René Guénon (Blois, 15 de novembro de 1886 — Cairo, 7 de janeiro de 1951) foi um escritor, matemático, filósofo e intelectual esotérico francês, católico de nascimento, mas convertido ao Islamismo e membro da ordem sufi Shadhili, cujas ideias influenciaram autores que ficaram popularmente conhecidos como perenialistas, apesar do próprio Guénon ter negado a intenção de fundar uma escola, ter discípulos, ou até mesmo ideias originais, considerando-se apenas um muçulmano tradicional.
Ao longo de seus escritos, dedicou-se sobretudo a quatro temas: religiões comparadas, crítica social, simbolismo e iniciação.René Guénon's works dealing with various aspects of sacred science are collected in the book which appeared in its first English translation as Fundamental Symbols: The Universal Language of Sacred Science, Quinta Essentia, 1995, , then, in another translation, as Symbols of Sacred Science, translated by Henry D. Fohr, Sophia Perennis, 2001, . There were two original French editions, both under the title Symboles fondamentaux de la Science sacrée, Editions Gallimard, Paris. The first contained a foreword followed by notes and comments by Michel Valsan, the second did not contain these additions."Traditional studies" is a translation of the French Les Etudes Traditionnelles— the title of the journal in which many of René Guénon's articles were published
Biografia Nascido em 1886, em uma família católica de Blois, Guénon estudou nos estabelecimentos religiosos da cidade antes de se estabelecer em Paris em 1904 para preparar exames de admissão para as grandes universidades francesas.
Contudo, já em 1905, ele decidiu mergulhar nos círculos ocultistas da capital e fazer da busca metafísica (entendida por ele de um jeito particular) um dos objetivos de sua vida. Guénon observou e se envolveu com o círculo de Papus, com quem romperia futuramente. Ele se juntou à Igreja Gnóstica da França, da qual também se tornaria crítico, mas tal envolvimento lhe permitiu se tornar o fundador e principal colaborador de uma revista periódica, La Gnose onde escreveu artigos até 1922 e com foco nas tradições espirituais orientais (taoísmo, hinduísmo e sufismo).ARCHIVES AND ART LIBRARY, Museu Nacional de Belas-Artes da Suécia
No ano de seu casamento com uma amiga da família, Berthe Loury, em 1912, ele foi recebido como maçom e iniciou no sufismo sob o nome de Abdel Wahed Yahia (Servo do Único). Após a morte de sua esposa em 1928, ele deixou Paris e partiu para o Egito. Estabeleceu vida no Cairo em 1930, casou-se com a filha de um sheik em 1934 e morreu na terra árabe em 1951.
Sua leitura de um “mundo decadente” mantém vínculo com o trabalho de Oswald Spengler e também com a visão pessimista da modernidade compartilhada por intelectuais de sua época. Essa visão serviu de fundamento para a ideia de que valores tradicionais surgissem como opção à certa mentalidade contemporânea.BUENO, Roberto. Uma interpretação conservadora revolucionária do político e da ditadura: o potencial totalitário de Carl Schmitt. 2011. Tese de Doutorado. tese de doutorado (inédita), Programa de Pós-Graduação em Direito, Universidade Federal do Paraná (UFPR). p. 310 Diante de tal circunstância, para Guénon, assim como para muitos reacionários, uma opção era a de optar por um processo de restauração dos “valores tradicionais”.GÓMEZ, Miguel Ángel Simón. El decadentismo en la derecha radical contemporánea. Política y Sociedad. Vol. 44, no. 1, 2007, p. 175-198. pp-100-190GRANADOS, Jose Pérez i. Alain de Benoist y la Nueva Derecho francesa: Orígenes y trayectoria. Contudo, Guénon não aposta numa intervenção política, adotando mais uma postura fatalista:
René Guénon morreu num domingo, no dia 7 de janeiro de 1951, aos 64 anos; sua última palavra foi "Allah".
