Wanano, guanano, ou kootiria é uma língua pertencente ao tronco tucano ocidental da família linguística tucano, sendo falada por aproximadamente 1600 falantes habitantes das margens do Rio Uaupés nas regiões do noroeste do estado brasileiro do Amazonas e no distrito do sudoeste colombiano de Vaupés. O wanano é considerado uma língua "vulnerável".

A língua é falada pelos grupos étnicos Wanano e Piratapuyo, que não formam laços familiares entre si, entretanto, sua fala é 75% lexicamente similar.

Classificação A família linguística a que o wanano pertence é a família tucana, localizada no noroeste da Amazônia. A família tucana pode ser dividida em dois grupos: línguas tucanas ocidentais e línguas tucanas orientais, com o wanano pertencendo ao grupo das orientais. O grupo ocidental é muito maior que o oriental, contando com 16 línguas e em torno de 28.000 falantes nativos, enquanto que o oriental possui 4 línguas e em torno de 3.000 falantes nativos. A língua wanano pertence ao ramo oriental-norte da família linguística tucano.

História

História antiga Os missionários jesuítas foram os primeiros a chegar na área que hoje é habitada pelos Wanano. No final do século XVIII, eles já haviam estabelecido uma base em São Gabriel da Cachoeira. Expedições missionárias junto com estabelecimento de outras bases foram sendo realizadas até o século XX. Escolas de regime interno foram construídas em assentamentos maiores como em São Gabriel e diversos indígenas foram enviados para estudarem nessas escolas. Os jesuítas costumavam ir até as vilas e encorajar os povos a abandonar suas crenças e a praticar o cristianismo, bem como falar português.

O primeiro registro dos Wanano foi feito pelo naturalista Alfred Wallace durante sua expedição pelo Rio Uaupés em 1852. Mais tarde, em 1904, o etnólogo alemão Theodor Kock-Grünberg conduziu uma pesquisa na região Wanano. Ele observou as interações dos Wanano com os outros grupos indígenas, incluindo cerimônias como danças e práticas funerárias. Um fator que foi observado pela pesquisadora Kristine Stenzel é que os Wanano são amplamente multilíngues.

Projetos de documentação da língua wanano O primeiro trabalho de que se tem notícia sobre a língua wanano foi um retrato gramatical feito por um missionário salesiano chamado Antônio Giacone em 1967. Desde então, muitas pesquisas foram conduzidas na Colômbia por Nathan e Carolyn Waltz em colaboração com a organização SIL entre 1963 e 1996. Esses pesquisadores publicaram uma gramática pedagógica, artigos sobre os aspectos da fonologia wanano, um volume contendo um estudo sobre termos familiares, um esboço gramatical da língua, um longo texto interlinearizado e uma visão geral da língua, encontrado na coleção Caro y Cuervo. Em 2007, Nathan Waltz publicou um dicionário wanano-espanhol. miniaturadaimagem|Mãe indígena wanano amamentando seu filho Mais recentemente, pesquisas relacionadas à língua wanano vem sendo produzidas pela linguista Kristine Stenzel, que vem conduzindo pesquisas no Alto do Rio Negro desde 2000. Ela publicou um livro sobre a gramática de kootiria (wanano) que discute a morfologia e a sintaxe da língua. Junto desse livro, ela escreveu muitos artigos sobre diferentes aspectos da língua wanano e sobre os Wanano.

Wanano também foi descrita em um projeto de documentação linguística fundado pelo Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (ProDocLin) no Museu do Índio. O projeto foi coordenado pela pesquisadora Kristine Stenzel e foi uma oficina de ensino da gramática pedagógica do wanano.

Kristine Stenzel também escreveu artigos relacionados aos aspectos antropológicos dos Wanano, bem como a sua dissertação de 2004, onde ela discute aspectos culturais como casamento e o multilinguismo.

A antropóloga Janet Chernela também estudou a sociedade wanano e publicou um livro chamado "Os índios Wanano da Amazônia Brasileira", que retrata mais profundamente a sociedade wanano.

