O Corpus hippocraticum (do latim: Coleção hipocrática) é uma coletânea de cerca de 60 tratados principalmente do início da Grécia Clássica que embora tenha muitas vezes sua autoria vinculada a Hipócrates de Cós, em seu conjunto não pode ser atribuído a nenhum autor específico. A obra é considerada um esforço coletivo que engloba grande diversidade filosófica e pluralidade de práticas médicas de variados autores gregos.Cairus, 2005 p. 25-26 Essa diversidade contribuiu para que o Corpus Hippocraticum fosse interpretado por meio de múltiplas perspectivas.Rebollo, 2006 p. 45  Os tratados mais antigos da coleção hipocrática são datados, aproximadamente, de 450 a , enquanto os mais novos seriam dos séculos IV e .Rebollo, 2006 p. 47 A coleção de aproximadamente 60 livros escrita no dialeto jônicoRebollo, 2006 p. 50 foi inicialmente compilada e catalogada pela escola médica de Alexandria, durante o período helenístico.Rebollo, 2006 p. 48

Origem: autoria e história da publicação Além de tratados médicos, o Corpus Hippocraticum possui conferências sobre medicina e filosofia, textos para leigos e notas para orientação de alunos de minutas de discursos.Rebeiro Jr., 2000, p.1 Até o foi considerado uma obra básica no ensino da medicina ocidental, e somente as modernas descobertas da ciência do ultrapassaram sua importância nas escolas médicas.Rebollo, 2006, p. 79 Embora a coleção tenha sido tradicionalmente atribuída à Hipócrates de Cós, não é possível afirmar que nenhum dos escritos seja de sua autoria.Cairus, 2005, p. 25-26 Alguns especialistas sugerem que muitos textos do Corpus Hippocraticum foram escritos por Pólibo, seu genro.Rebollo, 2006, p. 64 Os mais antigos textos datam de cerca de , e os mais novos, dos séculos IV e .Rebollo, 2006, p. 47

Conteúdo Lista cronológica de obras Cronologia das obras Obras Segunda metade do Ares, águas e lugares; Sobre a doença sagrada; Prognóstico; Sobre a arte médica Último quarto do Sobre os ventos (gases); Sobre a medicina antiga; Do regime nas doenças agudas Fim do Epidemias, Livros I e III (por volta de 410); Da natureza do homem; Do regime salutar (por volta de 410 - 400) Fim do e começo do Articulações; Fraturas; Da oficina do médico; Sobre as feridas na cabeça; Instrumentos de redução (Mochlique); Da natureza dos ossos; Epidemias II, IV e VI; Dos humores; Sobre o regime; Da geração; Da natureza da criança; Sobre o parto de oito meses e Sobre o parto de sete meses; Da excisão dos fetos (ou Embriotomia); Das doenças femininas I e II; Sobre as mulheres estéreis; Da hiperfertilidade; Da natureza da mulher; Dos músculos; Das feridas; Juramento; Sobre o uso dos líquidos; Das doenças II e III Entre 400 e Das doenças internas Das afecções; Dos remédios; Das doenças I; Aforismos; Das crises 358- Epidemias V e VII; Sobre as fístulas; Da doença das virgens; Sobre as hemorroidas; Dos lugares no homem Época helenística certa ou provável Lei ou mais cedo Sobre os alimentos; Do coração; Sobre as glândulas Época romana e cristã Sobre a anatomia; Sobre a dentição; Sobre o médico; Sobre a decência; Testamento De datação difícil Sobre os dias críticos; SemanasRebollo, 2006, p. 48

