Os protestos no Brasil contra a Copa do Mundo FIFA de 2014, conhecidos como "Não vai ter Copa" ou "Fifa go Home",SILVA, Geraldo (2013).‘Call me the World Cup and invest in me’†. A commentary on Brazil’s recent street protests against the World Cup and the Olympic Games. Taylor e Francis. foram parte de uma campanha contrária a realização do megaevento esportivo, realizada por diversos movimentos sociais em todo Brasil, principalmente nas capitais onde se realizaram os jogos. Tinham como principal crítica os altos gastos governamentais com a Copa em detrimento do baixo investimento em serviços públicos. Além disso, criticavam as remoções forçadas e falta de políticas em prol de moradia digna, a militarização urbana e a violência policial. Diversas categorias de trabalhadores também somaram reivindicações em prol de melhores condições de trabalho.FIP (2014). Por que gritamos "Não Vai ter Copa"?.SILVA, Selmo Nascimento de (2018). O ciclo de greves contemporâneas no Brasil: o levante proletário de 2013 e a experiência da greve negra dos garis do Rio de Janeiro de 2014 numa perspectiva anarquista. Revista Eletrônica Espaço Acadêmico, v.18, p.89-101.Jennings, Andrew (org). Brasil em Jogo: o que Fica da Copa e das Olimpíadas?. Editora Boitempo. São Paulo.

Descrição A Copa da Fifa 2014 esteve inserida em um ciclo de megaeventos esportivos no Brasil, e em especial na cidade do Rio de Janeiro, que acelerou a modelagem da cidade e o dia a dia das pessoas na preparação da cidade enquanto sede. Antes dos megaeventos, o Estado já vinha desenvolvendo um modelo de cidade-empresa nas capitais, cidades em prol do capital, porém usou estes como desculpa para agravar as desigualdades sociais e avançar processos que sem esses seriam mais complexos e demorados.VAINER, Carlos (2014). “Como serão nossas cidades após a Copa e as Olímpiadas”. In: Jennings, Andrew (org). Brasil em Jogo: o que Fica da Copa e das Olimpíadas?. Editora Boitempo. São Paulo.MARICATO, Ermínia (2014). “A Copa do Mundo no brasil: tsunami de capitais aprofunda a desiguladade urbana”. In: Jennings, Andrew (org). Brasil em Jogo: o que Fica da Copa e das Olimpíadas?. Editora Boitempo. São Paulo Um exemplo, entre muitos outros casos, é a remoção da favela do Metrô-Mangueira,VIEIRA, Isabela (2014). Moradores da Metrô-Mangueira resistem em favela que está sendo desapropriada desde 2010. EBC. ou a desocupação da ocupação "Quilombo das Guerreiras" e da ocupação "Zumbi dos Palmares".FALBO, Ricardo Nery; LIMA, Monique Falcão (2016). Quilombo das guerreiras e Zumbi dos Palmares: movimentos sociais pelo direito à moradia na cidade do Rio de Janeiro. Revista de Direito da Cidade. UERJ. Rio de Janeiro. Em todos os casos houve protestos e mobilizações, e seus moradores seguiram resistindo por vários anos as medidas repressivas e pelo direito a moradia digna.MAJCEN, Katja (2016). Liderança do Quilombo das Guerreiras Compartilha Memórias de Ocupação, Luta e Resistência. Rio on Watch.JUNIA, Raquel (2020). MPF cobra providências sobre projeto de habitação popular no Rio. EBC. Rio de Janeiro.CATETE, Letícia (2013). Quilombo das Guerreiras: futuros à deriva e a reivindicação de um porto. Passa Palavra.PASSE LIVRE RIO DE JANEIRO (2014). A Ocupação Quilombo das Guerreiras foi despejada. Fundação Casa de Rui Barbosa: memoriadasolimpiadas.rb.gov.br.NITAHARA, Akemi. Justiça do Rio suspende processo de reintegração de posse de prédio chamado de Quilombo das Guerreiras. EBC.