Etimologia Os Wanano se autodenominam kootiria (povo da água, em tradução direta), um nome que os foi dado pelos Cubeo, um outro povo indígena habitante das margens do Rio Uaupés. miniaturadaimagem|331x331px|Indígenas Kotiria tocam flauta tradicional em aldeia De acordo com o mito da origem dos Wanano, o primeiro Wanano existiu em forma de espírito e morava em uma árvore oca. Certa vez, esse espírito tomou a forma de um homem charmoso e foi a uma cerimônia Cubeo, onde ele encantou as mulheres e as levou de volta para a sua árvore. No próximo dia, os homens Cubeo seguiram a trilha até a árvore e decidiram queimá-la, mas a cada vez que o fogo era aceso, água caía da árvore e apagava as chamas. Então, os Cubeo decidiram que os seres de dentro da árvore seriam chamados de Kootiria, o povo da água. Eventualmente, o fogo conseguiu queimar a árvore e o espírito dos Wanano a deixou, indo, em seguida, viajar até a grande cachoeira em Ipanoré, de onde surgiram todos os povos tucanos. Nessa cachoeira, morava o Grande Espírito Ko'amakʉ, que soprou fumaça no espírito wanano, que então se tornou humano. Depois de todos os grupos terem sido criados, houve uma grande celebração e danças foram dadas para cada um dos grupos, mas o ancestral wanano, Muktiro, ficou com a mais bela das danças e subiu o rio até onde hoje é Caruru. Nas grandes cachoeiras desse lugar, há uma rocha chamada Kumuno Wʉ'ʉ, que significa casa do xamã, Muktiro tomou essa rocha para si e os arredores como moradia para seu povo.

Distribuição geográfica Os Wanano habitam o noroeste da Amazônia, no Rio Uaupés. A diáspora dos Wanano é espalhada entre o Brasil e a Colômbia, com uma população estimada de 1560; destes, 447 habitam o Brasil.

Os Wanano moram em 21 comunidades tradicionais às margens do Rio Uaupés. As comunidades brasileiras, começando com as mais baixas no rio, são: Ilha de Japú (mu nʉko), Cachoeira da Arara (maha poa), Ilha de Inhambú (kha nʉko), Cachoeira do Poraquê (sa'mã wapa), Cachoeira Caruru (mo phoye), Jacaré (soma), Jutica (ñapima), Taína (nihiphoto) e Taracuá (mene koana ñoaka). Todas estão localizadas dentro de áreas de preservação indígena.

As comunidades colombianas, começando com as mais altas no rio, são Ibacaba (ñʉmʉ poa), Matapí (bʉkakopa), Taína Columbia, Igarapé Paca (sama nia phito), Macuco (phota phito), Ananás (sãne oaka), Vila Fátima (boho poa/wate poa), Inambú Ponta (kha phito), Tamanduá (mie phito), Santa Cruz (poa wapa), Tabatinga (bota poa) e Taiaçú (yese poa).miniaturadaimagem|310x310px|Indígenas wanano pescando no Rio UaupésAs comunidades wanano no Brasil variam de tamanho entre aquelas com algumas casas e um total de 15 a 25 habitantes e a maior vila, Cachoeira Caruru, com aproximadamente 100 habitantes. A maior das comunidades colombianas é Vila Fátima, chegando a centenas de habitantes.

No Brasil, fora das comunidades tradicionais, concentrações dos Wanano podem ser encontradas em Iauaretê, uma missão jesuíta do século XIX localizada em torno de 50 quilômetros rio abaixo das primeiras comunidades wanano, além de São Gabriel da Cachoeira, uma cidade de aproximadamente 18.000 pessoas, localizada em torno de 150 quilômetros rio abaixo das comunidades wanano. Iauaretê se encontra dentro da Área Indígena do Alto Rio Negro e pertence ao município de São Gabriel, o único centro urbano em uma área de mais de 100 mil quilômetros quadrados, onde mais de 90% da população é indígena; a grande maioria migrou para a cidade nas últimas duas décadas.

O número de falantes é relativamente alto e é a primeira língua de grande parte da população da área. A língua é vista como uma língua indígena saudável.

Fonologia A fonologia do wanano é similar a das outras línguas tucanas, porém apresenta alguns fatores que a diferenciam. A língua conta com alguns fenômenos fonológicos tanto no nível das consoantes, quanto no nível vocálico.