Temas gerais das obras No período da Grécia arcaica, os gregos, provavelmente, cuidavam dos doentes com métodos religiosos, pois acreditavam que a doença e a saúde eram responsabilidades dos deuses. O que mantinha vivo um organismo era a energia vital, presente em todas as partes do corpo.Ribeiro, 2000, p.1 A energia vital era mantida por fatores externos ao corpo, ou seja, por alimentos, bebidas e o ar. Posteriormente, durante os séculos VI e ,Chauí, 2002, p. 136-177 desenvolveu-se a teoria de que os componentes do Universo (a água, a terra, o fogo e o ar) e, portanto, do próprio organismo, eram responsáveis pelas características deste e que suas variações quantitativas representavam o “equilíbrio” e o “desequilíbrio”: a saúde e a doença, respectivamente. Durante a Grécia Clássica surgiu entre os filósofos gregos a convicção de que a natureza humana não era exclusivamente dependente dos deuses e que, por esse motivo, era fundamental o conhecimento da essência natural do homem. Os conhecimentos e as doutrinas dos filósofos e dos médicos da Grécia Clássica sobreviveram até hoje, graças, principalmente, à coletânea dos textos hipocráticos da Biblioteca de Alexandria.Barbosa; Lemos, 2007, p. 118 O Corpus Hippocraticum foi de grande importância para a medicina, pois, com a mudança na Grécia do período arcaico para o clássico, surgiu uma grande preocupação com a razão, o que resultou em uma mudança na visão da medicina em si, fazendo o médico desprender-se do divino. Todavia, suas informações são mais detalhadas sobre a ética médica e de como o médico deve agir em suas consultas em prol do seu paciente. A fisiologia e a anatomia humanas foram relacionadas ao de plantas e animais devido a sua similaridade em certos aspectos pelos estudos dos autores hipocráticos.Barbosa; Lemos, 2007, p. 118; Chauí, 2002, p. 153 O corpo humano na época da Grécia antiga não era estudado a fundo, tendo-se assim pouco entendimento. Apenas existem teorias e esquemas que podem ajudar a entender o comportamento sanguíneo e dos humores em meio a uma busca por conhecer melhor internamente o corpo do ser humano.Barbosa; Lemos, 2007, p. 118; Chauí, 2002, p. 158

Teoria dos humores A descoberta mais famosa conhecida sobre os autores hipocráticos passa pela teoria dos quatro humores corporais, conhecidos como: sangue, fleuma, bile negra e bile amarela. O equilíbrio sobre tais humores designavam saúde em uma pessoa, assim como sua instabilidade, a causa de doenças.Boylan, 2009, p.1 Isso foi utilizado como método curativo no período clássico da Grécia, onde teve através do tempo sua consolidação no século de Péricles (444 a ) onde pelo uso ou não uso de certos alimentos ou líquidos, era possível ter uma regulação através da falta ou excesso do mesmo, o que resultava na cura do indivíduo.Chauí, 2002, p. 136; Michael, 2009, p.1 Juntamente de tal conhecimento, os humores estão ligados a um elemento da natureza ou órgão específico e também se diferem um dos outros pela proporção entre os elementos.Chauí, 2002, p. 153; Castro; Fernandes, 2005, p. 803 Como exemplo podemos citar o sangue, que é quente e úmido e tem relação com o ar e coração sendo responsável pela alegria pessoal.Chauí, 2002, p. 153; Michael, 2009, p.1

Principais obras Da natureza do homem O Da natureza do homem é atribuído a Pólibo (genro de Hipócrates) e figura como um dos textos dos quais a autoria é mais precisa, pois Aristóteles cita um trecho da obra em seu História dos Animais, atribuindo-o a Pólibo.Cairus, 2005, p.39 O livro trata principalmente de observações e defende que as doenças não têm uma causa divina, mas sim são causadas pelo desequilíbrio dos quatro humores existentes no corpo humano (sangue, fleuma, bile amarela e bile escura). Ele também recomenda como método de tratamento a sangria, que é a retirada do sangue que estaria causando a doença por estar em excesso. Ele também explica que doenças específicas, como a disenteria, são mais comuns no verão e na primavera pelo sangue estar mais quente nesta época.Cairus, 2005, p. 40 Também afirma que se uma doença começou por uma parte forte do corpo, como o coração e o cérebro, tem mais chances de ser fatal pois conseguirá se espalhar para as partes fracas mais facilmente.Cairus, 2005, p. 41