Não houve grandes manifestações contrárias à realização do evento em 2007, quando o país foi escolhido como sede. Porém, com a aproximação do evento e o levante popular de 2013 (conhecidos como Jornadas de Junho),PINHEIRO, Ari Leme Junior (2016). Narrativas de Protesto: a copa das black blocs. Dissertação  apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação, Centro de Ciências Humanas e Biológicas, UFSC. Sorocaba.MORAES, Wallace dos Santos de (2016). A revolta dos governados do inverno-primavera de 2013 no Brasil e suas interpretações. Em: "Pensamentos e Práticas Insurgentes", FERREIRA, Andrey Cordeiro (org). Editora: Alternativa. Niterói.FERREIRA, Andrey Cordeiro (2018). Ecos de Junho: Insurgências e crise política no Brasil (2013-2018). Le Monde Diplomatique Brasil. surgiu a palavra de ordem "Não vai ter copa".NETO, Francisco Paulo de Melo (2015). Uma análise dos protestos de rus na Copa 2014: o legado político que não aconteceu. Revista Arquivos em Movimento. UFRJ. ISSN 1809-9556 Já durante a Copa das Confederações, movimentos sociais passaram a se organizar para esta pauta, inclusive através da Internet. A página Movimento Anti-Copa de Decoração de Ruas foi criada no Facebook, atingindo mais de 15 mil curtidas em aproximadamente um mês.

Alguns protestos tiveram como um dos principais focos o abuso do gasto de dinheiro público, como com o estádio Itaquerão, onde o valor dos gastos foram inicialmente de 820 milhões de reais mas depois passou para 1,2 bilhões de reais, e obras públicas em hospitais e escolas não tiveram o mesmo investimento. Segundo a Pew Research, 61% dos entrevistados na época achavam que sediar a Copa teria impactos negativos.PEX RESEARCH CENTER (2014). Brazilian Discontent Ahead of World Cup: President Rousseff Gets Poor Marks on Key Issues. pewresearch.org

Os protestos foram convocados por redes sociais e panfletagens. No dia 26 de maio de 2014, as manifestações se aproximaram pela primeira vez da delegação da Seleção Brasileira de Futebol no Rio de Janeiro, quando professores grevistas colaram adesivos escritos "Não vai ter copa" no ônibus oficial da seleção que se dirigia para a Granja Comary, em Teresópolis. "Pode acreditar, educador vale mais do que o Neymar" gritavam os professores em greve. O veículo teve que pegar uma rota alternativa para fugir do bloqueio dos manifestantes. Houve uma correria, mas sem registro de algum grande incidente.

Pichações foram um tipo de ação direta realizado pela campanha "Não vai ter copa". Um painel gigante com grafites feitos em alusão a copa do mundo de propriedade do Metrô de São Paulo, próximo ao estádio Itaquerão, foi pichado no dia 6 de junho.

O movimento social denominado Frente Independente Popular (FIP),FRENTE INDEPENDENTE POPULAR. Side Oficial no Rio de Janeiro, foi um dos poucos grupos organizados capazes de realizar de forma mais efetiva uma campanha nas ruas contra a Copa da FIFA 2014; não à toa, a partir de então sofreu uma grande criminalização midiática e violenta repressão, o que acarretou sua desmantelação após a Copa.VENTURINI, Federico. Social Ecology and Contemporary Urban Struggles (2015). In: Eiglad, E. ed. Social Ecology and Social Change. Porsgrunn: New Compass Press. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/337294018_Social_Ecology_and_Contemporary_Urban_StrugglesCOELHO, Henrique (2014). Ativistas presos pretendiam incendiar Câmara do Rio, diz denúncia do MP. G1Rio. Disponível em http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/07/ativistas-presos-pretendiam-incendiar-camara-do-rio-diz-denuncia-do-mp.htmlMENDES, Igor (2014). As entranhas do inquérito político contra os ativistas do Rio. Jornal AND. Disponível em https://anovademocracia.com.br/no-136/5517-as-entranhas-do-inquerito-politico-contra-os-ativistas-do-rio Folha de S.Paulo (2014). 'Black blocs' do Rio reúnem anarquistas e grupos de esquerda. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/02/1412871-black-blocs-do-rio-reunem-anarquistas-e-grupos-de-esquerda.shtml