Pensamento Seu primeiro livro, intitulado "Introdução ao estudo das doutrinas hindus" (1921), constitui o fundamento de todo o seu trabalho. Nele, Guenón postula que qualquer tradição autêntica é uma forma secundária da "Tradição Primitiva" do que para ele teria origem supra-humana. Daqui resulta que, segundo sua leitura, de qualquer "forma tradicional" relacionada a uma fonte não-humana, podemos redescobrir o mesmo fundamento, a verdade comum, o princípio único na origem do que quer que seja.
Para Guenón, os símbolos são os verdadeiros veículos da transmissão de tal conhecimento tradicional.Leite, Sylvia Virginia Andrade. Simbolismo, o elo perdido: estudo da Ciência das Letras no sufismo. Diss. Universidade de São Paulo, 2009. p. 28 Sem os símbolos, o acesso ao que seria a fonte do "conhecimento ancestral" seria drenado há muito tempo, pois o símbolo seria capaz de sugerir "uma realidade de ordem superior baseada em uma representação de ordem inferior".
Ainda segundo o autor, a era contemporânea pode ser distinguida por uma: “necessidade de agitação incessante, de mudança sem fim, de velocidade sempre crescente [...] É dispersa na multiplicidade e numa multiplicidade que não é mais unificada pela consciência de qualquer princípio superior”. Portanto, “uma materialização cada vez mais pronunciada para a matéria é essencialmente multiplicidade e divisão [...] Quanto mais se afunda na matéria, mais os elementos de divisão e oposição ganham força e espaço; por outro lado, quanto mais se eleva em direção à espiritualidade, mais se aproxima dessa unidade, que só pode ser plenamente realizada pela consciência dos princípios universais.”
Guénon insistia constantemente que havia um "declínio do ocidente", marcado pela entrada da Idade do Ferro ou Cáli Iuga, como descrito nas escrituras hindus. A atmosfera pessimista que permeia escritos como A Crise do Mundo Moderno insere Guénon entre os autores decadentistas do início do Século XX.Cun, Antonia. "Crisis of Modernity." Scientific Journal of Humanistic Studies 3.4 (2011).Volpi, Franco. O niilismo. São Paulo: Edições loyola, 1999. p. 100 Na esteira de o Declínio do Ocidente de Spengler, Guénon compartilha uma visão decadente do processo histórico.Baroni, Francesco. "Mito ed esoterismo: il perennialismo in Guénon ed Evola." Mitologie e mitopoiesi nel contemporaneo (2016). Assim, para ele, o “período mais sombrio desta idade das trevas” tocou primeiramente o Ocidente e, como resultado indireto, toda a humanidade.
Contudo, para o francês, a principal razão para esse declínio seria o esquecimento do que seriam os princípios universais. Embora adotasse uma visão um tanto fatalista, somente o renascimento de uma "tradição" para além das cisões entre "Oriente e Ocidente" (1924) permitiria a humanidade sair da "crise do mundo moderno" (1927) e desta idade das trevas caracterizada pelo "reinado da quantidade e os sinais dos tempos” (1945).
Recepção e legado Religiões comparadas
René Guénon exerceu influência discreta no campo das religiões comparadas,Oxford University Press, Description: "Against the Modern World. Traditionalism and the Secret Intellectual History of the Twentieth Century" particularmente no início de carreira de Mircea Eliade. Carl Schmitt escreveu em 1942 que Guénon era um "professor" importante para Mircea Eliade. No entanto, o próprio Eliade atestou que preferia os escritos do perenialista Ananda Coomaraswamy a Guénon e Evola, definidos como "diletantes" em um ensaio escrito em 1937.Grottanelli Cristiano 1942. pp. 325-356 Eliade também achava que Sri Aurobindo era mais preciso do que Guénon.Mircea Eliade’s The Portugal Journal, trans. Mac Linscott Ricketts (Albany, N.Y.: SUNY Press, 2010) George Santayana demonstrou simpatia por guenon, ao compará-lo com C. S. Lewis.Daniel Cory, Santayana: The Later Years: A Portrait with Letters (New York: G. Braziller, 1963), p. 267.