Ares, Águas e Lugares Ares, águas e lugares é um tratado redigido no contexto das fusões de ideias helênicas na cidade de Atenas, entre elas, ideias médicas.Cairus, 2005, p. 92 A obra é atribuída ao final do . Assim como Sobre a doença sagrada, o texto é permeados por valores empíricos e laicos que opõem-se com as praticas tradicionais mitológicas anteriormente empregadas. O livro apresenta a dieta como forma de restauração do equilíbrio da natureza humana nos casos em que não é possível restringir o contato com o elemento causador do desiquilíbrio.Cairus, 2005, p. 93 Ele também nos mostra os muitos elementos que influenciam na medicina, entre eles estão os fatores geográficos como vento, solos, climas e águas em conjunto com as características humanas, sua tendência para o labor e seus hábitos alimentares.Cairus, 2005, p. 94 A água é considerada parte fundamental para a saúde por mais que algumas variedades também possam transportar conteúdos danosos.Cairus, 2005, p. 98 A mistura de elementos naturais diversos, sejam eles águas provenientes de fontes distintas ou ventos de direções contrárias, levam à enfermidade, devido ao fato dessas variedades não se misturarem e gerarem conflito interno no corpo do indivíduo.Cairus, 2005, p. 101 As mudanças astrais e sazonais eram comumente associadas à modificações patológicas, datas importantes do calendário solar e astral e eram consideradas pontos de mudança do quadro do paciente.Cairus, 2005, p. 103 A hereditariedade de características é conhecida pelo autor e usada para explicar a similaridade entre indivíduos de um mesmo povo.Cairus, 2005, p. 105 Acredita-se que um povo que se assenta em clima ameno e com pouca variação climática entre as estações tenha por consequência aparência e costumes homogeneizados.Cairus, 2005, p. 108 Enquanto isso, climas diversificados levam a uma diversidade populacional.Cairus, 2005, p. 110

O Juramento de Hipócrates O Juramento de Hipócrates é talvez o mais famoso texto de todo o Corpus Hippocraticum por sua utilização como espécie de código de ética médico. Como muitos textos, foi escrito no dialeto jônico, por volta dos séculos V e . O juramento é ainda hoje a base do sistema ético da medicina e uma versão moderna é geralmente usada como parte do rito de passagem do estudante para tornar-se um profissional.Ribeiro, 2005, p. 153 Também não podemos atribuir autoria de forma precisa a ele. O Juramento pode ser dividido em três partes principais: invocação, cláusulas e imprecação.Castro, 2011, p. 802 Na invocação, faz-se um apelo a Apolo, Asclépio, Hígia e Panaceia, divindades associadas com a prática médica, seguida de um apelo aos outros deuses. As cláusulas são compromissos apresentados de forma sequencial, que o médico deve seguir tanto na esfera pessoal quanto profissional. A imprecação trata-se de um termo de punição para aqueles que não seguirem o juramento feito aos deuses, conforme estabelecidos nas cláusulas.Ribeiro, 2005, p. 154

O Juramento:Ribeiro, 2005, p. 151-152

Da doença sagrada Este livro é um dos primeiros relatos sobre a epilepsia, que naquela época foi explicada como um acúmulo da fleuma nas veias próximas ao cérebro.Castro, 2011, p. 805 O autor do livro reitera mais de uma vez que as doenças não têm causa divina, mas sim humana. O autor atesta isso após notar que os tratamentos utilizados, tais como orações e encantamentos, não mostraram efeito. Este pensamento foi fundamental para o desenvolvimento da medicina nos séculos seguintes.Cairus, 2005, p. 64 O autor também diz que quanto mais sangue há no paciente, menos afetado pela doença ele será. O texto também fala sobre a anatomia que se conhecia do corpo e principalmente do cérebro naquela época.Cairus, 2005, p. 65

Do médico Este é um tratado que cita as características éticas do médico e explica diversos métodos terapêuticos, esclarecendo mais detalhadamente o processo cirúrgico, o uso de instrumentos da forma correta e a explicação deles. Fala também do método de cirurgias em meio a guerras e do tratamento de feridas e abscessos.Ribeiro, 2005, p. 190

Do decoro Este livro se dedica a explicar o comportamento correto que um médico deve ter em uma consulta: o texto foi escrito ou no ou IV, e tem possíveis influência da doutrina filosófica do estoicismo. Tendo a sabedoria médica como um dos grandes tópicos, o livro explica a ética médica e a necessidade de uma escolha correta e coerente para um diagnóstico preciso.Ribeiro, 2005, p. 206

A lei