Histórico Antes do início da Copa do Mundo thumb|Prisão de manifestantes no dia 25 contra a Copa do Mundo de 2014 da FIFA que se escondiam em hotel no centro de São Paulo|224x224px

Em 25 de Janeiro, em São Paulo, uma manifestação contra a copa foi violentamente reprimida. Manifestantes atacaram e depredaram símbolos do capítal e poder: agências de bancos, concessionária de automóveis, lanchonete do Mc Donalds, carro de polícia. O confronto foi noticiado internacionalmente. Videos foram publicados na mídia mostrando a polícia militar atirando com balas de borracha em jovens detidos deitados no chão. 128 pessoas foram detidas. thumb|260x260px|esquerda|Grafite em São Paulo criticando os gastos com a Copa do Mundo. Em 27 de maio, um protesto terminou em confronto com a Polícia Militar na área central de Brasília - DF. Os manifestantes chegaram a fechar as seis faixas do Eixo Monumental, no sentido Torre de TV, o que gerou um grande congestionamento. Segundo a PM, cerca de 2,5 mil pessoas participaram da manifestação, entre as quais um grupo de 300 indígenas que desembarcou na capital federal para protestar contra mudanças nas regras de demarcação de terras indígenas. Para evitar que a manifestação chegasse na Arena, a polícia iniciou o confronto atirando bombas de gás lacrimogênio e efeito moral. Indígenas cercaram a cavalaria da policia e a impediram de atacar os manifestantes. Ao menos um policial foi atingido com uma flecha na perna. O ato ocorreu durante o encerramento da visitação pública à Taça da Copa do Mundo, que teve que ser interrompida e encerrada antecipadamente.

Em 31 de maio, em um ato em São Paulo, a Polícia Militar usou pela primeira vez o exoesqueleto - armadura apelidadada de "Robocop", e a "Tropa do Braço" - policiais treinados em artes marciais, para reprimir a manifestação. miniaturadaimagem|300x300px|Em protesto contra a Copa, manifestantes seguram cartaz pedindo fim das Unidades de Polícia Pacificadoras - UPP e desmilitarização das favelas Milhares de soldados do exército brasileiro foram enviados para as cidades-sede, fornecidos pela então presidente Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores) para atuação integrada com as polícias locais.esquerda|miniaturadaimagem|300x300px|Em ato contra a Copa, manifestantes exibem faixa com os dizeres "Copa de Sangue: futebol e novelas para ocultar a opressão e genocídios nas favelas" Em 3 de junho de 2014, um novo protesto em frente ao hotel onde a seleção se concentrou em Goiás para um amistoso contra o Panamá, gerou um momento de tensão quando a polícia tentou expulsar os manifestantes do canteiro central. Os manifestantes, ligados a grupos sindicais e partidos de esquerda, ergueram faixas contra a organização do Mundial no Brasil e pediram a mesma valorização a professores e profissionais da saúde.

Em 4 de junho, cerca de 25 mil manifestantes fecharam várias ruas principais na capital de São Paulo, em protesto chamado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), com o apoio do Movimento Passe Livre e outros movimentos sociais. A campanha foi denominada "Copa Sem Povo, tô na Rua de Novo", reivindicando que fosse destinado para moradia popular o terreno da "Ocupação Copa do Povo", em Itaquera. Após este, outros protestos semelhantes foram organizados.

Um dia antes da abertura da Copa do Mundo, em 11 de junho, na cidade de Belo Horizonte, uma manifestação se dirigiu à praça da Liberdade, onde se encontrava o relógio da Copa. Entretanto, a Polícia Militar fez um cerco de proteção em volta deste, impedindo a aproximação e que o relógio fosse atacado. Iniciou-se um confronto e manifestantes depredaram agências bancárias, lojas e prédios comerciais próximos. Ao menos um carro de polícia também foi depredado. Após, seguiram para a Sede da prefeitura, a qual também atacaram e picharam. Desde então, a polícia passou a praticar uma estratégia chamada de "envelopamento", que consiste em colocar um número superior de policiais em relação ao de manifestantes já na concentração do ato, fazendo revistas e detenções, assim como impedindo o ato de sair do local incial.