A influência direta mais reconhecida que Guénon exerceu foi sobre o escritor suíço Frithjof Schuon. Schuon, no entanto, fez várias críticas a Guénon que se tornariam recorrentes, assinalando seu caráter a-histórico e as tendências generalizantes do autor (como suas concepções maniqueístas, dicotômicas e idealizadas de oriente e ocidente, etc.) além de fatos inverificáveis como a crença de que o cristianismo antes de se tornar "exotérico", era supostamente esotérico e iniciático.Frithjof Schuon, « Quelques critiques », Dossiers H : René Guénon, p. 60 a 80. O impacto de Guénon ainda pode ser visto, direta ou indiretamente, nos demais autores filiados à escola perenialista, como nas obras dos acadêmicos Hossein Nasr e Huston Smith.The Huston Smith Reader: Edited, with an Introduction, by Jeffery Paine, p. 6.
Logo após a Primeira Guerra Mundial, Guénon esteve próximo de alguns círculos neotomistas, sobretudo daqueles influenciados por Jacques Maritain, e alguns membros do movimento político de direita Action Française. Maritain, como muitos católicos, cortou qualquer ligação com a Action Française após a condenação papal do movimento em 1926.Lindenberg Daniel. René Guénon ou la réaction intégrale. In: Mil neuf cent, n°9, 1991. Les pensées réactionnaires. pp. 69-79. O principal objetivo de Guénon durante este período foi convencer Maritain e a Igreja Católica a revitalizarem o cristianismo através de um diálogo com as religiões orientais. Guénon imaginou uma restauração da "intelectualidade" tradicional no Ocidente com base no catolicismo romano e na maçonaria. O projeto não foi bem-sucedido. Vários autores enxergam Guénon como um sucessor do monarquista ultramontanista Joseph de Maistre, que foi maçom como Guénon.
Artes No campo das artes, o impacto do trabalho de Guénon foi mais amplo, influenciando muitos artistas, em particular no movimento surrealista. Exemplos de escritores e artistas influenciados por Guénon incluem André Malraux, André Breton, Antonin Artaud, Marco Pallis, Raymond Queneau e Georges Bataille.Prévost, Pierre : Georges Bataille et René Guénon, Jean Michel Place, Paris. (ISBN 2-85893-156-9).
Movimentos ideológicos esquerda|miniatura|Antonin Artaud foi o artista mais proeminente influenciado por Guénon. Guénon se declarava apolítico e rejeitou qualquer interpretação política de seu trabalho.Review by: Daniel Lindenberg Source: Esprit, No. 332 (2) (Février 2007), pp. 218-222. Reviewed Work(s): GUÉNON OU LE RENVERSEMENT DES CLARTÉS. Influence d'un métaphysicien sur la vie littéraire et intellectuelle française (1920–1970) by Xavier Accart Contudo, ele influenciou vários escritores considerados da extrema-direita do espectro político, tais como o italiano próximo do fascismo Julius Evola, com quem manteve uma correspondência epistolar. Carl Schmitt, que se tornaria membro do partido nazista, também manifestou em algumas ocasiões simpatia e interesse pela obra de Guénon.
Guénon permanece nas listas de influência de algumas personalidades classificadas como de Extrema-Direita.Against the Modern World: Traditionalism and the Secret Intellectual History of the Twentieth Century by Mark Sedgwick. Oxford University Press, 2004.Roger Griffin, ed., Fascism, 1995, page 353Enquêtes sur la droite extrême, (1992), le journaliste R. Monzat Por exemplo, o trabalho do autor russo Aleksandr DuginRussian Fascism: Traditions, Tendencies, Movements by S. Shenfield. M.E. Sharpe, 2001. p.192.A. Shekhovtsov & Andreas Umland: Is Aleksandr Dugin a Traditionalist? “Neo-Eurasianism” and Perennial Philosophy. In: The Russian Review. 68, Oktober 2009 é influenciado por René Guénon e Julius Evola. Dugin afirmou diversas vezes que considera Guénon como um de seus professores. O escritor brasileiro Olavo de Carvalho e o estrategista político Steve BannonHere's How Breitbart And Milo Smuggled White Nationalism Into The Mainstream também integram a lista de autores influenciados pela obra guenoniana.