo na posição 26 no Billboard 200. De acordo com a revista Variety, em Janeiro de 1993, já tinham sido vendidas cópias de Body Count.