Consoantes O vocabulário consonantal do wanano é o maior dentre a família linguística tucana. Possui 16 consoantes, das quais / / podem ocorrer no início das palavras e são completamente contrastantes. Além das supracitadas, // ainda pode ocorrer no início das palavras, entretanto é mais comumente encontrado na posição inicial de sufixos.  BilabialAlveolarPós-alveolarVelarGlotalPlosivadesvozeadanão aspirada aspirada  vozeada  Africada    Fricativa   Aproximante   Vibrante     Quando a nasalização das vogais ocorre, as consoantes plosivas sonoras podem se tornar as consoantes nasais , e . Além disso, , e podem se tornar , e , respectivamente.

Fenômenos consonantais Plosivas wanano

As plosivas não-aspiradas sonoras e surdas de wanano não são muito diferentes quando comparadas com as outras línguas tucanas. Entretanto, a língua foi a única dentre as línguas tucanas orientais a desenvolver um grupo de três plosivas contrastantes ( - , - e - ).

Consoantes não-iniciais e não-internas

Como dito anteriormente, quase todas as consoantes frequentemente tomam posição inicial nas palavras, exceto / e /.

Ademais, as plosivas aspiradas surdas /, e / e a plosiva vozeada // são consoantes iniciais que não ocorrem dentro das palavras. A ausência dessa série aspirada desvozeada nas posições internas pode ser explicada pelo desenvolvimento da pós-aspiração contrastante somente nas posições iniciais. Já no caso da plosiva vozeada, isso provavelmente se deve ao fato de que esse segmento ocorre em distribuição complementar com a vibrante //, sendo que a plosiva vozeada ocorre nas posições iniciais e é substituida pela vibrante nas posições internas.

Glotal

A plosiva glotal // é outro aspecto comum às línguas tucanas orientais faladas na região de Vaupés, mas incomum àquelas de Piraparaná. Na verdade, é um fator importante que levou à classificação das línguas wanano, piratapuyo e tukano como um subgrupo dentro da família. A consoante nunca aparece inicialmente e é a única que pode aparecer como coda da sílaba.

Africada

Todas as línguas tucanas, exceto duas, tem a fricativa desvozeada // no inventário consonantal, mas somente o wanano desenvolveu uma africada alveopalatal desvozeada [].

Vogais Wanano, assim como todas as línguas tucanas, possui um sistema básico de 6 vogais contrastantes. Segue abaixo tabelas que demonstram suas características. AnteriorCentralPosteriorFechadaAberta AnteriorPosteriorFechada + - + + - -Arredondada - - - + + - AnteriorPosteriororalnasaloralnasal    

Harmonia vocálica O primeiro pesquisador a primeiro propor um sistema de harmonia vocálica básica no wanano foi Waltz. Sua extensa pesquisa e retrato das mudanças vocálicas das vogais primitivas, assim como vários exemplos da variação em cognatos síncronos de outras línguas tucanas orientais, fornecem evidência para a existência dessa variação. O sistema pode ser reduzido, com relativa precisão, aos seguintes componentes:

opera entre raízes (morfema de origem) e sufixos (morfema alvo); tem direcionalidade da esquerda para a direita (perseverativa); afeta somente a primeira vogal do sufixo; tem o efeito harmonizante sobre lugar de articulação (anterior para anterior, central para central), mas não sobre a altura.

Sílabas As sílabas do wanano possuem somente 4 formas diferentes, ordenadas da mais frequente para a menos frequente (C = Consoante, V = Vogal e ʔ é a plosiva glotal desvozeada): ComposiçãoExemploComposição do exemploTradução para portuguêsCVbʉ'uCV.CVpiranhaV~uguV.CVsangueCVʔ~si'diCVʔ.CVbebidaVʔa'riVʔ.CVisto (demonstrativo próximo)

Tonicidade Para analisar a tonicidade das sílabas do wanano, é necessário fazer a distinção entre pés bimoraicos (estrutura padrão que corresponde aos morfemas raiz) e pés moraicos (estruturas defeituosas que provêm de morfemas derivacionais e flexivos).